A MÃE, O SILÊNCIO E O FILHO
“Caminhava de mãos nos bolsos pelas ruas até chegar ao terreiro. Se entrava na venda, não fazia despesa. A mãe sabia que o filho não bebia”
No início de Agosto, poucas horas antes de se acreditar que o calor e o sol podiam esmorecer, o motor longo e cansado dos tractores ouvia-se ao longe. Serpenteva pelas estradas dos campos, como um ruído que subisse e descesse. Depois, passavam instantes em que essa voz esmarrida de raiva se aproximava. Os tractores, cada vez mais perto, eram o rosnar de uma besta que acordava a meio da tarde, um animal de fogo que ardia às quatro e meia da tarde. Todos os dias, a mãe ouvia o som dos tractores a levantar-se dos objectos frescos da cozinha. Dentro das panelas de esmalte, dentro dos pratos lavados, dentro do armário de madeira fina. Nessa hora, a mãe abria a porta e esperava. Diante da sua porta, estava o pequeno adro de uma capela. Todos os anos da sua vida tinham passado no adro daquela capela.
Os tractores chegavam ao adro da capela e paravam, enchiam a rua e as casas e a cal com o seu ruído. A rua, as casas, a cal tinham passado o dia receber uma luz que as queimava, a sofrerem em silêncio debaixo do sol e, naquela hora, enchiam-se com o ruído bruto dos tractores. A mãe ficava à porta e via tudo. Os homens e as mulheres saltavam dos reboques. Na pele, traziam terra colada com suor. Havia homens que traziam machados, traziam sacos de pano ao ombro, tarros vazios. As mulheres tinham lenços a envolverem-lhes a cara, tinham saias vestidas por cima de calças, tinham terra colada ao rosto com suor. A mãe, encostada à porta, fazia um sorriso de menina ao ver as pessoas que chegavam da cortiça e que saltavam dos reboques numa alegria cansada. Entre eles, a mãe distinguia o rosto do filho.
Ao ver o seu rosto de terra, a mãe via também o seu rosto quando era de manhã e ele acordava para ir brincar com as outras crianças no adro da igreja, via também o seu rosto quando o aconchegava entre os lençóis na cama pequena, antes do marido chegar do trabalho, antes do marido adoecer com uma doença que nunca passou. Ao ver o seu rosto de terra, a mãe via também os sonhos do filho, via também os seus sonhos. E o filho caminhava na sua direcção. Os olhos da mãe recebiam-no. Os homens e as mulheres que tinham saltado dos reboques desciam a rua com passos pesados e espalhavam-se por todas as ruas da vila. Nas mãos levavam o toque das pranchas de cortiça, levavam a cor da cortiça.
A mãe entrava dentro de casa para dar passagem ao filho. A cozinha era fresca. O filho fechava a porta atrás de si. Atrás de si, fechava o som dos tractores a regressarem vazios para os campos. Depois da porta, dentro da cozinha, regressava o silêncio. O filho pousava o tarro vazio, o saco de pano e o machado. O filho ia para o quintal. Enchia alguidares com água e lavava-se. A mãe ouvia a água, arrumava o machado, limpava o saco, lavava o tarro e não pensava que tinha orgulho no filho, mas sentia que tinha orgulho no filho, e não pensava que estavam juntos havia quase vinte anos, mas, ao ouvir a água, ao ouvir os alguidares cheios, ao ouvir a água lançada sobre o corpo do filho, sentia o valor e o tamanho de estarem juntos havia quase vinte anos.
O filho entrava na cozinha com o alguidar vazio na mão, com uma toalha enrolada à volta da cintura e com uma toalha pendurada no ombro. A cor que o sol lhe queimava nos braços e no rosto acabava em linhas certas junto aos ombros e no início do pescoço. A sua pele era branca e fresca no peito. As palmas das suas mãos eram negras. A mãe estendia-lhe uma camisa lavada, uma camisa que tinha passado a ferro e que tinha guardado em cima de uma arca, sob o canto de uma sombra. A mãe estendia-lhe roupa lavada. O filho vestia-se. As palavras que trocavam nessa ocasião eram brandas, palavras suaves, conversas. Quando o filho acabava de vestir-se, a tarde era fresca. O filho preparava-se para sair e a mãe aproximava-se para lhe arranjar o colarinho ou as mangas da camisa, aproximava-se para vê-lo bem vestido, lavado, bonito. O filho saía e a mãe começava a fazer o jantar.
Saía de casa e, muitas vezes, não ia mais longe do que o pequeno adro da capela que ficava em frente de casa. Nessa hora dos dias de agosto, havia muitos rapazes da idade do filho que ficavam por ali a falar. A mãe não sabia do que falavam. Talvez falassem de jogos da bola, talvez falassem de raparigas. Noutras vezes, ia ao terreiro. Caminhava de mãos nos bolsos pelas ruas até chegar ao terreiro. Se entrava na venda, não fazia despesa. A mãe sabia que o filho não bebia. A mãe sabia que o filho guardava o dinheiro que ganhava na cortiça numa caixa que estava na gaveta da banquinha. A mãe ficava descansada e esperava o momento em que a porta se abria e em que o filho chegava para jantar.
Foi numa das primeiras semanas de agosto, foi na hora em que o filho tinha saído, quando fazia o jantar e estava descansada, que a mãe ouviu o carro do circo. Saiu à porta para ver. O carro tinha cartazes de cores colados nas portas, cartazes que tinham sido novos, cores que tinham sido definidas. O carro tinha um altifalante no tejadilho. O homem que guiava segurava um microfone e repetia palavras sobre o circo. As mulheres estavam todas à porta. Havia rapazes que estavam sentados nas escadas da capela e que se levantaram. O filho não estava entre esses rapazes. Foi dar uma volta ao terreiro, pensou a mãe.
Quando o filho era pequeno, a mãe dava-lhe uma nota de vinte escudos de cada vez que chegava um circo. A mãe sabia que a vida da gente do circo era difícil, eram maltratados em muitos sítios, andavam à chuva e, às vezes, passavam fome. Além disso, a mãe queria que o filho conhecesse as coisas. Gostava de o ver encantado. Quando o filho era pequeno, chegava do circo e contava tudo à mãe. As cadeiras eram rijas, mas havia um homem que cuspia fogo, havia um homem que fazia desaparecer coisas, havia uma mulher que voava. A mãe não se admirou quando, nesse dia, o filho chegou para jantar e disse que a seguir ia ao circo.
A mãe esperou por ele até altas horas da madrugada. Viu--o entrar e levantou-se da cadeira onde o esperava e onde imaginava toda a espécie de coisas. Em vários momentos, a mãe tinha pensado em sair pelas ruas, em ir à azinhaga onde tinham montado a tenda do circo. Não foi. Ficou sentada na cadeira a imaginar o que poderia ter acontecido, onde poderia estar o seu filho. Quando o viu entrar, levantou-se. Olhou para ele, perguntou-lhe por onde tinha andado. Respondeu que tinha ido ao circo e que tinha de se ir deitar porque era muito tarde. Passaram três horas e chegou a hora de levantar-se. A mãe estava na cozinha e o café estava pronto. O tarro com o almoço estava pronto. Nessa madrugada, quando chegaram os tractores e quando partiram como sombras, a mãe não ficou tão descansada como costumava ficar. Passou o dia e, nessa tarde, depois do filho chegar da cortiça, depois de tomar banho, a mãe estendeu-lhe as roupas com um olhar desconfiado, como se esperasse que ele lhe dissesse alguma coisa. Ele não lhe disse nada. Sorriu-lhe. Vestiu-se e saiu. Na cozinha existiu o som das mãos do filho a puxarem a porta, a fecharem-na. A mãe dirigiu-se com passinhos lentos ao som que ainda restava da porta a fechar-se. Abriu a porta e viu o filho, bem vestido, lavado, bonito, a descer a rua.
Chegou a hora de jantar. O filho entrou e deixou a porta aberta atrás de si. Olhou para a mãe e, quando a mãe olhou para ele, entrou uma rapariga pelo espaço da porta aberta. Tinha os cabelos louros e roupas brilhantes. Era uma rapariga do circo. O filho apresentou-a à mãe. A mãe olhou-a com medo. Disse-lhe palavras envergonhadas. Muito prazer. A mãe sabia que era isso que se dizia às senhoras no momento das apresentações. A mão da rapariga era lisa e tocou os dedos da mãe, que eram velhos. A mãe pôs três pratos na mesa. Despejou a panela de sopa dentro da melhor terrina que tinha. Sentaram-se os três. Ficaram em silêncio. A rapariga vestida com roupas brilhantes, o filho vestido com uma camisa lavada e passada e a mãe vestida de negro. Num instante do silêncio, com a rapariga a olhar para ele, o filho disse à mãe que, no dia seguinte, ia partir com o circo. A mãe olhou-o e suspendeu lágrimas no olhar. O filho entrou no quarto. A mãe ficou com a rapariga na cozinha. A mãe segurava as mãos diante das pernas e olhava para o chão. Ouvia-se o som da madeira. Ouvia-se o filho a abrir e a revolver a gaveta da banquinha.
Essa noite passou devagar. A mãe não dormiu. Organizou a mala do filho. As roupas dobradas e empilhadas dentro da mala. A mãe dobrava lenços de assoar e enfiava-os nos cantos livres da mala. Entre as roupas a mãe acomodou a única fotografia que existia do dia do seu casamento. Era nova. O marido era bonito e novo. Desde o tempo parado na superfície da fotografia, como se fosse de um sítio muito distante, sorriam para quem os via. Quando o filho acordou, tinha a roupa estendida na arca. Vestiu-se lentamente. Naquela madrugada, a mãe sentou-se a beber o café com o filho. Juntos, imóveis, ouviram o som dos tractores na rua. Em silêncio, ouviram os tractores a partir, ouviram os seus motores cada vez mais fracos, ouviram-nos a desaparecer. Nesse instante, o filho levantou-se e segurou a mala. A mãe entregou-lhe um embrulho com comida. Aproximou-se dele para lhe acertar o colarinho. Quando o viu sair, ficou parada no centro da cozinha durante muito tempo. Com os braços estendidos ao longo do corpo, olhou para a porta durante muito tempo.
A manhã começava lentamente. Na rua, havia o som de mulheres que abriam a porta e que saiam para comprar pão. Ouvia-se o som de mulheres a dizerem bom dia, ouvia-se cães. Às vezes, ouvia-se um carro que passava. A mãe estava sentada numa cadeira da cozinha quando sentiu a porta a abrir-se. O filho não olhou para a mãe. Pousou a mala. Sentou-se numa cadeira. A mãe imaginou a azinhaga depois de levantarem a tenda do circo, imaginou o estrume seco das feras, os buracos das estacas, um círculo de areia no centro da azinhaga. A mãe e o filho ficaram sentados debaixo do silêncio da cozinha. O tempo passou lentamente dentro deles.
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