DE OLHOS BEM ABERTOS
“E se logo à noite não durmo”? Se costuma fazer esta pergunta, saiba que faz parte do “clube” de milhares de portugueses que sofrem de perturbações do sono. Um mal que, em último caso, pode matar
Tic, Tac, Tic, Tac. Susana observa os ponteiros do relógio a avançarem vagarosamente. A noite já vai longa e não há maneira de pregar olho. O seu marido dorme há horas. «E se eu nunca mais conseguir dormir na vida?», questiona-se, angustiada, enquanto dá voltas na cama. A ansiedade cresce e o sono teima em não tomar conta do seu corpo. Já bebeu um copo de leite quente, já contou carneirinhos e o livro de Isabel Allende foi lido até à exaustão. Mas os seus olhos teimam em manter-se abertos.
«Foram quase dois meses de tormento», recorda. «Quanto mais me esforçava para dormir maior era o mal-estar por não estar precisamente a dormir.» Susana, de 28 anos, técnica de serviço social acabou por consultar uma psiquiatra. A partir desse dia, tudo mudou. «Ela explicou-me que eu havia focalizado todos os meus problemas para a insónia.» Um casamento recente, a mudança de casa e de rotinas a que se habituara durante 27 anos, eram as causas do mal. «Mas ainda hoje, um ano depois, tenho receio que tudo volte a acontecer.»
A INSÓNIA NÃO É BOA CONSELHEIRA
«A insónia, que é a sensação subjectiva de dormir mal ou de não ter um sono reparador», é o principal motivo pelo qual os pacientes procuram a neurologista Teresa Paiva. Apesar da insónia tender a piorar com a idade, ela atende pessoas cada vez mais jovens. «A primeira coisa que lhes é aconselho é: “tentem dormir pelo menos mais meia hora por dia!”. Depois, tento investigar a raiz do problema.»
Os portugueses dormem mal e cada vez menos. Um estudo do Observatório Nacional de Saúde revela que um em cada cinco tem dificuldades em adormecer. Mas o problema é mundial. «Em cem anos, a humanidade passou a dormir em média menos uma hora e meia», revela a médica. «No século XIX trabalhava-se de sol a sol. Hoje, ironicamente, o tempo que se passa nos empregos ainda é maior. Nas sociedades ocidentais, até os prazeres são ansiolíticos. Vontade de consumir nos shoppings, praias cheias de gente…».
O stress e a ansiedade, derivados do agitado life style das sociedades modernas são os principais culpados da insónia. «Se não mudarmos o nosso ritmo de vida iremos pagar caro as consequências», preconiza o seu colega de profissão, o neurologista António Atalaia.
Mas há outros factores como as doenças cardíacas, depressões, trabalho por turnos ou simplesmente o choro de um bebé. As consequências estão à vista: «falta de concentração, motivação, irritabilidade ou sonolência durante o dia», são os sintomas mais frequentes para quem tem dificuldades em cair nos braços de Morfeu, o deus dos sonhos. Em casos extremos, a insónia pode pôr em risco a própria vida. Não é por acaso que grande parte dos acidentes de viação se dão à noite. Quem não dorme bem é igualmente mais propenso a problemas familiares e laborais.
O médico admite que a solução para o problema não é fácil. «Não se cura um doente com insónias como alguém que tem febre e a quem se administra simplesmente uma Aspirina.» Ela é um dos vértices dos três distúrbios nocturnos mais frequentes. Os outros dois são a parasónia (sonambulismo, terrores nocturnos e pesadelos) e a hipersónia (apneia do sono).
UMA NOITE EM PÉ
«Durante a noite levantava-me da minha cama, acendia as luzes, sentava-me nas cadeiras da cozinha e saía porta fora. No dia seguinte não me recordava de nada». Marta Lopes era uma bebé com um sono repousado. Qual não foi o espanto da sua família ao vê-la, aos quatro anos, a meio da noite, agachada à porta da vizinha do lado. «Era o meu primeiro caso de sonambulismo.» O pai levou-a de novo para a cama, num misto de estranheza e de susto.
Os episódios sucederam-se e a família Lopes acabou por se habituar aos passeios nocturnos da sua filha. «Um dia demos com o cesto do pão no armário, atrás dos copos.» Concluíram facilmente que tinha sido a pequena Marta, hoje com 26 anos, a colocá-lo lá a meio da noite.
«As crianças com sonambulismo sofrem riscos, uma vez que se podem magoar-se a elas ou a terceiros. A família deve tomar medidas de segurança para evitar acidentes», esclarece António Atalaia.
Os pais da Marta sempre tiveram o cuidado em fechar a porta da rua. «À noite, mal ouviam o tilintar das chaves iam atrás de mim para me segurar».
Mas sempre é verdade que os sonâmbulos andam de braços esticados para a frente como os mortos-vivos nos filmes trash? Marta Lopes e António Atalaia não conseguem evitar um sorriso. «Nem pensar. Senão acordava mal tocasse com as mãos em algum lado», responde a rapariga. «Isso é simplesmente um mito», defende o neurologista.
Estima-se que entre 15 a 30 por cento das crianças sejam sonâmbulas. A pertur
bação costuma surgir aos cinco anos, é mais frequente aos 12 e usualmente desaparecer aos 15 anos. «Mas há casos em que o sonambulismo surge novamente na idade adulta».
PEIXES QUE VOAM
Muitas vezes confundidos entre si, terrores nocturnos e pesadelos são outras parasónias usuais. Os primeiros são mais comuns na infância e tendem a desaparecer com a idade. As crianças chegam a sentar-se na cama e gritar durante o sono mas quando acordam já não se recordam do sonho.
Quem sofre de pesadelos, pelo contrário, consegue descrever em pormenor a sua viagem onírica, que surge na maioria dos casos na fase mais profunda do sono, o REM (Rapid Eye Movement), altura em que a actividade cerebral está no seu auge e os olhos mexem-se rapidamente.
Dina Morais, engenheira agro-industrial, padece deste distúrbio desde criança. Não há semana em que não tenha um sonho mau. Quando isso acontece, acorda angustiada e cansada. «Levanto-me e dou uma volta pela casa para tentar esquecê-lo.» Muitas das vezes, quando regressa à cama, o mesmo sonho volta a atormentá-la. «Os meus pesadelos parecem filmes de terror». É por essas e por outras que evita assistir a longas-metragens com lobisomens ou psicopatas de serra eléctrica na mão.
«Durante anos tive um sonho recorrente: uma imensidão de peixes pretos caíam do céu como se fossem chuva. Quando batiam no chão aumentavam brutalmente e ficavam do tamanho de baleias». Também eram habituais pesadelos com tsunamis. «Em pequena fui enrolada por uma onda na Costa de Caparica e tenho algum receio do mar.» Freud talvez encontrasse uma boa explicação.
Apesar de ter 27 anos de idade, confessa não conseguir dormir sozinha. Quando isso acontece, cai na cama apenas com a luz acesa. Ao fim do mês tem um outro tipo de pesadelo… a conta da electricidade.
FIOS, VENTOSAS E MÁSCARAS
A apneia é de todas a mais grave perturbação do sono e aquela que tem registado um crescente número de casos, atingindo cinco por cento dos homens. É definida por Teresa Paiva como «uma paragem da respiração enquanto se dorme que pode durar mais de dez segundos.» Nos piores casos, as paragens respiratórias, geralmente causadas por obstruções no nariz ou na garganta, ocorrem entre 20 a 50 vezes numa só hora, provocando despertares súbitos.
«Em geral, são os homens obesos que não praticam exercício físico quem mais sofre da doença.» Bernardo Pinto Coelho, 30 anos, corresponde a este retrato robot gizado por António Atalaia.
Tal como muitos dos pacientes que sofrem de apneia, este técnico de informática também ressonava com muita frequência. «O meu irmão, que dormia perto de mim, queixava-se imenso». Durante o dia, sentia-se ausente: «Estava acordado mas era como se não estivesse».
Por pressão familiar foi a uma consulta no Hospital Pulido Valente. Realizou uma polissonografia, um exame que permite um diagnóstico da doença a partir da medição do ritmo cardíaco, respiração e actividade cerebral. Envolto em fios e ventosas, Bernardo teve de dormir no hospital.
O seu problema era grave. Foi-lhe indicada a CPAP (Pressão Positiva Contínua Nasal), máscara ligada a uma bomba de ar, cuja pressão é ajustável às características do doente. «Tive de passar a dormir com ela todos os dias». Os especialistas aconselharam-no a fazer desporto, a seguir uma dieta rigorosa e a ter cuidado com a posição na cama. Álcool, tabaco e calmantes, nunca. «Hoje sinto-me muito melhor. Já não tenho aquela sonolência durante o dia nem adormeço em qualquer lugar.»
EINSTEIN ERA DORMINHOCO
A IstoÉ revelou que os distúrbios do sono atingem 70 por cento das pessoas no mundo. A revista brasileira concluiu que dormir mal ou pouco pode apressar o envelhecimento. Pelo contrário, quanto mais profundamente se dormir, maior é a hipótese do corpo manter a frescura da juventude.
Só que a quantidade de horas despendida durante o sono varia de pessoa para pessoa. «Interessa menos quanto tempo se dorme, e mais como se dorme», discorre Teresa Paiva. Houve famosos que eram short sleepers (pessoas que dormem pouco) como Margaret Tatcher e outros que pelo contrário tinham de dormir muitas horas, como Albert Einstein. «A quantidade de horas passadas no travesseiro em nada afectou a sua inteligência», ironiza a neurologista.
A história do distúrbio do sono e da sua cura é como a do polícia e do ladrão. «Aumentam os problemas mas também melhoram os tratamentos», defende a médica.
A higiene do sono é a primeira estratégia para acabar com noites em branco. Convém respeitar horários para se deitar e levantar da cama, fazer desporto ou tomar um relaxante banho quente antes de dormir. Se não resultar, então passa-se à fase seguinte, a terapia psicológica, (relaxação progressiva ou hipnótica). Nos casos mais graves, os médicos são obrigados a receitar fármacos como benzodiarepinas ou não-benzodiarepinas. Se nenhum destes tratamentos der certo, então é porque não caiu mesmo nas graças de Hipnos, o deus do sono.
OS PERIGOS DO SONO
Em casos extremos o sono pode até matar. Nos EUA, Scott Falater assassinou a mulher com 44 facadas. No tribunal, o cidadão norte-americano alegou que estava sonâmbulo enquanto a matou. Psiquiatras concluíram que ele sofria do denominado Distúrbio Comportamental do Sono REM, que pode tornar o indivíduo agressivo enquanto dorme.
Há outros distúrbios raros que põem em risco a vida da pessoa. Quem sofre de Narcolepsia pode adormecer de repente enquanto executa uma actividade normal. A pessoa perde os sentidos e as forças e cai num estado profundo de sono sem se dar conta, pondo em risco a sua vida. Menos perigosos mas igualmente estranho é a Síndroma das Pernas Inquietas, em que dores agudas provocam a mudança brusca das pernas durante a noite.
Os nossos ídolos não dormem?
Estarão as estrelas à beira de um ataque de nervos? A actriz Winona Ryder confessou que para curar as insónias, passava horas ao telefone com Al Pacino pela noite dentro. Talvez para afogar as mágoas depois de ter sido apanhada a roubar uns “trapitos”. Jennifer Aniston andou sonâmbula pela mansão, assustando o marido.
O que terá passado pela cabeça do pobre Brad Pitt, depois de ouvir o alarme da casa troar e reparar que a sua amada não estava na cama? Ney Matogrosso confessou à imprensa que sofre de sonambulismo desde criança. «Tenho um pensamento acelerado», justifica. A conterrânea Sandy já cancelou entrevistas devido a fortes insónias. A cantora dos britânicos Catatonia, Cerys Matthews, não está em melhor forma e deu cabo da banda com a sua “exaustão e ansiedade profunda”.
Tratamentos do sono
Sonoplastia: Recente técnica da cirurgia em que se consegue uma redução do volume do tecido, através da radiofrequência emitida por uma agulha estreita e longa. (utilizada para quem sofre de roncopatia) Ventiloterapia: Sofisticados aparelhos portáteis designados por CPAP. São máscaras nasais usadas durante a noite que enviam um fluxo de ar (indicados para doentes de apneia do sono).
Sono, sonhos e bocejos em Hollywood
O sono é um tema apetitoso para qualquer aprendiz de realizador. Quem não se recorda de A Bela Adormecida, realizado em 1959, uma animação da Disney que contava a história da princesa envenenada que só iria acordar com o beijo do seu amado? Menos cor-de-rosa foi o mais recente Pesadelo em Elm Street, de Wes Craven, onde as viagens oníricas dos estudantes eram passaporte para a morte. Os dedos afiados de Freddy Krueger fizeram sangue a rodos durante várias sequelas. David Fincher abordou o tema em Clube de Combate, filme onde a personagem de Edward Norton sofria de insónias crónicas, tendo passado três semanas a visitar psiquiatras. Em A Mansão, de Jan de Bont, um grupo de jovens reúne-se num casarão abandonado para estudar a insónia. O filme com Catherine Zeta-Jones e Liam Neeson pretendia ser de terror mas acabou por se transformar num enorme bocejo. A 6 de Setembro, estreia nas salas de cinema, o filme Insónia, de Christopher Nolan, o realizador de Memento. Al Pacino interpreta um polícia atormentado que não consegue dormir com o sol da meia-noite do Alasca.
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