A ÚLTIMA PESTE

Febre elevada, cefaleias, conjuntivite, ardor faríngeo, tosse. A descrição não é agradável mas a realidade ainda menos. A doença mais democrática ameaça tornar-se numa pandemia. Diz a Organização Mundial de Saúde.

02 de novembro de 2003 às 00:00
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A ocasião era de homenagem ao guitarrista António Pinho Brojo, em 1998. Almeida Santos subia ao palco para coisas muito diferentes daquela que era então a sua responsabilidade enquanto presidente da Assembleia da República. Avisava que nem a gripe que a oposição espalhara o iria impedir de cantar. A afinação do ex-estudante coimbrão foi perturbada por ataques de tosse, chegando mesmo a ser obrigado a actos menos dignos de fadista como puxar um lenço para se assoar.

Os sintomas do ex-presidente da Assembleia da República são bem conhecidos e bastas vezes já arreliaram algum de nós. Hipócrates, em 412 a.c., a estes se referia. Então porque que é ainda não conseguimos viver sem gripe, quando a peste é apenas uma terrível memória histórica? A resposta é a capacidade mutante do vírus e o paradoxal facto do progresso humano acabar por ser um aliado fundamental na sua propagação. A ciência avançou, permitindo vacinas e, sobretudo, meios de tratamento; também a tecnologia e os meios de comunicação. Se uma pessoa espirra no aeroporto de Tóquio, quando se cruza com um turista americano de regresso ao seu país; se este espirra também no aeroporto de Nova Iorque (e, provavelmente, reclama que já está constipado) para cima de um português que tinha ido de férias à ‘Big Apple’; o vírus em menos de 24 horas está a aterrar em Lisboa.

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Segundo a Organização Mundial de Saúde, o aparecimento de uma variante do vírus da gripe resistente às nossas defesas só ocorre em cada 15 a 20 anos. Mas o registo de casos de gripe das aves em Fevereiro último, na Holanda e na Bélgica, fazem a OMS aconselhar a vacinação. “Os peritos consideram que outra epidemia de gripe é inevitável e possivelmente está iminente”, lê-se num relatório de meados deste ano. Se assim for, nos países industrializados haverão 57 a 132 milhões de consultas em ambulatório e 1 a 2,3 milhões de hospitalizações.

“Quando estou a escrever, tenho a mesma sensação da gripe, uma sensibilidade maior aos objectos, um desinteresse pelo que me rodeia... É curioso como o corpo muda...”, disse António Lobo Antunes sobre o acto da escrita.

O quadro clínico mais típico, resultante da infecção viral, costuma surgir de maneira abrupta, com febre na ordem dos 38/39º C, cefaleias, mialgias, artralgias e conjuntivite, ardor faríngeo, rinorreia serosa e tosse seca.

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Em 1999, os cientistas falaram de uma super-vacina cuja eficácia se prolongaria ao longo de toda a vida. Porém, o belga Walter Fiers não provou nada, além das suas experiências em ratos, e os vários laboratórios, que hoje trabalham em embriões de aves, no cultivo de células ou em vacinas inaladas (utilizadas em crianças norte-americanas), não podem ainda afirmar terem ‘descoberto a pólvora’.

Segundo um estudo do Observatório Nacional de Saúde, Portugal ocupa o 11º lugar num universo de 14 países investigados. Apenas 39 por cento da população considerada de risco recebe a vacina (idosos, crianças, pessoas residentes ou com internamentos prolongados em instituições prestadoras de cuidados de saúde, sem-abrigo, pessoas com mais de seis meses, grávidas e mulheres a amamentar que tenham doenças crónicas cardíacas, renais, hepáticas ou pulmonares, diabetes mullitus ou doenças metabólicas e outras situações que provoquem depressão do sistema imunitário, crianças e adolescentes com terapêutica prolongada com salicilatos e pessoas que possam transmitir o vírus a outras consideradas de alto risco). A Holanda, que ocupa o primeiro lugar deste ‘raking’, tem uma taxa de cobertura de vacinação na casa dos 81 por cento. Quando se analisou os incentivos do Estado às vacinas (no país dos moinhos e dos diques, a vacinação é gratuita), chegou-se à conclusão de que existe uma correlação entre a taxa de vacinação e o apoio estatal.

Um princípio activo chamado zanamivir (Relenza (R)), num antigripal ministrado por via inalatória, tem o efeito de incapacitar a multiplicação do vírus e a produção de sintomas, acabando com a gripe em escassos dias. A mais-valia em caso de pandemia é evidente mas o problema é que não pode ser ministrado aos grupos de risco – aqueles que a quem é precisamente aconselhada a vacinação. Conjuntamente com a amantadina, são os dois únicos fármacos autorizados em Portugal na terapêutica da gripe. Inicialmente aconselhada na prevenção, esta última é hoje em dia utilizada nas primeiras 72 horas de doença. Porém, os efeitos secundários possíveis são desagradáveis: vertigens, insónias, dificuldade de atenção e sintomas extrapiramidais. Embora reversíveis com a retirada do medicamento, estes sintomas afectam, particularmente as pessoas idosas. “A gripe é uma doença que, tal como a Hepatite B e a Poliomielite, pode e deve ser prevenida na medida em que não existe, um tratamento específico que se revele totalmente satisfatório”, diz a OMS.

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Dinis Machado explicando como se sentia face à projecção que lhe deu o seu romance ‘O que diz Molero’: “Sabe também àquilo que não tem sabor como quando estamos constipados. Como se um livro fosse uma espécie de gripe epidémica literária. Benigna espero.”

Só a liberdade literária pode falar de gripe benigna. Segundo a OMS, existem por ano cinco milhões de casos graves em todo o mundo. A maior parte da mortalidade nos países industrializados está associada aos grupos de risco. Só nos Estados Unidos, num estudo elaborado em 1986, à conta da doença do espirro, o Estado gastava 5.000 milhões de dólares.

O jornal espanhol ‘El Mundo’ subscreve que o vírus está a ponto de matar numa das suas piores versões (em Espanha, dizem, haveria quatro milhões de infectados). O texto começa com futurologia baseada, no entanto, na probabilidade que a História e a capacidade de mutação do vírus já comprovaram. “Inverno indeterminado antes de 2006: uma epidemia mundial de gripe, procedente da Ásia, está a assolar a humanidade. Em menos de três meses pereceram quatro milhões de pessoas na Europa e nos Estados Unidos (...) Nos Estados Unidos já existe um mercado negro das escassas novas vacinas, que chegam a alcançar preços exorbitantes; e alguns antigripais chegaram mesmo a multiplicar cem vezes o seu preço real.”

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A História Portuguesa poderia ter sido diferente se o rei Filipe II tem morrido na pandemia de 1580, que afectou a Ásia e a Europa. A gripe dizimou a população de Madrid, matou a rainha Ana de Áustria e colocou o monarca às portas da morte. Mas não foi suficientemente forte. Recuperado Filipe II entrou em Portugal.

Nos séculos seguintes à grande pandemia de 1530, ocorreram apenas pequenas epidemias, até que entre 1847-1889, a gripe desapareceu da Europa Ocidental, persistindo de forma endémica na Ásia Central.

Entre Maio e Junho de 1889, iniciou-se uma grande pandemia vinda da Sibéria, que atingiu a Europa Ocidental em Novembro. Chega também aos continentes africano e americano, países do Médio Oriente, Austrália e Nova Zelândia.

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A gripe espanhola, ou pneumónica, matou o pintor Amadeo de Souza-Cardoso, a 25 de Outubro de 1918, em Espinho.

A pandemia da gripe asiática iniciou-se

em Fevereiro de 1957, no Norte da China, estende-se para África, a Europa e América. Em menos de 10 meses, o vírus deu a volta ao mundo.

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A terceira pandemia do século (ver caixa, sobre a primeira pandemia) ocorreu em 1968, com a aparição do vírus Hong-Kong.

Na pandemia de 1977 observou-se a nível mundial um comportamento epidemiológico desconhecido até então, com a circulação em simultâneo de dois subtipos, o A(H3N2), desde 1968, e o AH1H1, entre 1947 e 1957.

A TRAGÉDIA DE 1918-19

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Lembrado habitualmente como o ano em que terminou a I Grande Guerra, 1918 foi o ano da gripe. Portugal não escapou a essa mortífera epidemia conhecida pela 'pneumónica', que à sua custa matou mais pessoas do que o conflito iniciado em 1914.

Conhecida erradamente por ‘gripe espanhola’, por se crer que o seu início se tinha registado em Espanha, onde só no mês de Maio de 1918 vitimou mais de 8 milhões de pessoas, a epidemia tinha-se manifestado, pela primeira vez, a 11 de Março desse ano num aquartelamento militar americano no Kansas. A gripe era uma doença infecciosa bem conhecida ao nível dos sintomas, ainda que as suas causas permanecessem obscuras. A evolução do conhecimento médico estava ainda longe de compreender, em toda a sua extensão, os mecanismos de surgimento da epidemia que então se iniciava, a qual é hoje entendida como originada por uma rara mutação genética do vírus da gripe, ocorrida na China. Certo é que, quando na Primavera e Verão de 1918 as queixas por febre, dor de cabeça, cansaço, dores de garganta, tosse e dores musculares, levam à hospitalização de milhares de soldados nos Estados Unidos da América, as autoridades sanitárias estavam longe de imaginar a catástrofe que se avizinhava.

Em Setembro de 1918, a epidemia declara-se em Boston, em cujo porto embarcavam tropas para a guerra na Europa; daí para a frente torna-se impossível ignorar o vírus que, no mês de Outubro, é já responsável por 200.000 mortes. A Grande Guerra iria influenciar o curso da doença, com a movimentação de soldados, portadores do vírus, entre continentes. Ao mesmo tempo, as péssimas condições de higiene e alimentação, aliadas à concentração de homens nas trincheiras e em aquartelamentos e navios, iram facilitar a rápida difusão da doença.

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Da mesma forma que foi influenciada pela guerra, a ‘gripe espanhola’ influenciou ela própria o decorrer do conflito, obrigando com frequência a alterar planos de ataque por falta de homens saudáveis na frente. Nestas circunstâncias ganhou força a teoria da conspiração, segundo a qual a gripe resultaria de uma acção de guerra biológica por parte dos alemães, que teriam usado submarinos para transportar os vírus mortais para os EUA. A verdade é que a gripe se espalhou rapidamente por todo o mundo, provocando vítimas entre a população civil e em ambos os lados das trincheiras: só nos EUA, um quarto da população terá contraído a doença, tendo morrido pelo menos 500.000 pessoas; dos soldados americanos mortos na guerra na Europa, metade tombou sob os efeitos da gripe e não por acção do inimigo. A nível mundial, a gripe afectou uma em cada cinco pessoas, vitimando cerca de 17 milhões só na Índia.

Em Portugal, a gripe de 1918-19 foi a última das epidemias mortíferas no nosso país, onde, até então, outras doenças como a cólera, a febre-amarela, o tifo ou a tuberculose, eram bem mais temidas. Nesses dois anos sucumbiram à ‘pneumónica’, como era chamada

em Portugal, 102.750 pessoas, quase o triplo das nossas baixas em combate nas frentes da Flandres e de África durante a Grande Guerra.

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Extinta dezoito meses depois do seu início, sem nunca se ter chegado a compreender completamente aquela variante particular, a gripe de 1918-19 deixava um rasto de 25 a 40 milhões de mortos em todo o mundo.

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