Alunos que não vão à escola

O ensino doméstico existe em Portugal. Famílias que criam rotinas diferentes para que aprender seja uma aventura

15 de outubro de 2013 às 16:26
Ensino em casa, Home schooling, educação, ensino doméstico, escola Foto: Ricardo Almeida
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Sem a popularidade de outros tempos, o ensino doméstico é uma opção legal em Portugal e continua a despertar o interesse das famílias. Em causa está um direito consignado na legislação: qualquer pai pode escolher a educação que quer para os filhos. Quem escolhe educar os filhos em casa invoca sobretudo critérios relacionados com a flexibilidade e o desenvolvimento integral da criança.

No lugar de Barrocas, Lourinhã, numa colina com vista larga para os campos cultivados, ergue-se "a casa dos cinco meninos", como a vizinhança a nomeia. Rafael, Leonardo, Francisco, Flor e Lua assomam no telheiro de cara sorridente e olhar franzido pelo sol atrevido de outubro. Sabem ao que vêm os forasteiros, e rapidamente entram para a divisão da casa da família que serve de sala de aula.

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As paredes estão cobertas de mapas, trabalhos escolares, um quadro com giz, prateleiras e mais prateleiras cheias de livros e jogos didáticos. Não é de estranhar. Catarina Mendes, mãe dos cinco, 34 anos, é formada em Psicomotricidade e professora do ensino especial. O pai é informático. Estão ambos desempregados.

Foi quando Catarina ficou sem colocação que achou que o mais natural era ficar com os filhos mais velhos também em casa. "Era o mais lógico. Não quer dizer que vá durar para sempre, mas, para já, está a resultar muito bem." Rafael (8 anos) e Flor (7 anos) desvendam praticamente sozinhos os livros de exercícios de Português, Matemática e Inglês. A seu lado, Francisco, que ainda só tem 5 anos, voluntariou-se para fazer exercícios do primeiro ano. A porta que dá para o quintal está aberta e a sessão de trabalho tem pausas frequentes para brincadeiras lá fora. Fora de portas, "convivem com pessoas de todas as idades, participam em todas as atividades da família. São muito sociáveis".

Estão inscritos na escola, e embora não assistam às aulas, frequentam a biblioteca escolar. Fazem desde ginástica acrobática ao xadrez, passando pelo hóquei, a natação e a música. Não é preciso mandá-los estudar, nem sequer dar-lhes instruções: "Se têm dúvidas, guiamo-los, mas de uma forma geral compreendem as instruções sozinhos", revela a mãe.

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Catarina, que foi professora, conhece os problemas das escolas e as suas inflexibilidades. "Propus que eles fossem alguns dias à escola, mas disseram-me logo que ou era uma coisa ou outra." Mas não se sentiu uma ave rara, porque no agrupamento escolar já havia outros casos de ensino doméstico. É na escola que as crianças farão os exames que lhe permitirão obter o diploma do primeiro ciclo. Lá em casa, os testes já não assustam ninguém. "Eles correm o risco de chumbar como os outros. Queremos que tenham conhecimentos no maior leque de áreas, que sejam autónomos e felizes, mas não necessariamente doutores", diz Catarina.

Rotina diferente

Em Coimbra, vivem Catarina Santos e Maria. A mãe estudou Medicina Veterinária, trabalha numa empresa de organização de casamentos e está a tirar uma licenciatura em educação. Não começou por ser uma adepta do ensino doméstico, mas depois foi lendo John Holt e outros autores que questionam certos paradigmas da educação tradicional e, com o nascimento da filha, há sete anos, a ideia foi ganhando forma e força. Maria chegou a frequentar uma creche e jardim-de-infância, mas, face a esse cenário de regras e deveres que são iguais para todos e que não atendem à personalidade e às necessidades de cada um, a mãe resolveu educá-la em casa.

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"O rácio de 25 meninos para um educador desmotivou-me. Pouco contacto tinham com a Natureza, não podiam pisar a relva do recreio ou trepar às árvores. Não fazia sentido pô-la numa escola oito horas por dia sentada a uma secretária para aprender o que já sabia há anos."

A rotina de Catarina e Maria, uma família monoparental, é diversificada. Os números e as medidas até podem ser aprendidos a fazer um bolo e vão figurando a par com as aulas de piano, ballet e as visitas ao agrupamento escolar onde está igualmente inscrita como todos os outros para frequentar as atividades de enriquecimento curricular (AEC) na turma a que virtualmente pertence. Em conjunto com outras famílias de ensino doméstico, Catarina organiza projetos de ciência e visitas a museus.

"No ano passado, quis aprender os números romanos, e então fomos à procura disso. Bem espremido, somos capazes de trabalhar cinco horas - como na escola. Mas não é essa contabilidade que importa. As matérias vão surgindo naturalmente, por entre atividades que muitas vezes não passam por estar sentada à frente do livro." No início do primeiro ciclo, Catarina teve uma reunião informal com a professora que seria a de Maria caso ela frequentasse as aulas presenciais. "Expliquei-lhe o que me movia, o que fazíamos e como. Ela disse-me: não conhecia essa modalidade de ensino, estou encantada, a sua filha está com um ótimo desenvolvimento, continuem o bom trabalho! Não precisa de vir à escola...".

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Contra a massificação

Cristina Marinho é professora de Literatura Francesa Clássica na Universidade do Porto. O marido, jurista e docente universitário, professor de Literatura Inglesa. São pais de Gonçalo, de 18 anos, Lourenço, 13, e Dinis, de 7 anos. O primeiro - atualmente a estudar Business and Computting na King's College, em Londres - saiu da escola para passar ao sistema de ensino doméstico no 9º ano. Nessa época, Cristina travou uma verdadeira "odisseia" por aquilo em que acredita: "A escola não serve todas as crianças, os métodos e os procedimentos são obsoletos, impera a massificação na própria formação dos docentes." Cristina nota que os seus três filhos são sobredotados, mas nem isso lhe facilitou propriamente a vida junto da DREN - Direção Regional de Educação do Norte quando quis retirá-los da escola. "Chegaram a exigir-me um responsável científico por cada disciplina para que pudesse ensiná-los em casa", recorda. O que na verdade até nem fugia à sua ideia para a aplicação do ensino doméstico, com recurso a professores privados. À componente letiva, somam-se artes marciais, música (para Lourenço), passeios diários de exploração do meio e da cidade para Dinis, o mais novo. As aulas decorrem em casa, na casa dos professores e até em espaços públicos, como o centro comercial Península, na Invicta: "Um espaço singular, onde param muitos velhos professores reformados que reconhecem os meus filhos e por vezes colaboram nas aulas espontaneamente. Sair da escola é poder fazer diversamente e melhor."

Todas as teorias modernas sobre educação servem o ensino doméstico - os métodos Montessori, a pedagogia Waldorf, Velaverde, a Escola Moderna, o Unschooling - particularmente ou em conjunto.

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Antes de pôr em prática esta opção, Cristina tentou todas as vias. "Chegaram a estar em seis escolas diferentes num ano. Procurei soluções diferentes para cada um. Experimentei o ensino público e privado, tradicional e o mais moderno, o católico... acabam por ter apenas diferenças no marketing, mas na personalização do ensino, na evolução das metodologias... até a dificuldade na integração digital é a mesma". Mas claro que o investimento financeiro é grande: para um aluno de 2º ciclo, a contratação de tutores ultrapassa os mil euros mensais. Cristina Marinho está a criar uma plataforma de home schooling para os pais partilharem conteúdos educativos.

Incompreensão pública

Maria Lisete Silva, dirigente da secção de Lisboa Norte da Associação Nacional de Professores, tem uma visão crítica. Considera que a escola é o "meio apropriado" para as crianças aprenderem. "Ter rotinas, horários, disciplina é importante para o futuro, porque é isso que vão encontrar fora da escola."

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Para o investigador Álvaro Ribeiro, da Universidade do Minho, abordar o tema do ensino doméstico em Portugal implica "exigência redobrada", sobretudo porque não há números oficiais precisos e porque constitui uma realidade educativa que suscita resistências e algumas incompreensões. "Estas famílias defendem que cada criança tem uma necessidade inata e insaciável de compreender o mundo em que vive e nele conquistar a liberdade e adquirir competências. Por isso, consideram que qualquer tentativa para regular ou controlar esta necessidade reprime a aprendizagem. Pretendem que os seus educandos sejam fortes para pensar e agir, senhores e não escravos das circunstâncias."

Assenta nestas linhas o pensamento de Cláudia Sousa, presidente do Movimento Educação Livre, associação que existe desde 2011. É psicóloga e mãe de três filhos, dois rapazes de 15 e 13 anos e uma rapariga de 11 anos, todos em ensino doméstico. Iniciaram o percurso na escola pública, até que a mais nova começou a dar sinais de tristeza. "Não porque alguma coisa má tivesse acontecido na escola. Não havia problemas de comportamento ou dificuldades de adaptação. Pelo contrário. "Tinha amigos, era boa aluna e bem comportada", mas tornou-se uma criança "triste, insegura, com medo de falhar". A par disso, surgiram outros sinais: as dores de barriga, as febres baixinhas e a pergunta que se repetia: "Mãe, se eu tiver febre não vou à escola, pois não?"

Para Cláudia, era aberrante que os filhos tivessem de se "aguentar" na escola, ao invés de se "expressarem com alegria e criatividade" e, numa tomada de consciência demorada e amadurecida, decidiu mudar. Um a um, os três filhos foram saindo da escola. Hoje, sente que eles são mais felizes e autónomos, com capacidade para organizar e estruturar o próprio estudo. E, assim, sobra espaço para a aventura e o improviso do dia-a-dia: o surf, kung-fu, a vela, andar de bicicleta ou fazer uma casa na árvore ...

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