A explicação da mania das osgas em casa
É uma entre as muitas osgas que tem espalhadas pela casa, Consequência de ter elevado o bicho à condição de narrador de um livro.
Colecciona, se assim se pode dizer, livros e discos, e são os objectos a que presta mais atenção. "Se fosse rico coleccionaria pranchas de BD, como não sou tenho apenas alguns desenhos originais do Loustal, que é um artista de que gosto muito. Pretendo continuar a comprar sempre que tiver um pouco de dinheiro a mais, até porque me parece um bom investimento".
Mas escolheu como objecto uma osga em porcelana, que veio do Rio de Janeiro e foi oferta de uma amiga, a Connie Lopes, que fundou consigo a Língua Geral, uma pequena editora brasileira. Tem a virtude de lhe fazer recordar uma cidade de que gosta muito e onde tem sido feliz. Está na parede ao lado da mesa onde trabalha, e recorda um dos seus romances mais traduzidos, ‘O Vendedor de Passados’, cujo narrador é uma osga.
"Depois que publiquei o livro comecei a receber osgas de presente. Hoje tenho muitas espalhadas por toda a casa. Também tenho uma osga verdadeira, enorme, mas é muito tímida e só costuma aparecer depois das duas da manhã. Uma vez apareceu-me uma senhora na feira do livro de Lisboa agradecendo-me por ter escrito ‘O Vendedor de Passados’ com uma osga que ri. Contou-me que tem em casa uma osga que canta e que os amigos não acreditam. Respondi-lhe que as osgas não cantam para toda a gente, só para quem merece. Ainda espero que um dia cantem para mim".
E TAMBÉM RIEM
Tem osgas muito diferentes. Umas de arame, sul-africanas, outras de bronze, e até de pano, com areia dentro. Acha que isso mostra que há muitas pessoas fascinadas por osgas. "Lembro-me de uma senhora, esta em França, que me disse que tinha horror a osgas antes de ler o meu livro e que depois começou a olhar para elas de outra maneira. Hoje sente que lhe fazem companhia."
A verdade é que a osga do seu romance é a única personagem inspirada na realidade. "Estive uma vez na Malásia, há muitos anos, e na floresta de Tamam Negara conheci uma osga que ria. Quando publiquei o romance recebi uma carta de uma bióloga portuguesa que me falava disso, do facto de existirem certas osgas que produzem um som semelhante a um riso humano. Foi essa experiência, na Malásia, que me levou a criar o ‘Eulálio’, o narrador de ‘O Vendedor de Passados’".
FÉRIAS DE GAROTO EM LOBITO
A José Eduardo Agualusa as osgas recordam-lhe as férias de Março, quando era criança no Lobito, uma cidade da província de Benguela, em Angola. "Ficámos algumas vezes em casa de amigos do meu pai, e as osgas eram visitas frequentes", recorda o escritor, autor de ‘O Vendedor de Passados’, cujo narrador é a osga ‘Eulálio’. "As osgas são criaturas tímidas, mas muito simpáticas, além de úteis, pois alimentam-se de mosquitos – e dessa forma ajudam também a controlar a malária, doença que continua a matar muitos milhares de pessoas todos os anos, sobretudo em África."
PERFIL
Profissão: Escritor
Idade: 49 anos
Projectos: O novo romance vai ser publicado no Outono. Vai escrever uma nova peça de teatro com Mia Couto, depois de ‘Chovem Amores na Rua do Matador’, uma proposta do grupo Trigo Limpo.
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