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Correio da Manhã

Desporto
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“Sempre quis que Marco Silva ficasse no Sporting”

José Eduardo diz que a sua intervenção na crise entre presidente e técnico acabou por servir ao Sporting.
Nuno Miguel Simas 17 de Janeiro de 2015 às 17:36
José Eduardo
José Eduardo FOTO: João Miguel Rodrigues

Correio Sport – Que balanço faz da época do Sporting ? 

José Eduardo – Bastante positivo. Na Champions podíamos ter ficado em 2º, mas houve condicionantes. Houve boa participação. Na Liga, começámos mal e isso foi o grande problema, mas de resto o comportamento tem sido bom. Na Taça de Portugal tem sido brilhante e na Taça da Liga tem sido bom.

- É fundamental ganhar um troféu esta época?

- É fundamental ganhar um troféu, praticamente obrigatório, num clube que no ano passado foi vice-campeão, este ano reforçou a equipa, e tem um treinador com competência.

- Falou em Marco Silva e na competência. O que motivou as suas críticas ao treinador?

- Em termos pessoais não conheço Marco Silva, pareceu-me um jovem simpático. No que respeita ao aspeto profissional, e havendo um comportamento assumido pelo Sporting, por mim e pelo treinador, há um pacto para estabilizar, unirmos esforços, porque acima de tudo está o Sporting. 

- Em algum momento se sentiu traído por parte do presidente Bruno de Carvalho?

- Não houve nenhuma traição. O entendimento entre as três partes obrigava a dar um passo atrás. Refletimos e parámos face ao que estava a acontecer, no interesse do Sporting. Isso foi feito, e os resultados estão a ser muito bons. 

- Há ingerências do presidente no trabalho do treinador?

- Não acredito que haja qualquer ingerência ao trabalho do treinador. Seria inaceitável que algum diretor ou presidente quisesse colocar o jogador A em vez do B. Isso não poderia existir e o treinador também não aceitava. Tem caráter suficiente para não aceitar uma situação dessas. As pessoas devem falar e têm essa obrigação de prestar esclarecimentos. Quem saiu a ganhar no final foi o Sporting. 

- O que é que o José Eduardo aprendeu com tudo isto?

- A questão é se nas mesmas circunstâncias a mensagem que deixei devia ser dada da forma que dei, ou se a minha mensagem podia ser menos crua e menos violenta. É uma questão que coloco a mim. Mas também questiono: se o tivesse feito de outra maneira, o resultado teria sido o mesmo? Se calhar não, porque o resultado afinal foi muito bom. Isto acabou por servir muito melhor ao Sporting. 

- Foi mandatado pelo presidente, Bruno de Carvalho?

- Não fui mandatado. Mandatar é processo formal, comum a procuração. Eu dei conhecimento. Queria e sempre quis que o treinador ficasse. Quis salvar uma situação. Se eu tiver na minha empresa uma pessoa que não perceba qual é o projeto e me colocar em xeque perante os meus clientes, tenho de procurar resolver a situação. Temos de perceber as hierarquias. 

- Defendeu a continuidade do treinador?

- Sempre quis que Marco Silva ficasse no Sporting. Isso foi claro.  Era público e notório que havia ali uma situação de partir a corda. Procurei aguentar isso. Senti que este jovem treinador tem valor, em termos de jogo jogado, mas se calhar estava a precisar de perceber o que era o Sporting. Não fui eu que comecei esta crise, ela vinha de trás.

- Marco teve dificuldade em perceber o que é o Sporting?

-O que é normal, porque o Sporting é tão grande que não se consegue explicar facilmente. Não lhe ponho culpa nisso. É fundamental perceber a dimensão, mística e espírito do clube.

- Marco Silva está a perceber melhor a cultura do Sporting?

- Eu tenho essa esperança e estou a ver que sim. Percebo no discurso pós-jogos que esta crise serviu para alguma coisa.

- Serviu para quê?

- Para perceber o que é o Sporting, quais os direitos, deveres e obrigações de todos.

- As clivagens entre presidente e treinador tiveram só a ver com resultados ou com diferenças de opinião maiores?

- Os resultados são barómetro e despoletam reações. Quem não disser isso é demagogo, mas não pode ser uma coisa tão simples.

-Demoveu o presidente da ideia de afastar Marco Silva?

- Não, porque isso seria dar um atestado de menoridade ao presidente. Dei só a minha opinião.

- Que opinião foi essa?

- Foi no sentido de querer que Marco Silva continuasse, porque está no início de um projeto, vejo-lhe condições e competências para ser um belo treinador. Mas é muito jovem, tem de aprender e ter a humildade de perceber as suas limitações e fragilidades, que as tem.  

- A equipa de futebol saiu fortalecida com o atrito entre presidente e treinador?

- Fui jogador e sei que 80 ou 90 por cento das coisas passaram-lhes ao lado e os outros 10 por cento são emocionais. 

-Sempre sentiu que Marco Silva era o treinador da confiança do presidente?

-Sempre senti do presidente uma alegria por ter sido contratado um treinador em quem se deposita enorme esperança, mas essa esperança e alegria, se por acaso não é bem confirmada, depois é constrangedora. Era cedo para se chegar a essa conclusão, daí a minha luta para que não houvesse a tentação de se interromper a ligação entre as partes. Porque era muito cedo. Tem de se dar tempo ao tempo.  

-O presidente está a recuperar a confiança em Marco Silva?

- Acho que estão todos a recuperar a confiança uns nos outros e é preciso que haja lealdade ao que foi comprometido.

- Foi uma questão de ego?

- Ego, não. Conflito de personalidade, mau entendimento do que é a vontade de cada um deles e alguma desconfiança, talvez. 

O que motivou essa desconfiança? O empresário de Marco Silva [Carlos Gonçalves]?

- Não posso afirmar, mas sabe-se a influência que os empresários têm junto de jogadores e técnicos. A desconfiança comprova-se mais tarde se tinha razão de ser ou não. Espero que tenha sido só um mal-entendido.

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