A morte e a vergonha de Congonhas

A vida é demasiado curta para passarmos o tempo a fingir. Os políticos não sabem mas também morrem.

12 de agosto de 2007 às 00:00
A morte e a vergonha de Congonhas
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Pausa. A vida é para ser vivida. E a morte? Vive-se a morte? Na juventude, como dizia o filósofo, pensamos na morte sem a esperar; na velhice, esperamo-la sem nela pensar. Quase todos nós já vimos entes queridos partir. De forma natural ou trágica. Um pai, um tio, uma irmã. Uma irmã que morre deixando uma vida, hoje feita mulher. Amigos ou companheiros de trabalho. São tantos, mas cabem sempre na memória. Fazem-nos falta, deixam-nos saudades. Quanto mais velhos ficamos mais possibilidades existem de lidarmos com a morte.

Com a dos outros até que começamos a sentir que chegou a nossa hora. Há quem despreze a vida e certas sociedades, habituadas a acordar ao lado dos despojos de guerra, cadáveres aos bocados, fomentam o suicídio em defesa daquilo a que chamam nobres causas. É uma questão cultural. As ninfas podem esperar.

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Em pleno século XXI ainda assistimos a enforcamentos públicos. Há quem diga que, de entre todos os animais, o mais tolo é o homem. Ou que este está um milímetro acima do macaco, quando não um centímetro abaixo do porco.

No Ocidente, acha-se alguma dignidade na morte, quando não se faz dela um espectáculo mediático, em que todos são muito mais importantes do que o defunto. O egoísmo perante a morte. Ficamos cá, que tragédia! O morto que se lixe. Enterra-se ou é cremado, num ritual de muitas lágrimas e gargalhadas silenciosas.

A vida é demasiado curta para passarmos o tempo a fingir. A hipocrisia choca. Aparecem uns e outros, a lutar entre si pelo protagonismo maior. Na magazinada onde se revêem, quase todos os dias, sentindo o halo insustentável da importância minimalista. Ai se o morto pudesse falar e pôr ordem na folclórica desordem de um Mundo que se vai perdendo na instantaneidade do acto fútil.

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Nascemos para morrer. Mas estaremos preparados para encarar a morte? Os pais e os professores alguma vez pensaram nisso para poderem fazer a reflexão, nos momentos certos, com os filhos e os alunos? Entre o drama e a galhofa, pode haver uma despedida sentida mas ao mesmo tempo fraterna, não digo à boa maneira de Ettore Scola, com o seu delicioso ‘I nuovi mostri’, mas com alma, uma grande alma, sinónimo de grandeza de espírito.

Um pároco a mandar calar a irracionalidade ruidosa da ‘assistência’ perante o morto que jaz sem nada poder ouvir. Não se faz. E não se faz o que se fez com Congonhas. Há políticos bivalves que lidam tão bem com a vida como com a morte. Mas um dia eles também hão-de morrer, com a barriga cheia de miséria.

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