ANDAR NA LINHA

A linha de comboio já tinha morrido há anos. Em cima do seu antigo traçado vai nascer agora uma ecopista: 13 quilómetros de via pensada para os amantes da natureza. Aqui só a pé, ou de bicileta.

24 de outubro de 2004 às 00:00
ANDAR NA LINHA
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Já lá vão quase 15 anos. No dia 1 de Janeiro de 1990 o comboio deixou de apitar no troço da linha do Minho, entre Valença e Monção – um passo atrás depois de quase 80 anos de viagens ferroviárias na margem esquerda do rio Minho.

Foi apenas um dos tristes episódios de uma onda de cortes na ferrovia, quase sempre a troco de promessas de uns quilómetros de vias rápidas, a que não escaparam alguns dos mais belos percursos dos nossos comboios, como o troço do Tâmega entre Amarante e o Arco de Baúlhe, ou do Sabor, ou do Tua, a seguir a Mirandela, ou mesmo da Linha do Douro, entre o Pocinho e Barca de Alva, para não ir mais longe. E também este, na raia minhota.

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Mas, quase década e meia depois, dois autarcas, José Emílio Moreira (de Monção) e José Luís Serra (de Valença), resolveram avançar com um projecto de recuperação daquele fantástico percurso, que integrava doze estações e apeadeiros (entre a vila de Valença e o apeadeiro da Senhora da Cabeça, em Monção) transformando-o numa original ecopista, com seis metros de largura.

E pode pensar-se que aproveitar o local de passagem da linha, depois de arrancados os carris, terá sido tarefa fácil, bastando pouco mais do que colocar um tapete betuminoso, algo parecido com o que se usa nas pistas de atletismo. Mas não. Para além de difícil, em termos burocráticos, foi um projecto caro (mais de 50 mil euros por quilómetro).

A ideia nasceu em finais da década passada, com o objectivo de aproveitar turisticamente um itinerário de rara beleza e que se encontrava em total estado de abandono. Sabendo-se da aposta destas duas autarquias no chamado ecoturismo, ou turismo de natureza, atendendo às enormes potencialidades dos municípios nesse sector, a ecopista vinha mesmo a calhar. E começaram então os primeiros contactos com a Refer e com o Ministério das Obras Públicas.

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Convém sublinhar que nem a empresa dos caminhos-de-ferro nem o Governo colocaram entraves à concretização do projecto, mas o processo burocrático de desafectação dos terrenos e das estruturas deu água pela barba aos serviços técnicos das autarquias. Para não falar depois do processo de candidatura aos fundos comunitários, ao nível do programa INTERREG II. Mas, “com paciência e persistência”, como diz o autarca José Emílio Moreira, tudo se resolveu e a obra, que custou cerca de 600 mil euros, está praticamente pronta a inaugurar.

UMA LINHA DE RARA BELEZA

Ao chegar ao rio Gadanha, atravessado por uma característica ponte metálica, o Minho aparece em todo o seu esplendor. Espelhando as árvores, um ou outro barco e as pesqueiras da lampreia, o quadro é impressionantemente belo.

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O Gadanha é um dos últimos rios selvagens de Portugal e, mesmo junto à foz, ainda é possível ver exemplares dos antigos moinhos de água, que ao longo de séculos garantiram a subsistência dos já extintos moleiros. Mas os olhares prendem-se nesta simbiose perfeita entre o verde natural das margens e o espelho policromado em que as águas do rio Minho se apresentam.

A tranquilidade é quase total, perturbada apenas por um bando de irrequietos patos bravos que resolvem levantar voo à passagem de um raro transeunte.

De resto, na ecopista não falta nada. Há miradouros, centros de interpretação, e até casas de banho, já que foram recuperados todos os sanitários das antigas estações e apeadeiros. Mas há também parques de merendas, abrigos e espaços de lazer, para quem quiser aproveitar o melhor da natureza.

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A ponte metálica do Manco, sobre o rio Furna, em Friestas, merece uma atenção especial pelo facto de ter sido uma das primeiras do País a utilizar estrutura em ferro, o que fez dela um exemplar importante do património ferroviário português.

TRILHOS E PATRIMÓNIO

A ecopista está destinada a passeios pedonais e de bicicleta e permite ao utilizador usufruir de alguns dos aspectos mais cativantes do Vale do Minho. O percurso proporciona passeios por vinhedos (terra do Alvarinho), campos de cultivo, contactos com o rio Minho, com diversos ribeiros e com toda uma série de monumentos, de que se destacam a Fortaleza de Valença e a Catedral de Tui (Galiza). Os trilhos rústicos complementares à ecopista levam-nos aos espaços escondidos de uma paisagem protegida pela Rede Natura 2000.

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De resto, logo em Valença, há para ver o Museu Ferroviário, para que ninguém esqueça que por ali, onde só se pode andar a pé ou de bicicleta, passava antigamente o comboio. Poucos metros à frente, em Ganfei, pode ver-se o conjunto candidato a Património Mundial da Humanidade composto pela fortaleza de Valença, a centenária ponte metálica e a Catedral de Tui.

Do lado direito, encontra-se o secular mosteiro beneditino de Ganfei, com a sua cerca e uma igreja românica cuja origem remonta ao século VII. Convém sublinhar que foi nesta freguesia que nasceu S. Teotónio, o primeiro santo português.

Ao longo de toda a margem do rio, a partir de Verdoejo, há um grande número de pesqueiras, onde se podem pescar lampreias, enguias, salmões, trutas, sáveis, achisãs, escalos e bogas, entre outras espécies.

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Em Friestas, para além da ponte metálica do rio Manco, é obrigatório admirar ‘A Porta dos Crastos’. É um portal imponente, em estilo barroco, com influências da América Latina.

Há também um monumento a Lindberg, que a certa altura, para espanto de todos, amarou a sua máquina voadora no rio Minho.

Mas o que mais impressiona é a Ínsua do Crasto. Uma língua de terra, no meio do rio, com muitas histórias para contar. Desde a memória do contrabando, até às mais antigas artes da pesca e da medieval travessia do rio, conhecida por ‘Vau de Carexi’.

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Uns metros à frente, entra-se no concelho de Monção. E, não tarda nada, aparece-nos aquela que é conhecida como a ‘Torre de Belém do Minho’, a Torre de Lapela.

Trata-se da torre de menagem de um antigo castelo medieval, que o Rei D. João V, no início do século XVIII, mandou destruir para aproveitamento da cantaria na construção do polígono defensivo de Monção. É monumento nacional desde 1910. O povoado, que cresceu harmoniosamente em torno da torre, constitui também um conjunto arquitectónico admirável.

Depois da já referida ponte do rio Gadanha, espraiam-se os nossos olhares pelas frondosas explorações vinícolas de Cortes, Troporiz e Lapela. Afinal, estamos em pleno berço do Alvarinho.

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A ecopista termina (para já) no apeadeiro da Senhora da Cabeça, a cerca de dois quilómetros da vila. O apeadeiro foi totalmente reconstruído, para que a memória do comboio não se perca. É ali que funciona o centro de interpretação da ecopista.

UMA PISTA, 13 ESTAÇÕES

A ecopista segue a margem portuguesa do rio Minho, entre Valença e Monção e tem 13 estações e apeadeiros.

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Seguem-se os sítios e as distâncias (aproximadamente) entre eles. (os números 1 a 7 são relativos ao concelho de Valença, de 8 a 13 dizem respeito a Monção)

1 Estação de Valença e Museu Ferroviário 150 metros

2 Centro de Interpretação da Ponte Seca 1 km

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3 Miradouro de Ganfei 1 km

4 Estação de Ganfei 2 km

5 Estação de Verdoejo 2 km

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6 Estação de Friestas 1,5 km

7 Ponte Ferroviária sobre o rio Manco 2km

8 Miradouro de Lapela (Torre de Menagem) 500 m

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9 Estação de Lapela 800 m

10 Miradouro sobre o rio 200 m

11 Ponte sobre o rio Gadanha 1 km

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12 Apeadeiro de Nª Sª da Cabeça 100 m

13 Centro de Interpretação da Ecopista de Cortes

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