Maioria dos casos envolve árbitros com menos de 25 anos e com apenas dois a três anos de experiência, sendo as agressões praticadas sobretudo por jogadores e elementos do público.
A Associação Portuguesa de Árbitros de Futebol (APAF) revelou esta terça-feira que, no último mês, houve 10 agressões a árbitros, equivalente a 25% da média anual da última década, alertando para a "normalização" da violência contra juízes em campo.
Numa audição perante a Comissão de Cultura, Comunicação, Juventude e Desporto, o vice-presidente do contencioso da APAF, Sérgio Mendes, revelou que, em 10 anos, foram contabilizadas cerca de 400 agressões, o que corresponde a uma média de 40 por ano, mas sublinhou que só "no último mês" registaram 10 agressões.
Segundo o dirigente, a maioria dos casos envolve árbitros com menos de 25 anos e com apenas dois a três anos de experiência, sendo as agressões praticadas sobretudo por jogadores e elementos do público.
Sérgio Mendes distinguiu ainda a realidade dos campeonatos profissionais, em que predomina a violência verbal, frequentemente associada a dirigentes, sublinhando existir "relação direta" entre incidentes mediáticos e episódios subsequentes nos escalões inferiores.
"Se eu tiver um incidente numa primeira divisão envolvendo árbitros, tenho a certeza que no fim de semana a seguir vou ter problemas", disse.
Como exemplo, referiu que, após um jogo da seleção nacional no Campeonato do Mundo com contestação à arbitragem, foram registadas oito agressões no fim de semana seguinte, a primeira das quais duas horas após o encontro.
O responsável apontou também fatores externos, como o contexto económico, indicando que períodos de crise e aumento do custo de vida contribuem para a frustração, que acaba por ser descarregada sobre árbitros, muitas vezes jovens.
"Se enfrentamos uma situação de crise, as pessoas estão frustradas e têm de descarregar em alguém, e é muito mais fácil descarregar num miúdo de 20 anos", afirmou.
No plano disciplinar, indicou que a legislação existente prevê coimas mínimas de cerca de 250 euros, mas alertou para dificuldades na sua aplicação prática, sobretudo em meios mais pequenos, onde as forças de segurança enfrentam constrangimentos sociais.
"Compreendo que seja muito complicado, com todo o respeito, um guarda de Viana do Alentejo ter de passar um auto de 250 euros ao vizinho que no dia seguinte vai estar com ele. Se calhar, ele procura utilizar pedagogia, ou então, como acontece muitas vezes, olhar para o lado e fingir que não vê", afirmou.
A APAF estima ainda que menos de 60% dos clubes tenham gestores de segurança devidamente identificados junto das autoridades competentes, denunciando falhas de fiscalização e cumprimento de regras básicas, como formações obrigatórias de cerca de 15 horas.
Outro dado apontado prende-se com a organização dos jogos, com associações a permitirem segurança assegurada por pontos de contacto com a segurança (PCS) sem formação adequada, tendo sido registados casos em que árbitros tiveram de apoiar o preenchimento de relatórios após agressões.
Sérgio Mendes criticou também a aplicação de sanções, referindo situações em que suspensões de seis meses são cumpridas no defeso (férias), reduzindo o seu efeito prático, enquanto árbitros podem ser penalizados com suspensões de 90 dias por interromper jogos por falta de segurança.
No âmbito da prevenção, a APAF indicou ter realizado ações em mais de 102 escolas no último ano, abrangendo cerca de 7.500 alunos, com o objetivo de sensibilizar para a ética desportiva e "humanizar a figura do árbitro".
Ainda assim, para Sérgio Mendes as campanhas de sensibilização têm efeitos temporários, comparando-as a "um analgésico", pelo que, defende, são necessárias medidas estruturais para travar a normalização da violência no desporto.
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