“A terrível perda do bom amigo Serra”

Algo tão definitivo como a morte lhe roubaria a futura e feliz contemplação da jovem esposa e da linda criança que deixara em Portugal.

28 de março de 2010 às 00:00
“A terrível perda do bom amigo Serra” Foto: Direitos reservados
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A caravana deixou a cidade às primeiras notas do crepúsculo. Pôs-se em andamento – numa cadência monótona e irritante – já quando o Sol, matizado de vermelho, fazia a sua aparição no horizonte de vegetação verde, onde ainda ecoavam os sons da noite. A velocidade aumentou para depois diminuir, diminuir sempre, devido às precárias condições do terreno. Mais à frente, sessenta quilómetros volvidos, a civilização deu lugar à selva, ao intenso arvoredo em muitos pontos virgem. Foi então que a odisseia dessa viagem começou – um lancinante drama que a todos, indistintamente, envolveu.

Habituados desde sempre ao bulício das cidades mas também à placidez romanesca dos campos, fácil foi sermos surpreendidos pelo ‘ambiente’ desconhecido que nos rodeava; um ambiente totalmente hostil, inseguro, de que o cinema até não dera uma ideia concreta. Um ‘clima’ de autêntica guerra para onde tínhamos sido lançados como vítimas inocentes, tochas humanas na alimentação indescritível e inconcebível da fogueira imensa que lavra sempre em universos de discórdia.

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O Serra era um bom amigo, estimado sem excepção pelos companheiros. A sua figura viva, propícia aos ditos espirituosos, transmitia uma alegria que contagiava e não ofendia. E era honesto. Ora contra a sua maneira de ser, por forma que lhe era inusitada, o Serra estava diferente naquele dia. Com mais propriedade, desde a véspera que se lhe notava certa modificação. Mais isolado, taciturno, dir-se-ia obcecado por algo terrível. É que – vim depois a saber – o nosso amigo temia a viagem que no dia seguinte faríamos. Não porque de natureza fosse temeroso, mas porque nesse dia uma voz estranha, que lhe vinha do âmago do seu ser, lhe havia pressagiado um mau acontecimento.

O pobre Serra confessou-nos o receio de que ocorresse algo que o obrigasse a deixar o contacto terreno; O afastasse eternamente do convívio dos entes queridos que, longe, no seu rincão natalício, o sentiriam partir. Algo por demais indizível, como a morte, lhe roubaria a futura e feliz contemplação da jovem esposa e da linda criança que deixara. Imbuído nesses pensamentos pediu-nos que, se não sobrevivesse, lhe enviássemos o corpo para a sua terra. Nós, indiferentes, alheios à sua luta interior, duvidámos do seu lúcido estado de espírito e não nos apercebemos da missão ingrata que teríamos de efectuar.

E partimos todos, unidos pela burocracia que nos juntara, rumo ao ignorado e à perfeita aventura, sem nos capacitarmos sequer de que já éramos personagens de um drama. Se já não bastasse a distância de 180 mil metros que palmilhámos em mais de 23 horas pelo terreno acidentado, as subidas íngremes e as descidas em declive; A verificação de cultivos devastadas, os muros abertos em ruínas, pátios calcinados, a destruição, as condições péssimas em que nos deslocávamos, sobre caixotes, aos trambolhões, comendo pó em vez de alimento, perfeitamente expostos à hostilidade da paisagem, então bastaria a iniludível tensão que em nosso redor pairava, onde se adivinha o perigo que poderia surgir a cada momento.

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O tempo sob as rodas poeirentas dos veículos lá foi seguindo o seu curso, até que o dia se transformou em noite. E esta, por sua vez, deu desfecho ao pressentimento. Percorríamos uma prolongada elevação quando se avistaram vários pontos brilhantes. Nós seguíamos na cauda da coluna. Os tiros passaram-nos sobre as cabeças. A um só tempo, todos saltaram para o chão procurando o melhor abrigo e a melhor forma de ripostar. O fogo, intenso do nosso lado, fez calar a parte contrária. No entanto, e não obstante a relativa escassez dos disparos adversos, o destino impôs-se. Nessa altura era cedo ainda para que a verdade nos atropelasse como um bólide. Só mais tarde, depois do ferido ser conduzido à nossa frente, depois de percorridos os últimos quilómetros, é que nos detivemos ante a gélida perda do nosso amigo. A perda de um amigo nascido dum circunstancial convívio, propiciado pelas circunstâncias da guerra, mas efectivamente um amigo.

Como chefe de secretaria do pelotão, o meu primeiro trabalho foi, infaustamente, o de velar o seu corpo. Tenho a memória das lágrimas silenciosas que então me rolaram pela face, depois repetidas, em raiva, quando oficialmente negaram a sua trasladação para Portugal. Hoje não choro, mas recordo.

AS VIAGENS PELO MUNDO

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Natural da Ribeira de Santarém, Celestino Santos reside actualmente em Lisboa com a sua esposa, companheira de há já 50 anos. Depois de uma carreira como ‘audit manager’ numa empresa internacional de auditores, regressou a Portugal em 1975 com a esposa e as duas filhas.

Retomou os estudos no ISCAL, na área da Administração Financeira, exercendo em simultâneo funções como ‘financial controller’ numa multinacional americana. Hoje, já reformado, divide-se entre a família, os amigos, o prazer da leitura e as muitas viagens à descoberta do Mundo.

PERFIL

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Nome: Celestino Santos

Comissão: Angola (1963/1965)

Força: Pelotão de Apoio Directo 926

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Actualidade: Hoje, aos 69 anos, em Lisboa

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