10 dias em Phuket
Há histórias que não se contam numa reportagem: a impressão causada por uma criança que ainda consegue brincar, uma mulher que pinta o muro da casa arrasada. O nosso enviado ao sudeste asiático fez um pequeno diário sobre os dez dias passados numa terra agora tristemente célebre: Phuket, na Tailândia.
DIA 1: MUITO TRISTE, MUITO TRISTE
As ondas que varreram a ilha de Phuket atravessam a estrada em letras amarelas. Em tailandês, imperceptível, depois em inglês: Tsunami Victim Release (apoio às vitimas do tsunami ), em www.phuketcity.org. As letras correm da direita para a esquerda. O táxi avança, mas não há outros sinais de destruição. Lá fora, tudo parece normal. Carros e casas no seu lugar, gente na rua. E a noite que teima em esconder os estragos que o mar provocou. Mas há a música. Tsunami, tsunami… Até o motorista a desligar. “Very sad, mister. Very sad” (Muito triste, senhor, muito triste).
É impossível escapar às fotografias que enchem os placares do City Hall (câmara municipal) de Phuket. A pele arrepia-se a cada nome, a tendência é virar o olhar quando algum familiar se aproxima. As pessoas, presas para a sempre à parede e às árvores, são os rostos da fúria do mar. Estão felizes, há gente por toda a parte e quase uma semana depois do maremoto, a confusão permanece, mas há um homem gordo, baixo e com uma barba enorme que luta contra ela. Veio dos Estados Unidos da América assim que soube do maremoto. Dizem os jornalistas americanos que já esta habituado a cenários de catástrofe. Este voluntário profissional, que vem para ajudar, chama-se Bill. Aqui é conhecido por Pai Natal.
Uma rapariga de fato de macaco pinta uma porta de azul. Tem uma máscara na cara, mas não consegue esconder os olhos. Não é o desespero nem a raiva que o olhar parece gritar, antes a tristeza profunda, que se mostra de pincel na mão, dando à porta a cor do mar que a levou. Uma moto buzina antes de desaparecer na confusão que não mudou por causa das ondas gigantes: é o trânsito em Phuket.
DIA 4: NÃO MAIS DO QUE LEMBRANÇA
Khao Lak ficará na história como uma lembrança. Era vista como uma das zonas de maior potencial turístico. Longe da confusão das praias de Phuket, as suas estâncias turistícas estavam tão à beira-mar como no meio da floresta. Águas cristalinas, verde por toda a parte, as lojas suficientemente longe. O espaço ideal para umas férias em família, como o sabiam tantas famílias americanas e europeias que tinham vindo passar o Natal e o Fim do Ano longe do frio. Khao Lak era assim. No dia 26 de Dezembro desapareceu.
DIA 5: O IRMÃO AMERICANO
A FOX News é o único canal americano disponível no hotel. Há uma semana que a discussão é a mesma. Os Estados Unidos da América deram mais dinheiro do que qualquer outro país para ajudar as vítimas do tsunami. Mais do que a Europa, mais do que os muçulmanos - “Onde estão vocês agora que os vossos irmãos indonésios precisam?”, pergunta Geraldo, um dos mais conhecidos pivôs. No programa a seguir, lê-se antes do tempo: “Será que a ajuda americana pode ajudar a imagem dos EUA no mundo árabe?”.
DIA 6: COM UM SORRISO
Chen vai sentada ao colo da mãe no banco ao lado do do condutor. Tem dois anos e não pára de sorrir. O seu olhar curioso não descola. Aponta para a rua, une as mãos à frente do nariz ao passar pelo templo, grita, brinca, senta-se e finge guiar. A palavra tsunami não entra no seu mundo. O pai meteu-a no carro assim que viu o mar ir para trás. Por isso, Chen volta a sorrir. E o seu olhar brilha, tão diferente do da rapariga da loja. Essa, sem nada para fazer, fixa um ponto na parede e assim fica. O futuro é incerto e o passado não pode repetir-se.
DIA 7: TRANSPORTES PÚBLICOS
O ‘tuk tuk’ e o meio de transporte ideal. Mais pequeno do que um carro, pode conduzir-se como uma moto, com a vantagem de ter quatro rodas e de ser muito menos perigoso. Por outro lado, num país onde é proibido fumar em toda a parte, o ‘tuk tuk’ oferece quatro a seis lugares em versão cabriolet, para um cigarro em viagem. Claro que a velocidade dos 0 aos 100 não é extraordinária, mas o consumo, reduzido, compensa. Com o preço das viagens determinado a partida, o ‘tuk tuk’ é claramente um líder no segmento dos transportes públicos de Phuket.
DIA 8: SEM PALAVRAS
Como falar com alguém num país onde letras como as que estão a ler não existem? Pode tentar-se o inglês, mas não por muito tempo. A maioria das pessoas compreende apenas o mais elementar e fala menos do que isso. A situação é mais complicada com outras línguas. Uma das principais tarefas das centenas de voluntários que acorreram ao City Hall nos dias após o maremoto foi ajudar nas traduções.
DIA 9: FARTOS DE TRABALHAR
Cansados do frio e dos horários na Europa e nos EUA, são às dezenas os estrangeiros que moram na Tailândia. “Estava farto de trabalhar”, conta um inglês que abriu um bar em Patong. Alguns já falam tailandês e são uma ajuda preciosa no contacto com as populações. Quase todos exploram bares ou lojas, por vezes os mais bem situados, o que por aqui significa junto à praia. E desde Dezembro significa outra coisa: destruição.
Os miúdos correm para o McDonalds e fazem fila no Kentuky Fried Chicken, que por acaso fica no rés-do-chão de uma cadeia de supermercados chamada Robinsons. As camisolas mostram equipas americanas de tudo, de basebol a basquetebol. As preferidas dos estrangeiros dizem FBI e SWAT. Há uma em amarelo com a ilha de Phuket, mas essa ninguém, ou quase ninguém, compra.
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