A ditadura de quem fala sempre verdade
Numa sociedade em que, de acordo com os especialistas, se incentiva a mentira, ainda há quem defenda as vantagens da verdade. Alguns (poucos), para quem ser honesto é um imperativo.
Nunca me vou sentir confortável a mentir. Não consigo. Para mim, quem mente rouba, quanto mais não seja o direito da outra pessoa conhecer a verdade.” Dizer a verdade, sempre a verdade e nada mais do que a verdade é, para Cláudia, 34 anos, um imperativo.
Ao contrário da maioria do comum dos mortais que, contas feitas pelo psicólogo brasileiro Roque Theophilo, mentem qualquer coisa como 200 vezes por dia – cerca de uma mentira a cada 5 minutos – Cláudia entra no grupo dos chamados verdadeiros compulsivos: incapazes de mentir, optam sempre pela honestidade. Por mais dolorosa que seja a verdade que afirmam.
Bem diferente da personagem interpretada pelo actor Jim Carrey para quem, no filme ‘O Mentiroso Compulsivo’, mentir torna-se tarefa impossível, para Cláudia a verdade não é um peso, mas uma filosofia de vida.
Diz a verdade quando a roupa da colega do lado não lhe assenta como uma luva, quando o corte de cabelo do namorado não lhe fica a matar e mesmo quando, incapaz de cumprir os prazos no trabalho, a honestidade lhe pode vir a custar a tão desejada promoção.
“Acredito que não é só uma questão de carácter, mas também de educação”, acrescenta, convicta das barreiras levantadas pelas mentiras, mesmo as mais pequenas, mesmo aquelas que muitos dizem piedosas e inofensivas. Por isso, admite, não serem muitos os que com ela gostam de conviver. “É o preço que pago por ser honesta. Mas não me importo de o pagar.” Rui Manuel Carreteiro, psicólogo clínico, é também defensor da honestidade. Mas para oespecialista, poucos são os que se podem orgulhar de professar apenas a verdade, já que a mentira é quase inerente à condição humana e social. “Muitas vezes é a sociedade que incentiva a mentir e, ainda que, em certas ocasiões, mentir seja natural e não acarrete grandes consequências, é preferível a verdade.”
Mário, 31 anos, casado, orgulha-se de não mentir na relação com a mulher. Pelo menos quase nunca. “Por que é que digo a verdade? Porque acho que não ganho nada nem beneficio ninguém se mentir”, justifica à Domingo. Mas será que dizer a verdade não pode ser, em algumas situações, pior que a mentira? Mais: será que os fins não justificam os meios? “Eu não vou dizer à minha mulher, por exemplo, que umas calças lhe ficam bem quando não ficam. Quem faz isso é porque não se quer aborrecer, não quer ter problemas.”
Rui Manuel Carreteiro concorda. “Mesmo as mentiras brancas, aquelas que não são gravosas, revelam sempre as questões de falta de limites. E por isso, devem evitar-se as mentiras. Fugir à verdade tem sempre qualquer coisa de pouco saudável por detrás.”
Opinião diferente tem a psicóloga clínica Catarina Mexia. “Uma verdade pode prejudicar a relação e pode não ser uma manifestação de altruísmo, mas sim de profundo egoísmo, porque nos sentimos aliviados por termos contado tudo, sentimos que resolvemos os nossos problemas, independentemente de como deixamos os outros.” De acordo com a especialista, tal como o que acontece para aqueles que estão sempre a dizer mentiras, insistir na verdade a todo o custo pode ser “uma forma de fugir ao julgamento de terceiros, de proteger a intimidade, com a qual às vezes nem se sabe lidar”.
Falha ética, imoralidade ou pecado, o facto é que a mentira tornou-se banal e salta, tantas vezes imparável, da boca dos mais novos aos mais velhos, de homens ou de mulheres. Se poucos são os que se regem por uma batuta a que chamam verdade, muitos mais serão os que mentem por desporto ou para lucrar, os que evitam a verdade apenas de forma ocasional, quando a situação assim o exige, os que contam, aqui e ali, uma pequena peta inofensiva.
Depois, há ainda o reverso da medalha dos verdadeiros a todo o custo, aqueles para quem a verdade é impossível e a quem a ciência rotulou de mentirosos compulsivos. “Nestes casos falamos de uma patologia que requer intervenção. A mentira compulsiva é como um vício, em que a pessoa fica prisioneira, incapaz de lidar com a verdade. Em Portugal, não há números de quantos sofrem com este problema, mas são situações que não aparecem frequentemente nos consultórios. O que surgem mais são alguns casos mascarados, que quase tocam na mentira compulsiva.”
De acordo com a ciência, este é mais do que um problema moral ou ético. Analisados à lupa, os cérebros de quem é incapaz de professar a verdade são diferentes dos adeptos da sinceridade. Apostados em conhecer mais, os especialistas da Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, estudaram meia centena de pessoas e descobriram que, afinal, os mentirosos patológicos apresentavam mais 26 por cento de massa branca no cérebro que os demais, massa essa que, explicam, actua na transmissão de informações, enquanto a massa cinzenta as processa. Para os investigadores não restaram dúvidas de que a existência de mais massa branca no córtex pré-frontal estimula a mentira.
Estudos sobre os defensores da verdade a qualquer custo não os há. Se os seus cérebros diferem dos restantes, também não se sabe. Fica, contudo, a certeza de constituírem uma pequena minoria, numa sociedade que propicia e, por vezes, premeia a mentira. A verdade é que, em muitos casos, as pessoas precisam medir as consequências das suas palavras – e a razão nem será o politicamente ou socialmente correcto, mas uma questão de comunicação.
DA FILOSOFIA AO CINEMA
Verdade: do latim veritate, qualidade do que é verdadeiro, realidade, boa-fé, sinceridade, representação fiel. As definições variam, assim como as interpretações das consequências de fugir à verdade. Na Filosofia, há quem se divida entre o que é ou deve ser a verdade e há ainda quem, como Nietzsche, a considere apenas como um ponto de vista. Para o alemão, verdade mais não é do que uma coisa cuja veracidade não é possível alcançar. Posição diferente tinham Aristóteles, Santo Agostinho ou Kant, para quem a verdade é absoluta. Proibida estava qualquer possibilidade de mentira, mesmo quando o faltar à verdade significasse a diferença entre vida e morte. Não dizer a verdade é, segundo a Bíblia, um pecado. Por isso, muitas são as religiões que professam a defesa da verdade e o castigo daqueles que optam pela mentira.
Mentira e verdade, tão antigas como o próprio ser humano, têm também andado de mãos dadas no cinema onde, ao longo do tempo, se têm multiplicado os filmes sobre a sinceridade ou falta dela. Desde o mais recente ‘Uma Verdade Inconveniente’, do ex-futuro presidente dos Estados Unidos, Al Gore, em que se mostra a realidade sobre as alterações climáticas, até ao ‘Onde Está a Verdade’, um drama sobre as consequências da mentira ou ainda a comédia ‘Toda a Verdade Sobre Cães e Gatos’. É a ficção a imitar a realidade, na definição de um Mundo onde todos são unânimes em defender que mentir é feio, mas quase todos são incapazes de viver na absoluta verdade.
Mentir ou dizer a verdade? Essa é, muitas vezes, a questão. Eis alguns mistérios por detrás de ambos,
e uma ajuda para decidir qual a melhor resposta.
A: MULHERES FALAM VERDADE
Muitos são os estudos que não têm dúvidas: as mulheres são mais verdadeiras. Mas há também os que avançam que os homens mentem melhor. E tem muito a ver com a questão cultural. O homem mente com mais convicção e corre menos riscos de vir a ser descoberto.
B: INOCÊNCIA VERDADEIRA
Até aos cinco anos, diz quem sabe, a verdade é a única alternativa para as crianças. A partir dessa idade, começam as mentiras, fruto da orientação de pais, avós, tios. Muitas vezes, a mentira é associada a uma boa educação. Mente-se para não magoar e ensina-se as crianças a fazê-lo.
C: MENTIRA CEREBRAL
Hoje em dia, há cada vez mais conhecimentos sobre os momentos em que se é honesto ou se está a mentir. Apesar de nada ser ainda conclusivo, os exames ao cérebro revelam uma actividade cerebral muito menos intensa na altura de dizer a verdade do que quando se está a mentir.
D: DETECTAR A (IN)VERDADE
Dos polígrafos, máquinas de detecção de mentiras que medem o stress fisiológico presente nas respostas dos entrevistados durante os interrogatórios, aos chamados soros da verdade, testados em vários países, muitos têm sido os mecanismos criados para tentar apanhar fugas à verdade.
FUGIR DA VERADE (OPINIÃO DE DULCE GARCIA, JORNALISTA)
“A mentira é mais interessante do que a verdade”. A frase, de sir Francis Bacon, pensador e filósofo inglês da Renascença, diz muito sobre a humanidade. Todos os Homens mentem. Porque é impossível dizer sempre a verdade. A não ser que se tenha comprado um bilhete só de ida para a Sibéria, local onde, por mais que se digam verdades, é difícil aparecer alguém que as entenda.
Há vários tipos de mentira. Lembro-me de um sketch do Gato Fedorento, no qual um empregado aborda o chefe com uma frase deste género: “Amanhã não posso vir, estou com um problema profissional”. E o outro responde: “Um problema profissional, mas qual problema profissional?” “Não me apetece trabalhar. Trabalhar, trabalho, logo, é um problema profissional”. Quantas pessoas não inventam todos os dias pequenas mentiras para justificar faltas, atrasos, erros, seja o que for? Ai se dissessem a verdade… “Menina Alice, por que é que só entrou às 9h25, quando devia cá estar às 9h00 em ponto?” E a menina Alice, sem pestanejar, para o patrão: “Sabe, senhor Silva, estava a fazer amor com o meu marido e não dei conta das horas”. Os filhos mentem aos pais, os pais mentem aos filhos. Pior do que isso: os pais mandam os filhos mentir por eles. Toca o telefone, e a mãe grita da cozinha para o rapazinho: “Se for a chata da tua avó, diz que não estou.”
E entre amigas? A Rosinha está na cabine a provar um vestido e sai de lá, triunfante (perdeu meio quilo num mês, meio quilo!), perguntando: “Que tal?” Alguém tem coragem de lhe dizer que os seus 70 quilos enrolados naquele bocadinho de tecido verde fazem-na parecer um misto de repolho e boneco Michelin? Ninguém.
Mas de todos os capítulos da vida, o mais sensível à verdade: o amor.
A mulher chega a casa às nove da noite, depois de ter deixado a cabeleireira do bairro dar largas à imaginação. Traz uma permanente (que já não se usa), uma cor abaixo de cão (alguém tem o cabelo encarnado?) e um corte de fazer chorar as pedras da calçada. Vira-se para o marido e pergunta: “Amor, não notas nada?” E ele, depois de um exame frio, atira: “Estás com um cabelo de fugir, chegaste tardíssimo e o jantar não está feito.” Alguém vai criticá-lo? Ele só disse a verdade.
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