A ESCOLHA DOS ‘NOSSOS’ AMERICANOS

George W. Bush ou John Kerry – um deles vai ser Presidente dos Estados Unidos. Para os americanos que vivem em Portugal a escolha está feita: adeus Bush.

14 de março de 2004 às 00:00
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Os amigos estão a sempre a dizer-lhe que é uma republicana ferrenha, mas Blaine W. Tavares, presidente do American Club of Lisbon, prefere que a vejam como uma independente. “Sou conservadora na maneira de ser e de pensar. Mas em 1996 votei no Bill Clinton”, confessa a americana, natural de Nova Iorque. Este ano, nas Presidenciais de 2 de Novembro, volta a equacionar a hipótese de apoiar o candidato democrata, John Kerry.

A culpa é de George W. Bush. Para Blaine ele até começou bem o seu mandato e soube estar à altura do 11 de Setembro. “Recordo-me dele a discursar no Ground Zero com um megafone. Foi uma imagem marcante.” Com o passar dos meses, mudou de opinião.

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A forma como Bush conduziu a política internacional levantou-lhe algumas questões: “A seguir ao 11 de Setembro o mundo inteiro estava do nosso lado. Dezoito meses depois corremos o risco de nos isolarmos.”

Como se isso não bastasse, o deficit está descontrolado, o dólar fraco e a taxa de desemprego teima em não descer para os valores previstos pela actual administração. A invasão do Iraque foi a gota de água que fez transbordar o copo. “Ele preferiu ir para a guerra sozinho do que ouvir a opinião dos outros países. Esta não é a melhor forma de se fazer política”, reconhece.

Com a vitória de Kerry na ‘Super Terça-Feira’, Blaine passou a vê-lo com outros olhos. Admite, no entanto, que a vitória não está garantida: “Não me lembro de ver a América tão dividida. Ainda há um ano o partido democrático estava desorganizado mas o Presidente conseguiu fazer mais pela oposição do que todo o dinheiro do mundo.”

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O filho do ex-presidente George Bush pôs-se em campo e já começou a atacar os membros democratas. Num dos últimos discursos fez questão de avisar a América que “eles vão deixar o país na incerteza, frente ao perigo.”

O ‘COWBOY’ DO TEXAS

Bernie Steiger, 38 anos, proprietária de uma empresa de brinquedos didácticos, mostra-se indiferente às ameaças de George W. Bush. “Conheço-o bem. Estava a viver no Texas na altura em que ele ocupava o cargo de Governador.”

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E dele não guarda boas recordações. “Demasiado conservador” e “somente preocupado em ganhar dinheiro com o negócio do petróleo” são alguns dos mimos com que brinda a actuação de Bush aos comandos do Estado do Texas.

Quando soube que ele queria candidatar-se à liderança do país, ficou perplexa. Os seus piores receios confirmaram-se no dia em que o Supremo Tribunal concedeu a vitória ao republicano: “Ele não tinha currículo para ser Presidente. Nem sequer foi eleito pela maioria dos americanos.”

Casada com um português e mãe de dois filhos, optou por criar a família em Portugal. O facto de viver afastada do Estado de Michigan não a impediu de continuar a seguir com atenção o que se passa no seu país. Nos últimos dias, tem andado eufórica com a vitória do senador John Kerry nas primárias democratas. “É um bom candidato. Só precisa de encontrar um vice-presidente à altura para o ajudar a pedalar até à vitória final”, acrescenta.

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Para ela, o mais importante é tirar George W. Bush da Casa Branca – para que o cargo possa ser ocupado por alguém de confiança. E que saiba estar à altura do desafio. “Fico envergonhada quando o vejo ao lado de outros líderes mundiais. Angustia-me a sua forma de falar e de se comportar. Ele tem a imagem típica de um ‘cowboy’ do Texas.”

O HERÓI AMERICANO

Democratas ou Republicanos, os cinco americanos a residir em Portugal e contactados pela Domingo Magazine têm a certeza que está na hora de George W. Bush ceder o lugar a John Kerry.

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Para a maioria, o senador de Massachusetts é ainda uma incógnita mas está a aprender como se conquista o coração dos eleitores. Apresenta-se como um ‘democrata pensante’, admirador de John F. Kennedy e como um soldado destemido da Guerra do Vietname – o que lhe confere uma aura de herói. Os analistas já lhe chamam um ‘candidato de encomenda’, feito à medida dos sonhos e ambições da maior potência mundial.

Uma questão, no entanto, continua em aberto: conseguirá derrotar o rival?

“Bush cometeu demasiados erros. Talvez seja possível Kerry vencer.” Quem o diz é John Johnson, de 60 anos, originário da Pennsylvania, e quadro superior do Banco Espírito Santo. Conhece como ninguém o mundo da alta finança e nos últimos anos ficou perplexo com a política económica seguida pelo Presidente. “Ele é um gastador. Só assim se explica o estado de saúde das contas públicas. Não se pode diminuir os impostos e ao mesmo tempo investir no Iraque”, explica.

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Esse é dos motivos que o vai levar a optar por Kerry no dia 2 de Novembro. Mas há mais: “É bom saber que ele tem experiência de guerra e visão política”, reconhece.

O americano a viver em Portugal há cerca de 16 anos está mais próximo da ideologia republicana, mas é da opinião que os “maus Presidentes têm de ser demitidos”.

Não tem por hábito votar nos democratas – Jimmy Carter foi a excepção à regra – mas perante um candidato como John Kerry, Bush não tem hipóteses: “Não o quero lá mais quatro anos. O cargo é demasiado importante para lhe ser oferecido de bandeja.”

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A mesma opinião é partilhada pela sua colega Anne Taylor. Os dois exercem funções no American Club of Lisbon e debatem frequentemente a situação política nos Estados Unidos. Anne é radical quando fala do actual Presidente: “Eu sempre fui anti-Bush. Quero tirá-lo de lá este ano.”

Sem papas na língua, a americana de 42 anos, casada com um alentejano e mãe de quatro filhos, não hesita em comparar Bush a um aluno medíocre. “Está sempre mal informado. Teve um bom professor mas não consegue aprender.” Valeu-lhe o facto de se ter rodeado de pessoas competentes, como Colin Powell. Para Anne, se o actual secretário de Estado optar por abandonar o Executivo, os democratas têm a vida mais facilitada. Só lhe resta confiar no poder de decisão dos eleitores americanos. “E eles são mais inteligentes do que se julga”, remata.

SENTIMENTO ANTI-BUSH

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Na Fundação Luso--Americana o ambiente é de expectativa. O Administrador, Charles A. Buchanan, teve uma educação conservadora e habitou-se a ver o pai votar nos Republicanos. Sem revelar a sua intenção de voto, lá nos foi confessando que John Kerry pode ajudar a restaurar a imagem dos Estados Unidos aos olhos da Europa: “Depois do 11 de Setembro, houve uma onda de solidariedade em torno da América. Mas o Presidente não a soube aproveitar”. Conclusão: o povo americano acabou por pagar a factura. “Confundiu-se o sentimento anti-Bush com anti-americanismo.” Charles Buchanan aterrou em Portugal no Verão Quente do 25 de Abril e desde então tornou-se numa visita regular. Já se sente em casa, mas continua a seguir a política americana. “Sou um viciado em notícias”, reconhece. No rescaldo das primárias democratas, Buchanan juntou-se ao coro de vozes que elogiam a personalidade de John Kerry. É ele o melhor candidato para derrotar Bush? “Sempre acreditei que sim. A experiência no Senado deu-lhe uma enorme experiência política e já disse que quer reatar as relações com a Europa.”

Nos próximos meses, a campanha eleitoral vai subir de tom. A situação no Iraque, o desemprego e as questões económicas vão dominar o debate. Bush é acusado de se ter concentrado demais na política externa e de se ter ‘esquecido’ de olhar para o seu país. Oito anos depois da derrota do pai, George Bush, frente a Bill Clinton, as eleições presidenciais de 2004 correm o risco de voltar a ficar marcadas por uma só frase: “It’s the economy, stupid” (É a economia, estúpido).

O PERFIL DOS ELEITORES

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Anne Taylor

A PATRIOTA

Tem 42 anos, é filha de mãe portuguesa e pai americano. Durante a infância tinha por hábito vir passar férias em Portugal e, na brincadeira, lá ia dizendo que havia de se casar com um português.

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E foi isso que aconteceu. Em 1988 deixou a cidade de Nova Iorque para começar uma vida nova em Lisboa. Tem 4 filhas e trabalha como executive assistant no American Club. Mas nunca deixou de se sentir americana: “Tenho amor à pátria. Adoro a minha bandeira e tenho muito respeito pelas nossas tropas.”

Blaine Tavares

A PRESIDENTE

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Nasceu no Estado de Nova Iorque, onde se licenciou em Ciência Política, mas há trinta anos trocou esta cidade por Lisboa. Nunca quis exercer um cargo político e em vez disso, foi trabalhar para a joalharia Tiffany's. “Várias vezes fui à casa Branca entregar encomendas”, conta. Entretanto, conheceu o marido, um proprietário agrícola natural do Alentejo, e foi viver com ele para a cidade de Lourenço Marques, em Moçambique. Regressou a Lisboa antes do 25 de Abril. Mãe de três filhos, ocupa o cargo de directora do American Club há 11 anos.

John Johnson

O ECONOMISTA

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Vive em Portugal há 16 anos. Passou pelo Rio de Janeiro, onde conheceu a mulher, e veio depois para Portugal com o objectivo de trabalhar num projecto relacionado com o fundo de pensões.

Natural da Pennsylvania, já se habituou à maneira de trabalhar dos portugueses, mas há uma coisa que lhe faz uma certa confusão: “Ficam à espera que seja o Governo que lhes resolva todos os problemas.” Tem 60 anos e concilia o seu trabalho no grupo financeiro Espírito Santo com a gestão do American Club.

Bernie Steiger

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A PARTIDÁRIA

Filha de pai libanês e mãe polaca, concluiu a licenciatura em Finanças e Economia e foi trabalhar para um senador democrata. Natural do Estado de Michigan, chegou a Portugal em 1990 para tirar um MBA na Universidade Nova. Passou pela TMN e pela Telecel. Entretanto, conheceu o marido e os dois foram viver 5 anos para a Florida. Depois mudaram-se para o Texas. “Na altura era Bush o Governador.” Em 2000 regressaram a Portugal. É mãe de dois filhos e proprietária de uma empresa de brinquedos, ‘As Pequenas Descobertas’.

Charles A. Buchanan

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O DIPLOMATA

Natural de Annapolis, Maryland, formou-se em Engenharia. Esteve 24 anos no serviço diplomático do Departamento de Estado norte-americano, onde era responsável pela gestão dos Programas de Cooperação Económica na Argentina, Brasil, Peru, América Central e Portugal. Aterrou em Lisboa logo depois da Revolução de Abril e apaixonou-se pelo país. Ocupa o cargo de administrador da Fundação Luso-

-Americana desde 1988, responsável pelas áreas da Ciência e Tecnologia e do Ambiente. Recebeu do Estado português a Medalha da Ordem do Infante D. Henrique.

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