A leveza de ser Agostinho da Silva

Eterna criança em plena liberdade, enigmático, possuído pelas características do que houver no sagrado, Agostinho da Silva desafia-nos a pensar. Faz amanhã 100 anos que nasceu, visionário, exemplo de paz e de harmonia absoluta.

12 de fevereiro de 2006 às 00:00
A leveza de ser Agostinho da Silva Foto: D.R.
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“Acho graça às homenagens que me prestam, excelente sinal de ilusões que a eles restam; sou tão humano quanto os outros, com qualidades e defeitos e mais as manhas que se escondem em seus peitos; [...] de nós nada mais deixamos que vãs memórias, só Deus é grande, só Deus é santo e o demais histórias”

UNS POEMAS DE AGOSTINHO

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Lembram-se daquela série de 13 controversos episódios exibidos na RTP por alturas do cavaquismo, as inclassificáveis ‘Conversas Vadias’ em que Agostinho da Silva nos dava notáveis lições de saber, tão humildes quanto universais? Afinal, o que é que nos prendia àquele homem de simples aparência, despido de preconceitos? Exemplo de insubmissão e de dignidade, espírito livre e paradoxal, irónico até consigo mesmo, surpreendia-nos nele uma vocação de santidade que considerava ser comum a todos nós.

Nessa simplicidade sem pose – “a pose destrói sempre o amor” – , místico, com total desprezo pelas regras ou ritos mundanos, acolhia o Outro, criava diálogo, comunicava mesmo sem pronunciar qualquer palavra. Ao articular o Bem com o Verdadeiro, com naturalidade provocante, optimismo e paixão pela vida, cumpria em liberdade e respeito pela pessoa humana a sua missão na Terra.

Nele pulsava uma certa loucura profética, o Amor possível de encontrar num espírito livre e amante do paradoxo. Ou, como afirma Paulo Borges, presidente da Associação Agostinho da Silva, “sem compromissos com escolas, partidos ou igrejas, sempre buscou apontar e realizar a suprema possibilidade da vida humana à luz da visão do sentido último e divino do universo.” “Era católico e de esquerda mas nunca assumiu credos ou partidos. Não gostava de cartilhas nem aceitava regras, nunca teve medo de dizer o que era, nunca teve medo de nada”, reitera Bruno Silva, filho do professor.

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Num café de Coimbra, Bruno, metade dos anos que seu pai faria amanhã, revela vínculos com o progenitor; crê na liberdade de pensamento, possui uma acentuada visão crítica, valoriza essencialmente o lado bom das pessoas. Com Agostinho diz que aprendeu “a ver o Mundo com olhos de ver.” E confidencia: “Andava sempre com os sapatos muito bem engraxados e não foi para a Marinha por ter os pés chatos.”

Enaltece a conduta moral e cívica do pai, crê que “o seu único vício era transmitir saber”, mas não concorda com aqueles que o vêem como filósofo. “Era um franciscano visionário que nunca teve número de contribuinte nem nunca se interessou por valores materiais. Por exemplo, fez o ‘Conversas Vadias’ e nunca recebeu um tostão por isso.” Livre do supérfluo, sem confundir o verbo amar com o verbo ter, prestando voto de obediência ao que for servir, bastava-lhe ensinar a filosofia da integração do pensamento, “fruto de fé, que significa confiança, e de crença, que tem a ver com o coração; pelo passado transferido ao futuro, portanto eterno; pelo reinado da criança e o sumir de todas as prisões, quer as que há dentro de nós quer as que pululam à nossa volta.

Reinado da criança e sacralização dos animais e de tudo o resto.” Certa vez, em Florianópolis, no Brasil, onde era secretário de assuntos culturais, o professor encontrou pela primeira vez o pensador português Eduardo Lourenço e a sua esposa como se os conhecesse de longa data. Com uma enorme e negra aranha dos trópicos na palma da mão, divertido com o temor do casal, mostrava que tinha domesticado “o mal” como se ele não existisse.

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É FÁCIL IMAGINÁ-LO a contar o seu puro entender, adorando o divino mesmo sem o saber, mantendo-se “criança, o maior dos milagres”, vivendo e sendo para. Como quem cumpre ordens do superior para revigorar a nossa capacidade de sonho.

Nesse desfiar dos novelos da sabedoria, Agostinho da Silva “tinha o tempo programado ao segundo. Dava tantas palestras em tantos lugares, encontrava-se com tanta gente que se tornava difícil para a família estar com ele.” Foi provavelmente por isso que terminou a relação de mais de 20 anos com Maria Judith Cortesão, filha de Jaime Cortesão, “senhora de enorme valor, grande influência no pensamento e na acção de Agostinho da Silva e mãe de seis dos seus oito filhos”, todos espalhados pelo Mundo, conta Bruno Silva, filho de ambos, lembrando que “os rapazes da casa, por volta dos 14 anos, tinham que aprender a lavar roupa, cozinhar, arrumar a casa, cozer e tricotar.”

Entre risos lembra que a camisola de lã que foi obrigado a fazer era metade vermelha e metade verde. “Se o meu pai era um universalista, a minha mãe era uma grande patriota.” Judith Cortesão, 91 anos, vive sozinha na Suíça. Agostinho da Silva terminou os seus dias com Maria Violante, amiga de toda a vida.

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“O que penso ou escrevo hoje é do eu de hoje; o de amanhã é livre de, a partir de hoje, ter sua trajectória própria e sua meta particular. Mas, se quiserem pôr-me assinatura que notário reconheça, dirão que tenho a coerência do incoerente e a originalidade de não me importar nada com isso”, escreve em ‘Pensamento em Farmácia de Província, 1’, de 1977. Ou seja, uma sugestão de futuro espiritualmente ambicioso pensado ao arrepio dos poderosos e ao mesmo tempo um apelo ao sentido de ordem não opressiva.

Homem guiado por luas viradas ou não ao Sol, ser multinacional: “Isto é, por ordem alfabética, brasileiro, com minha capital em Itatiaia, mesmo no cimo de seu pico de montanha, lugar bravio e apaixonante, onde comecei a aprender alguma filosofia. Por minha mãe, que lá ficou, e por família, e por Amigos que família me são, moçambicano, sendo a capital que lhe sonho, como centro pensador de todo o Índico e de vária África interior, a extraordinária Ilha de Moçambique, moradia de poetas que só tem rival na ponta leste de Timor.

Por fim, solidamente de Portugal, o do Porto, onde nasci, modelo de municípios, mas com avós pescadores algarvios e soldados alentejanos, sendo nele minha capital a velha Barca de Alva, a Alva que ainda está por surgir.”

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BRUNO SILVA, que com o pai aprendeu “Latim, Literatura e amor pelo próximo”, recorda-o como sendo um professor “severo, exigente e disciplinador que dava umas aulas interactivas, divertidas e muito animadas. Era fantástico como aprendíamos imenso e ao mesmo tempo morríamos de rir.” Algo como, discorre com entusiasmo, “fazer uma viagem ao passado sentado na primeira fila, conduzidos por um homem de sabedoria contagiante.”

O médico Arquimédes Silva Santos, com quem durante anos Agostinho da Silva trocou correspondência e afecto, também gosta de enaltecer o valor daquele “raro Mestre autêntico da minha juventude, cuja acção cívico-educacional foi importantíssima para a ‘geração de 40’” Conheceram-se no início da 2.ª Guerra Mundial, altura em que passaram a corresponder-se. “Perderam-se todas as cartas e documentos que dele recebi. Tive que escondê-las com receio da polícia política que teimava em nos perseguir.”

Com 84 anos, longos cabelos brancos e aura de sábio, Arquimédes Silva Santos enaltece “a enorme afeição cultural e intelectual e a admiração de toda a vida” por Agostinho da Silva. Opinião não tão efusiva é a que Caetano Veloso expressa no seu livro ‘Verdade Tropical’: “Agostinho da Silva possuía um paradoxal sebastianismo de esquerda que nutria de lucidez e franco realismo e não de mistificações. Se aquilo era um ardil da saudade do catolicismo medieval lusitano ou um modo de expressar a intuição de uma via independente, não ficava claro para mim.” Apesar do cantor brasileiro não ter embarcado “na viagem desses sebastianistas, nem como estudioso nem como, digamos, militante”, percebe-se nele um certo fascínio “por o professor falar no Reino do Espírito Santo e numa futura civilização do Atlântico Sul numa época em que todo o mundo tentava falar em mais-valia e em teses científicas de transformar o mundo por meio da classe operária.”

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Por isso, “a carreira de Agostinho sempre me atraiu. Estar entre jovens e explicar coisas, ter um grupo de pessoas admiradas e gratas pelo meu saber era uma fantasia frequente.” Sendo o “ponto de ligação entre muitos amigos”, o professor tinha o condão de “atrair pessoas que me pareciam atraentes. Não foi sem pensar nelas que incluí a declamação de um poema de Fernando Pessoa no happening da apresentação do tema ‘É Proibido Proibir’.

MAIS AZEDAS parecem ter sido as relações de Agostinho da Silva com o escritor Jorge Amado. É o professor quem afirma ao jornalista Luís Machado na sua última entrevista: “Ele foi insolente em toda aquela sua glória triunfalista e pouco simpático para Portugal.” Conclusão: “Não gostei muito de Jorge Amado. Diria até que antipatizei com ele, e depois até acabámos mesmo por nos zangar.”

Ao longo dos 25 anos em que viveu no Brasil (1944-1969), foi descobrindo novos caminhos, ajudando a fundar universidades e a criar centros de estudos portugueses, suscitando admiração e respeito de alunos, colegas professores. Andou um pouco por todo o lado e fez um pouco de tudo – incluindo Pai de Santo do Candomblé e assessor cultural do Presidente da República Jânio Quadros. É Agostinho que conta: “O presidente começava a trabalhar muito cedo, constando que a certa altura do dia se metia um bocado no whisky e, depois quem tinha de o aguentar era o José Aparecido de Oliveira, esse que veio para Portugal como embaixador”, e a quem se deve, graças ao seu génio conciliador, o estabelecimento das pazes entre o professor e Jorge Amado.

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Nas suas palavras sábias de utopia, Agostinho da Silva, sem B.I. nem fado, teorizou sobre a condição económica que nos últimos anos da sua vida crescera desmesuradamente: “Pela liberdade económica o homem assegura o necessário para que o seu espírito se liberte das preocupações materiais e possa dedicar-se ao que existe de mais belo e de mais amplo; nenhum homem deve ser explorado por outro homem; ninguém deve, pela posse dos meios de exploração e de transporte, que permitem explorar, pôr em perigo a liberdade de Espírito dos outros.”

Porém, como recorda Bruno Silva, “o meu pai previa que nos nossos dias as crianças já iriam nascer desempregadas.” “Temos então que avançar para a Criatividade-Império Final, sempre destinada a registar-se no futuro, e a que eu de bom grado chamaria Império do Cria Criando do Fica Ficando”, aconselhava o professor. “Este homem de uma vasta e segura cultura, como Pessoa, encontra-se com ele numa mesma espécie de recusa transcendente, mas não menos decidida, de uma cultura livresca, esquecida da silenciosa sabedoria que a todos nos habita quando nos abandonamos ao sopro do “Espírito Santo”, à lição de uma natureza que ensina quando nós nos calamos”, escreve Eduardo Lourenço em ‘A Última Conversa’.

Por vezes, farto de cumprir o pesado verbo ter, conjugava o de ser até no silêncio, servidor em busca de realizar seu ideal, o triunfo “da poesia que a criança é ao nascer e a liberdade que será para todos e o gratíssimo prazer de uma vida que não será paga, mas de força criada e de amor gozada.” O sonho de um Paraíso a vir – “um Paraíso mais seguro, porquanto sem tentações” –, o sonho de “uma desejável inteira liberdade de cada ser.”

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Morreu em Lisboa a 3 de Abril de 1994, no seguimento de um inesperado acidente vascular a que sobreveio uma pneumonia. “Vida e morte nunca estão/vão somente perpassar naquilo que nunca passa/nem sabemos nomear.” O importante é “que jamais se perca em nós o dom de amar.”

IDEIAS DE UM PENSADOR

- “O importante é dar aos homens, na plenitude, a liberdade de serem aquilo que gostariam de ser.”

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- “O que ainda trava o nosso caminho é a convicção em que nos encontramos quase todos de que o homem é um animal egoísta.”

- “Só a fé no homem, nas possibilidades divinas do homem, nos pode levar de novo à Idade de Ouro.”

- “Cada pessoa que nasce deve ser orientada para não desanimar com o mundo que encontra à volta.”

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- “Temos que viver para o universo ou seremos inúteis.”

- “São meus discípulos, se alguns tenho, os que estão contra mim; porque esses guardaram no fundo da alma a força que verdadeiramente me anima e que mais desejaria transmitir-lhes: a de se não conformarem.”

- “Restaurar a criança em nós, e em nós a coroarmos Imperador, eis aí o primeiro passo para a formação do império.”

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- “Tenho um doutoramento em Raiva e uma licenciatura em Liberdade.”

- “Fique certo de que mais valem todos os erros se forem cometidos segundo o que pensou e decidiu do que todos os acertos, se eles forem meus, não seus.”

- “A missão da cultura de língua portuguesa é construir o seu domínio com uma base espiritual e sem base em terra, porque a propriedade escraviza.”

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B.I. DE UM PENSADOR

PERFIL DE UM EXEMPLO DE VIDA

Agostinho da Silva nasceu no Porto a 13 de Fevereiro de 1906. Licenciou-se e doutorou-se em Filologia Clássica, foi colocado mas logo demitido do Liceu de Aveiro por se ter recusado a assinar uma declaração de fidelidade ao Estado Novo. Preso pela PIDE, reprimido e desencantado com Portugal, parte, em 1944, para o Brasil, onde escreve, lecciona e contribui para a fundação de universidades, centros de pesquisa e estações científicas. Em 1958 naturaliza-se cidadão brasileiro e é nomeado assessor de política cultural do então Presidente da República do Brasil, Jânio Quadros. Só em 1969 é que voltou a residir em Portugal, tendo sido conselheiro e consultor de universidades e protagonista na RTP das ‘Conversas Vadias’. Em 1987 é condecorado pelo então Presidente Mário Soares – seu ex-aluno – com a Grã-Cruz da Ordem de Santiago da Espada. Morreu em Lisboa num domingo de Páscoa, a 3 de Abril de 1994. Entre 1929, altura em que escreveu ‘Sentido Histórico das Civilizações Clássicas’, e 1994, com ‘Ir à Índia sem Abandonar Portugal’, publicou 17 obras e traduziu inúmeras outras.

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COMEMORAÇÕES DO CENTENÁRIO

A programação das comemorações, é oficialmente inaugurada amanhã pela Ministra da Cultura.

- Amanhã, a partir das 18 horas, no CCB, lançamento e apresentação de duas novas obras versando a vida do professor, palestras e animação artística. Às 21h30, no Fórum Lisboa, exibição do filme ‘Agostinho da Silva: um pensamento vivo’ e exposição foto-bio-bibliográfica ‘Agostinho da Silva: pensamento em acção’.

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- No Clube Literário do Porto, amanhã, haverá festa, cocktail, leitura de textos, exposição de livros e exibição de documentário. Dia 14 será projectado o programa ‘Conversas Vadias’ e ‘A propósito de Agostinho’ – entrevista com Caetano Veloso e Gilberto Gil.

- No Faial está a realizar-se o IV Ciclo Agostiniano. Amanhã, às 15 horas, será representada a peça de teatro ‘Liberdade de Pensar’, texto de Voltaire com tradução de Agostinho da Silva, pelo Grupo de Teatro em Movimento, seguindo-se a exibição do filme ‘Agostinho da Silva: um pensamento vivo’.

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