A Revolução em 20 hectares de flores exóticas
No Alentejo, os cravos estão longe da vista, mas perto do coração de Vasco Lourenço, um dos capitães hortifloricultores.
A teimosia dos tempos de luta não murchou. Quando uns pré-associados israelitas tentaram regar o negócio com ideias daninhas, seis mãos imprimiram viço à casmurrice para provar que não eram flores de estufa. “Não tinham know-how, eram simplesmente vendedores de plantas, quantas mais estragassem, melhor para eles! Não aceitámos as condições que eles nos impuseram”, diz Vasco Lourenço, um dos três capitães de Abril que há oito anos fizeram desabrochar o projecto de hortifloricultura Europrotea, na Zambujeira do Mar.
O exotismo do hemisfério sul impôs--se ao símbolo da Revolução, enraizado na memória, ainda que não se passeie pela lapela. “Cravos sempre, e em todas as alturas, mas não produzimos. Agora, quando chega a altura do 25 de Abril, os produtores guardam-nos para os pôr em cima da data. Já pensámos ter aqui uma plantaçãozinha simbólica. Talvez junto da casa...”, suspira o capitão, refém da dúvida de que a coisa vingue. “As maiores plantações são em Itália, na encosta de San Remo”, explica Rosado Luz.
Perderam terreno para as proteas, espécies originárias da África do Sul, Austrália e Nova Zelândia, importadas para o Litoral alentejano, onde o ferreiro começa a trocar o espeto de pau pelo ferro. “Farto-me de levar tareia por não levar nada para casa! Não temos muitas, mas vou levar para a minha mulher. Pediu-me para oferecer à cunhada”, confessa Vasco Lourenço, deitando mãos a uns envasados. As proteas, ilustres desconhecidas para muitos, seguem no caminho de regresso a Lisboa. “Em Portugal muito pouco ou nada se sabia deste tipo de plantas”, confirma o administrador executivo, capitão José Rosário Simões. “Desconhecíamos isto a 100%. Zero. E se me dissessem nessa altura que me ia interessar pela plantação de flores eu dizia que era mentira. Um dos nossos antigos sócios era agrónomo e tinha feito experiências aqui perto. Verificou que havia boas condições para fazer proteas e lançou-nos este repto. Criámos um grupo de amigos, quase todos militares de Abril. O projecto era turístico, mas ficou para trás”, confessa o companheiro Vasco.
O brio chegou-se à frente e debelou as burocracias. “Somos teimosos! E hoje estamos convencidos de que a empresa dá algumas cartas”. A ideia distribui jogo. O projecto de turismo rural adiado vai arrancar dentro de dois meses, plantações meias com colossos produtores agrícolas americanos, espanhóis e franceses, com quem alinham na sofisticação das culturas. “O concelho de Odemira já exporta cem ou mais milhões de euros. Todo o Litoral alentejano poderá ser o grande produtor de bens de alto valor acrescentado, hortículas e florículas, para competir nos mercados internacionais”, confia Rosado Luz. “Em Odemira, somos uma empresa de pequena dimensão, mas a maior de capitais portugueses”, distinguem, com orgulho.
A matrícula espanhola estacionada no terreno não deixa mentir. As portas dos oitenta hectares, 20 dos quais cultivados, abrem-se hoje para dar lições a quem quer aprender mais. Para lá do caminho ermo em terra batida, incógnito ao olho do viajante distraído, já conhecem a morada. De técnicos da Universidade do Chile a estagiários do outro lado da fronteira que anualmente acorrem ao Sardão. “Talvez tenhamos sido os primeiros a fazer isto numa escala grande. Sobretudo fazê-lo com tecnologia portuguesa. Lançámos um desafio ao Instituto Superior de Agronomia e fomos à procura de formação onde ela existe, na África do Sul. Hoje em dia já exportamos know-how”, sublinha Rosado Luz. “
CENÁRIO
O cenário de Cape Town desemboca na Herdade do Sardão, um pequeno oásis agasalhado por eucaliptos que filtram a maresia do Atlântico em pleno parque natural. Charcos de água embargaram a aridez da paisagem. Solos ácidos abandonaram o repouso para converter o concelho de Odemira no maior produtor de proteas a nível nacional. As flores estão à mão de semear – agora também à mão de clonar – upgrade da germinação por semente que assegura a paridade das flores exigida pelo mercado. A parada de 30 espécies ‘de Inverno’ reconfigurou os terrenos antes confiados ao deus dará. Os viveiros enchem a paisagem de nomes rebuscados que transitam dos armazéns de refrigeração para as caixas e paletes com destinatário holandês – plataforma por excelência do mercado florícola. À vista, a fábrica de composto, um amontoado de ramos para fermentar e fertilizar, com guia de marcha para a agricultura biológica, outro dos investimentos dos 11 associados da sociedade. “Somos uns tesos. Mas os amigos acham que estamos ricos!”, brinca Vasco Lourenço.
Leucadendrons, leucospermum, brunias, restios, jarros amarelos e rubros disputam atenções com alhos franceses e alfaces. Quatro hectares juntam-se ao vale onde se estende o manto livre de químicos. Antevê-se o declínio das culturas de Outono e Inverno que encaixam regras de sucessão específicas. “Agora vão começar o tomate cereja, ervilhas, melões, melancias, abóboras”, explica Rosado Luz, levantando o véu sobre outra aposta. “Já produzimos batata-doce há dois anos e agora vamos fazer mais um conjunto de hectares de batata-doce biológica”, diz. “Qualquer dia as flores também vão ter de ser biológicas!”, observam.
Por enquanto, valem-se da beleza e resistência. “Estas flores são menos perecíveis do que o normal. Primeiro é uma ‘flor de inverno’, é possível estender a sua produção durante todo o ano. Como há menos flores no Inverno, a sua cotação é mais elevada. E o hemisfério sul funciona em contraciclo, não concorre connosco em termos climáticos. Podemos aumentar a escala produtiva sem medo de inundar o mercado. Segundo, mantêm-se viçosas durante muito tempo, até um mês. É bom para quem compra a flor, que é bem mais cara.”
ILHAS
Açores e Madeira, para além do Alentejo, são as regiões nacionais mais receptivas a estas flores ornamentais que a corte da rainha Vitória fez transitar para o hemisfério norte. “Em Portugal, quem gosta de flores é o norte! Consome bem mais do que o sul”, aponta Rosário Simões. “Há muitas flores nossas que, por vezes, vão à Holanda e voltam! É a grande porta giratória. Vendemos também para nacionais, normalmente para grossistas, porque não temos estrutura para vender aos retalhistas”, acrescenta Rosado Luz.
Daqui a dois anos os barracões já terão dado lugar a um empreendimento turístico. Um pequeno grande oásis no conselho de Odemira, confinado com o mar, que colocará a herdade ainda mais no mapa. Um porto dentro da propriedade, o leve ondulado azul e a promessa de um pôr-do-sol único a partir de um pouso de traça mourisca farão as delícias dos amantes do turismo rural. E as delícias dos capitães, testados na agilidade de fuga pelo sistema que dá de beber à relva – e às recordações. “Chuva de civil não molha militar!”, rematam em uníssono.
AGRICULTURA ESPECIALIZADA PERMITE COLHEITA DE FRUTOS COM ALTO VALOR
“Podar um bocadinho, pôr dentro de água e juntar uma tampinha de lixívia pura. Quando a água começar a ficar turva, tirá-la, deitar mais um pouco e repetir a manobra. Com isto, aguentam-se bastante tempo.” Rosado Luz deixa a pequena dica saída de um trabalho em grandes moldes que implicou abrir os cordões à bolsa. “Cada hectare, só contando o sistema de rega, custa vinte cinco mil euros, é multiplicar pelo número de hectares. Pelo preço que comprámos aqui 80 comprávamos uns 25 mil na África do Sul”. Os capitães ficaram por Portugal.
Agricultura competitiva, métodos sofisticados, técnicos altamente especializados, protecção integrada – antecâmara da agricultura biológica, com recurso ao mínimo de químicos –, investigação aliada aos ditames da floricultura. O trabalho do presente prepara o futuro e vai dando os seus frutos. “As flores são uma coisa de moda. A natureza foi fazendo híbridos. Queremos criar hoje as flores de amanhã. Esta é a nossa primeira flor, não há em mais lado nenhum”, exibe o empresário. “Foi criada por manipulação, que não genética, mas sim polinização cruzada”. À semelhança do vestuário, é preciso antecipar as tendências. Se as cores como o vermelho são as preferidas para o Natal, o rosa velho da mais recente coqueluche está na ordem do dia.
UMA ESPÉCIE ÚNICA À ESPERA DE BAPTISMO
12 Novos hectares destinados à hortifloricultura serão implementados em breve. Vão ser somados aos 20 hectares que cumprem já esta missão, no total dos 80 que compõem a Herdade do Sardão. Dois deles estão reservados à pesquisa
30 Euros é o preço aproximado de cada pé quando as proteas chegam às mãos do consumidor. Os exemplares saem do Alentejo a 2 ou 3 euros rumo à grande plataforma giratória do mercado florícola mundial, a Holanda
A protea, Rainha da plantação, está em processo de baptismo e certificação em Bruxelas. É uma espécie destacada entre as 30 produzidas e as cerca de mil existentes
40 Por cento da produção da empresa Europrotea tem como destino o mercado interno grossista. Um milhão de flores são produzidas todos os anos na Herdade do Sardão. A curto prazo, está previsto o aumento do volume. A meta é o dobro
E DEPOIS DO ADEUS À DITADURA
Trinta e três anos sobre a luta militar, a organização actual – empresarial – não ofusca a patente que fez história – “a qualidade de capitão de Abril é de longe o melhor posto!” – nem os créditos da Revolução dos Cravos. “Hoje estamos claramente melhor... ou pelo menos, menos mal. Não há comparação possível”, garante Vasco Lourenço. Em 74, tinha 31 anos. Rosado Luz e Rosário Simões, 28. “Eu pertencia à direcção do Movimento, era o responsável operacional. O Luz fez a ligação entre as tropas em Lisboa e o posto de comando da Pontinha. O Simões não teve acção directa na altura, mas era elemento presente do MFA. Acabaram por tirar o curso de Economia. Eu tenho-me envolvido como presidente da direcção da Associação do 25 de Abril”.
RECLUSAS EM REGIME ABERTO VÃO SEMEANDO O PROCESSO DE REINTEGRAÇÃO
Pela “soberba do dinheiro” cultivou “uma grande asneira” que lhe valeu pena de prisão. Ao abrigo do programa nacional de integração de reclusos em regime aberto virado para o exterior (RAVER), ‘Maria’, 40 anos, é uma das quatro reclusas no Estabelecimento Prisional de Odemira que picam o ponto das oito às cinco na Herdade do Sardão, desde Outubro. “O trabalho é muito gratificante. E, quando soube que os donos eram os capitães de Abril, fiquei eufórica. Homens que trouxeram a liberdade para Portugal, agora trazem a ‘liberdade’ a pessoas detidas. Tendo em conta a situação que vivo actualmente é-me muito mais fácil ver a reclusão”.
‘Patrícia’, 31 anos, alia o trabalho no campo com os estudos para ingressar na universidade de Economia. Já em Maio pode chegar a tão esperada condicional. “Se Deus quiser, e o juiz também, estou na rua! Quando saí, o tempo começou a passar mais rápido. Não tinha experiência nenhuma com flores, é um trabalho de campo, duro, mas não tenho medo de trabalho. É sempre benéfico”. Uma mais-valia dupla. “Há muito desemprego mas há grande falta de mão-de-obra. É útil para nós e gratificante para elas”, explica Rosado Luz.
Com direitos e deveres idênticos aos restantes 19 trabalhadores e apego estabelecido com a natureza em redor, parte dos planos futuros passam pela herdade – sucedâneo da aguardada liberdade. “Quero radicar-me aqui. É lindo!”, diz ‘Maria’.
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