Amor Inimigo

As mulheres que se refugiam na Casa da Mãe, uma instituição cuja morada é segredo, têm uma história em comum: todas elas foram vítimas de um amor violento. Umas conseguem construir uma vida nova, outras não.

04 de junho de 2006 às 00:00
Amor Inimigo Foto: d.r.
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Quando o marido a olhava fixamente sem esboçar qualquer expressão, o coração de Julieta batia tanto, que parecia pular cá para fora. Ela já sabia que a seguir àquela expressão seria, mais uma vez, agredida fisicamente. Durante 30 anos, as noites de Julieta foram um calvário. Cobria-se com os cobertores, mas gelava de terror só por saber que, a seu lado, dormia o homem que lhe roubara o amor-próprio, a coragem e a independência.

O príncipe, a quem um dia jurou respeito e lealdade para o resto da vida, tornara-se num fantasma da morte. Quem o conhecia não acreditava. Um empresário de sucesso, inteligente, educado e humano seria incapaz de tocar numa mulher, sem que fosse para um gesto de carinho. Julieta também o pensou, quando era ainda uma jovem longe dos seus actuais 60 anos.

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Formada em três licenciaturas, uma delas incompleta, Julieta empenhava-se verdadeiramente na sua profissão. Subtilmente, o marido começou por acompanhá-la a cada passo que dava. Quando deu por si, não podia fazer nada transcendente ao controlo do marido. “Os ciúmes tornaram-se doentios. Até a minha forma de vestir era motivo de desconfiança. Dizia-me que se arranjasse outro homem, ou se o abandonasse, que me cortava aos pedaços”.

A violência psicológica alcançou a agressão física. De repente, o marido que conhecera, desaparecia e dava lugar a um animal feroz. “Parecia que ficava fora de si. Agredia-me. Fechava-me no quarto. Deixava-me enclausurada. Poucos minutos depois chorava e interrogava quem tinha feito isto comigo”, recorda Julieta, ainda com mazelas na cara.

O comportamento do marido levou-a a pensar que poderia estar viciado em drogas. Consultou um profissional e confrontou-o com isso, mas o médico afastou de imediato a hipótese. Disse-lhe que o problema estaria relacionado com uma qualquer perturbação psicológica, talvez esquizofrenia, e que deveria ter sido tratado enquanto criança. Julieta teve esperanças de uma cura. “Tínhamos uma filha e eu tive uma infância e uma juventude muito felizes. Penso que foi aí que fui buscar forças”.

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Julieta chegou a ameaçar deixá-lo, caso não se tratasse. Não suportava o sofrimento. Como não a queria perder, ele aceitou ser acompanhado por médicos especialistas em doenças mentais. Mas nada mudou. “Em jovem sempre disse que nunca toleraria uma situação semelhante, e dava por mim completamente bloqueada, sem conseguir fazer-lhe frente. Cheguei a agarrar em pratos para os atirar ao chão e ele perceber o mal que me estava a fazer. Nem isso consegui”.

A vida do casal chegou ao extremo. Com a filha na universidade, Julieta sentiu-se enlouquecer. No trabalho, onde tantas vezes passavam por si histórias de violência doméstica, Julieta confidenciou a uma amiga o problema. Disse-lhe que dentro da gaveta da sua secretária estava um envelope com mil euros, para alguma eventualidade.

Foi o que lhe valeu naquela noite. A noite em que ganhou coragem para abandonar aquela vida. Julieta fechou a porta para ir trabalhar e jurou a si própria nunca mais regressar àquela casa.

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Levou apenas a roupa do corpo. Estava exausta, cheia de medo que ele a perseguisse, como fez durante anos para controlar todos os seus passos. “Pedi ajuda no trabalho. Só queria um buraco onde pudesse esconder-me e proteger-me. Sabia que quando desse pela minha falta, iria bater a todas as portas de familiares e amigos à minha procura”. A Associação de Apoio à Vítima arranjou-lhe um centro de acolhimento em poucas horas. A Casa da Mãe, uma das instituições da Fundação Bissaya Barreto, foi o refúgio que lhe permitiu regressar a uma nova vida, longe da violência.

Julieta ainda recorda as palavras de Fátima Mota, directora da Área da Família da Fundação. “Se não se sentir bem, pode sair", advertindo-a para o facto de a maioria das mulheres ali instaladas serem adolescentes, que são acolhidas com os filhos, ainda de meses. Julieta nem questionou. Queria apenas uma cama, um lugar onde ninguém a pudesse encontrar.

Ela foi apenas uma das 60 mulheres e meninas que passaram por esta casa, um lugar sem morada onde vítimas de violência doméstica procuram protecção e coragem para avançarem com uma vida nova, longe dos maridos e dos familiares que, outrora, as agrediram. Na primeira noite, Julieta entrou no quarto a medo. Habituada, nas últimas três décadas, a ser perseguida em todos os seus passos, julgava também ali poder encontrá-lo à sua espera, dentro do quarto, para mais um massacre. Sentiu o mesmo na noite seguinte, e na outra.

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Quando falava ao telefone com a família, mantinha em segredo o lugar onde se encontrava. Temia que o marido os coagisse e acabasse por encontrá-la. Julieta sonhou durante muito tempo com um lindo mar azul. De repente o marido chegava e matava-a naquela paisagem. Acordava e via que estava viva. O acompanhamento psicológico permitiu-lhe deixar fugir os sonhos maus.

Habituada aos luxos de uma classe social média alta, muito diferente das mulheres acolhidas pela Casa da Mãe, Julieta teve algumas dificuldades em adaptar-se. Por um lado, confrontava-se com adolescentes muito violentas, de contextos familiares complicados. Por outro, a mulher com a idade mais próxima da sua dizia não gostar dela, porque ela tinha dinheiro e, mesmo assim, não recusava as tarefas que lhe eram atribuídas.

Julieta não as recusava porque tinha a consciência de que essas obrigações a distraíam e faziam parte de toda uma terapia. No quarto dos brinquedos, dedicava-se à leitura e distraía-se no computador. Na rua, entretinha-se com a jardinagem. Muitas vezes se lembrou das palavras da amiga: "Deus dá-nos desgostos, mas dá-nos forças superiores para os resolver".

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Um ano e meio depois, Julieta saiu da Casa da Mãe. Reencontrou a mulher que tinha dentro de si, independente e lutadora. Hoje, quando passeia pela rua não sente medo. Mas, confessa, “se tiver de ser morta, que seja de uma forma rápida.” Ninguém sabe onde está o homem que lhe causou todo este sofrimento. Mas um dia, Julieta ouviu da sua boca: "se não te amasse de mais não sofria. Esquecendo-te, não sofro".

A CASA DA MÃE

Por trás de um grande portão sem qualquer nomenclatura, a Casa da Mãe poderia ser a casa de outro qualquer. A porta principal dá acesso a uma sala colorida, em tons de rosa choque e verde alface. O parque das crianças, coberto de brinquedos, está arrumado por causa das visitas.

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As menina-mães que ali habitam, a mais nova de 14 anos e a mais velha de 24, desapareceram mal lhes falaram das visitas. "Elas não se sentem à vontade. Ainda não conseguem exprimir o que lhes aconteceu, quanto mais exporem-se a desconhecidos", justificou a responsável, Carmen Fonseca.

Ao contrário da imagem generalizada de que um centro de acolhimento é quase como que uma prisão, a Casa da Mãe não é mais do que um lar para as mulheres que querem mudar de vida e não o podem fazer junto da família . "A maior parte são jovens adolescentes.Há muitos processos a avaliar, mas as vagas são poucas e é difícil recusar a entrada de jovens adolescentes, com os filhos nos braços", acrescenta.

A Casa da Mãe é um centro terapêutico para todas as vítimas de violência doméstica, que não têm uma rede familiar de apoio, ou para aquelas que foram agredidas por homens considerados perigosos. “A grande maioria não procura a casa para se proteger, mas sim para se organizar”. Nem todas.

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Além de Julieta, as responsáveis pelo centro recordam o caso de um homem que descobriu onde estava a mulher. A casa ficou debaixo de olho de um polícia 24 horas. O agressor só foi preso quando agrediu a mulher de tal forma que ela levou 60 pontos na cabeça. “Muitas destas mulheres chegam aqui completamente destruídas psicologicamente. Os casos são denunciados tarde de mais e as vítimas estão vulneráveis e convencidas de que não são nada, nem têm valor algum”, refere a psicóloga Cristina Cunha.

As paredes brancas e imaculadas da Casa Mãe contrastam com muitas histórias que ali são ouvidas e guardadas. Há casos de meninas que toda a vida foram abusadas sexualmente por familiares próximos e que só são salvas, pelas unidades hospitalares, quando engravidam e chega o dia do parto. “Os hospitais sinalizam o caso junto do Ministério Público.

A maior parte das meninas grávidas dos seus familiares é contra o aborto. Algumas ficam com as criança, outras entregam-nas para a adopção", constata Carmen Fonseca. “Estas meninas sabem como proteger-se da gravidez, mas não o fazem porque sabem que assim denunciam a situação”, diz a responsável

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Muitas delas, com corpos de mulheres, engravidaram depois de terem sido vendidas pelas próprias mães. “Há casos em que as mães vendem a virgindade das filhas. E isso não acontece apenas em situações de pobreza extrema”, adverte a responsável.

Quando uma menina que vem de um contexto familar "pluriproblemático, onde há maus-tratos na infância, exclusão social, alcoolismo, vários companheiros sexuais”, como sublinha a psicóloga Cristina Cunha, "é necessário incutir-lhe normas de conduta e ensinar-lhes o que é ser mãe".

Algumas optam por trabalhar, outras pela formação profissional. Podem sair à noite e terem grupos de amigos e namorados. Mas Carmen Fonseca, que acaba por assumir o papel de mãe, exige conhecê-los.

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Nos casos de violência conjugal, muitas mulheres regressam a casa dos maridos. Depois de uma lua de mel a violência repete-se. “O próprio agressor tem um problema, uma qualquer patologia, e deve ser tratado. Há estudos que comprovam que as crianças que presenciam actos de violência entre os pais têm os mesmos sintomas e comportamentos das que foram agredidas. As crianças tendem a tornar-se, na fase adulta, em agressores. Cabe às diversas instituições sinalizarem estes casos. A intervenção precoce é sempre mais eficaz”, diz Fátima Mota.

À noite, um filme sobre alcoolismo, violência, ou drogas serve de mote à discussão. Nada como estas mulheres interiorizarem que elas é que são as vítimas. Não conhecem Julieta, que abandonou o centro há já seis anos.

Mas todas elas partilham as mesmas sensações quando chega a hora de ir dormir. Não querem sonhar com os fantasmas que um dia lhes roubaram a felicidade.

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- 52 pedidos de acolhimento à casa da mãe, feitos pela Segurança Social, comissão de protecção e hospitais

- 45 mulheres que pediram ajuda tinham disfunções familiares

- 28 estavam desempregadas

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- 29 tinham um filho

- 12 estavam grávidas

- 60 mulheres já passaram pela Casa da Mãe, em 10 anos em funções

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- 58 crianças acolhidas com as mães

FUNDAÇÃO BISSAYA BARRETO

PROJECTO PREVINE VIOLÊNCIA

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A Fundação Bissaya Barreto nasceu em 1958 em Coimbra como uma instituição particular de utilidade pública e fins de assistência. O seu patrono, Fernando Bissaya Barreto Rosa, um professor médico-cirurgião, empenhou-se na criação de instituições de apoio às mais diversas áreas, como aos leprosos, aos cegos e às crianças.

Actualmente, a fundação estende-se a nível nacional e dispõe de um centro de formação, várias instituições de apoio às crianças, uma casa de abrigo para mulheres vítimas de violência doméstica assim como um serviço de apoio domiciliário aos idosos.

Seguindo a herança do professor Bissaya Barreto, um conjunto de técnicos de Coimbra, que nos últimos anos, tem reflectido e estudado o tema da violência doméstica em todas as suas vertentes, tem em mãos um projecto que visa dar formação a todos os profissionais de áreas como a Saúde e a Justiça. O Projecto V!!! (V de violência) – tendo em conta as vantagens de uma intervenção precoce para prevenir o fenómeno da violência – pretende que todos estes serviços trabalhem em rede para que esta informação sobre violência possa ser analisada. Só assim poderão ser avaliadas as necessidades das vítimas e dos agressores, disse Fátima Mota (à direita na foto), responsável pela Área da Família. Tem o apoio de Helena Mota (à esquerda) e da psicóloga Cristina Cunha.

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JANELA DE ESPERANÇA

- 25 das mulheres acolhidas seguiram um novo projecto de vida autónomo

- 15 regressaram à família

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- 4 Foram transferidas para outras instituições por segurança

- 6 abandonaram o centro por vontade própria

COMO SAIR DO PESADELO

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- 1. Contactar com um serviço de apoio à vítima, seja numa associação, em gabinetes das forças de segurança, serviços de saúde ou Segurança Social.

- 2. Cada caso é um caso. O centro de acolhimento é uma solução válida quando não há possibilidade de a vítima ficar em casa de familiares e amigos. Em qualquer dos casos, a instância a que recorreu faz o acompanhamento.

- 3. Se a instância considerar a entrada no centro de acolhimento a melhor opção, envia o pedido para diversas instituições (muitas não aceitam crianças ou impõem restrições de acordo com o sexo da criança e com a idade)

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- 4. Se o caso for considerado de extrema gravidade e urgência é activada a Linha de Emergência Social, que oferece alojamento temporário por 42 horas.

- 5. Nem todas as vítimas formalizam queixa contra o agressor. A Polícia incentiva a fazê-lo.Os maus-tratos constituem crime e devem ser denunciados às forças policiais com competência.

- 6. Depois de uma passagem pelo centro de acolhimento, as vítimas poderão regressar ao núcleo familiar, a casa de amigos ou seguir com uma vida completamente autónoma, dependendo de cada caso.

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