A esperança no ouro alentejano

Mesmo os mais cépticos sonham que na exploração mineira possa estar o filão económico que lhes resgate o futuro

01 de julho de 2012 às 15:01
A esperança no ouro alentejano Foto: José Manuel Rodrigues, Reuters
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A prospecção de ouro em terras alentejanas tem levantado a curiosidade de muita gente ao longo das últimas décadas. O assunto não é novo, mas continua a alimentar a esperança de todos. Aliás, é até mais velho do que alguns dos habitantes das freguesias da Boa Fé (Évora) e do Escoural (Montemor-o-Novo), entre as quais se encontra o centro das sondagens levadas a cabo pela empresa canadiana Colt Resources. "Há mais de 50 anos que ouvimos falar disto, mas nunca se chegou a lado nenhum. Será que é desta?!", questiona Margarida Banha, residente na Boa Fé.

Estão 40 graus no interior do Alentejo. A calma de um dos dias mais quentes do ano é quebrada pelas conversas que, nos poucos sítios frescos que se encontra na região – cafés e pastelarias –, vão sempre desaguar ao mesmo assunto: o ouro alentejano. Entre o cepticismo e optimismo, muitas são ainda as questões que se levantam quando o tema é abordado. Para muitos, o verdadeiro ouro do Alentejo não está debaixo da terra. Está no azeite, na cortiça, no património, no turismo e na gastronomia, mas há quem tenha fé de que possa nascer uma mina na região.

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"Eu acredito que seja desta vez. Nunca vimos os trabalhos com tanta força como agora", disse à Domingo Margarida Banha, proprietária do café Banha, um dos principais ‘pontos de apoio’ aos trabalhadores que por estes dias manobram máquinas de perfuração no seio do montado que fica mesmo na frente da pequena aldeia da Boa Fé, na herdade da Chaminé.

Tem sido bom para o negócio, mas a visão de Margarida vai mais além. "Apesar de toda a vida ter ouvido falar nisto, agora parece que é a sério. Nota-se algum movimento a mais aqui na casa, vendem-se mais umas cervejas e eu acredito que possa trazer coisas boas para a terra", explicou a comerciante.

A empresa Colt Resources, que desde Dezembro de 2011 sonda o solo alentejano, diz que sim. No último relatório, tornado público em Junho, mostrou que nenhuma das sondagens tinha revelado os actuais teores do metal precioso por tonelada de rocha extraída. Em alguns locais, sobretudo na zona de Casas Novas, freguesia de Boa Fé, chegam a atingir os 31,7 gramas.

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Contudo, a média de 2,74 gramas por tonelada (g/t) e o número total de onças (363 400) existentes na serra do Monfurado (que abrange os concelhos Évora e Montemor-o-Novo) que equivalem a 11 toneladas, não se alteraram desde os estudos elaborados na região no final da década de 90 do século XX. Ao concretizar-se a exploração, o ouro extraído poderá render, face à cotação actual da onça, 467, 3 milhões de euros.

Em relação a estes números, a Colt Resources referiu em comunicado que as sondagens estão a detectar "graus impressionantes de ouro", o que poderá levar à extracção industrial em finais de 2014, ano em que termina o acordo de prospecção assinado como o Governo português. O projecto, cujo investimento previsto é de três milhões de euros, já recolheu amostras de várias sondas instaladas em locais como Braços, Banhos, Casas Novas e herdade da Chaminé. Uma delas perfurou até aos 152,60 metros.

Na maioria, segundo revelam os comunicados da empresa, é possível detectar um teor médio entre as 2,5 e as 3 g/t. Mas, o que surpreendeu os técnicos da Colt Resources foi a existência, na freguesia de Boa Fé, de 8,19 g/t numa área de quase 10 metros de profundidade.

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Nos concelhos de Évora e Montemor estima-se a existência de 40 depósitos deste minério ao longo de uma faixa com mais de trinta quilómetros. Para retirar as 11 toneladas de ouro será necessário extrair 4,12 milhões de toneladas de rocha.

Todavia, a empresa parece ter recuado nos últimos dias em matéria de comunicação. Um dos responsáveis do projecto em Portugal explicou à nossa reportagem que "até ser elaborado um novo relatório e a comunicação dos resultados à administração e à bolsa canadiana não haverá mais declarações ou dados tornados públicos". O receio do impacto negativo das notícias nos mercados leva a esta posição. "Vamos mudar a nossa política de comunicação", acrescentou a mesma fonte.

Antes desta posição, a mesma empresa canadiana, a Colt Resources, que se lançou na prospecção através de uma joint--venture com a Iberian Resources (que já tinha trabalhado no local), disse, através do seu responsável máximo, Nikolas Perrault, que estes dados serão incluídos "na estimativa inicial de recursos do projecto, que deverá ficar concluída até final do mês [de Junho]". Espera-se uma nova comunicação para breve.

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O CEO da Colt adiantou ainda que, devido à "confiança" da empresa no "potencial regional" de ouro, foi iniciada "a campanha de exploração alargada na concessão de Montemor-o-Novo". Os trabalhos, assegurou, vão prosseguir com a realização de perfurações mais profundas, para "testar a extensão de depósitos [minerais de ouro] conhecidos".

Além disso, a empresa garantiu, em comunicado, que vai continuar com a "fase avançada" da sua "campanha de exploração" na Boa Fé, com várias perfurações, e está cada vez mais convencida de que "é viável" a extracção de ouro na região. Difícil é que isso aconteça antes de 2014, data do termo do contrato assinado com o Governo para o período de sondagens.

"Isto é como tudo. Quando há crise, enfatiza-se os pequenos pormenores e as pessoas agarram-se a esperanças que podem nunca vir a concretizar-se. A cotação do ouro está alta, mas se baixar depressa lá se vai o interesse na exploração", resume a moradora Margarida Banha, que aos 53 anos já está acostumada às os fracassos, mas ainda assim confiante de que agora é de vez. No terreno há meia dúzia de máquinas em trabalhos, entre as quais duas da construtora nacional Teixeira Duarte, as outras são espanholas. Os trabalhos decorrem de dia e de noite. Os moradores dizem que quando o sol se põe, e a calma se torna ainda maior, continua a ouvir-se as perfurações nos cabeços que envolvem a Boa Fé.

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VER PARA CRER

Como nem tudo o que luz é ouro, e por estes dias os tons dourados na planície e na serra do Monfurado resultam apenas da cor do pasto já ressequido pela falta de água, Baltazar Ramos, pedreiro de profissão e que acumula desde 2009 a tarefa de representar os cerca de 320 habitantes da freguesia da Boa Fé, desde que foi eleito presidente da junta, confessa-nos que "a conversa do ouro já chateia um bocado". O autarca tem-se desdobrado em declarações a órgãos nacionais e internacionais, mas não muda um milímetro na opinião. "É ver para crer."

Contudo, há ainda muitas outras questões que preocupam Baltazar. "Se vão abrir uma mina, por onde é que vão passar os camiões com toneladas e toneladas de terra e pedra? Não há estradas, não há infra-estruturas. Espero que seja para avançar, mas há muitas condições que a população não tem e que devem ser criadas se isto vier mesmo a acontecer", defende, com os olhos postos também em outras necessidades da pequena aldeia, como a possível extinção da freguesia ou a vontade de recuperar o lagar abandonado e a degradar-se.

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As questões ambientais são outras das grandes preocupações do autarca. "Há uns 20 anos fizeram uma perfuração que estragou um lençol de água do qual não nos podemos servir durante mais de 15 anos. Avancem, contem com o nosso apoio, mas a população não pode sair prejudicada", argumentou Baltazar Ramos, que está neste momento a estudar a maneira de a população beneficiar directamente com os trabalhos no terreno.

"Estamos a ver se há hipótese de a freguesia receber uma compensação, tal como acontece noutras zonas de exploração mineira", acrescentou o homem de 50 anos que, apesar de mostrar algum cepticismo, espera que a criação de postos de trabalho na região venha a ser uma realidade.

ESCOURAL BENEFICIOU MAIS

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Até agora apenas sete pessoas da região estão a trabalhar com os engenheiros que vieram de fora, inclusive do estrangeiro, e que comandam as operações no terreno. Essas sete pessoas, todas residentes na freguesia do Escoural, e algumas delas com experiência de trabalho nas anteriores explorações, foram as que conseguiram fugir ao fantasma do desemprego, pelo menos durante os próximos dois anos; ou seja, até ao final das sondagens.

Na aldeia do Escoural, maior que a Boa Fé, com 1740 habitantes e dotada de outros serviços, está instalada a ‘sede de campanha’ da Colt. É em dois edifícios que se guardam as amostras retiradas do solo e se montam autênticos puzzles em caixas que seguem para análise. É com o trabalho desenvolvido nesse lugar que possivelmente se vai decidir se a mina avança.

"Embora a maior parte da exploração seja na freguesia da Boa Fé, acredito que se tenham sediado aqui porque sempre há mais restaurantes, mais oferta de arrendamento de casas e as infra-estruturas para o pavilhão de recolha das amostras de solo", explica Duarte da Luz, presidente da Junta de Freguesia do Escoural, a localidade que até agora mais beneficiou com a prospecção. Nos dias que correm, é a campanha da cortiça que mantém mais gente ocupada, mas os que permanecem pela localidade também esperam um futuro melhor.

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"Não há dúvida de que estamos melhor com os trabalhos do que sem eles, mas ambicionamos mais. Oxalá tudo avance como previsto", frisou o mesmo autarca.

Maria Emília Branco, nascida e criada na serra do Monfurado, disse à Domingo que pouco tem sentido a diferença no negócio. "Há um ligeiro aumento do movimento, mas ainda não podemos dizer que estamos a beneficiar muito. Se realmente avançar a mina e criarem os postos de trabalho que dizem, à volta de 100, vai ser muito bom para a região", explicou a proprietária da pastelaria 4 Bicas, vizinha da Junta de Freguesia do Escoural.

O estudo de impacte ambiental será decisivo, como referiu recentemente José Ernesto Oliveira, presidente da Câmara de Évora, que, se a mina avançar, já não verá, como edil, a extracção do minério no concelho, visto que termina o terceiro mandato em 2013. "As prospecções estão a apontar para teores de ouro acima do esperado, mas ainda não existe informação da empresa relacionada com a exploração, uma vez que as sondagens terminam em 2014. Mas os valores anunciados deixam-nos optimistas. Os impactes ambientais serão sempre acautelados", frisou o mesmo autarca a propósito da localização de parte da futura exploração na Rede Natura.

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É nos postos de trabalho que todos os responsáveis da região têm os olhos. Só isso merecerá o esforço das populações, os trabalhos no terreno e a possível mudança da face de uma das regiões com menor pegada humana do País. "Criará sempre postos de trabalho no concelho. Existe muita mão-de-obra sem trabalho nas freguesias onde decorrem as sondagens. Iria combater a desertificação e levar algumas pessoas, sobretudo emigrantes, a regressar à terra. Existem contactos permanentes. Já foram efectuadas diversas reuniões e visitas aos locais das perfurações", avançou José Ernesto Oliveira.

No Escoural e na Boa Fé, o sino na igreja marca como sempre a cadência das horas – o passar do tempo que permanece sempre igual. "Já a minha mãe me falava do ouro. No sítio onde eu nasci, há 51 anos, havia minas, e uma linha de caminho de ferro, onde eu já nunca vi passar o comboio. Aliás, os meus pais foram morar para uma casa que foi deixada pelos mineiros que se foram embora, ainda antes de eu nascer", acrescentou Maria Emília Branco, comerciante que vende também a sorte dos jogos da Santa Casa.

Pelo corrupio de clientes em dia de "pôr o Euromilhões", percebe-se que há mais fé na rapidez com que pode chegar a fortuna em cinco números e duas estrelas do que no ouro alentejano procurado pelos canadianos. Diz Emília: "Já ouvimos esta conversa muitas vezes. O filme é sempre igual. Ficam um ano ou dois, depois abrem falência e vão-se embora. Honestamente, acredito pouco, mas era bom."

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A PEDRA GUARDADA POR UM CURIOSO DOS FENÓMENOS PARANORMAIS

Margarida Banha guarda uma recordação que faz as delícias dos curiosos. Herdou-a de seu pai. José Francisco Banha era um entusiasta dos fenómenos paranormais,

a quem mineiros de outros tempos ofereceram uma pedra que brilha [na fotografia]. "O meu pai acreditava mais na existência de ovnis do que no ouro no Monfurado, mas esta pedra que foi tirada aí na serra pode ser a prova. Resta saber se existe aqui em quantidade suficiente para justificar a exploração", explicou a proprietária do café Banha, local onde tem guardado o artefacto. Os traços metálicos, dourados, que pintam o bloco aumentam

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a esperança de que muitas toneladas iguais se possam encontrar do mesmo sítio de onde este veio. "Até já me perguntaram se isto foi pintado. Claro que não! É uma recordação bonita que vou passar para os netos", acrescentou.

NOTAS

MERCADO

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A alta cotação do ouro nos mercados entusiasma a empresas de exploração mineira.

ALENTEJO

Os estudos estimam que a exploração do ouro alentejano possa valer cerca de 467 milhões de euros.

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