A força dos negociadores
Calmos, pacientes, voz pausada. Não mentem nem aceitam baixas e a entrada pela força só em último recurso. Os negociadores da GNR e Polícia Judiciária avançam em tentativas de suicídio, sequestros e barricados e as suas técnicas têm cem por cento de sucesso no resgate de reféns. Só dois presos na cadeia de Pinheiro da Cruz tiveram que levar uma descarga eléctrica.
O corpo dormente é varado por rajadas de vento e os pés quase escorregam da curta chapa de zinco. José Augusto ameaça, trémulo, que se faz ao balde da grua, mas, num ápice, ergue-se no poste e soltam--se os braços. Ignora as mãos dos bombeiros a dois passos e respira fundo, espreita o abismo a 35 metros pela última vez. Benze-se e respira fundo. Cerra os olhos e balança o corpo no vazio, cinco horas de negociação mas está pronto a voar para a morte. O trolha afinal recua e salva a estreia do jovem capitão, pregado à estrada e suspenso no megafone da GNR. “Estava um frio de cortar e não queria que ele caísse em hipotermia. Mandava-o mexer os dedos e o balde era só para lhe levar roupa”, justifica hoje o major Victorino Canas, seis anos depois de Alverca. Mais sete horas de conversa e, com cigarros pelo meio, o suicida lá desceu. Cruzou médicos, polícias e, entre abraços à família, foi para casa dormir descansado. E só no dia a seguir a Polícia Judiciária o foi arrancar da cama. Já tinha assassinado a namorada à pancada com um ferro das obras.
O primeiro passo é recolher toda a informação. “Saber quem é, laços afectivos e toda a sua história até chegar ali”. Os negociadores avançam em suicídios, sequestros, barricados. E atacam o melhor ponto para estabelecer contacto. “Se for à vista, melhor”, local reservado e onde só os especialistas têm acesso. Depois é ouvir muito e falar pouco. Saber escutar. No caso do poste de alta tensão em Alverca tudo falha menos o desfecho, “nem havia telemóveis”. Só o megafone. “Foi um monólogo de doze horas e à noite já nem o conseguia ver”. Chegou a família de Vila Nova de Gaia e, quando os viu, desceu. Por sorte, confessa o negociador da GNR, 43 anos. “O diálogo ali era impossível”.
A negociação é área por formar em Portugal até 2002, quando o país acorda com Manuel Subtil barricado numa casa de banho da RTP. Até essa altura ninguém tinha o curso de negociação. Que não era encarada como algo a tratar de forma específica, com regras. As polícias no local tentavam resolver, mas “a negociação é essencial”, garante o inspector-chefe Manuel Rodrigues, 52 anos, os últimos 28 ligados ao crime violento, no combate a raptos e sequestros. Formou-se negociador em 2002 mas nem sempre os casos “são negociáveis”. Fez carreira na elite da Direcção Central de Combate ao Banditismo (DCCB) e a entrada pela força é outra das suas valências.
Conta sete casos e meio de sucesso. Sem baixas. E o ‘meio’ justifica-se no sequestro do capelão de Pinheiro da Cruz, em Novembro do ano passado. Porque era diferente. “São dois reclusos a cumprir penas pesadas”, violentos e armados com facas, numa situação em que liquidar o padre Júlio Lemos pouco ia agravar as suas vidas. Em Portugal a lei não permite a soma de penas para lá dos 25 anos e pouco tinham a perder. O inspector conseguiu esticar as negociações aos limites mas, já de madrugada, chegou a vez de a Companhia de Operações Especiais da GNR estrear as taser em situação real. Uma descarga eléctrica das novas pistolas fez cair por terra os dois cadastrados.
MAJOR CANAS
O major Canas salvou a única tentativa de suicídio em plena Ponte Vasco da Gama e “largas dezenas” na Ponte 25 de Abril. Excepção feita ao caso do surdo-mudo, em Janeiro do ano passado, em que foi uma equipa da PSP e o INEM a actuar. Américo Mendes matou a mulher à facada e seguiu para o tabuleiro da ponte. Ameaçava lançar-se ao Tejo quando a psicóloga Joana Faria o conseguiu resgatar. “O mais importante é a comunicação. E nesses casos temos que arranjar um tradutor que, por linguagem gestual, faça tudo o que lhe pedimos. Mas a técnica é nossa e o procedimento de negociação mantém-se”.
O sequestrador ou suicida entra num beco sem saída, “a sua capacidade racional é muito baixa”. E o papel do negociador é “ajudá-lo a abrir as portas” do problema. O clima de confiança é essencial num processo em que não há vencedores nem vencidos. “A saída não é uma derrota para ele, procuramos um trabalho de equipa que melhore a sua auto-estima”, diz o negociador da GNR. Afinal não é mais do que “uma adaptação do conceito empresarial win-win”, acrescenta o inspector da PJ, “em que todos ganham. Procura-se a resolução do conflito sem frustrações”. Difícil é alguém sentir que ganha quando, na melhor das hipóteses, esperam-no um juiz e a cadeia. Mas o “não mentir” é regra número um da negociação, asseguram. E só há que jogar com o mal menor. “O que está feito está feito e procuramos sair de dentro do mal, mas não aceitamos nem fazemos propostas irreais”.
José Augusto puxou de um ferro de construção civil e matou Regina com quatro golpes. A droga levara a namorada a prostituir-se em Arcozelo, Vila Nova de Gaia, e não havia forma de se corrigir. Tinha 25 anos na noite em que a deixou tombada e, na manhã seguinte, Outubro de 2001, fez-se à Auto-estrada do Norte. Não pagou portagens e só saiu em Alverca. Viu um carro da polícia e pensou que fosse para ele. Não era. Subiu a um poste de alta tensão e por ali ficou das 11h00 até à meia-noite. Mas ninguém avisou o então capitão Canas do crime. E o pai “só pedia que lhe salvasse o filho”.
O ‘não’ seco é palavra proibida na negociação, “tem sempre que ser justificado”. E Augusto pediu uma pistola e munição para se matar. “Podia ter-lhe deixado a arma cá em baixo, para o apanhar, mas não o fiz. Somos leais em todo o processo, não metemos drogas na comida ou nas bebidas”. Até porque eles muitas vezes pedem cobaias para provar os alimentos. Mas “quando o clima de confiança já não existe, quando há uma ruptura na negociação”, ou é substituído o especialista, ou, último recurso, “parte-se para uma intervenção táctica”. E avançam as forças especiais.
SUCESSO
O comandante táctico no local decide mas ninguém avança sem conhecimento do negociador. “Procura-se um consenso”. A preocupação no assalto é não causar vítimas, “marca-se a melhor hora para as equipas entrarem. E hoje em dia já há meios para avançar à noite ou de madrugada”. Sem baixas. A taxa de sucesso é cem por cento para este oficial da GNR, suicídios ou sequestros, e não sabe se está preparado para perder alguém. “Uma vida é uma vida. Claro que é sempre uma hipótese e há que reagir”, mas, olhando para o mais dramático exemplo fora de portas, o massacre da escola na Ossétia do Norte, Rússia, Setembro de 2004, “vários erros foram cometidos”. Entre os 330 mortos, 185 eram crianças e “não é aceitável, em caso algum, sofrer baixas”. Quando não há visibilidade, por mais meios que a polícia tenha, correm-se riscos a entrar. “Estou por fora, mas, naquele caso, acredito que devia ter havido mais tempo de negociação”.
O major Canas chefia o gabinete de psicologia da GNR. É lá que se concentram os 20 militares aptos para a negociação em Portugal, formados junto das polícias inglesa e norte-americana, e que actuam por todo o país. Só em Lisboa estão sedeadas duas equipas de três militares cada. Sempre de prevenção. E nos tempos mortos “discutem-se estratégias, recebe-se formação”, analisam-se os casos que acontecem pelo mundo fora. “O terrorismo é diferente. Falamos de pessoas cujos valores de vida são muito duvidosos. É difícil negociar com quem tem regras diferentes das nossas. O não cumprir da missão é uma traição ao grupo”, como se estivessem formatados para aquela missão.
Gestão de crises e negociação com a Polícia Federal brasileira foi um dos cursos que Manuel Rodrigues tirou há dois anos, “mais vocacionado para os motins e outras situações que ainda não temos cá”. Curioso é que o chefe dos negociadores da PJ “era incapaz de vender fosse o que fosse”, não tem “qualquer jeito para o negócio e ia logo à falência”.
Mas Pinheiro da Cruz foi o único caso que não venceu pela negociação. E em Almada, Outubro do ano passado, conseguiu que o sequestrador deixasse sair do Santander os cinco reféns, um por um, até que ficou só o gerente. “Estabeleci uma relação com o homem e, a certa altura, ele já só não saía dali com medo da polícia. Tinha medo de deixar o banco e levar um tiro”.
O inspector entrou desarmado e foi buscá-lo. “Ele tinha duas pistolas mas afinal eram réplicas”. E para Manuel Rodrigues, deixar sempre a sua Glock de 9 milímetros a um colega é regra base. “Para precaver qualquer situação e ganhar a confiança dele. Mas não por medo de perder o controlo, estou ali para ajudar. E o que se exerce ali não é força policial, é acção psicológica”.
Os negociadores procuram a maior aproximação possível, “olhos nos olhos, tentando criar uma empatia. Ele fala o mais possível” e a polícia só dirige a conversação. Não dá lições de moral. “Descarrega e é preciso encontrar soluções”. Por isso o inspector é uma pessoa calma. Paciente. Num sotaque carregado do Norte mas voz pausada.
EFEITO SURPRESA
Já nos anos que leva de banditismo a conversa é outra, “a diferença está na forma como a situação rebenta”. Sem câmaras nem sirenes joga-se com o efeito surpresa. “O mediatismo faz toda a diferença” e o tempo de reacção num assalto é fundamental. O conselho aos bancários é para que mantenham a calma, nunca accionar os alarmes antes de o assaltante sair. Em Almada, o roubo virou sequestro quando o ladrão viu as sirenes da PSP à saída e o desespero fê-lo voltar para trás. Barricou-se lá dentro. Quando chega, o inspector quer saber quem tem pela frente, os motivos, antecedentes, como se move, se está medicado, perturbações mentais – e “tudo isto é forçoso e rápido. Para saber logo como abordá-lo, há gente normal com picos de desespero”.
O contacto directo é importante, mas, do megafone ao telemóvel, já passou por tudo. “Até situações mistas, que começam ao telefone a acabam cara-a-cara”. Foi o caso da Rinchoa, Junho de 2003, quando Jorge Dalas sequestrou os dois filhos num telhado. O major Canas chegou às 05h00 e o contacto por telemóvel não conhecia avanços. A PJ foi chamada às 12h00 e, ao fim de três horas, as duas crianças foram entregues cara-a-cara. Protestava com a decisão judicial que o impedia de se aproximar dos filhos e “queria publicidade”. Manuel Rodrigues resolveu o caso mas lembra-se de sentir as crianças em risco. “Tentei várias vezes aproximar-me e, de cada vez que o fazia, ele chegava os filhos para a beira do telhado”. E isto “para além da navalha” que o sequestrador usava para afastar a polícia.
BAPTISMO
Mas o baptismo do inspector-chefe, na Amadora, “foi complicado pela falta de informação”. No caso em que a dona de uma creche, por uma acção de despejo, se barricou lá dentro com várias crianças deficientes. “Aquilo cheio de miúdos, que não sabíamos quantos eram, a situação descontrolou-se”. Começou à meia-noite e o negociador conseguiu lá entrar pelas 10h00, depois de a convencer a abrir-lhe a porta.
Dezembro de 2002. “E a parte mais desagradável era o imenso frio que estava, nunca tive uma namorada que me fizesse sofrer tanto à janela”, brinca. O ideal no fim “é desligar dos casos, até por uma questão de sanidade mental”. Mas nem sempre é fácil. E o oficial da GNR confessa que às vezes fica curioso. “É reconfortante sentir que confiam em nós. Sabermos que lhes elevámos a auto-estima, fomos úteis”.
Uma equipa de investigação criminal entrou numa casa em Sobral de Monte Agraço, com mandado judicial por furtos, e foi recebida a tiro. Um militar perdeu uma vista, a patrulha saiu e Manuel Cardoso barricou-se. “Se alguém cá entrar morre”, gritava em desespero o padeiro de 60 anos, em Janeiro do ano passado. Foram 28 horas ao telemóvel até que o major Canas o demoveu, “sabendo que enfrentava o juiz e a cadeia” – acabou condenado a 16 anos. “Mas é preciso valorizar sempre a vida face às consequências da morte”. E avisa-os, “sempre que é preciso e sem ameaças”, que, se a negociação falhar e avançarem as operações especiais, aí já não é da sua responsabilidade.
As equipas de negociação têm quatro a cinco elementos e uma cadeia hierárquica de comando. Integram um elemento da informação, que faz o seu tratamento, um psicólogo, que traça o perfil do sequestrador, e um elemento de contacto ao exterior. É a célula da investigação. E a PJ tem equipas de negociadores pelo país todo, quatro ao todo, entre as directorias do Porto, Lisboa, Coimbra e Faro.
DOZE ESPECIALISTAS
São doze especialistas no total, mas, “quando a situação evolui” e se estende pelo tempo, avança a equipa de Lisboa, chefiada pelo inspector-chefe Manuel Rodrigues. “A negociação é uma estrutura, com um comando que decide. E deve ser levada aos limites, para evitar sempre a intervenção táctica”.
A investigação de sequestros é sempre da competência da Polícia Judiciária, com a PSP e GNR a avançarem primeiro para o local, consoante a área de jurisdição. “Iniciamos a negociação e, quem o faz, deve continuar, já se criou um clima de confiança com o sequestrador. E isso nunca se deve quebrar”, lembra o oficial da GNR. Em suicidas, “sempre que estão sozinhos”, a PJ só avança se estiverem associados a rapto, sequestro ou terrorismo, “crimes que serão depois seguidos e investigados”, acrescenta o inspector-chefe da Judiciária.
Mas as relações entre PJ e GNR “são óptimas” e “raros são os casos em que a quebra de confiança obriga a mudar. A coordenação é sempre da PJ”, ressalva o major Canas. A GNR tem os suicídios a seu cargo, mas nem sempre é fácil. E na Ponte 25 de Abril, com uma perna para cada lado, o vento a correr nas costas, todas as palavras têm que ser medidas. “Qualquer coisa mal dita pode ser fatal”. O major não esquece a noite de nevoeiro com um homem pendurado no travessão dos pilares mais altos. Aproximou-se ao máximo mas a comunicação foi feita por telemóvel. De voz pausada, a estabilizá-lo. Ouvir muito e falar o menos possível. Que, afinal, é o grande segredo do negócio.
NOTA: O pedido de reportagem junto da PSP, que faz negociação através do Grupo de Operações Especiais, não foi aceite por se tratar de “matéria reservada”, justificou à Domingo o Gabinete de Comunicação e Relações Públicas da Direcção Nacional
MAJOR VICTORINO CANAS
Major Victorino Canas, 43 anos, nasceu em Angola, foi oficial de Infantaria do Exército durante cinco anos e ingressou na GNR em 1989 como oficial de Cavalaria. Formou-se em Psicologia, na Universidade Lusófona de Lisboa, e está a concluir um mestrado em Psicologia Social, no Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa (ISCTE), que também passa pela área da negociação.
Fez uma pós-graduação em Direito e Segurança e ainda um curso de negociadores – Gestão de Conflitos e Técnicas de Negociação –, no Instituto Nacional de Administração (INA), em Oeiras. E durante no último ano fez um curso de negociadores da Guardia Civil espanhola, vocacionado para casos de sequestro, barricados e suicídios, num curso prático de uma semana. Coordena actualmente o Gabinete de Psicologia da GNR.
INSPECTOR-CHEFE MANUEL RODRIGUES
Inspector-chefe Manuel Rodrigues, 52 anos, há 28 na Polícia Judiciária, os primeiros três na secção de assaltos à mão armada e os 23 seguintes ligado aos raptos e sequestros na Direcção Central de Combate ao Banditismo.
Terminou o curso de formação de negociadores em 2002, no Instituto Superior de Polícia Judiciária e Ciências Criminais, depois o curso de formador e gestão de crises e negociação na polícia brasileira. Está hoje no combate ao crime económico da PJ.
20 Número de militares da GNR de prevenção e aptos a negociar, em equipas de três elementos, em todo o país
12 Negociadores da Polícia Judiciária, em equipas de quatro, nas directorias de Lisboa, Porto, Faro e Coimbra
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