A vida de uma maternidade

Na Maternidade Alfredo da Costa o passo é acelerado – os bebés não esperam para nascer, os pais não dominam a ansiedade antes de os ver no colo. A Domingo passou 19 horas na maior maternidade do País e ‘assistiu’ a 15 nascimentos

28 de setembro de 2008 às 00:00
A vida de uma maternidade Foto: D.R.
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Amarrotados, os lençóis jazem no chão, há muito empurrados pelos pés da mulher, que se agita na cama em desespero de dor. Os dedos torcem os dedos, a mão despenteia ainda mais o cabelo emaranhado. Ela grita tão alto que há quem venha ver se é preciso ajuda, mas a única que Hermenegilda quer – ou a única em que acredita – é divina e não está ali naquela sala de partos. Nem lá fora – a mulher cabo-verdiana, de 35 anos, está sozinha na Maternidade Alfredo da Costa (MAC) naquela madrugada de quase Outono.

Não há um companheiro na sala de espera a devorar bolachas em levas ansiosas. Nem alguém que vá telefonar a perguntar se correu bem ou custou muito, quantos quilos de bebé, se sai à avó ou ao tio. 'Pai do céu, se estás aí vem cá que eu não aguento mais.' A enfermeira Conceição agarra então na mão e na esperança daquela mulher ali deitada tão indefesa – que nem há uma hora irrompeu de maca pelas urgências em quase trabalho de parto – e incita- -a a fazer força, a força toda que tiver.

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'Hermenegilda, sopra, Hermenegilda. Enche o peito de ar, Hermenegilda. Calma, Hermenegilda. A cabeça vem aí. Hermenegilda, já está quase, Hermenegilda. Já vi a cabeça. Olha a cabeça.' A cara da mulher está ensopada em lágrimas e suor. Toda ela se contorce, todo o corpo geme, uma ilha no meio de uma marquesa de hospital.

'Faz força, Hermenegilda.' E ela faz. Uma, outra e outra vez. A respiração treina o ritmo mas não engana a dor, quase palpável nas golfadas de ar que expira. É ao derradeiro grito, minutos depois, que, ensopado, ainda sujo e ensanguentado, nasce o Soni, três quilos de gente, choro manso mas alto e a bom som, olhos ainda fechados para o Mundo a que acabou de chegar, preso à mãe pelo cordão que 9 meses os uniu.

É 01h50, passaram pouco mais de 20 minutos desde que a cabeça do bebé começou a sair do corpo da mãe e 12 horas desde que chegámos à MAC, para uma tarde e uma noite no local onde se nasce e ajuda a nascer. Hermenegilda agora relaxa, a mão a limpar a testa, a mão a limpar o cabelo, a mão cansada, toda ela cansada. 'Olhe o seu filho, mulher, já está aqui o seu menino.' Subitamente, a agitação começa a ceder a vez a uma calma silenciosa de verdadeira contemplação.'É tão lindo o meu filho, não é?'

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Por esta altura, em que Hermenegilda agarra Soni pela primeira vez e se derrete de amores por ele, sete das 11 salas de parto da MAC estão ocupadas. Cinco ainda grávidas – as barrigas apertadas, o CTG a medir as pulsações do coração do bebé, as contracções a fazê-las apertar com força a ponta do lençol; e três mulheres já mães, de olhar preso aos filhos, sorriso fixo nas pequenas vidas que geraram. Alguns passos à frente, no Serviço de Observação, o doloroso oposto: uma mulher acaba de perder o filho às 23 semanas de gestação. Num local habituado a ver a vida nascer, a morte é ainda mais dura e incompreensível. Porque ali a vida nasce todos os dias e todos os dias é embrulhada em cobertores, vestida, aquecida, pesada e medida antes de ser devolvida ao colo dos que meses a aguardaram. Ali é suposto que todos os dias sejam recomeço.

Doze horas antes, às 14h00, a lotação estava esgotada. Onze quartos, 11 mulheres. Tanto que, depois do almoço, duas grávidas que entretanto chegaram foram recambiadas para o Hospital de Santa Maria por falta de cama. Apesar da casa cheia, a tarde começou vagarosa. Quase silenciosa, embalada pelos choros tímidos dos que começaram agora a aprender a chorar. O médico Eduardo, brasileiro a fazer intercâmbio em Portugal, descansa as pernas no sofá, debica um resto de bolo de anos de um colega que sobrou, folheia um livro, mexe no telemóvel de última geração, até que toca um alarme – há uma grávida que o chama.

Não é com certeza na sala 8 – através da porta entreaberta ouve-se boa disposição. Lá dentro, quarenta semanas de vida enchem a barriga de Sónia Melo, que a açoriana de 32 anos acaricia, como que a espicaçar o bebé que aí vem. A futura avó paterna, Deodata, atreve as primeiras previsões. 'Se for como o pai é giríssimo e há-de nascer à hora de jantar porque vai gostar de se alimentar. Já a mãe come pouco, gosta de orientar a linha. Bem, o que interessa é que venha cheio de genica para viver.' Deodata trabalhou anos a fio na MAC, é especialista em Obstetrícia. Conhece a maioria dos que ali trabalham pelo nome próprio; os mais chegados pelo diminutivo. As antigas colegas compartilham da alegria dela, a horas de ser avó. 'É para quando, sua avó babada?', 'como é que se vai chamar o rapagão?', brincam. Vai chamar-se Afonso. 'Como o primeiro rei de Portugal', conta a mãe, Sónia, anunciando a vontade de voltar à maternidade para ter uma Amélia e uma Isabel. 'Para mim', continua o pai, Alexandre, 'é por causa do Afonso de Albuquerque. Gostamos de nomes com significado histórico.'

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Na mesa ao lado da cama onde Sónia está deitada a aguentar as contracções que vão surgindo descansa uma máquina fotográfica à espera do nascimento do primeiro filho deste casal de juristas. Junto a ela, uma revista de viagens para ajudar à descontracção. As enfermeiras vão espreitando à porta. Alexandre não pára quieto, a ansiedade à flor da pele, a vontade de conhecer o Afonso a crescer a cada contracção que Sónia sente. Ainda ia ter muito que esperar – Afonso veio a nascer mais próximo das previsões da avó, a hora de jantar, do que da vontade apressada dos pais. Passaram mais de sete horas até se ouvir o choro do bebé, que nasceu ajudado por ventosas e encheu de emoção os olhos do pai. Deodata, ainda com a bata verde com que ajudou a fazer o parto, sai da sala com a criança nos braços, cabelo ensopado, sorriso estampado no rosto exausto. Missão cumprida.

'A avó chora que chora', sussurra Rosarinho, auxiliar de acção médica e antiga colega de Deodata, para outra auxiliar, Rosa, que lhe devolve: 'O miúdo é parecido com o pai, não achas?' Alexandre concorda – 'tem personalidade como o pai', brinca, a observar o filho, que chora copiosamente no ‘babyterm’ (onde os bebés são aquecidos). 'Tem carinha de rabugento', acrescenta a avó. 'É tão bonito', dizem todos, felicitando quem assim o fez.

Pulseira azul no pulso e Afonso está pronto para seguir caminho para junto da mãe, seguido e adulado pelo pai, de máquina em punho, e pelos abraços emocionados que Deodata vai distribuindo aqui e ali. Enquanto isso, a enfermeira Amélia escrevinha ao computador os relatórios dos nascimentos. Sem grande alarido, a mesa junto ao balcão onde está sentada enche-se de caixas e caixinhas de bolos e bolinhos – uma prenda da família do bebé Afonso para a equipa que então fazia o turno da noite. Será farnel apreciado quando bater a meia-noite e a equipa se reunir para descanso, conversa-fiada nos sofás, pernas esticadas para endireitar a coluna e conversas de sapatos e roupa nova – a aproveitar a acalmia. A madrugada raramente dá tréguas longas.

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Conceição, do alto de anos de experiência, sabe bem. 'Quando de madrugada um resolve nascer, nascem todos a eito, grita uma, grita a outra, e é uma confusão, parece que vão atrás umas das outras.' E, garante a enfermeira especialista, a labuta diária na maternidade está longe de ser fácil.

'Não temos tempo para almoçar, para lanchar, para nada... Porque os nascimentos podem ter diminuído mas aumentaram as gravidezes gemelares, as grávidas de risco, os prematuros', enumera Conceição, criticando, sobretudo, a falta de pessoal. 'Três enfermeiros especialistas por turno é muito pouco no sítio onde mais gente nasce. Muitas vezes fazemos partos difíceis e é sair de um, entrar noutro, sempre a correr.' Já Deodata, agora a trabalhar num particular, guarda dos anos passados na MAC um rol de histórias caricatas. A preferida tem altos decibéis: 'Hoje é tudo mais fácil, antes de haver epidural os gritos eram tantos que se ouviam no Saldanha [a cerca de 300 metros]', recorda. Rosarinho também lembra essa época com um sorriso malandro. 'Uma vez, uma mulher gritava tão alto que o porteiro do [hotel] Sheraton veio cá ver o que se passava', conta a auxiliar, 'quase na reforma'. Também não esquece um 'jovem pai' que resolveu assistir ao parto do filho mas 'começou a ficar branco, desmaiou e partiu os dentes quando caiu no chão'. A solução veio com sirene: 'Chamámos uma ambulância, que o levou para São José.'

À entrada do quarto 3, a enfermeira Amélia tenta precaver cenário semelhante: 'Pense bem: quer assistir ao bebé a nascer ou não quer? Vai desmaiar ou não vai? É melhor ter a certeza', avisa a Embalo, marido de Cumba Sana, uma jovem guineense de 27 anos há três em Portugal. Ele garante que aguenta, que é forte. E a emoção só cede quando segura a filha, Sónia, nos braços, minutos depois de a ter visto nascer, sadia, do corpo da mãe.

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E se a tarde começou calma, não se aguentou assim por muito tempo. É em fracções de segundo que o cenário muda sem aviso prévio. O quadro dos ‘alarmes’ parece ganhar vida própria – o painel tem os números das salas de parto e cada um deles apita quando a grávida toca uma campainha. O som é remédio santo: médicos e enfermeiros largam tudo o que na altura os entretém – há quem jogue ‘puzzle bubble’ no computador, quem leia, e até cochile por instantes de cabeça em cima do colo. A MAC transforma-se num coro de ‘crocs’ (sandálias de borracha) numa correria desenfreada pelo corredor.

'Já está a parir, chamem-me uma doutora que aquela está a parir', diz uma enfermeira em trânsito acelerado. 'E os gémeos, trouxeste os gémeos?', pergunta outra. 'Os gémeos estão em SO (Serviço de Observação). 'Preciso de uma pomada para a 6, rápido', ouve-se ao fundo do corredor. E ainda há quem exclame: 'Não te esqueças que a das 33 semanas é diabética, é preciso cuidado.' Enquanto a anestesista Graça dá epidural a uma futura mãe, a enfermeira Cátia corre para ver de quem são os gritos que atravessam o corredor sem dó nem piedade. É no quarto 10. 'Ai, meu Deus, venham ajudar-me, por favor, que eu não vou aguentar mais, estou a sofrer.' 'Tenha calma, que ainda não está para já', dizem-lhe.

O frenesim é de loucos e aumenta ainda mais com a chegada de uma grávida de gémeos ' e de 'uma bolsa rota' que é preciso controlar. Nádia, de 26 anos, também pede ajuda. O companheiro Paulo, de ar desalentado, vem à porta da sala pedir auxílio. 'Chamem um médico. Ela está a deitar sangue, estamos aqui há 12 horas e ela já não aguenta mais.' O enfermeiro acede a perceber o que se passa com Nádia, que lhe suplica que acabe com o seu sofrimento enquanto se contorce na marquesa. Ao medir os centímetros de dilatação, o especialista sossega o ansioso pai e diz que não, o Gonçalo não vai nascer tão cedo, é preciso é ter calma.

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'Imagine que joga futebol e que deixa de jogar. Quando volta a jogar o que é que lhe acontece? Fica dorido. O primeiro filho também é assim, leva tempo', tenta explicar o enfermeiro a Paulo, que lá vai assentindo com a cabeça, embora a ansiedade não lhe passe. Caem-lhe gotas de suor da testa enrugada de preocupação, enquanto segura com força na mão da mulher.

'No terceiro ou quarto filho vai ser diferente', graceja um grupo de enfermeiras que espreita para ver se tudo está em ordem. Para os jovens pais só estará à noite, quando pegarem no rechonchudo Gonçalo e, perante a felicidade, esquecerem toda a angústia da espera. No quarto ao lado, Susana está tranquila. O lenço que aperta na mão é 'uma preparação para as dores', graceja a costureira, a horas de ter a Margarida, segunda filha, nos braços.

Andreia também se prepara. Não para ser mãe, antes para sair da urgência do bloco de partos – e ir para o recobro – onde a sua Júlia tinha nascido, ao fim da manhã, de 39 semanas, grande nos seus 3,430 quilos. 'Já tenho três crianças, a Julinha é a quarta; saí à minha mãe, por mim tinha uma equipa de futebol, ele é que não quer.' ‘Ele’ é o marido, ladrilhador de profissão, que estava a trabalhar na hora do parto e, por isso, não pôde assistir. Só uma coisa preocupava Andreia – um pequeno problema de logística. 'Os meus filhos mais velhos estão em casa a saltitar para ver quem é o primeiro a pegar na irmã e acho que aqui não podem entrar todos ao mesmo tempo, não sei como fazer', revela, bem-disposta, enquanto a pequena Júlia prova o mindinho, alheia à agitação que à volta dela se passa.

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E não é pequeno o movimento – a MAC raramente não está em hora de ponta. Pela maca onde Andreia observa Júlia, embevecida, passa a enfermeira Amélia com o Lourenço nos braços, acabadinho de nascer, em direcção à ala da Neonatologia – onde o ‘protocolo’ peso, injecção de vitamina K e aquecimento dos recém-nascidos é cumprido. Atrás segue o pai, Rodrigo, feliz 'na sensação indescritível que é ter um filho'. Amélia, que chama a Lourenço 'o meu crepe chinês' – em tom de brincadeira enquanto o veste, trabalha há 18 anos na Obstetrícia.

'O momento de entrega aos pais é dos que mais me emocionam. No fundo, todos os bebés são uma vida nova e temos sempre fé, quando lhes pegamos a primeira vez, que seja uma vida boa', diz, ao mesmo tempo que dá via--verde ao pai do Lourenço para pegar no seu bebé. Agradecido, Rodrigo agarra o menino e logo o embala, ao som de uma música imaginária.

A enfermeira Amélia segue para outra freguesia, já que o Martim, o primeiro bebé de um casal de engenheiros, está quase cá fora, a minutos de nascer no quarto 4. E nasce rápido, tão rápido que ainda chega a tempo de se juntar ao Lourenço na Neonatologia – o início de duas vidas lado a lado. Deitada na cama, a mãe Rosa sorri, o rosto corado do esforço recente. 'Sempre quis ter um menino.' O pai Miguel concorda, e até brinca. 'A gravidez foi planeada mas tão rápida que conseguiu surpreender-nos', graceja, o olhar ternurento na direcção do filho, que mama sofregamente pela primeira vez.

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O dia já passou, a noite há muito caiu. Chegou o escuro e com ele mais grávidas ansiosas. 'Vem aí uma com três centímetros de dilatação, chamem a doutora Graça para dar epidural', pede a enfermeira Orlanda. 'Está a caminho uma menina em risco de perder o filho, tem que ir para observação, só está de 15 semanas', avisa Teresa. São precisas macas, batas, gente. Passam carrinhos de limpeza para ‘endireitar’ os quartos, assomam às portas futuros pais em nervosismo. Da equipa, quem dormia acordou. Quem voltava da pausa para cigarro entrou rapidamente em acção, as circunstâncias a acelerar o passo. Pousa-se os sacos de comida em cima dos sofás, junto das malas, dos livros, dos bolos. O tempo urge.

Quem lá trabalha já se habituou. Ao silêncio de curto prazo, porque as vidas precisam de nascer. Aos sprints entre um quarto e outro. Às campainhas a tocar. E à ansiedade dos pais e mães que se faz sorriso quando o bebé lhes chega aos braços e se torna gente no colo. Mas nem sempre acontece. E ai, o trabalho torna-se fardo, bagagem difícil de digerir. Como quando uma adolescente entregou para adopção um bebé que nasceu de uma relação com o padrasto. Ou quando 'as estudantes universitárias que ficam grávidas não contam aos pais e nem querem saber dos bebés.' A enfermeira Conceição ainda se angustia ao lembrar 'uma miúda que mal teve o filho disse logo: ‘não quero saber o sexo, nem sequer quero ouvi-lo chorar perto de mim'. E, em pólo oposto, o bebé cujo coração deixou de bater poucas horas antes do parto. 'Ouvimos um estrondo muito grande, seguido de um grito: uma senhora que aqui estava internada disse ‘perdi o meu bebé!’, e naquele momento o coração dele deixou mesmo de bater. Ela tinha razão', recorda.

A colega Teresa lembra, comovida, a 'história de um bebé dado para adopção na véspera de Natal'. E a 'quantidade de adolescentes' que usam o aborto como método contraceptivo. 'Ainda no outro dia apareceu aqui uma de 15 anos que dizia já não querer o bebé porque se tinha chateado com o namorado. Custa-nos muito.' Onde se lida com a vida é difícil entender a rejeição, o fim. Por isso, quando a manhã chega e a grávida Susana chama porque a sua Margarida está quase a nascer, a equipa corre para ela. As ‘crocs’ a bater no chão, o corredor em trânsito acelerado.

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Na memória da Domingo fica o rosto congestionado do Afonso. Nasceu às 06h00. Tinha três horas de vida quando abandonámos a MAC. Sónia Amaro, a mãe, sorria. |

SONI OU SÓNIA 

“Soni? O seu filho vai chamar-se Soni? Em Portugal só existe o nome Sónia, que é de rapariga”, dizem as enfermeiras a Hermenegilda. “Eu sei”, responde ela, “a minha filha de 15 anos chama-se Sónia, por isso este vai ser o Soni”. Terminado o parto, Hermenegilda logo sorriu. Pediu desculpa por ter falado crioulo e, por ela, estava pronta para ir para casa. Empregada de limpeza, trabalhou ao longo dos nove meses da gravidez, inclusive no dia em que deu à luz.

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DEZANOVE HORAS NA MATERNIDADE

O objectivo estava traçado à partida: 19 horas na Maternidade Alfredo da Costa, a acompanhar a passo o que por lá se vive. Com entrada às 14h00  e saída às 09h00, assistimos a três mudanças de turno, a 15 nascimentos  e à expulsão de um feto que não sobreviveu às 23 semanas de gestação. No maior ‘centro’ de nascimentos do País, nem só de vida se fazem os dias. Nem só as alegrias enchem os corredores. E ali, os opostos tocam-se e convivem lado a lado. Nem mesmo o cenário é estanque: num momento, o silêncio, logo a seguir o caos.

À ESPERA DO 'REI' AFONSO 

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O parto de Sónia Melo (em cima) tinha tudo para ser fácil. Acabou por ser bem mais complicado do que aquilo que o casal de juristas contava, com o Afonso a nascer com a ajuda de ventosas às 21h48. A avó Deodata, que já tinha trabalhado na MAC, ajudou a fazer o parto do neto e espalhou alegria pelo cor-redor da maternidade quando segurava o bebé e o mostrava às antigas colegas de trabalho. A enfermeira Isabel Silva (na imagem ao lado de Sónia) não chegou a trabalhar com Deodata. Chegou à MAC em Abril depois de anos no Hospital do Barreiro. “Aqui leva-se o trabalho para casa, não conseguimos esquecer as situações mais traumáticas. A mais recente foi um parto de 36 semanas em que o bebé já estava morto, não tinha batimentos”, conta. Foi ela quem fez o parto. “A mãe chorava, o pai chorava, e até eu tive de conter as minhas lágrimas. Foi uma situação muito difícil”, conclui.

UM PAÍS ONDE SE NASCE CADA VEZ MENOS 

A tendência não é animadora: o ano de 2007 foi o primeiro em que Portugal registou mais mortes (103 727) do que nascimentos (102 213), se excluirmos o fatídico ano da pneumónica, 1918. Em relação a 2006, a taxa de natalidade sofreu uma redução de cerca de 3000 nascimentos. Cada mulher portuguesa tem hoje uma média de 1,3 filhos – número que não assegura a substituição de gerações. Estima-se que, em 2060, o número de pessoas com mais de 80 anos vai triplicar e que nem os imigrantes, que têm conseguido dar fôlego às sociedades modernas enve-lhecidas, vão salvar as estatísticas. Noutro pólo, os números da infertilidade não param de aumentar – estima-se que um em cada seis casais tem problemas de fertilidade, o que representa 10 a 15% da população. Consequência disso, nascem todos os anos em Portugal entre 700 a 900 bebés fruto das novas técnicas de reprodução assistida.

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MATERNIDADE QUASE FECHOU AS PORTAS 

No início de Setembro, as Urgências da maior maternidade do País estiveram a um fio de fechar as portas. Agosto foi um mês crítico, por causa das férias, e agravado pelo fecho das urgências obstétricas nos hospitais de Vila Franca de Xira e São Francisco Xavier. De maneira que, no final desse mês, em vez de 15,7, a média, registaram-se 29 partos diários na MAC.

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