A solidão mora aqui

Há cada vez mais velhos nas nossas cidades. Muitos vivem sós e abandonados. Esquecidos pela sociedade e agarrados às recordações do passado.

28 de agosto de 2005 às 00:00
A solidão mora aqui Foto: Sérgio Lemos
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Da janela da sala onde se encosta lentamente com a mão sobre a anca, consegue ver o que em tempos foi a sua casa – a Meia Laranja. Mas apesar da fama que persegue o local, Maria de Lourdes olha com saudade para aquele cemitério de lixo e ruínas. “O meu antigo portão vê-se daqui”, sussurra com palavras forradas de nostalgia. E deixa-se embalar pelas recordações de um outro tempo até que, de repente, o telefone toca. Ela estremece. “Sim filho... está tudo bem, graças a Deus, que o diabo seja cego, surdo e mudo!” exclama, batendo três vezes na mesa de madeira. Os seus olhos brilham e a alegria abafa a voz trémula.

Maria de Lourdes fala pelos cotovelos. Fala tanto que as palavras se atropelam no céu da boca . É como se tivesse urgência em dizer o que lhe vai na alma, é como se tivesse pressa em desembaraçar-se de tudo o que tem para contar, uma vida de palavras que, durante demasiado tempo, manteve presa dentro de si. Fala para contar a sua longa caminhada, para exprimir a dolorosa solidão que, vezes sem conta, lhe bate à porta. Uma solidão com a qual teve de aprender a conviver. E que, em Lisboa, partilha com muitos outros velhos como ela – só na capital há cerca de 34 mil velhos com mais de 65 anos que vivem sós. Sós e muitas vezes abandonados.

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Maria de Lourdes é uma mulher só mas não está perdida no mundo. No tempo que não quer passar os telefonemas do neto são visitas no seu coração. “Ele é o meu retrato”, desabafa com os olhos azuis banhados de alegria. É talvez por isso que para ele a avó é uma pessoa especial. Uma pessoa especial que se orgulha de si mesma – aos 74 anos tem os dentes todos, cabelos brancos nem vê-los. Mas que reconhece que o passar dos anos foi muito mais ingrato para com a alma do que com o corpo. “Passei por tanto, a minha vida dava um filme!” confessa, largando uma gargalhada tímida. Mesmo assim pode considerar-se uma mulher de sorte – De acordo com as estatísticas de 2001 catorze por cento da população idosa residente em Lisboa tem uma deficiência. Uma situação que, muitas vezes, implica uma perda de autonomia e que é agravada pelo facto de muitos destes velhos não terem filhos, ou, quando têm , terem sido abandonados por eles.

Há três anos que Maria de Lourdes vive sozinha. A sua casa é um álbum de recordações - tudo o que guarda religiosamente tem a sua história. A sua devoção à religião é um cunho nítido no espaço que construiu. Cada santo marca um canto, uma parede, uma prateleira. O terço tem-no sempre na cómoda junto ao sofá, para quando precisar de encomendar uma “missa às alminhas”. Numa mesa redonda junto à janela, ostenta a família e a saudade e faz prevalecer a fotografia do marido – como que uma guardiã da alma e, com muito carinho, ordenou, em jeito de montra, quatro bonecas no sofá: “Bonecas da minha curta infância”. Uma infância que lhe moldou a personalidade e à qual regressa sempre que pode. Ela e os outros 133 mil idosos com mais de 65 anos que residem em Lisboa, muitos dos quais continuam a viver atracados no passado, matando o tempo e o tédio em bancos de jardim ou em Centros de Dia.

Uma vida amarga Maria de Lourdes veio para Lisboa trabalhar em 1944. Deixou para trás a família na pequena aldeia de Moçamedes, Viseu, e partiu com uma prima em busca de um futuro melhor. Tinha apenas 14 anos e era a menina dos olhos do pai que não a queria deixar vir. Mas ela bateu com o pé e fez-se à estrada. Descobriu uma cidade que não conhecia, um País que não conhecia. Um País que mudou muito desde então. Que envelheceu muito – só nos últimos quarenta anos a população idosa em Portugal aumentou 140 por cento. Só nos últimos dez anos a população idosa de Lisboa aumentou em sete por cento.

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Maria de Lourdes era uma menina-mulher e mais ficou quando se viu no meio da capital. A discrepância entre a sua terra natal e Lisboa não a assustou – Maria de Lourdes aprendeu a crescer depressa. Tão depressa que se casou com apenas 16 anos. Do marido, que conheceu em Campo de Ourique, guarda lágrimas amargas, recordações duras, sobretudo, da maldade que caracterizava o Manuel. “Eu era uma miúda... e ele fazia-me tão mal”, desabafa. As lágrimas caem no rosto branco, que apressadamente, as seca com o lenço amarrotado que traz sempre no avental. Olhando para cima exclama: “Deus te perdoe, homem! Tanto mal me fizeste!”.

Lourdes tinha força para dar e vender. Nunca foi senhora de ficar somente em casa a cuidar dos filhos. Dividiu-se entre a lida da casa e o trabalho. Eram tempos difíceis. Difíceis de suportar, difíceis de esquecer. Conheceu de tudo nos locais onde trabalhou – desde a casa de uns “senhores ingleses” até à Legião Portuguesa – conviveu bem de perto com aqueles que eram os senhores do regime. Tinha também outra rotina – os maus-tratos que recebia de Manuel. E porque via o marido com outras mulheres, via também o marido com raiva nos olhos e via a mão rude de Manuel em direcção à sua cara.

Tinha começado o seu longo calvário. Por vontade do marido, foi obrigada a deslocar-se para longe, com um filho de cinco dias nos braços e mais dois pela mão. Da terra dele relembra as casas escuras, sem luz e sem ninguém: “Era um degredo! Passei quatro meses de agonia... Não havia dinheiro, não havia trabalho, não havia comida para alimentar os meus três filhos, quase que desisti” Mas não desistiu. Determinada, convenceu Manuel que a vida em Lisboa era melhor.

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A doença do marido, a perda de um filho Quando voltou, Maria de Lourdes instalou-se na Meia Laranja, junto ao bairro do Casal Ventoso e lá viveu durante 46 anos. Viveu e partilhou com o marido a doença que, de repente, o deixou preso a uma cama. Aos 60 anos, Manuel foi dado como incapaz por sofrer de Alzheimer, a doença que aos poucos o devorou. E Maria de Lourdes lutou contra algo que, supostamente, era mais forte que ela. Acreditou que o carinho e a força de vontade vencem as certezas médicas. Acreditou tanto, que conseguiu que o marido suportasse mais do que aquilo que os médicos tinham diagnosticado.

Com a requalificação do Casal Ventoso, a Câmara Municipal de Lisboa cedeu-lhe uma casa na Avenida de Ceuta. Lá, pôde cuidar melhor de Manuel. Sempre sozinha. Ganhou forças que nunca imaginou conseguir e, sempre que podia escondia a angústia que a invadia. “Havia dias que me sentia tão revoltada! Pensava em tudo de mal que ele me tinha feito e que ainda tinha que aguentar com aquela cruz. Já não sei se vivia, se morria”. Revoltada com a vida, com os dias, com uma situação que parecia não aguentar mais, sabia que só podia contar com ela. Relata o dia em que telefonou a um dos filhos, numa tentativa de ajuda, ao que do outro lado responderam: “O que é que a mãe quer? Eu não posso largar o meu trabalho”.

Como se não bastasse, irrompe novo revés – Lourdes perde um filho. Seria mais uma facada no caminho penoso que a vida lhe traçou. “Só de pensar naquele filho que se estava a arranjar para mais um dia de trabalho e caiu redondo no chão...” Lourdes chora ao lembrar a dor de o perder. E confessa que por vezes desejou que tivesse sido o marido: “ Um filho nunca morre antes de uma mãe... E o meu velhinho estava ali que parecia um vegetal”. Para se recompôr, franze a sobrancelha e mantém uma expressão combinada de doçura e frieza que tão bem a caracteriza.

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O que é certo é que, agarrada a Deus, Lourdes sustentava a sua fé. Mas no seu íntimo sabia que era uma questão de tempo. No dia 1 de Abril de 2002 Manuel faleceu. E Maria de Lourdes sabia que tinha cumprido o dever de esposa – algo que sempre quis fazer e que Manuel nunca lhe deu oportunidade.

"NÃO HÁ SOL QUE ME AQUEÇA"

Desde então a vida de Maria de Lourdes parece tirada a papel químico. Sempre diferente, sempre igual. Os dias custam a passar, custam a suportar. São dias que pesam toneladas de solidão. “Quando chega o final do dia, a minha cabeça não está lá muito católica de estar aqui a olhar para as paredes... E lá vou eu... subo tudo até Campo de Ourique”, afirma. Mas a caminhada que se esforça tanto todos os dias por fazer, já lhe pesa nas pernas. Ela queixa-se da tensão arterial: “Ora está alta, ora está baixa”, sublinha. E como Lourdes gosta muito de falar ao ponto de atropelar as ideias, lembra-se que tem de tomar mais um comprimido, um dos muitos que o médico lhe receitou. Cada medicamento é mais um rombo no magro orçamento. No dela e de muitos outros velhos que vivem em Lisboa. Um rombo tão grande que muitos idosos vêem-se obrigados a poupar na comida para suportar os gastos com a saúde.

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Maria de Lourdes suspira longamente. Talvez para esquecer a doença, talvez para enganar a solidão. Depois volta a si e confessa que se sente só. A bem da verdade, os laços que mantém com a família não são muito fortes, mas são, por vezes, suficientes para Maria de Lourdes ganhar o consolo de que não está perdida no mundo. Para quem tem a solidão por companhia qualquer pedaço de atenção é um sopro de vida.

Dentro de casa, convive com o que lá mora - as recordações bem vivas fazem-na reviver tudo, todos os dias. Dentro de casa, moram ainda os tempos vazios que lhe preenchem as horas. E mora a saudade. Da vida que viveu e da que perdeu. E de Manuel: “Era mau para mim, mas eu gostava dele. E só de pensar no que ele sofreu com a doença que o matou” Maria de Lourdes chegou a sonhar acordada pouco tempo depois do marido falecer. Como se ainda estivesse anestesiada com a luta que travou. “Uma vez, levantei-me em alvoroço com a sensação de que o ouvia a chamar por mim do quarto. Mas ele já cá não estava. Sentei-me na cama e chorei.”

Para não sentir em demasia o que lhe corre na alma, Lourdes procura sempre uma distracção. Liga a televisão, liga o rádio, mas em sua casa só moram as recordações. Só mora a solidão. “Às vezes, não há sol que me aqueça. Quando estou neste silêncio, sinto uma angústia, uma ansiedade, só me apetece gritar...”

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