Elas quiseram sentir toda a dor de dar à luz

Apesar dos avanços científicos que permitiram às mulheres terem menos dores durante o parto, há ainda quem prefira fazê-lo sem recorrer a fármacos. A bem da saúde dos bebés e da humanização dos partos, dizem estas mães

13 de abril de 2008 às 00:00
Elas quiseram sentir toda a dor de dar à luz Foto: António Rilo
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Ao longo de séculos a sabedoria do povo sintetizou, no adágio popular, a ideia que vigorou durante muito tempo. 'Não há parto sem dor.' As estatísticas de 2006 provam exactamente o contrário, isto é, que uma em cada três mulheres dispensa bem sofrer na altura de dar à luz, preferindo a cesariana. No entanto, existe ainda uma minoria de resistentes que concebe o parto como 'natural', ou seja, rejeitando tudo o que sejam fármacos. Uma experiência que classificam de muito dolorosa, mas que defendem como 'mais saudável' e um marco que reforça o sentimento de maternidade.

Tal como há pouco tempo veio defender a presidente da Associação Portuguesa de Bioética, Micaela Oven, gestora de recursos humanos do IKEA em Matosinhos, há seis anos em Portugal, pensa que deve ser a mulher a escolher o tipo de parto que deseja. Queixa-se, todavia, da falta de informação ao longo da gravidez, de que nas consultas pré-natais não se fornece informação sobre os diversos tipos de parto.

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O nascimento da primeira filha ocorreu com o recurso a 'epidural, ocitocina.' Uma experiência sem mácula, mas que não a deixou plenamente feliz.

'Fui muito bem tratada por toda a gente, mas não tive controlo nenhum sobre o que se estava a passar e quis, no nascimento do Erik, tomar o comando do que se passaria com o meu corpo', confessa Micaela. A vontade de dominar foi a força motriz da decisão e o resultado não deixou dúvidas.

'Foi uma experiência espiritual em que obtive uma ligação mais profunda com o meu corpo. Sinto que tenho muito mais recordações', revela.

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Micaela percorreu um longo caminho até optar pelo parto natural. Para suportar as dores, que sabia que iam ser fortíssimas, procurou uma solução. 'Através da hipnose obtive o relaxamento e a descontracção necessárias. É uma técnica com a qual aprendemos a controlarmo-nos e a relaxar, o que é fundamental para suportar a dor', diz a sueca. A mesma defende que ficou adepta deste tipo de parto.

'Tive dores, mas já nem me lembro delas. Há uma diferença entre achar que vai doer ou não. Somos o único animal que faz um grande filme sobre o parto', sentencia.

Micaela foi uma das quinze mulheres que no ano passado recorreram ao Bloco de Partos do Hospital de S. João, no Porto, para fazer um parto natural. A introdução deste método teve como principal dinamizadora a enfermeira Elisa Santos, que, após longos anos de experiência na área, pensa que 'clísteres e a tricotomia [raspagem dos pêlos]' são opções a evitar.

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'Gosto de falar com as mulheres previamente. Preciso de perceber por que é que querem um parto natural. É importante para perceber se tem estofo para aguentar a dor', adiantou a enfermeira Elisa. Isto porque, segundo o que as mulheres que ajuda lhe contam, durante o parto experimentam uma 'sensação de morte, a dor é de tal maneira forte que são confrontadas com a sua finitude.'

A enfermeira pensa que actualmente existe uma desumanização dos partos. 'A epidural por si só não garante que não haverá dor, há aliás mulheres que sentiram tudo na mesma. Também o catéter é uma manobra invasiva e a aplicação de uma ventosa pode ser dolorosa para o bebé e para a mãe', adianta Elisa Santos.

Lúcia Loureiro, 31 anos, de Amares, Braga, é uma apaixonada pela maternidade e sempre a atraiu dar à luz fora do hospital. 'Aprendi que era possível dar a luz sem toda a intervenção hospitalar. Não gosto muito de hospitais e penso que temos capacidade de ser mães sem toda essa parafernália. Não percebo porque é que todos acham normal levar a epidural', remata.

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Começou por fazer um curso de doula (uma mãe para a mãe, ou seja, uma mulher que ajuda a ter o filho mas que não tem conhecimentos médicos) e, posteriormente, através de uma parteira que fazia partos naturais, tomou a decisão. Lúcia queixa-se da falta de informação para as grávidas e alerta para outro tipo de interesses. 'É verdade que é muita dor. Mas acho que está ligado à forma como a nossa sociedade tem demasiado medo da dor. Há muitos interesses económicos por detrás da epidural e as farmacêuticas querem fazer negócio', atira.

Foi no Irão que Shiva, agora casada com um português, começou a fazer partos. Sempre a fascinou o parto natural, mas tinha de experimentar. 'Fiquei muito satisfeita e consegui fazer muitas coisas para controlar a dor. Deixaram-me andar e fizeram-me massagens para aliviar as dores lombares e abdominais. Fiz exercícios com a bola de Pilates e coloquei-me em posições laterais. Pude também beber água, o que foi muito importante', relata. A preparação para a maternidade foi longa, mas valiosa. 'Tive aulas para o parto, vinte e oito sessões, em que me ensinaram a fazer a respiração, o que ajuda bastante. Assim, pensei primeiro na respiração, o bebé teve mais oxigénio e permitiu diminuir a dor', adianta Shiva Reis.

PRESENÇA DA FAMÍLIA HUMANIZA O PARTO

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Shiva Reis, ex-parteira no Irão, define-se como uma mulher de personalidade, dotada de bastante força interior e com curiosidade sobre tudo o que tenha a ver com maternidade. Na sua experiência com o parto natural, afirma que foi fundamental poder contar com a presença do marido e da mãe durante o nascimento de Daniel. “Deixaram o meu marido e a minha mãe estarem presentes, o que foi muito importante. O facto de ter comigo uma pessoa de sexo diferente foi fundamental. Sentia-me psicologicamente muito confortável”, revela. Segundo afirma, para além de ser mais saudável, esta iraniana encontra ainda outra vantagem. “Economicamente é melhor para o País, porque se gasta muito dinheiro em medicamentos e o valor que se paga pelo anestesista é muito alto”, argumenta. No entanto, as dores intensas durante o parto levam, não poucas vezes, a ponderar a desistência. “Nessa parte é importante todo o apoio. Sentia que não tinha forças. Se estivesse sem o meu marido e a minha mãe talvez não tivesse forças. Formámos um triângulo que me ajudou muito”, sustenta.

QUINZE HORAS DE TRABALHO DE PARTO

Apesar das longas e dolorosas quinze horas de trabalho de parto para que a pequena Lia viesse ao Mundo, Lúcia Loureiro não imagina ter um filho de outra maneira que não seja através do parto natural. 'Tem a ver com os efeitos da epidural e com os fármacos usados durante o parto, que podem dificultar a amamentação, influenciando, a nível biológico, a formação do leite', diz. Lúcia até pretendia ter o filho em casa, mas não quis correr riscos e recorreu ao Hospital de S. João, no Porto.

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