A MÁQUINA DO TEMPO

Quatro amigos quiseram fintar o desemprego e criar saídas profissionais estáveis dentro da ciência de que mais gostam. Abriram uma empresa de Arqueologia e sentem-se realizados.

16 de maio de 2004 às 00:00
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Entre as terras quentes do Baixo Alentejo, junto à fronteira com Espanha, fica Barrancos, vila conhecida pelas tradições arreigadas, onde se misturam raízes portuguesas e hábitos do país vizinho. Mas nem só da beleza das festas vive uma população. Em contrapartida, a povoação ressente-se de fracos recursos económicos e de falta de oportunidades de emprego.

É nesta vila raiana que encontramos Clarisse, Antónia, Vítor e Manuel, quatro amigos que se recusam a deixar a terra natal e apostam num gosto em comum para criar uma nova forma de rendimento: uma empresa de Arqueologia.

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No início o cenário não era o mais favorável. Os quatro barranquenhos, com apenas o ensino secundário, viviam de trabalhos esporádicos dos programas ocupacionais da Câmara Municipal e enfrentavam o desemprego. Por isso tentaram criar a sua própria saída profissional. E conseguiram.

Há cerca de quatro anos formaram a ArqueoBarrancos. Hoje fazem todo o tipo de serviços desde escavações, acompanhamento, levantamento topográfico, tratamento de espólio, restauro de cerâmica, desenho arqueológico, investigação no âmbito sócio-cultural e prospecção arqueológica.

APOSTA NA FORMAÇÃO

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Conhecem-se desde sempre, porque numa vila pequena todos sabem quem é quem. Mas foi por acaso que descobriram ter uma paixão comum. Há seis anos encontraram-se no Curso de Património e Arqueologia promovido pela câmara local e pela Rota do Guadiana – uma associação que apoia o desenvolvimento local no âmbito de iniciativas comunitárias. Ali nasceu a vontade de criar um projecto conjunto, em muito incentivado pelo professor Miguel Rego, arqueólogo responsável pelos trabalhos em Barrancos nos últimos dez anos. Terminada a formação e, no espaço de um ano, apresentaram duas candidaturas: uma à Rota do Guadiana e outra pelo Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP). A primeira foi recusada e a segunda vingou. Através do programa Iniciativas Locais de Emprego (ver caixa) viram a sua proposta aprovada num prazo de três meses. Receberam um financiamento a fundo perdido por parte daquele instituto e pediram um empréstimo ao mesmo para avançar com o negócio, num investimento total de 25 mil euros (cinco mil contos na moeda antiga).

Um ano depois de terminarem o curso abriram a primeira empresa de arqueologia de Barrancos. O acordo com o IEFP manteve-os ligados ao instituto durante os primeiros três anos de actividade. Findo este prazo a empresa ficou a depender única e exclusivamente dos sócios. No início eram cinco, mas Sónia, o quinto elemento, deixou a empresa. Quatro anos volvidos, estes técnicos de Arqueologia têm um escritório nas caves do posto de turismo de Barrancos, cedido pela Câmara e pelo qual pagam uma renda simbólica, e dispõem de todos os meios necessários para aceitar qualquer trabalho relacionado com esta área.

A REALIZAÇÃO PROFISSIONAL

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A Arqueobarrancos estreou-se com um serviço de acompanhamento na barragem do Alqueva. “O primeiro trabalho foi um sentimento bom, de independência e realização profissional”, descrevem.

A esta experiência seguiram-se outras um pouco por todo o País, desde prestação de serviços à Câmara de Barrancos até ao acompanhamento das obras do Metro do Porto, passando pelo restauro de cerâmica na cidade de Huelva, em Espanha.

Apesar da diversidade de projectos em que estiveram envolvidos nos últimos anos, os sócios admitem que não é fácil arranjar trabalho na Arqueologia. “É com algum sacrifício que temos conseguido contornar as dificuldades da empresa”, confessa Manuel. À falta de fundos, que dificulta a candidatura a novos projectos, junta-se o carácter esporádico do trabalho. Por isso, o rendimento obtido em dois ou três meses de trabalho, tem de ser gerido de forma a chegar a outros períodos em que não há projectos para desenvolver. Apesar dos trabalhos para que são contratados serem pagos acima da média, este rendimento tem de pagar ordenados, seguros, segurança social e, até, ajudar os sócios que ficam parados. Na ArqueoBarrancos os lucros são pequenos, mas dá para sobreviver.

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Dificuldades que não desanimam estes arqueólogos, que já têm outros projectos na manga. Num acordo assumido com a Câmara ficaram responsáveis pela manutenção do castelo de Noudar, em Barrancos. Ainda sem data prevista, está programada a abertura de um museu etnográfico e arqueológico na vila. A ArqueoBarrancos já recolheu e preparou todo o espólio em exposição e vai ser a responsável pela sua gestão. As perspectivas são ainda mais optimistas para meados de Agosto, altura em que os sócios esperam iniciar novos trabalhos de escavações. No entanto, estão sempre dependentes dos pareceres da Câmara e de outras entidades.

Ainda assim, o balanço de quatro anos de actividade é positivo. Os barranquenhos sentem-se realizados por terem conseguido criar, inicialmente, cinco postos de trabalho estável. Gabam-se também de já terem contratado alguns colaboradores para trabalhos de restauro de cerâmica. Um contributo pequeno, mas importante para ajudar a minimizar as dificuldades sócio-económicas sentidas em Barrancos. Optimistas, os quatro amigos destacam o companheirismo que os une e que os tem ajudado a ultrapassar as dificuldades: “Na base da ArqueoBarrancos está o gosto pela arqueologia e a esperança de que amanhã as coisas melhorem.”

CLARISSE MARIA COSTA MARCELO

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Idade: 34 anos

Formação: Ensino Secundário

Experiência profissional: Teve diferentes ocupações conseguidas através de programas ocupacionais da Câmara de Barrancos, que passaram pela pintura, serviços administrativos do cartório notarial, entre outros. Também trabalhou num bar.

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ANTÓNIA MARIA OLIVEIRA GODINHO

Idade: 32 anos

Formação: Ensino Secundário e Curso de Restauro de Cerâmica.

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Actividade profissional: Foi ‘babysitter’, professora de restauro de cerâmica e fez trabalhos esporádicos de tratamento de espólio arqueológico e restauro de cerâmica.

MANUEL AGUDO MARCELO

Idade: 48 anos

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Formação: Ensino Secundário

Experiência profissional: Durante mais de dez anos trabalhou no ramo da hotelaria, foi ‘barman’ e escriturário. Trabalhou em cruzeiros, como chefe de vinhos. Também fez trabalhos esporádicos de desenho arqueológico.

VÍTOR RIBEIRO CORTEGANO

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Idade: 29 anos

Formação: Ensino Secundário

Experiência profissional: Foi músico da Filarmónica do Exército e trabalhou como ‘barman’.

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COMO CRIAR O SEU PRÓPRIO EMPREGO

O Instituto do Emprego e Formação Profissional prevê um conjunto de medidas de apoio a iniciativas locais de emprego, as ILE. Trata-se do estímulo de projectos que criem novas empresas e que fomentem postos de trabalho nas economias locais, mediante investimentos reduzidos. Estas medidas destinam-se a desempregados, jovens à procura do primeiro emprego ou trabalhadores em risco de desemprego.

Os projectos candidatos não devem ter uma dimensão superior a 20 trabalhadores e o investimento total não deve ultrapassar os 150 mil euros (30 mil contos). O futuro projecto pode beneficiar de um subsídio não reembolsável, até ao limite de 40 por cento do investimento previsto, o qual não pode ultrapassar os 12.500 euros por cada posto de trabalho gerado. Através do ILE, a empresa a criar pode usufruir de apoios técnicos, selecção e recrutamento de trabalhadores desempregados, formação na área empresarial para dirigentes e consultoria especializada, nas áreas financeira, comercial, de recursos humanos, marketing, publicidade e de gestão da produção.

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Para candidatar-se basta entregar o formulário no Centro de Emprego, disponível em www.iefp.pt.

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