A Virgem resgatada da Sé de Lisboa
Antes de haver Fátima já existia a Nossa Senhora da Conceição da Rocha. Apoiado pelos reis, o santuário fica a apenas 11 quilómetros de Lisboa.
O coelho foi mais rápido do que o cão e os sete rapazes que estavam a brincar na margem direita do rio Jamor na manhã de 28 de maio de 1822. Enfiou-se numas silvas, pelo que voltaram ao local, depois da missa de domingo, com pás que permitiram desbravar caminho e encontrar ossadas humanas na gruta sobre a qual se encontra agora o Santuário de Nossa Senhora da Conceição da Rocha, em Linda-a-Pastora (Oeiras), a apenas 11 quilómetros do centro de Lisboa.
Após a remoção dos dois cadáveres, o local foi selado durante três dias. Só quando as autoridades regressaram é que deram conta da estreita passagem para outra gruta, onde entraram com archotes. Lá dentro estava uma Virgem Maria com cerca de dez centímetros, feita em terracota e coberta com um manto de seda apodrecido pelo tempo e pela humidade.
À falta de testes científicos, abundam teses que incluem a hipótese de se tratar de um presente de D. Filipa de Lencastre, rainha de Portugal, que o infante D. Fernando, mais infeliz dos seus filhos, levou para Marrocos, acompanhando-o no cativeiro até à morte. Bem documentadas, pelo contrário, estão duas viagens de barco feitas pela pequena imagem, que ficou ‘sequestrada’ na Sé de Lisboa durante 61 anos, para desgosto de quem havia ficado maravilhado com a sua descoberta.
O professor universitário José Manuel Zorro Mendes, juiz da Irmandade da Nossa Senhora da Conceição da Rocha, entidade que zela pelo santuário, junto à saída para Queijas da A5 e cada vez mais rodeado de condomínios de luxo, salienta a importância histórica. "D. João VI tinha voltado do Brasil e pouco depois houve a guerra sangrenta entre D. Pedro e D. Miguel. De um lado, as forças liberais, que hoje chamaríamos progressistas ou de esquerda, e do outro os conservadores, ligados à Igreja e ao campo. O aparecimento da imagem foi apropriado por estes como um sinal de que Deus não abandonara Portugal num momento de convulsão."
ESTALADA NO GENERAL
O interesse da família real na ocorrência traduziu-se no despacho assinado por D. João VI a 5 de agosto, pouco mais de dois meses após a imagem ser encontrada num dos nichos da gruta. Considerando que aquele local não era digno para a mãe de Cristo, o monarca mandou trasladá-la para a Sé Patriarcal de Lisboa. Não seria tarefa fácil atentar contra a devoção popular, o que ficou bem patente quando uma mulher idosa chamada Maria Galharda deu uma estalada no general Sepúlveda, comandante das tropas que tinham a incumbência de voltar a Lisboa com a Nossa Senhora da Conceição da Rocha.
"Nessa altura o rio era navegável e a imagem saiu de barco. Foram ter à foz do Jamor e depois seguiram até ao Cais das Colunas. Estavam lá não só o cardeal patriarca como também todo o governo e o rei. A imagem foi em procissão do Terreiro do Paço à Sé", relata Zorro Mendes. A ligação da família real e dos mais conservadores era tão notória que D. Miguel visitou a gruta, já vazia, antes de partir para o exílio, estipulado pela Convenção de Evoramonte, rubricada em 1834.
Nicolau, Joaquim, Diogo, Joaquim António, António, José e Simão, os sete rapazes – os mais novos tinham 11 anos, em 1822, e os mais velhos 15 – que perseguiram o coelho, já contariam aos netos histórias da prodigiosa manhã e a imagem permanecia em Lisboa, onde tinha algum culto. E a simpatia de D. Luís I, juiz perpétuo da Real Irmandade de Nossa Senhora da Conceição da Rocha, pelo que nada indicava que um dia voltasse.
O REI CONVENCIDO
A dezenas de metros da gruta decorreu a infância do poeta Cesário Verde, nascido em 1855, cujo irmão Jorge ficaria mais tarde ligado ao santuário, enquanto dono da quinta em Linda-a-Pastora que inspirou versos ensinados a gerações de alunos portugueses. No entanto, o maior responsável pelo regresso da santa foi outro homem das letras, Tomás Ribeiro. Natural de Tondela e já então deputado, tomou conhecimento da tristeza do povo ao passar férias numa quinta em Carnaxide.
Apesar de a imagem ter ficado pouco mais de dois meses no local depois de ser encontrada, as gentes da terra planeavam desde há muito construir um santuário por cima da gruta. Algumas pedras foram colocadas no que seriam as fundações, mas a obra parou por falta de verbas e foram aproveitadas para terminar o arco da rua Augusta.
Menos de um mês, em 1878, na pasta dos Negócios Eclesiásticos e da Justiça – era também (e continuou a ser) ministro da Marinha e Ultramar num dos executivos de Fontes Pereira de Melo – terá bastado para Tomás Ribeiro dar início ao resgate, concluído no verão de 1883, quando era ministro do Reino.
"Como é que ele conseguiu influenciar D. Luís I e vencer a resistência dos cónegos da Sé Patriarcal?", interroga-se Zorro Mendes, sem conseguir avançar uma resposta. Mas a verdade é que a Virgem voltou a subir o rio Jamor, ficando na Igreja Paroquial de São Romão, em Carnaxide, até ao santuário ficar acabado, o que sucedeu em 1894, já no reinado de D. Carlos. Este não esteve na inauguração, ao contrário de rainha D. Amélia e dos príncipes Luís Filipe (assassinado no regicídio de 1908) e Manuel, que viria a ser o último rei de Portugal.
Mesmo sem nenhum milagre reconhecido pela Igreja Católica – embora a crença nos poderes curativos da água que corria da quinta da família Verde levasse à venda de copos de papel impermeável para financiar o santuário –, a pequena Nossa Senhora não deixou de ter todo o tipo de devotos. "D. Maria Pia, a mãe de D. Carlos, morava no Palácio da Ajuda e quando se sentia pior mandava vir alguém da corte buscar a imagem. Ficava lá uns dias, a senhora sentia--se melhor, e a imagem voltava", conta o juiz da Irmandade de Nossa Senhora da Conceição da Rocha, de 49 anos, que se casou no santuário, e detém o cargo há quase 15 anos.
HUMIDADE NA ROCHA
"Foi um acontecimento de repercussão nacional, mas começou a declinar em 1910, com o fim da monarquia, e depois em 1917, quando Fátima ofuscou uma série de santuários", diz Zorro Mendes, salientando que o pior já passou. A feirante Lassalete Correia, de 57 anos, que marca presença nas festas há três décadas, garante que "o negócio tem sido fraco", mas não deixa de comparecer todos os anos. "Guardo a mercadoria e sigo a procissão. E ponho umas velinhas, porque é uma tradição bonita", explica.
O santuário abre ao fim de semana, para casamentos, batizados e as missas de domingo, que também podem decorrer na gruta cravada nas rochas e em que a densa humidade desafia a resistência das lâmpadas, onde uma réplica da santa repousa num altar de cimento.
No livro ‘O Mensageiro de Fez’ Tomás Ribeiro defendeu que a imagem voltou para Portugal após a morte do Infante Santo nas mãos dos mouros, levando a que alguns contemporâneos lhe chamassem ‘Tomás da Aparecida’, mas Zorro Mendes tem uma explicação mais racional: "Nesta zona havia ordens mendicantes, como os frades cartuxos, que pregavam de terra em terra. Andavam dois a dois e houve anos de peste antes de 1822. Talvez se tenham recolhido na gruta, para onde trouxeram a imagem".
Quanto ao coelho que fugiu para as silvas, não teve sorte, a crer no opúsculo de frei Cláudio da Conceição, cronista-mor do reino. Foi apanhado na gruta pelos sete rapazes, que logo se meteram a caminho do Palácio de Queluz, oferecendo-o ao real apetite de D. João VI.
PROCISSÃO TEVE CONCORRÊNCIA DE JESUS
A poucos minutos das 16h00 do domingo passado, hora marcada para o início da procissão da Nossa Senhora da Conceição da Rocha, centenas de automóveis congestionavam a saída para Queijas da A5. Quase todos graças a Jorge Jesus, treinador do Benfica, que perderia na final da Taça de Portugal com o Vitória de Guimarães.
Na procissão, que se realiza sempre no último domingo de maio, pouco mais de 100 pessoas acompanharam a Nossa Senhora, carregada no andor por quatro bombeiros, com os membros da corporação a revezarem-se. Entoando ‘Ave Maria’ e outras orações, o cortejo seguiu até à gruta em que a imagem foi encontrada, regressando poucos minutos mais tarde.
A presença de feirantes nas festas ajuda a compor um orçamento anual de 25 mil euros. Mais difícil foi encontrar verbas para o restauro do santuário, pelo qual a Fundação Ricardo do Espírito Santo Silva cobrou o "preço de favor" de 52 mil euros.
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