Inês de Medeiros, a autarca surpresa
Chegou à política pela mão de Sampaio. Em casa sempre teve gatos pretos, mas não se pode dizer que lhe trouxeram azar: acabou com o reduto comunista de Almada por 313 votos.
Tinha nove anos quando recebeu a sua primeira lição sobre liberdade e democracia. O pai, o maestro António Victorino d’Almeida, levou-a a ela e à irmã, a atriz Maria de Medeiros, ao antigo campo de concentração de Mauthausen, na Áustria.
"Não dormiram durante dois dias, mas ficaram vacinadas a partir desse dia. Perceberam o que um ditador é capaz de fazer", recorda o maestro.
Nascida em Viena de Áustria em 1968, radicada durante anos em Paris, onde fez teatro e sobretudo cinema, já correu mundo. E isso, segundo colegas de bancada, nota--se na preparação, na mente aberta, na clareza, no pragmatismo e na humanidade. Acérrima defensora da cultura, nutre preocupações com a justiça social, sobretudo em relação aos direitos das mulheres.
Para ela, a discussão é necessária. Costumam ouvir-lhe até que "o consenso não é uma derrota, é uma vitória da democracia". Ainda assim, não raras vezes Miguel Relvas fazia-lhe o sangue ferver nas veias durante o debate sobre a privatização da RTP, os mais duros que protagonizou no plenário.
Também o pai, António Victorino d’Almeida, decidiu, em 1989, entrar na arena política ao apresentar a sua candidatura ao Parlamento Europeu como cabeça de lista pelo MPD/CDE. Não chegou a ocupar o cargo e nada teve a ver com a decisão de Inês que só mais tarde, desafiada por Jorge Sampaio, se tornou mandatária para a juventude da candidatura dele à presidência. Correu então o País de lés a lés naquele que foi o seu primeiro contacto com a política no terreno. Depois foi mandatária nacional na corrida às europeias de Vital Moreira, até que em 2009 se junta às listas do PS e é eleita deputada pelo círculo de Lisboa. Enfrentou uma polémica: a das viagens a Paris, onde na altura tinha residência oficial. Abdicou do pagamento para acabar com a questão.
Gatos pretos
Não tem carta. Não tem carro. Porque não quer, nem precisa. Mas sempre teve muitos gatos, pretos de preferência. E agora tem pela primeira vez uma cadela, Zucca, que costuma passear no bairro de Campo de Ourique, em Lisboa, onde vive. A companhia patuda serviu para desfazer as ideias feitas que os filhos, Pedro (20 anos) e Oriana (15), tinham sobre as diferenças entre cães e gatos. Nasceram do casamento com o produtor francês Fabrice Jérôme Denis Dubois de La Patellière. Em Lisboa, os filhos seguiram as pisadas da mãe, estudando no liceu francês. Foi, aliás, no Charles Lepierre que Inês pisou pela primeira vez o palco, aos 15 anos. Foi numa comédia na qual fazia o papel de uma jovem esposa que traía o marido velho, feio e barrigudo com um lindo rapagão.
Tem sugestões ou notícias para partilhar com o CM?
Envie para geral@cmjornal.pt