A História pouco verdadeira

No Dia das Mentiras, recordamos 15 mitos que sobrevivem na cabeça dos portugueses, geração após geração.

01 de abril de 2012 às 00:00
História de Portugal, Dia das Mentiras, Afonso Henriques, Salazar, Viriato, Humberto Delgado
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Especialista na história dos descobrimentos, o professor Francisco Contente Domingues conta que todos os anos tem o mesmo desafio perante os seus alunos da Universidade de Lisboa. "Vêm cheios de ideias feitas sobre os descobrimentos que não correspondem minimamente ao que dizem os factos, mas é relativamente fácil fazê-los perceber aquilo que realmente se sabe sobre este período da História."

Afinal, um país com uma história com quase 900 anos presta-se a toda a espécie de mitos e lendas. Desde a Fundação de Portugal que os feitos dos reis e príncipes foram devidamente exagerados para engrandecer a epopeia dos descendentes dos lusitanos (povo que afinal nunca existiu), que de um minúsculo território no extremo ocidental da Europa partiram para a construção de um império que durou mais de 500 anos (ou pouco mais de 100, dependendo da perspectiva).

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No Dia das Mentiras escolhemos 15 momentos da História de Portugal que, pelas mais diversas razões, são recordados de forma bem diferente daquilo que realmente aconteceu. Mas quando se fala do passado convém sempre lembrar a frase do filósofo George Santayana, tão poucas vezes seguida: "Aqueles que ignoram as lições da história estão condenados a repeti-la."

A BATALHA DE OURIQUE FOI EM OURIQUE?

É uma das batalhas mais mitificadas da História portuguesa, sobretudo porque foi aí que D. Afonso Henriques foi aclamado rei de Portugal pelos seus homens e passou a usar esse título. Em 1139, o exército do Condado Portucalense saiu de Coimbra para sul.

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Miguel Gomes Martins, professor universitário e autor do livro ‘De Ourique a Aljubarrota. A Guerra na Idade Média', explica que o exército "terá avançado para sul até perto de Sevilha. Foi no regresso a Coimbra que as tropas se depararam com o exército mouro, mais numeroso".

A dúvida é saber-se onde se travou essa batalha, porque a região que conhecemos hoje como Baixo Alentejo era denominada pelo nome geral de Campo de Ourique. O historiador acredita que a batalha não terá sido longe da vila de Ourique, mas não há certezas. E quanto à lenda de que D. Afonso terá tido uma aparição de Jesus Cristo, o autor afirma que essa história "apareceu muito depois da morte de D. Afonso Henriques".

TÚMULO DE CAMÕES ESTÁ NOS JERÓNIMOS?

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As circunstâncias da morte de Camões, a 10 de Junho de 1580, são o primeiro obstáculo às certezas sobre a morada certa dos seus restos mortais. Discute-se se terá morrido em casa ou no hospital, pois o corpo do poeta teria tido diferentes destinos. Admite-se como mais provável que tenha sido sepultado na Igreja de Sant'ana, em Lisboa, não se sabendo ao certo se dentro ou fora do templo.

O professor Vítor Aguiar e Silva, coordenador do ‘Dicionário de Camões' sintetiza a cronologia das peripécias: "O terramoto de 1755 e as obras que se seguiram no Convento de Sant'ana obrigaram ao levantamento de todos os túmulos. Foi uma comissão liderada pelo Visconde de Juromenha, a meio do século XIX, que localizou as ossadas de Camões, mas foi impossível separá-las de vários outros corpos".

Os restos mortais foram transladados para os Jerónimos em 1880. Camões poderá estar nos Jerónimos, mas não está sozinho.

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COMUNISTAS QUERIAM MATAR SPÍNOLA?

Ainda hoje permanece a dúvida: quando Spínola avança para um golpe de Estado, na manhã de 11 de Março de 1975, está mesmo decidido a travar pela força das armas a crescente influência do Partido Comunista - ou procura neutralizar uma série de assassínios previstos no plano conhecido como ‘Matança da Páscoa'?

Retirado após ter renunciado à Presidência da República, a 30 de Setembro de 1974, alguns oficiais do seu séquito visitam-no em Massamá, a 9 de Março. Avisam-no de que tiveram conhecimento, através dos serviços de informações de Espanha, de um plano da extrema-esquerda e do Partido Comunista para liquidar vários militares e civis: entre as vítimas, Spínola e alguns dos seus oficiais mais fiéis.

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Na verdade, o plano da ‘Matança da Páscoa' nunca existiu, mas a mentira teve o efeito esperado : fez Spínola avançar atabalhoadamente para um golpe que culminou no seu exílio forçado.

QUEM DISSE "SEPULTAR OS MORTOS..."?

Atribui-se a Sebastião José de Carvalho e Melo, o marquês de Pombal, a célebre frase que serviu de mote à reconstrução de Lisboa após o terrível terramoto de 1755: "Sepultar os mortos, cuidar dos vivos e fechar os portos."

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Na verdade, a frase foi a resposta do marquês de Alorna, D. Pedro de Almeida, à pergunta do rei D. José sobre o que fazer perante a catástrofe. Menos controverso é o papel do marquês de Pombal na reconstrução da cidade.

Poucas semanas depois do terramoto, o engenheiro-mor do Reino, Manuel da Maia, apresentou cinco planos de reconstrução. Pombal optou pelo dos arquitectos Eugénio da Maia e Carlos Mardel, que desenharam uma nova Lisboa, de ruas largas e simétricas e prédios que usavam o sistema da gaiola. Assim nasceu a Baixa Pombalina.

A TORRE DE BELÉM FOI SEMPRE ASSIM?

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Construída no século XVI como estrutura militar de defesa e de vigia, a Torre de Belém tinha nesses tempos um aspecto bem mais tosco do que a torre ornamentada que vemos à beira Tejo. Concluída em 1519, sofreu diversas alterações ao longo da história, por imperativos militares. Havia, aliás, uma segunda torre na zona da Trafaria, que completava a defesa da entrada do Tejo.

Foi já no século XIX que o monumento recebe as obras que lhe mudaram a face. Por volta de 1846 foram acrescentados elementos revivalistas como os merlões armoriados, a balaustrada do varandim sul, o claustro com platibanda rendilhada e o nicho com imagem da Virgem e o Menino.

O mesmo aconteceu com o Mosteiro dos Jerónimos: a torre à entrada da igreja e os torreões do corpo do antigo dormitório foram introduzidos no século XIX. Até chegou a haver uma torre com relógio a meio dos Jerónimos, mas a obra desabou.

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O INFANTE SANTO QUIS MORRER PELA PÁTRIA?

Em 1437 teve lugar em Tânger, no Norte de África um dos maiores desastres militares da História portuguesa. As forças lideradas pelo Infante D. Henrique foram derrotadas em combate e o seu irmão, o Infante D. Fernando, foi feito prisioneiro. D. Henrique negociou a rendição, aceitando como condição que D. Fernando só seria libertado mediante a entrega de Ceuta, conquistada pelos portugueses anos antes.

Na corte do rei D. Duarte, as opiniões sobre o caso dividiam-se. Consta que o monarca até estaria na disposição de entregar Ceuta e devolver a liberdade ao irmão, mas o monarca faleceu pouco depois. D. Fernando foi transferido para Fez, onde fez reiterados apelos à coroa portuguesa, pedindo a sua libertação. Tal não veio a acontecer. D. Fernando morreu no cativeiro por volta de 1443, já no reinado de Afonso V.

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A coroa fez dele um mártir, atribuindo-lhe o epíteto de Infante Santo. Um título que ele nunca procurou.

SAGRES TINHA UMA ESCOLA NAVAL?

Seria uma escola exemplar, que reunia os melhores navegadores, os mais ilustres cosmógrafos e cartógrafos, sob a liderança do Infante D. Henrique. A Escola de Sagres poderia ser tudo isto, mas a verdade é que nunca existiu.

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Francisco Contente Domingues, um dos maiores especialistas da história da expansão portuguesa, diz que a ‘lenda' de Sagres terá aparecido por via inglesa. "As referências à Escola de Sagres aparecem em Inglaterra no séc. XIX. Sendo D. Henrique filho de uma inglesa, a rainha D. Filipa de Lencastre, mulher de D. João I, houve uma sobrevalorização do seu papel".

Na verdade, a primeira referência a uma escola naval só aparece em 1559, em Lisboa, com a fundação da Aula do Cosmógrafo-mor, Pedro Nunes, quase 100 anos depois da morte de D. Henrique.

VIRIATO FOI O CHEFE DOS LUSITANOS?

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Entre o que se sabe sobre a vida de Viriato e a lenda que se criou à sua volta vai um abismo de diferença. Tido como um pastor dos Montes Hermínios e chefe dos bravos lusitanos, conta-se que liderou a resistência contra Roma.

Carlos Fabião, professor da Universidade de Lisboa e especialista na época romana, conta uma versão bem diferente. "Viriato não viveu nos Montes Hermínios (Serra da Estrela), mas sim na região que hoje corresponde à Andaluzia e Extremadura espanholas. Era um chefe tribal do séc. II a.C., mas o povo dos lusitanos é uma abstracção criada pelos autores romanos para designar quem vivia no Extremo Oeste da Península Ibérica."

FOMOS PIONEIROS A ABOLIR A PENA DE MORTE?

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É mais um dos títulos que gostamos de exibir perante o Mundo, mas a verdade é que foi a Venezuela o primeiro país a abolir a pena de morte, corria o ano de 1863. Depois disso, também o pequeno estado de San Marino o fez, em 1865, e também há notícia da extinção desta pena nalguns dos estados italianos.

Em Portugal, a lei da reforma penal aboliu a pena de morte em 1867, mas não foi uma recusa irreversível da pena capital. O último caso de enforcamento ordenado pela justiça civil terá ocorrido em Lagos, no ano de 1846. José Joaquim Grande foi condenado por homicídio e morreu na forca.

Luís dos Santos, conhecido como ‘Luís Negro', foi o último carrasco profissional pago pelo Estado. Mas houve ainda um outro caso de execução, ocorrido em 1914. Em França, durante a I Grande Guerra, um soldado português foi condenado por traição e fuzilado. Hoje, quase todos os países europeus aboliram a pena capital.

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HUMBERTO DELGADO PERDEU AS ELEIÇÕES?

A ditadura do Estado Novo, fundada por Salazar, teria caído nas eleições presidenciais de 8 de Junho de 1958 não fosse a monumental fraude que deu a vitória ao candidato do regime: Humberto Delgado teve mais votos, mas Américo Tomás foi oficialmente declarado vencedor.

Sarcástico, o jornal americano ‘New York Times' comentou o resultado oficial (76,4% dos votos para Tomás): "Salazar podia ter escolhido o polícia de giro mais à mão para Presidente da República". O regime não poderia permitir que chegasse à presidência o homem que, quando perguntado sobre o que faria em relação ao Presidente do Conselho de Ministros quando tomasse posse respondeu: "Obviamente, demito-o".

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Humberto Delgado foi um grande opositor da ditadura. Em 1961 participou na tentativa de golpe de Estado que resultou no assalto ao quartel de Beja . Morreu assassinado pela PIDE em Espanha, em Fevereiro de 1965 .

CABRAL DESCOBRIU O BRASIL?

Se entendermos o termo descobrir como o acto de reclamar novas terras para a coroa, Pedro Álvares Cabral foi, de facto, o descobridor do Brasil, em 1500. No entanto, há várias pistas que indicam que o território brasileiro já tinha sido visitado por portugueses.

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O professor Francisco Contente Domingues prepara um livro que fala da viagem de Duarte Pacheco Pereira, que terá chegado à América do Sul em 1498, a mando do rei D. Manuel I. "Não há certezas absolutas de que terá estado no Brasil, mas as probabilidades são muito fortes", diz o investigador. Afinal, havia razões para que a linha definida pelo Tratado de Tordesilhas fosse tão a oeste...

FOI D. DINIS QUEM MANDOU PLANTAR O PINHAL DE LEIRIA?

O rei D. Dinis (1261-1325) passou à História com o cognome de ‘O Lavrador'. A ele se atribui a ordem de plantar o pinhal de Leiria, que tão útil se haveria de revelar para a construção naval durante a época da expansão marítima.

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No entanto, os indícios de que o pinhal é anterior a este monarca são vários. A começar pela própria flora, uma vez que se encontraram vestígios de espécies de pinheiros anteriores ao seu reinado.

O pinhal de Leiria terá sido obra de sucessivas gerações de monarcas, que recuam para lá do pai de D. Dinis, o rei D. Afonso III. Dinis terá sido um renovador da floresta, mas não um criador.

D. PEDRO SÓ GOSTAVA DE MULHERES?

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Quem conhece a história de D. Pedro (1320-1367) e Inês de Castro fica com ideia de que o rei de Portugal era um homem muito viril. Mas o cronista Fernão Lopes, autor da ‘Crónica de D. Pedro I', levanta suspeitas sobre a vida sexual do monarca que coroou D. Inês de Castro depois de morta. Um dos episódios narrados dá conta das relações dúbias do rei com o seu escudeiro Afonso Madeira: "E como quer que o El Rei muito amasse mais do que se pode encarecer (...)".

A referência a este amor que não se pode esclarecer deixa entender que o amor do rei pelo escudeiro ultrapassava os limites do razoável. Mas tal amor não impediu que D. Pedro fosse implacável com Afonso. Apanhado a dormir com uma mulher casada, o escudeiro foi chamado à câmara do rei e ali mesmo castigado: "Mandou-lhe cortar aqueles membros que os homens em mais preço e estima têm, de sorte que não lhe ficou carne até aos ossos."

AS COLÓNIAS EM ÁFRICA DURARAM 500 ANOS?

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Foi um dos principais argumentos para justificar as guerras coloniais do século XX - a colonização portuguesa em África tinha 500 anos e aquela terra era nossa desde então.

Na verdade, foi só na segunda metade do séc. XIX, e pela força das armas, que Portugal ocupou, de facto, os territórios de Angola, Moçambique e Guiné-Bissau, com o envio de milhares de colonos para o Ultramar. E muito por causa da Conferência de Berlim (1884-1885), que determinou que só podiam ter colónias os países que efectivamente as ocupassem.

Várias guerras se travaram para fixar as fronteiras das colónias.

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SALAZAR ERA UM HOMEM CASTO?

A propaganda e a historiografia oficial do Estado Novo alimentaram o mito de um Salazar unicamente devotado à Nação, como um sacerdote que exerce o seu mistério sagrado. Nada de mais errado. Salazar sempre foi um sedutor. Ainda seminarista, enamorou-se de Felismina. Mais tarde, estudante em Coimbra, apaixonou-se pela filha da madrinha.

Já professor respeitado, torna-se íntimo da pianista Glória Castanheira e fica noivo de Júlia Moreira, filha do lente do Direito Guilherme Moreira. Envolve-se, ministro das Finanças, com Laura Bebiano - e encontram-se por várias vezes num quarto do Hotel Borges, no Chiado. A sua última paixão conhecida foi Christine Garnier - cujo casamento com um francês não resistiu à sedução de Salazar.

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