A segunda oportunidade de Carlos Calado
O atleta voltou a construir uma família. Já tem uma nova mulher, de 21 anos, e um bebé. Costumam visitar o cemitério de Messines para Calado estar mais próximo daqueles que perdeu. Põem flores de plástico nas campas porque duram mais tempo.
Depois de ter perdido a mulher e os dois filhos, mortos pelo monóxido de carbono libertado do esquentador de casa, em São Bartolomeu de Messines, o atleta Carlos Calado recuperou a alegria de viver. Há dois anos que vive com Susana, uma jovem alentejana de 21 anos, e o casal tem um filho de oito meses, chamado Rafael. Em breve, a família vai voltar a crescer: Susana está novamente grávida. “Sentia a casa muito vazia. Estava habituado a ter a minha mulher e os miúdos. Quando eles morreram fiquei perdido e só pensava em recomeçar tudo outra vez”, diz Carlos Calado, de 39 anos.
A partir desse momento, o atleta chegou à conclusão que precisava de ter uma vida mais agitada, que o distraísse. Costumava ir aos cafés da zona e passava fins-de-semana em casa de amigos, sobretudo na de Dionísio Ventura, antigo campeão nacional de marcha e residente em Ferreira do Alentejo. Além de estar com o companheiro de longa data, Calado tinha também outro interesse. “O Dionísio tinha uma irmã, a Susana, e eu conheci-a quando ela tinha 12 anos. Há dois anos passámos a estar mais tempo juntos e eu comecei a reparar nela”, explica Calado. Susana, ainda com ar de miúda, e com o filho nos braços responde: “Ele era bastante simpático para mim e estava sempre a lançar-me olhares.”
Um dia, Carlos convidou-a para beber um café em Ferreira do Alentejo. Susana aceitou e estiveram horas a falar. Nenhum deles puxou para a mesa o assunto da tragédia. O atleta abriu o jogo. Disse-lhe que gostava de refazer a vida, ter outra mulher e filhos. A jovem, apenas com o sexto ano de escolaridade e a frequentar um curso de pastelaria na vila alentejana, vivia ao sabor do vento. Por isso, Calado arriscou fazer-lhe um convite mais ousado. “Perguntei-lhe se ela estaria interessada em passar um fim-de-semana na minha casa, em São Bartolomeu de Messines”, lembra.
A rapariga concordou e, quando entrou na modesta residência do corredor, nunca, por um momento, lhe fez confusão estar no mesmo local onde a família de Calado perdeu a vida. Pelo contrário. “Só saíu daqui para ir buscar a roupa que tinha deixado em Ferreira do Alentejo”, diz, a sorrir, o corredor. E levou também os CD de Shakira e Robbie Williams. Susana abandonou o curso de pastelaria e passou a cuidar da lida da casa. Semanas mais tarde, deu a primeira alegria ao companheiro: estava grávida. Calado ficou eufórico. “Precisava de ouvir em casa o barulho de um miúdo.”Até ao final deste ano, o corredor vai casar com Susana. “E o baptizado do nosso filho será feito no mesmo dia”, explica a rapariga.
Quando o Rafael nasceu, o corredor recuperou hábitos antigos. Todas as noites, levanta-se de madrugada para aquecer e dar o biberão ao filho. Também muda as fraldas. Nesses momentos, tenta não lembrar-se dos dois filhos falecidos, o Vítor e o Carlos. “Há que levar a vida para a frente”, diz. De facto, o atleta apagou da residência todos os vestígios que o faziam lembrar-se da anterior família. Após a tragédia pôs as mobílias à disposição das pessoas mais necessitadas da terra. Depois, o corredor decidiu mudar o interior. Pegou na caixa de ferramentas e pôs mãos à obra. Substituiu o chão, pintou paredes, comprou outros móveis e, claro, um esquentador moderno. “Está fixo no mesmo local do outro porque não há outra alternativa”, diz.
O dinheiro para as obras só foi possível com uma conta de solidariedade que foi aberta em nome do atleta após o acidente. No total, o corredor beneficiou de 19 mil euros em donativos. O treinador José Mourinho também contribuiu. O encontro entre os dois aconteceu na véspera de um FC Porto - Benfica, ainda Mourinho era treinador dos azuis-e-brancos. “Já conhecia o Mourinho há muitos anos e, por isso, levei o Carlos ao hotel Altis para o conhecer”, lembra Dionísio Castro, um dos melhores amigos de Calado. “O Mourinho disse-me que se ganhasse o encontro dava-me o dinheiro do prémio. Venceu a partida e três dias depois depositou na minha conta 2500 euros”, lembra Calado. Meses mais tarde, os dois voltaram a encontrar-se por acaso. O atleta agradeceu o dinheiro e, em troca, Mourinho deu-lhe apoio, disse-lhe para não desistir e continuar a lutar.
Calado seguiu o conselho à risca. Levanta-se às 06h30 da manhã, bebe um galão, come um pastel de nata e veste o equipamento. Um quarto de hora mais tarde corre pelas ruas e serra de Bartolomeu de Messines. Regressa a casa por volta das 08h00, toma banho e segue para o trabalho, uma oficina localizada na Fonte de São Luís, uma localidade próxima de Messines. Carlos Calado é mecânico, ganha cerca de 500 euros por mês. Às 20h00, o atleta volta a casa ao volante do seu Audi A4. Brinca alguns minutos com o bebé e sai novamente para correr. “Toda a minha vida treinei em Messines e não preciso de luz. Até sei de cor os buracos que existem na estrada.”
Além da corrida, Calado tem outro ritual. Todas as semanas, vai ao cemitério de Messines para visitar as campas de Maria Ascensão, Vítor e Carlos. Susana e o bebé acompanham-no sempre. “A mim não me faz confusão nenhuma. Vou para o apoiar e, de vez em quando, levamos flores de pástico que duram mais tempo”, afirma a rapariga. Durante os minutos que ali estão, ninguém troca uma palavra sobre a família que morreu. O mesmo se passa em casa. Aliás, o atleta deu todos os álbuns fotográficos antigos aos pais. Nos meses seguintes à tragédia, Carlos corria como uma seta por Messines e dava gritos de raiva. Provavelmente, poucos atletas do mundo conseguiriam acompanhar então o passo do atleta. O problema era quando chegavam as provas oficiais. “As pernas tremiam e estava psicologicamente muito fraco”, lembra. Calado deixa um conselho: “A vida é como o atletismo. Há que saber ganhar e perder.” E esperar para voltar a ganhar.
VENCEU UMA MARATONA
- Vencedor da maratona de Macau, em 1998
- Campeão Nacional Colectivo de Corta-Mato, em 2001
- Representou a selecção nacional do Campeonato Mundial de Corta-Mato, em 2001
- Campeão do Algarve de Corta-Mato por quatro vezes, em 2000, 2001, 2002 e 2007
- Membro da equipa 3ª classificada no Campeonato Nacional de Corta-Mato curto pelo Olímpico Clube de Lagos, em 2007
- Vencedor de seis Meias-maratonas nacionais, entre 2000 e 2006
- Representou Portugal na Taça dos Clubes Campeões Europeus de Corta-Mato, em 2000
CINCO MIL EUROS/ANO
Calado venceu este campeonato regional de corta-mato. As corridas rendem-lhe cinco mil euros por ano. “Ele é bom, mas deveria ter recebido um treino específico para a alta competição, o que não aconteceu”, explica Jorge Candeias, o seu actual treinador.
MORTE POR FUGA DE GÁS
No dia 23 de Fevereiro de 2003, Carlos Calado perdeu a mulher, Maria Ascensão, de 23 anos, e os filhos, Vítor, de quatro anos, e Carlos, de três. Nesse dia, o atleta, que representava a equipa dos irmãos Castro, encontrava-se numa competição em Porto Santo. A família, que o acompanhava sempre, ficou em São Bartolomeu de Messines porque já não havia lugar no avião. Depois do jantar, o corredor falou ao telefone com a mulher. Foi a última vez. Ascensão foi tomar banho, mas como a noite estava chuvosa decidiu não abrir a janela da lavandaria, o local onde estava o esquentador. É que o aparelho não tinha um tubo de ligação com o exterior. Um descuido fatal. Enquanto estava no chuveiro, Ascensão e os meninos foram intoxicados pelo monóxido de carbono libertado pelo esquentador.
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