A geração blogue de moda
São doidos por moda e não passam um mês sem comprar roupa. Mas o que os une são blogues como o de Pépa, ‘Fashion à Porter’.
São jovens, desde a adolescência até às primeiras casas dos 30. Intitulam-se fashionistas, ou seja, peritos em estilo. Estudam ou têm formação superior e bolsas de classe média. São viciados em moda e em internet. Quase todos gostavam de ganhar a vida graças ao seu próprio estilo. Pertencem à geração de Pépa Xavier, a bloguista que correu o país no YouTube num vídeo em que falava sobre o seu maior desejo para 2013: uma mala Chanel.
Ana Ramos Correia sente-se "mais segura para arriscar" desde que segue o blogue ‘A melhor amiga da Barbie’. "É o meu refúgio, não consigo passar um dia sem o ler." Ana tem 16 anos, vive em Lisboa, tal como Ana Gomes, de 25 anos, a autora do blogue que segue todos os dias. "Acho que esta partilha permitiu que as pessoas tivessem menos medo de se expor e de experimentar combinações diferentes", partilha a bloguista, seguida por mais de 13 mil fãs no Facebook.
As redes sociais são o passo seguinte para quem cria um blogue. E não é por acaso que uma tese de doutoramento concluiu que os bloguistas têm atualmente seis vezes mais influência na compra direta do que as revistas de moda, explica Tiago Miranda, um ex-arquiteto a quem o desemprego fez descobrir na moda a inspiração para a vida. Em 2008 nascia o ‘And This is Reality’, "sobre tudo o que forma o nosso estilo de vida. Lido principalmente com público da Grande Lisboa e Porto, e São Paulo, no Brasil, entre os 25 e os 34 anos, da classe B".
SEMPRE NA MODA
Inspirada pela bloguista preferida, Ana Ramos Correia, que até já arrastou o pai para os Fashion Awards, criou também ela um blogue, ‘A rapariga do vestido amarelo’. "Gostava de viver do mundo da moda. Imagino-me como consultora de imagem, mas sobretudo como uma ‘fashion blogger’ que possa viver do seu próprio negócio."
Maria Inês Pereira tem 22 anos, vive no Porto e é empresária na área do catering. É uma das seguidoras fiéis do blogue de Raquel Fernandes, de 29 anos, natural de Guimarães mas também ela a morar no Porto, onde trabalha na área de acessórios. Lê o ‘Teenie Weenie’ há dois anos e graças a Raquel já teve "uma úlcera nervosa por precisar de um casaco Moncler para viver e ainda não ter tido oportunidade de o comprar". Por isso, e para já, a peça preferida é "uma camisola de caxemira Armani que custou dez euros numa loja que ia fechar".
Mariana Marinheiro tem 19 anos, estuda produção de moda e por mês compra "entre 150 a 200 euros em roupa". A Zara e a H&M são as marcas que mais povoam o armário lá de casa, em Sesimbra, e a inspiração vem "principalmente de blogues como ‘A pipoca mais doce’, ‘Stylista’ e ‘Pure Lovers’ porque dão ideias para fazer looks". Em casa, é "a maluca da família. É tudo advogados e veterinários, e eu sou a mais extravagante".
Já Ana Correia tem 20 anos, é natural de Portalegre mas vive em Lisboa, onde estuda comunicação social. Um dia gostava de trabalhar numa revista de moda, tal como ‘Andy’ ou ‘Miranda’, duas das personagens do seu romance favorito, ‘O Diabo Veste Prada’. Gasta perto de 200 euros por mês em roupa. Dinheiro da mesada dos pais e que aplica na Zara, H&M, Lanidor ou Blanco. "Poupo aqui, poupo ali, e com uma gestão eficaz chega para tudo", diz. Produzir-se para um dia normal de aulas é uma tarefa solene: "Só saio de casa se sentir que estou bem com o meu look. Já cheguei a perder aulas assim", confessa. Passa horas ao espelho e cerca de três por dia à frente do computador a consultar "sites de revistas, redes sociais e blogues de moda portugueses e estrangeiros". Por cá, destaca ‘A pipoca mais doce’ e ‘Ivânia Diamond’. Lá fora, o site da Vogue ou o blogue ‘Karlascloset’.
Joana Bernardo mora em Cascais, tem 21 anos, e também não passa um dia sem se ligar à internet. "É um vício". Licenciada em jornalismo, trabalha numa loja de roupa e o dinheiro que ganha permite-lhe comprar as peças cobiçadas. "Tanto me apanham de collants rasgados com calções de cabedal, como de vestido e saltos altos." Tem uma regra: não compra mais de uma peça de cada vez, mas por mês chega às quatro.
PARTILHA DE ESTILOS
Sara Sebastião vive em Aveiro e é autora do ‘Confessions of a Shopaholic’. Tem nas principais referências os blogues suecos, cujas autoras são "donas de um estilo clean, minimalista, giras que farta. Não quer dizer que ditem tendências, mas mostram como se usa aquela camisola com aquela saia que achávamos que não combinavam ou como se pode recriar aquela clutche high fashion", assume quem passa uma média de quatro horas por dia na internet.
Joana Pinho, de 23 anos, natural do Porto, já pediu conselhos a Sara: "É um local de partilha onde encontramos coisas que gostaríamos de experimentar."
A bióloga Joana Ferreira, de 31 anos, era ainda menina e já bebia as tendências através das revistas, hábito ao qual somou a blogosfera (‘Mini-Saia’ e ‘A pipoca mais doce’), mas sobretudo a informação que recolhe em Londres, onde vive o namorado. "Os mercados de Covent Garden, de Camden e Portobello têm coisas muito interessantes. Tudo aparece em Londres primeiro do que aqui, e é também essa antecipação que vou fazendo para a minha página no Facebook [‘Vintage Could’]", explica.
Ivânia Santos, a viver em Braga, sempre se interessou por moda. "Gosto de estar sempre bem, de frequentar locais originais, de folhear revistas de moda e visualizar sites dedicados ao fashion world." Ela própria tem o dela, o ‘Ivânia Diamond’, com mais de cinco mil fãs na página do Facebook. "Recebo inúmeros e-mails a referirem que já usaram peças e estilos que nunca imaginariam usar mas que arriscaram porque eu incentivei." Ivânia, de 26 anos, assume que já andou "de mãos dadas com a crise" e que foi o facto de ter "uma família humilde" que a levou a "ter sonhos maiores e garra de os concretizar". Tem um curso de estilismo, outro de apoio à gestão e prepara algo ligado à moda, que para já prefere manter em segredo.
João Pinho, de 20 anos, será dos primeiros a saber. É um dos seus seguidores mais fiéis. "Inspirou-me pela abordagem despretensiosa, mas ainda assim rebelde." João, também ele autor de um blogue (‘thestyle poet.com’) que une a moda à poesia, frequenta um curso de Línguas, Literaturas e Culturas. "A minha família habituou-se à gíria fashion que utilizo. Acabo de chegar da semana de moda de Paris à qual fui por minha conta com o ‘patrocínio’ da minha família. Quando dei por mim, estava sentado na primeira fila de um desfile porque a menina da entrada achou graça ao meu gorro da Lacoste."
Patrícia Rebelo tem 23 anos e aterrou em Inglaterra para fugir à crise do País. É modelo. "Se nos sentimos bem com determinada peça de roupa devemos arriscar, sabendo que nunca vamos conseguir agradar a ninguém a cem por cento." Para se vestir, elege "as lojas de fast fashion: Zara, H&M e Mango", embora tenha marcas de sonho, "como Christian Louboutin, Chanel, Burberry e Versace".
João Gonçalves, 21, é natural de Vila Real, trabalha em hotelaria na Suíça e vem frequentemente a Portugal fazer trabalhos como modelo. É com aprumo que se veste e investe por mês entre 150 a 200 euros em roupa . "Aproveito saldos e promoções. A melhor compra que fiz foram uns pólos da Prada por 75 euros".
Rita Machado, 20 anos, inspira-se a "observar os outros, ver o que fica bem e também do gosto pessoal". Os gastos mensais rondam também os 150 euros. "Gosto que os meus amigos não me confundam com ninguém." Vive em Cascais, mas tem por hábito passar no Chiado, o sítio mais ‘in’ da capital, tal como Susana Rodrigues, de 37 anos, bloguista profissional e consultora de imagem. Esta última profissão nasceu através de contactos de leitoras do blogue que assina há seis anos, o ‘Stilleto Effect’. Os seus leitores escrevem-lhe a pedir conselhos sobre como ter um blogue.
Sara Vieira é estudante, tem 21 anos, e é filha de uma estilista. Assina o ‘Salto Alto e Sapatilhas’ há um ano, mas continua leitora de outros espaços na internet. "A partilha de informação nos blogues funciona como um grande catálogo." Matilde Cunha é seguidora, mas tem também o próprio blogue, o ‘Miss Teen’ – o nome faz jus à sua idade, 14 anos. Filha de um advogado e de uma historiadora, elege a Mango, a Blanco e a Pull & Bear como as lojas a não perder, ao mesmo tempo que tem na estante a coleção de livros do ‘Harry Potter’.
Cátia Dias e Margarida Almeida têm 33 anos e um blogue em comum: o ‘Style it Up’, criado em 2009, na mesma altura em que nascia a empresa, com o mesmo nome, de consultoria de imagem. Ambas passam "a maior parte do dia online" e recebem "muitos mails de seguidoras a perguntar qual o anticelulítico que usamos ou onde é que devem comprar uma clutche".
Inês Tavares, de 34 anos, é ‘cliente’ assídua: "Já alterei cremes de beleza, fiz penteados diferentes e comprei peças de roupa que nunca teria arriscado."
UM FENÓMENO DAS NOVAS GERAÇÕES ÚTIL PARA AS MARCAS
A cronista e relações-públicas Mafalda Santos, que já teve um blogue de moda e hoje opina na crónica on-line ‘A Vida de Saltos Altos’, acompanhou os vários lados da barricada do fenómeno que atingiu as gerações mais jovens. "Uma geração que é influenciada pelos ‘fashion bloggers’ e justifica que produtos e marcas se tornem objeto de desejo e tendência apenas porque são enfatizados por estes ‘opinion makers’", diz.
Os blogues tornaram-se a forma direta, rápida e eficaz de gerar ‘buzz’. "Não é à toa que as bloguistas se fotografam e colocam nos seus blogues o que trazem vestido. Elas são aquilo que muitos aspiram a ser ou gostariam de ter, logo são bons ‘endorsers’ para as marcas. Mas há que distinguir a qualidade do acessório. Não é só porque se tem um blogue com esse propósito que as marcas vão bater-lhe à porta. O que diferencia os ‘fashion blogues’ vai da qualidade das fotos à edição do texto, e há muita gente que se esquece desses pormenores."
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