A PRATA DE OBIKWELU
O segundo homem mais rápido do Mundo apostou tudo nos 100m e ganhou medalha. Mas ficou sem força para os 200m. Como deseja continuar a dar alegrias ao País que o acolheu, nem namorada quer para não desviar as atenções da alta competição
Os dois amigos já não se viam há anos. Foi o desporto quem os voltou a juntar, agora não nos jogos de bola na terra batida de Onisha, Nigéria, mas no Estádio Olímpico de Atlanta, nos Estados Unidos. Estávamos em 1996: Francis Obikwelu, 17 anos, preparava-se para correr as eliminatórias dos 200m, enquanto Nwankwo Kanu – mais tarde vítima de uma grave doença cardíaca – era candidato a melhor jogador de futebol do Mundo. Unia-os a amizade e o equipamento verde da Nigéria, país onde se haviam separado quatro anos antes, quando Kanu foi levado para o Ajax de Amesterdão. Nessa altura, já não jogavam à bola juntos: o joelho de Obikwelu tinha traído o defesa-central que tantas vezes ajudara o amigo avançado a marcar golos.
“O que fazes aqui? No atletismo? Então e o futebol?”, perguntou Kanu, para quem Obikwelu era melhor do que muitos dos defesas que tinha fintado na Europa nos últimos anos. “Não dá! O joelho não aguenta o futebol”, lamentou Obikwelu, com a mágoa que ainda hoje lhe vinca as palavras quando fala do sonho desfeito. “Eu era melhor jogador de futebol do que corredor”, garante Obikwelu. Não fosse o joelho e os dois amigos teriam erguido juntos o troféu de campeão olímpico. Assim, só Kanu brilhou, Obikwelu ficou-se pelas meias-finais dos 200 m.
Quando se despediram em Atlanta, Kanu preparava-se para assinar um contrato milionário com o Inter de Milão, Obikwelu contava o pouco dinheiro que ganhava nas obras no Algarve e tentava convencer quem o conhecia em Portugal de que era um bom velocista.
IMIGRANTE ILEGAL
Dois anos antes, após os Mundiais de Juniores, tinha fugido do estágio da Nigéria e ficado no nosso país, com pouco mais do que o seu corpo. “Não ia morrer, podia trabalhar”, recorda. Ainda se foi apresentar ao Sporting e ao Benfica, mas como era menor e imigrante ilegal ficou à porta.
Rumou então ao Sul. Mary Jo Morgan, uma britânica radicada em Loulé há 21 anos, gostou da humildade daquele jovem, cujo imponente físico de 1,95 m contrastava com a delicadeza do trato. Ofereceu-lhe cama em sua casa e escreveu a vários clubes de Lisboa a pedir uma oportunidade para Obikwelu. O treinador do Belenenses, Fausto Ribeiro, foi o único a interessar-se. Mandou chamar o rapaz e ficou maravilhado assim que o viu galopar na pista. Era só o que Obikwelu precisava.
De imediato, o nigeriano começou a ganhar provas e rapidamente se tornou no atleta mais apetecido pelo Sporting. A ida para Alvalade, em 1997, dá-lhe as condições que faltavam para brilhar a nível internacional. Acumula medalhas ao peito, e quando em 2001 se naturaliza português é já um dos mais bem pagos atletas do País: no ano seguinte, atinge os cerca de cinco mil euros mensais. Longe ia a sensação de estômago vazio e a barraca que o acolheu no Algarve.
Obikwelu vivia então num apartamento em Linda-a-Velha, onde na missa de domingo ajudava o padre. Tinha finalmente cozinha para praticar o seu arroz cozido a vapor, “uma especialidade irresistível” segundo amigos.
Tudo corria bem, até ao seu amaldiçoado joelho direito voltar a dar sinais de ruptura. Nos primeiros momentos, nem a fé católica lhe valeu. Obikwelu sentia-se injustiçado, custava-lhe a aceitar a hipótese de ver desmoronar a ambição de ser atleta profissional, construída já sobre os escombros do sonho futebolista.
Quando chega ao colo da treinadora espanhola Maria José Martinez, nem parece o mesmo: está “triste, desmotivado, convencido de que a má sorte não mais o largaria”. Perante as limitações do atletismo nacional, sobretudo a nível de apoio médico, Obikwelu muda para Espanha. Aluga casa num dos bairros mais caros de Madrid e passa a treinar no Centro de Alto Rendimento do Estádio Universitário da capital espanhola. Para facilitar as muitas viagens a Lisboa, muda de residência para Santo António dos Cavaleiros, Loures, “devido à proximidade com o aeroporto” da Portela.
A nova aventura corre pelo melhor. Continua a somar vitórias, mas, apesar da velocidade inata, está distante do nível dos adversários que tinha de enfrentar nos Jogos Olímpicos de Atenas. “Quando chegou ao pé de mim, nem assentava bem os pés no chão. Tivemos de fazer um trabalho de compensação entre as duas pernas para que o Francis pudesse dar o seu máximo”, explicou-nos a treinadora ‘Mari’ – como é carinhosamente tratada por Obikwelu.
A recuperação corre bem, mas por força das limitações impostas pela lesão no joelho, Obikwelu tem de apontar baterias para os 100 metros, remetendo para segundo plano a sua especialidade, os 200 m. O sucesso é absoluto: em Atenas, entre os temidos norte-americanos Justin Gatlin e Maurice Green, corre os 100 m em 9,86s e torna-se o segundo homem mais rápido do Mundo – na mais renhida final olímpica de sempre.
Além da medalha de prata, a marca vale-lhe o novo recorde europeu da distância, desde 1993 na posse do britânico Linford Christie (9,87s). Mas quando o inglês bateu o recorde ainda Obikwelu pensava em correr atrás da bola. Agora, em Atenas, o velocista recorda: “Batê-lo acaba por ser o meu ouro. Mas isso é agora, porque quando ele fez esse tempo isso pouco ou nada me disse, já que eu só jogava futebol e ainda nem sequer pensava no atletismo”.
SANGUE DE LUTADOR
Para Obikwelu, 25 anos, o feito do Olimpo é o recompensar de um conjunto de sacrifícios: desde o riscar as batatas fritas do menu, ao evitar ter namorada, “por falta de tempo para compromissos sentimentais que o desfoquem do atletismo de alta competição”, segundo fonte próxima do atleta.
Portugal tem motivos para estar orgulhoso por ter adoptado este imigrante nigeriano, não apenas pela vitória, mas sobretudo pela forma como Obikwelu se adaptou ao novo país. Em Atenas, confrontado com o passado desportivo na Nigéria, foi peremptório: “Não vamos falar disso. Vamos falar do meu país, Portugal. Sou português e estou muito feliz por levar esta medalha para Portugal.”
A vontade de ganhar corre nas veias de Obikwelu à mesma velocidade com que ele galopa na pista. Por isso, dias depois de ter tocado o céu nos 100 m, ele tudo fez para estar no seu melhor na final dos 200 m. Experimentou fatos especiais para minimizar o esforço durante as qualificações, fez sucessivos banhos de gelo e horas a fio de massagens com Andrew Miller, o Gordo, conceituado fisioterapeuta que levou Maurice Green ao ouro nos Jogos de Sydney.
Como se o cansaço não bastasse, na véspera da meia-final, Obikwelu foi atacado pela febre. Os cuidados redobraram-se, tomou aspirinas e vitaminas contra a gripe, em vão: a minutos da corrida ainda se sentia combalido. Miller e Maria José Martinez aconselharam-no a abdicar da prova, mas Obikwelu está habituado a sofrer e recusou desistir do sonho de tornar-se o primeiro português a ganhar duas medalhas olímpicas no mesmo ano. Apurou-se com o tempo de 20,30 segundos, impressionante para um atleta doente.
No dia seguinte, porém, Obikwelu subiu à pista sem chama. Já não dançou nem sorriu para o público como na final dos 100 metros. As últimas horas tinham sido difíceis, estava cansado e sabia que naquelas condições era quase impossível derrotar os adversários que o rodeavam. Para agudizar a tensão, o público grego e o norte-americano Bernard Williams pegaram-se: o corredor provocou com um espalhafatoso pentear de sobrancelhas quando se viu no ecrã gigante, as bancadas saltaram em defesa de “Kenteris! Kenteris!” – a maior paixão dos gregos antes dos Jogos –, ausente da final devido ao ‘doping’. Só à terceira tentativa os corredores partiram. Obikwelu aguentou o máximo que pôde, 100 metros, mas desta vez a corrida tinha o dobro. Nos metros finais, já só o trio americano Crawford-Williams-Gatlin disputaram as medalhas. Ganhou Crawford, com 19,79s. O português cortou a meta em quinto, com 20,14s, o mesmo tempo do vetereno Franck Fredericks. Falhada a segunda medalha, Obikwelu congratulou os vencedores e abandonou, de imediato, a pista que dias antes o consagrara como o segundo mais rápido do Mundo. Ficou no acesso aos balneários, cabisbaixo, aguardando a sua marca. Quando o seu nome surgiu no ecrã, virou costas e seguiu, sem ser interpelado pelos jornalistas estrangeiros, porque desta vez não era ele a estrela.
Francis Obikwelu chegou escanzelado ao Belenenses. “Lembro-me da primeira vez que o vi, era uma pessoa muito alta mas também muito franzina.” Perante a fraca figura, Ricardo Ferreira, dirigente da secção de atletismo, convenceu-se que o rapaz só podia estar ali para fazer salto em altura.
Mas não, conforme o próprio Ricardo viria a reconhecer. “Ele estava era num estado de grande fraqueza e debilidade.” A constituição, e o paludismo, que lhe sobreveio, não davam qualquer hipotese a que se evidenciasse o atleta. Era Feveiro de 1996, e passou a Páscoa até que começasse a treinar.
O nigeriano passou a morar numa casa sob a bancada do Estádio do Restelo. Ricardo Ferreira habituou-se a vê-lo correr, a vê-lo cimentar amizade com as suas três filhas, praticantes da modalidade, na altura com 10, 11 e 13 anos.
Francis tinha 17 e vivia praticamente confinado ao estádio lisboeta. Foi aí, que um dia a mulher de Ricardo foi encontrar Obikwelu, sentado numa bancada, dobrado sobre si, a chorar. Isabel Ferreira perguntou-lhe o que tinha, e ele queixou-se de saudades. E por precisar de mãe em terra estranha, fez-lhe a pergunta que quebrou o coração da portuguesa. Isabel aceitou – seria a sua mãe adoptiva. O rapaz nigeriano passou a ser de casa. Quando ele esteve no hospital, Isabel cuidou para que não estivesse sozinho. Quando a menina mais velha da família foi internada, Francis “pôs tudo à disposição para que não lhe faltasse nada”.
Mas o nigeriano, que diz ser português de coração, não esquece a família biológica. Foi ela que o aconselhou a ficar em Portugal e a escolher a nacionalidade portuguesa. Sábio conselho. Depois de se tornar atleta de alta competição, ele cuidou para que todos tivessem casa nova. E ainda hoje, não toma uma decisão sem telefonar para a família, lá bem longe, na Nigéria.
1957
António Faria, do SLB, faz a marca de 10,6s. É o português com o maior número de recordes.
1986
Arnaldo Abrantes, do SCP, conseguiu o tempo de 10,44s,
1988
Novo recorde, agora para Pedro Agostinho: 10,36s
1996
Carlos Calado, ao serviço do SCP, quebra o próprio recorde: 10,11s
2004
Francis Obikwelu, desde 2002 o recordista nacional nos cem metros, é o primeiro a superar a marca dos 10 segundos: 9,86s, em Atenas
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