A força dos negociadores

Calmos, pacientes, voz pausada. Não mentem nem aceitam baixas e a entrada pela força só em último recurso. Os negociadores da GNR e Polícia Judiciária avançam em tentativas de suicídio, sequestros e barricados e as suas técnicas têm cem por cento de sucesso no resgate de reféns. Só dois presos na cadeia de Pinheiro da Cruz tiveram que levar uma descarga eléctrica.

24 de junho de 2007 às 00:00
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O corpo dormente é varado por rajadas de vento e os pés quase escorregam da curta chapa de zinco. José Augusto ameaça, trémulo, que se faz ao balde da grua, mas, num ápice, ergue-se no poste e soltam--se os braços. Ignora as mãos dos bombeiros a dois passos e respira fundo, espreita o abismo a 35 metros pela última vez. Benze-se e respira fundo. Cerra os olhos e balança o corpo no vazio, cinco horas de negociação mas está pronto a voar para a morte. O trolha afinal recua e salva a estreia do jovem capitão, pregado à estrada e suspenso no megafone da GNR. “Estava um frio de cortar e não queria que ele caísse em hipotermia. Mandava-o mexer os dedos e o balde era só para lhe levar roupa”, justifica hoje o major Victorino Canas, seis anos depois de Alverca. Mais sete horas de conversa e, com cigarros pelo meio, o suicida lá desceu. Cruzou médicos, polícias e, entre abraços à família, foi para casa dormir descansado. E só no dia a seguir a Polícia Judiciária o foi arrancar da cama. Já tinha assassinado a namorada à pancada com um ferro das obras.

O primeiro passo é recolher toda a informação. “Saber quem é, laços afectivos e toda a sua história até chegar ali”. Os negociadores avançam em suicídios, sequestros, barricados. E atacam o melhor ponto para estabelecer contacto. “Se for à vista, melhor”, local reservado e onde só os especialistas têm acesso. Depois é ouvir muito e falar pouco. Saber escutar. No caso do poste de alta tensão em Alverca tudo falha menos o desfecho, “nem havia telemóveis”. Só o megafone. “Foi um monólogo de doze horas e à noite já nem o conseguia ver”. Chegou a família de Vila Nova de Gaia e, quando os viu, desceu. Por sorte, confessa o negociador da GNR, 43 anos. “O diálogo ali era impossível”.

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A negociação é área por formar em Portugal até 2002, quando o país acorda com Manuel Subtil barricado numa casa de banho da RTP. Até essa altura ninguém tinha o curso de negociação. Que não era encarada como algo a tratar de forma específica, com regras. As polícias no local tentavam resolver, mas “a negociação é essencial”, garante o inspector-chefe Manuel Rodrigues, 52 anos, os últimos 28 ligados ao crime violento, no combate a raptos e sequestros. Formou-se negociador em 2002 mas nem sempre os casos “são negociáveis”. Fez carreira na elite da Direcção Central de Combate ao Banditismo (DCCB) e a entrada pela força é outra das suas valências.

Conta sete casos e meio de sucesso. Sem baixas. E o ‘meio’ justifica-se no sequestro do capelão de Pinheiro da Cruz, em Novembro do ano passado. Porque era diferente. “São dois reclusos a cumprir penas pesadas”, violentos e armados com facas, numa situação em que liquidar o padre Júlio Lemos pouco ia agravar as suas vidas. Em Portugal a lei não permite a soma de penas para lá dos 25 anos e pouco tinham a perder. O inspector conseguiu esticar as negociações aos limites mas, já de madrugada, chegou a vez de a Companhia de Operações Especiais da GNR estrear as taser em situação real. Uma descarga eléctrica das novas pistolas fez cair por terra os dois cadastrados.

MAJOR CANAS

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O major Canas salvou a única tentativa de suicídio em plena Ponte Vasco da Gama e “largas dezenas” na Ponte 25 de Abril. Excepção feita ao caso do surdo-mudo, em Janeiro do ano passado, em que foi uma equipa da PSP e o INEM a actuar. Américo Mendes matou a mulher à facada e seguiu para o tabuleiro da ponte. Ameaçava lançar-se ao Tejo quando a psicóloga Joana Faria o conseguiu resgatar. “O mais importante é a comunicação. E nesses casos temos que arranjar um tradutor que, por linguagem gestual, faça tudo o que lhe pedimos. Mas a técnica é nossa e o procedimento de negociação mantém-se”.

O sequestrador ou suicida entra num beco sem saída, “a sua capacidade racional é muito baixa”. E o papel do negociador é “ajudá-lo a abrir as portas” do problema. O clima de confiança é essencial num processo em que não há vencedores nem vencidos. “A saída não é uma derrota para ele, procuramos um trabalho de equipa que melhore a sua auto-estima”, diz o negociador da GNR. Afinal não é mais do que “uma adaptação do conceito empresarial win-win”, acrescenta o inspector da PJ, “em que todos ganham. Procura-se a resolução do conflito sem frustrações”. Difícil é alguém sentir que ganha quando, na melhor das hipóteses, esperam-no um juiz e a cadeia. Mas o “não mentir” é regra número um da negociação, asseguram. E só há que jogar com o mal menor. “O que está feito está feito e procuramos sair de dentro do mal, mas não aceitamos nem fazemos propostas irreais”.

José Augusto puxou de um ferro de construção civil e matou Regina com quatro golpes. A droga levara a namorada a prostituir-se em Arcozelo, Vila Nova de Gaia, e não havia forma de se corrigir. Tinha 25 anos na noite em que a deixou tombada e, na manhã seguinte, Outubro de 2001, fez-se à Auto-estrada do Norte. Não pagou portagens e só saiu em Alverca. Viu um carro da polícia e pensou que fosse para ele. Não era. Subiu a um poste de alta tensão e por ali ficou das 11h00 até à meia-noite. Mas ninguém avisou o então capitão Canas do crime. E o pai “só pedia que lhe salvasse o filho”.

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O ‘não’ seco é palavra proibida na negociação, “tem sempre que ser justificado”. E Augusto pediu uma pistola e munição para se matar. “Podia ter-lhe deixado a arma cá em baixo, para o apanhar, mas não o fiz. Somos leais em todo o processo, não metemos drogas na comida ou nas bebidas”. Até porque eles muitas vezes pedem cobaias para provar os alimentos. Mas “quando o clima de confiança já não existe, quando há uma ruptura na negociação”, ou é substituído o especialista, ou, último recurso, “parte-se para uma intervenção táctica”. E avançam as forças especiais.

SUCESSO

O comandante táctico no local decide mas ninguém avança sem conhecimento do negociador. “Procura-se um consenso”. A preocupação no assalto é não causar vítimas, “marca-se a melhor hora para as equipas entrarem. E hoje em dia já há meios para avançar à noite ou de madrugada”. Sem baixas. A taxa de sucesso é cem por cento para este oficial da GNR, suicídios ou sequestros, e não sabe se está preparado para perder alguém. “Uma vida é uma vida. Claro que é sempre uma hipótese e há que reagir”, mas, olhando para o mais dramático exemplo fora de portas, o massacre da escola na Ossétia do Norte, Rússia, Setembro de 2004, “vários erros foram cometidos”. Entre os 330 mortos, 185 eram crianças e “não é aceitável, em caso algum, sofrer baixas”. Quando não há visibilidade, por mais meios que a polícia tenha, correm-se riscos a entrar. “Estou por fora, mas, naquele caso, acredito que devia ter havido mais tempo de negociação”.

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O major Canas chefia o gabinete de psicologia da GNR. É lá que se concentram os 20 militares aptos para a negociação em Portugal, formados junto das polícias inglesa e norte-americana, e que actuam por todo o país. Só em Lisboa estão sedeadas duas equipas de três militares cada. Sempre de prevenção. E nos tempos mortos “discutem-se estratégias, recebe-se formação”, analisam-se os casos que acontecem pelo mundo fora. “O terrorismo é diferente. Falamos de pessoas cujos valores de vida são muito duvidosos. É difícil negociar com quem tem regras diferentes das nossas. O não cumprir da missão é uma traição ao grupo”, como se estivessem formatados para aquela missão.

Gestão de crises e negociação com a Polícia Federal brasileira foi um dos cursos que Manuel Rodrigues tirou há dois anos, “mais vocacionado para os motins e outras situações que ainda não temos cá”. Curioso é que o chefe dos negociadores da PJ “era incapaz de vender fosse o que fosse”, não tem “qualquer jeito para o negócio e ia logo à falência”.

Mas Pinheiro da Cruz foi o único caso que não venceu pela negociação. E em Almada, Outubro do ano passado, conseguiu que o sequestrador deixasse sair do Santander os cinco reféns, um por um, até que ficou só o gerente. “Estabeleci uma relação com o homem e, a certa altura, ele já só não saía dali com medo da polícia. Tinha medo de deixar o banco e levar um tiro”.

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O inspector entrou desarmado e foi buscá-lo. “Ele tinha duas pistolas mas afinal eram réplicas”. E para Manuel Rodrigues, deixar sempre a sua Glock de 9 milímetros a um colega é regra base. “Para precaver qualquer situação e ganhar a confiança dele. Mas não por medo de perder o controlo, estou ali para ajudar. E o que se exerce ali não é força policial, é acção psicológica”.

Os negociadores procuram a maior aproximação possível, “olhos nos olhos, tentando criar uma empatia. Ele fala o mais possível” e a polícia só dirige a conversação. Não dá lições de moral. “Descarrega e é preciso encontrar soluções”. Por isso o inspector é uma pessoa calma. Paciente. Num sotaque carregado do Norte mas voz pausada.

EFEITO SURPRESA

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Já nos anos que leva de banditismo a conversa é outra, “a diferença está na forma como a situação rebenta”. Sem câmaras nem sirenes joga-se com o efeito surpresa. “O mediatismo faz toda a diferença” e o tempo de reacção num assalto é fundamental. O conselho aos bancários é para que mantenham a calma, nunca accionar os alarmes antes de o assaltante sair. Em Almada, o roubo virou sequestro quando o ladrão viu as sirenes da PSP à saída e o desespero fê-lo voltar para trás. Barricou-se lá dentro. Quando chega, o inspector quer saber quem tem pela frente, os motivos, antecedentes, como se move, se está medicado, perturbações mentais – e “tudo isto é forçoso e rápido. Para saber logo como abordá-lo, há gente normal com picos de desespero”.

O contacto directo é importante, mas, do megafone ao telemóvel, já passou por tudo. “Até situações mistas, que começam ao telefone a acabam cara-a-cara”. Foi o caso da Rinchoa, Junho de 2003, quando Jorge Dalas sequestrou os dois filhos num telhado. O major Canas chegou às 05h00 e o contacto por telemóvel não conhecia avanços. A PJ foi chamada às 12h00 e, ao fim de três horas, as duas crianças foram entregues cara-a-cara. Protestava com a decisão judicial que o impedia de se aproximar dos filhos e “queria publicidade”. Manuel Rodrigues resolveu o caso mas lembra-se de sentir as crianças em risco. “Tentei várias vezes aproximar-me e, de cada vez que o fazia, ele chegava os filhos para a beira do telhado”. E isto “para além da navalha” que o sequestrador usava para afastar a polícia.

BAPTISMO

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Mas o baptismo do inspector-chefe, na Amadora, “foi complicado pela falta de informação”. No caso em que a dona de uma creche, por uma acção de despejo, se barricou lá dentro com várias crianças deficientes. “Aquilo cheio de miúdos, que não sabíamos quantos eram, a situação descontrolou-se”. Começou à meia-noite e o negociador conseguiu lá entrar pelas 10h00, depois de a convencer a abrir-lhe a porta.

Dezembro de 2002. “E a parte mais desagradável era o imenso frio que estava, nunca tive uma namorada que me fizesse sofrer tanto à janela”, brinca. O ideal no fim “é desligar dos casos, até por uma questão de sanidade mental”. Mas nem sempre é fácil. E o oficial da GNR confessa que às vezes fica curioso. “É reconfortante sentir que confiam em nós. Sabermos que lhes elevámos a auto-estima, fomos úteis”.

Uma equipa de investigação criminal entrou numa casa em Sobral de Monte Agraço, com mandado judicial por furtos, e foi recebida a tiro. Um militar perdeu uma vista, a patrulha saiu e Manuel Cardoso barricou-se. “Se alguém cá entrar morre”, gritava em desespero o padeiro de 60 anos, em Janeiro do ano passado. Foram 28 horas ao telemóvel até que o major Canas o demoveu, “sabendo que enfrentava o juiz e a cadeia” – acabou condenado a 16 anos. “Mas é preciso valorizar sempre a vida face às consequências da morte”. E avisa-os, “sempre que é preciso e sem ameaças”, que, se a negociação falhar e avançarem as operações especiais, aí já não é da sua responsabilidade.

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As equipas de negociação têm quatro a cinco elementos e uma cadeia hierárquica de comando. Integram um elemento da informação, que faz o seu tratamento, um psicólogo, que traça o perfil do sequestrador, e um elemento de contacto ao exterior. É a célula da investigação. E a PJ tem equipas de negociadores pelo país todo, quatro ao todo, entre as directorias do Porto, Lisboa, Coimbra e Faro.

DOZE ESPECIALISTAS

São doze especialistas no total, mas, “quando a situação evolui” e se estende pelo tempo, avança a equipa de Lisboa, chefiada pelo inspector-chefe Manuel Rodrigues. “A negociação é uma estrutura, com um comando que decide. E deve ser levada aos limites, para evitar sempre a intervenção táctica”.

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A investigação de sequestros é sempre da competência da Polícia Judiciária, com a PSP e GNR a avançarem primeiro para o local, consoante a área de jurisdição. “Iniciamos a negociação e, quem o faz, deve continuar, já se criou um clima de confiança com o sequestrador. E isso nunca se deve quebrar”, lembra o oficial da GNR. Em suicidas, “sempre que estão sozinhos”, a PJ só avança se estiverem associados a rapto, sequestro ou terrorismo, “crimes que serão depois seguidos e investigados”, acrescenta o inspector-chefe da Judiciária.

Mas as relações entre PJ e GNR “são óptimas” e “raros são os casos em que a quebra de confiança obriga a mudar. A coordenação é sempre da PJ”, ressalva o major Canas. A GNR tem os suicídios a seu cargo, mas nem sempre é fácil. E na Ponte 25 de Abril, com uma perna para cada lado, o vento a correr nas costas, todas as palavras têm que ser medidas. “Qualquer coisa mal dita pode ser fatal”. O major não esquece a noite de nevoeiro com um homem pendurado no travessão dos pilares mais altos. Aproximou-se ao máximo mas a comunicação foi feita por telemóvel. De voz pausada, a estabilizá-lo. Ouvir muito e falar o menos possível. Que, afinal, é o grande segredo do negócio.

NOTA: O pedido de reportagem junto da PSP, que faz negociação através do Grupo de Operações Especiais, não foi aceite por se tratar de “matéria reservada”, justificou à Domingo o Gabinete de Comunicação e Relações Públicas da Direcção Nacional

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MAJOR VICTORINO CANAS

Major Victorino Canas, 43 anos, nasceu em Angola, foi oficial de Infantaria do Exército durante cinco anos e ingressou na GNR em 1989 como oficial de Cavalaria. Formou-se em Psicologia, na Universidade Lusófona de Lisboa, e está a concluir um mestrado em Psicologia Social, no Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa (ISCTE), que também passa pela área da negociação.

Fez uma pós-graduação em Direito e Segurança e ainda um curso de negociadores – Gestão de Conflitos e Técnicas de Negociação –, no Instituto Nacional de Administração (INA), em Oeiras. E durante no último ano fez um curso de negociadores da Guardia Civil espanhola, vocacionado para casos de sequestro, barricados e suicídios, num curso prático de uma semana. Coordena actualmente o Gabinete de Psicologia da GNR.

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INSPECTOR-CHEFE MANUEL RODRIGUES

Inspector-chefe Manuel Rodrigues, 52 anos, há 28 na Polícia Judiciária, os primeiros três na secção de assaltos à mão armada e os 23 seguintes ligado aos raptos e sequestros na Direcção Central de Combate ao Banditismo.

Terminou o curso de formação de negociadores em 2002, no Instituto Superior de Polícia Judiciária e Ciências Criminais, depois o curso de formador e gestão de crises e negociação na polícia brasileira. Está hoje no combate ao crime económico da PJ.

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20 Número de militares da GNR de prevenção e aptos a negociar, em equipas de três elementos, em todo o país

12 Negociadores da Polícia Judiciária, em equipas de quatro, nas directorias de Lisboa, Porto, Faro e Coimbra

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