A GUERRA DOS COBRADORES

Chapéu alto, fraque ou farda, pasta e um carro com o logotipo da ‘casa’, assim se apresentam os colaboradores das duas empresas de cobranças difíceis. Além desta semelhança, também recusam recorrer à violência, embora seja um pedido frequente.

22 de novembro de 2002 às 12:27
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“O cobrador do fraque” e “Os senhores da cobrança” são duas empresas que se dedicam a tentar reaver dinheiro de pessoas ou firmas que não paguem as suas dívidas. Além deste aspecto, em comum têm ainda o facto de recusarem qualquer tipo de violência – apesar de ser este um dos requisitos mais solicitados pelos clientes –, de se deslocarem em viaturas personalizadas e de os seus empregados utilizarem uma farda. É pelo menos assim que aparecem nos anúncios de jornal. Mas ambos reconhecem que só em fases adiantadas dos processos é que se apresentam fardados e que, quando o fazem, sabem que vão ser insultados e ameaçados.

Das duas empresas, a mais antiga é a do “Cobrador do Fraque”, que opera em Portugal há pouco menos de dois anos, sendo uma extensão da multinacional espanhola com o mesmo nome. “Os Senhores da Cobrança” só há pouco mais de três meses estão a trabalhar, e contam nas suas fileiras com dissidentes “fraquianos”.Como as coincidências são muitas, os “originais” não gostaram e estão a equacionar avançar para os tribunais. Em causa estão acusações de publicidade enganosa, segundo adiantou à Domingo Magazine o advogado António Gomes Silva: “Já várias pessoas lhes telefonaram e eles responderam que falava do ‘Cobrador do Fraque’.

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Temos a certeza do que afirmamos, dado que fizemos a experiência. Estão a aproveitar-se de uma marca registada e isso não pode acontecer,” defende. Vítor Roque, de “Os Senhores da Cobrança”, garante que o processo dos “rivais” não o incomoda: “Qualquer pessoa nos pode pôr em tribunal. Não sei é por que razão. Imitá-los? Com certeza que não. Não queremos guerras com ninguém. Nem quero fazer comparações seja com quem for. Aceito que o logotipo é parecido, embora tecnicamente diferente. Devo dizer, porém, que está tudo registado.”

Mas Vítor Roque não esconde que a “encenação” de “Os Senhores da Cobrança” se inspirou no “Cobrador do Fraque”. “Não inventei nada. Limitei-me a acrescentar uns pontos e a corrigir o que estava mal na outra empresa, que, sem dúvida, é a melhor escola de cobrança da Península Ibérica. No tocante a dinheiros, posso dizer que um gestor da minha empresa que ganhe 1.500 contos, recebia menos 500 no ‘Fraque’. Isto tem a ver com a forma como são processados os descontos. Eles fazem de uma maneira e nós de outra”.

A mesma fonte reconhece ter estado “ligada” ao “Cobrador do Fraque” desde a “primeira hora”.

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“Era eu quem, no início, dava a cara para o bem e para o mal. Saí, por más condições de trabalho e mau tratamento do pessoal. Saí eu e a maioria das pessoas que, nessa altura, estavam comigo.” Quanto à nova empresa que fundou, garante que está a crescer a um “ritmo alucinante” e que, em breve, vai abrir delegações no Porto e em Espanha. Apesar de estar formada desde Agosto, só há “um mês e três semanas” está a fazer “trabalhos de cobranças e contratos”. Nesse período, “tivemos um volume de negócios de quase um milhão de contos”, assegura.

Registo criminal limpo

António Gomes da Silva , o senhor do “Cobrador do Fraque”, diz que todos os colaboradores “têm o registo criminal limpo”. Ou seja: estão “impedidos” de recorrer a qualquer tipo de violência e são raras as vezes em que se apresentam com a farda da empresa. “A utilização do fraque e dos carros com o logotipo é possível em termos legais, de acordo com os pareceres dos criminalistas Jorge Figueiredo Dias e Costa Andrade. Mas, geralmente, só aparecemos de fraque numa fase mais avançada da gestão dos processos”, refere, não escondendo que o uso da vestimenta tem causado alguns problemas: “Ainda há pouco tempo recebi uma acusação do Ministério Público sobre um devedor que ameaçou um nosso funcionário. E já fomos alvos de alguns processos.

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No entanto, nunca houve qualquer julgamento. Foi tudo arquivado”, assegura. Em relação a outro tipo de dívidas, Gomes Silva garante que só são aceites as devidamente documentadas ou “legalmente” exigíveis: “Não adianta procurarem-nos para algo que não seja claro. ; também não adianta quererem resultados se constatarmos que o devedor está numa situação desesperada. Outra coisa que não fazemos são créditos laborais e recuperação de dívidas de empresas em processos de falência.” A concluir, o advogado de o “Cobrador do Fraque”, diz que o negócio tem corrido bem: “Recentemente, recuperámos uma dívida de 300 mil contos” (1,5 milhões de euros) - e, até hoje, nenhum trabalhador da foi despedido por ter utilizado a violência.

[Eles] “Sabem que não podem fazer isso. Está no contrato, na parte tocante ao código de ética. Devo dizer que os nossos colaboradores sabem falar e têm boa formação. Já tivemos ex-militares e ex-gerentes bancários. Mas não temos ninguém ligado às forças da ordem”. Ambos reconhecem que só em fases adiantadas se apresentam fardados e que, quando o fazem, sabem que vão ser ameaçados.

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