A CASA DA MÚSICA

A música, o sangue e a ética da bebida, filha da mesa austera, são marcos na vida da família de músicos de que Vitorino, Janita e Carlos Salomé são as faces mais conhecidas. E bebendo um copo a mais, actualizam a alcunha do avô: Pisa-Flores.

05 de setembro de 2004 às 00:00
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Na ourivesaria Vieira os relógios de parede estão parados, mas Zézinho ainda repete os gestos do pai. O tempo passa com o vagar das conversas dos homens à sombra dos plátanos defronte mas os filhos de José Joaquim Vieira Júnior, fizeram-se homens e deram voz ao Alentejo. A Zezinho, Baíco, Vitorino, Janita e Carlos Salomé une-os o sangue e a memória. “Memórias de sangue ainda quente”, chama-lhes Janita.

A primeira é a do pai, Vieira Júnior – o ‘Tomás Alcaide’ do Redondo – que comovia a audiência quanto cantava a ‘Samaritana’ e que, em fazendo serenatas madrugada fora, trazia as gentes à janela. “O Janita é a réplica dele”, diz Zezinho, o Salomé primogénito.

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O relojoeiro tocava bandolim. Mas na loja acanhada, aberta há já oitenta anos na Praça da República do Redondo, ainda fez caber um órgão, concertina, bateria, clarinete, saxofone, viola e o piano onde os filhos mais velhos – Zézinho, Baíco e Vitorino, respectivamente – aprenderam a tocar.

O PEQUENO ROUXINOL

As primeiras notas aprenderam-nas Zezinho e Baíco na banda de música. Quanto ao acordeão, descobriram-no com os tios Salomé que, no início dos anos 50, criaram a Bass Orquestra do Alandroal. O Bass (iniciais dos nomes Barradas, António e do duplo Salomé) passou a quádruplo quando os dois sobrinhos, adolescentes ainda se juntaram ao colectivo. Zezinho no saxofone alto e Baíco ao piano interpretavam as canções populares e os boleros que Vitorino cresceu a ouvir e actualizou com o seu sentido poético.

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Carlos Salomé – 19 anos mais novo que Zezinho – diz que a sua formação musical começou “na tradição do pai a beber uns copos de vinho ao lanche e a tocar a viola”. Quanto a Janita, estreou-se cedo no canto. Uma lembrança que guarda é do pai e dos tios a chorar ao ouvi-lo cantar a ‘Morena’, de Cruz e Sousa, e ele a lutar contra os soluços para chegar com a canção até ao fim.

A sua primeira apresentação pública foi nas Festas de Agosto do Redondo. Tinha nove anos. A partir daí eram as pessoas que pediam ao pai Vieira: “Deixe o Janita cantar”. Outras vezes era a orquestra Bass que o solicitava. “O meu pai, antes de eu ir para a cama, dizia aos meus irmãos: ‘Levem lá o gaiato para cantar’. Eles ficavam muito contrariados e arreliavam-me. Muitas vezes quando subia para o palco já ia quase a chorar”, acrescenta Janita. Em cima de um banco, Joselito –como então lhe chamavam – era ‘o pequeno rouxinol’ da vila alentejana.

Vitorino teve dez aulas de piano, que toca de ouvido, e saltou a escola das filarmónicas. O apelo da boémia impôs-se. “Aos 13, 14 anos queria era brincar no largo. Brincava mas já aprendia nas tascas a ética da bebida e fazia a iniciação na mesa austera.” Quando foi estudar Belas-Artes em Lisboa, e enquanto corria mundo como o seu “querido Corto Maltese”, Zezinho, Baíco e Janita animavam os bailes de fim-de-semana em Évora e o Verão em Quarteira.

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Chamava-se Planície a orquestra de então dos irmãos Salomé. Conta Baíco que Janita entregava-se de alma e coração ao projecto. “De tal maneira que á meia-noite ia-se embora e ficávamos sozinhos a animar.” O irmão ri-se mas rectifica. Os bailes começavam às dez horas e prolongavam-se até às 5 da manhã. Quando lhe apetecia ir dançar com uma rapariga – e como havia uma ou duas séries de tangos e boleros instrumentais – a dada altura ameaçava: “Ou fazem a série de tangos ou não canto mais”.

PAISAGEM COM HOMENS

Zezinho aprendeu soldadura em Gondomar e óptica no Rodrigues Oculista, em Lisboa. O pai queria expandir o negócio. Mesmo enquanto foi funcionário camarário, e depois quando trabalhou num banco, terminava o dia ajudando na loja.

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Hoje, reformado e com 68 anos, é aí que entretém os dias, entre a prática do tiro ao prato e a actividade como músico amador. “Tive oportunidade de sair daqui mas só o teria feito se não tivesse alternativa”, diz sem nostalgia.

Depois de ter sido, com Baíco e Janita, um dos Vagabundos do Ritmo – que, nos anos 70, faziam versões dos Beatles, Bee Gees, Rolling Stones e Credence – tocou sobretudo na Filarmónica do Redondo. Agora toca saxofone alto na de Montoito e alegra-se porque há muita gente nova a aprender.

A nova Planície é, porém, o seu orgulho. A orquestra ligeira com dezasseis membros, dos quais noventa por cento toca metais, tem um repertório com clássicos dos anos 40, que integra Glenn Miller e Frank Sinatra.

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Baíco fez um percurso paralelo ao de Zezinho. Nos anos 80 tornou-se músico de Vitorino, até que um acidente em 1993 o impediu de continuar. Lembra--se dos concertos com gosto e modéstia: “Era quase um autodidacta. A minha carreira não foi brilhante, mas foi uma experiência muito engraçada”, diz. Recorda a vez que foram tocar com o Carlos Paredes à Sociedade Portuguesa de Autores e evoca o que o guitarrista lhe disse então: “’Você é que toca tão bem acordeão! Vá você para ali tocar.’ Ele a dizer-me isso e eu a ficar comovido...”

Adolescente, Carlos ainda aprendeu solfejo, mas a trompa que lhe deram na filarmónica para tocar desmotivou-o. Entretanto vieram as tertúlias animadas à viola, em Évora, e, em 1978, o anúncio a Vitorino: “Vou para as Belas Artes e vou tocar contigo”. O curso ficou incompleto mas nunca largou a música. No princípio dos anos 90 a banda Lua Extravagante deu-lhe visibilidade e hoje continua a acompanhar o irmão. O casamento fê-lo regressar ao Sul, a Vila Viçosa, onde aprendeu a restaurar porcelana e herdou a oficina do tio João, ex-Bass, recentemente falecido.

Foi Vitorino, porém, quem, após a Revolução dos Cravos, conheceu Zeca Afonso e Adriano Correia de Oliveira. Pela mão deles tornou-se músico profissional e gravou ‘Semear a Salsa ao Reguinho’. Depois desse vieram mais uma dúzia com algumas das músicas portuguesas mais bonitas. Em 1980 também Janita foi recrutado por Zeca como músico e nesse mesmo ano gravou o disco ‘Melro’. A voz pedia-lho, o estilo musical foi-o descobrindo.

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A ÉTICA DA BEBIDA

As vindas semanais de Janita e Vitorino ao Redondo são o pretexto para actualizar a ética da bebida e os rituais populares. Tirando os Reis, em Janeiro, já não há muitas ocasiões em que os irmãos cantem juntos. “De cinco para seis juntamo-nos, cantamos os Reis e bebemos uns copos”, diz Vitorino. Quando a austeridade da mesa é quebrada actualiza-se o anexim que o avô ganhou. “Aqui todas as famílias têm um. Ao avô chamavam-lhe o velho Pisa-Flores. Bebia muito e quando ia para casa, ia a pisar flores. O meu pai era o filho do velho Pisa e nós somos os netos do velho Pisa”, revela Vitorino.

MATAR ESPANHÓIS

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Os irmãos preservam na sua vila uma tradição que os antiquários e as leis que proíbem disparos e barulho nocturno puseram em causa. Trata-se da comemoração do 1º de Dezembro.

“Sabe o que acabou com ela? Nos anos 60 ficou na moda pôr armas a decorar as paredes. Todas as armas de carregar pela boca foram compradas pelos ciganos”, explica Vitorino. O início do ritual recua, supõe, ao período em que os socialistas ibéricos tentaram fazer uma fe-deração ibérica. “A direita portuguesa, assim que soube disso, retomou o feriado. Então é andar a matar espanhóis. A GNR não quer e tenta apanhar-nos as espingardas. Agora com telemóveis é muito bom... Começa tudo aos tiros na outra rua e eles andam atrás até desistir.” Noutro tempo a filarmónica saía acompanhada por uma tuna. Agora a banda toca numa cerimónia oficial e a tuna anima clandestinamente. “Quando toca o hino levanto-me e prego sempre dois tiros. Como está lá o presidente da Câmara, o sargento da GNR ignora.”

Manter a identidade. É disso que se trata para os Salomé. Preservando o humor alentejano, “que é muito profundo e engraçado”. E musicalmente a sucessão está garantida. Catarina e Marta, filhas de Janita, estrearam-se garotas a fazer coros em Galinhas do Mato, os filhos de Zezinho mantém-se na tradição das recreativas enquanto Daniel, o filho de Baíco, é saxofonista formado no Hot Club.

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Entre os Salomé a música teve ainda mais importância do que é habitual nas famílias alentejanas. Por isso a sua memória, orgulhosa, ilustra a evolução do género numa zona deprimida em que, porém, se acompanharam as tendências musicais.

O avô, Manuel Salomé, tocador de bandolim e violoncelo, foi chefe das duas bandas que no início do século XX existiram no Alandroal. Vitorino enaltece o papel que as filarmónicas tiveram no País. “No meio rural o que determina a cultura das pessoas são as recreativas. Fizeram escolas de música e promoveram o teatro. Isso foi antes de aparecer a televisão. Quando vieram para as recreativas foram postas quase num altar. No fim dos anos 60 as filarmónicas desapareceram quase todas. Talvez com a emigração e a auto-estima em baixo... Depois do 25 de Abril emergiram as bandas e as tunas. E no Alentejo desenvolveram-se muito mais grupos de cantadores. E agora há um fenómeno interessantíssimo: grupos de cantadoras.”

As mulheres sempre cantaram no Alentejo. Segundo o cantor foi António Ferro quem, nos anos 30, tipificou a música tradicional portuguesa. “Antes, homens e mulheres cantavam juntos. Há uma festa muito bonita na segunda-feira de Páscoa que é a da Senhora de Guadalupe em Serpa. Toda a vila canta a mesma moda na rua. E há uma festa agora no Verão, em Santo Aleixo da Restauração, em que aí é a aldeia toda a cantar uma moda com a banda. A banda toca e a Santa vai em cima a dançar.”

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Foi num movimento de recuperação da tradição que José Afonso criou o Grupo de Cantadores do Redondo, o qual fez uma recolha das ‘modas’ do concelho.

“Após o 25 de Abril o Zeca vinha muito para aqui. Arranjava-se-lhe um quarto na Serra de Ossa. E andava por aí, enrolado no capote alentejano. Juntávamo-nos e formámos o grupo. Corremos tudo. Até tocámos fora do País”, conta Baíco.

O grupo está quase parado – Janita recuperou-o para o álbum ‘Vozes do Sul’ – mas ele foi, a par da amizade com Zeca Afonso, determinante na vida musical dos Salomé.

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