Aqui vou eu para a escola
Não esperam pelos transportes nem pelos pais. Os adolescentes habilitados a conduzir na estrada
Duarte aponta orgulhoso o carro que estacionou a poucos metros da escola. Dá para ligar o iPod, tem espaço para a mochila e até sensores de estacionamento para não amolgar a traseira em manobras arriscadas. O entusiasmo juvenil com o brinquedo novo que "custou nove mil euros" não é de estranhar para os 17 anos que confirmam o BI. "Este ‘dá’ mais do que os outros, chega aos 100, não vai só até aos 45 km/h [como manda a lei]. Se comprasse em primeira mão custava 16 mil, por isso foi um bom negócio."
O último que conduziu foi para a sucata há três meses, depois de um acidente perto da casa de fim-de-semana, na zona de Sintra, "primeiro e único grande susto" que sofreu ao volante de um microcarro, os únicos que os adolescentes podem conduzir. "O pedal prendeu-se no tapete, o carro perdeu o controlo" e desfilou pela terra batida em direcção ao muro onde terminou a viagem que mal chegou a começar. "Ia para São Martinho do Porto com uns amigos, mas, felizmente, aconteceu pouco depois de sair, ainda ia sozinho. Foi o seguro que pagou este, o mais provável é que fique para a minha irmã mais nova depois de eu tirar a carta de carro."
Para conduzir o microcarro é necessário tirar a carta de quadriciclos (para moto 4) desde que em 2005 deixaram de ser considerados ciclomotores.
Duarte Barreto conduz desde os 16 anos os veículos popularmente chamados ‘mata-velhos’ e ‘papa-reformas’ – por serem muito utilizados pelos idosos – embora a estética hoje seja outra, mais jovem e longe das cores desmaiadas preferidas pelo outro extremo etário.
"As mudanças que houve com as licenças de condução antigas, entre serviços camarários e IMTT, fizeram quebrar as vendas. De forma geral, o cliente idoso vai desaparecendo, mas, por outro lado, faz-nos trabalhar mais no mercado jovem e os resultados têm sido positivos", revela Nuno Pires, da Aixam, uma das marcas mais vendidas em Portugal.
GUIAR ANTES DOS 18
Estes veículos nasceram depois da II Guerra Mundial, numa altura em que a indústria automóvel se readaptava à necessidade de oferecer carros mais económicos e fáceis de manter.
Resistiram ao tempo e são os únicos carros que a lei permite guiar antes da maioridade e do direito de voto, pelo que, para os adolescentes, dão novo significado à palavra liberdade. "Gostava de ter uma mota, mas os meus pais preferem o microcarro por ser mais seguro e confortável. A grande vantagem é não ter de estar à espera dos transportes públicos e poder ir a qualquer lado que me apeteça", conta Duarte, enquanto ajeita o cabelo louro que lhe cai em madeixas sobre a testa.
Já o foram chamar a uma aula porque a Emel estava a bloquear o carro, mas as experiências negativas são poucas, ainda que só evite sair à noite com o carro. "Como vou beber, não conduzo, prefiro ir de táxi para casa."
Não é o único aluno do colégio onde estuda, no centro de Lisboa, que vai de microcarro para a escola, nem o era na escola pública onde andou no ano anterior. Madalena Chaves mora na Linha de Cascais. Com 16 anos herdou do namorado da irmã o microcarro vermelho que a leva para todo o lado numa independência saborosa só limitada pelos pais nas saídas à noite.
Está estacionada no parque de um colégio em Carcavelos, mas veio apenas ver um jogo de futebol, já que estuda na Oeiras International School. "O melhor de conduzir é poder ir para todo o lado sem estar à espera de ninguém. A única coisa má é que os outros condutores não respeitam os microcarros por serem conduzidos por miúdos."
A crítica é rematada por Pierre Balivet, de 17 anos, enquanto tira do estacionamento o veículo que herdou do primo e que já conduz há um ano. "Nas rotundas metem-se todos à frente, é como se não existíssemos", acusa o jovem, para quem a maioridade não é sinónimo de eficácia ao volante. "Não acho que tenhamos menos maturidade do que pessoas que já fizeram os 18, o importante é saber conduzir." João Guedes tem o seu microcarro no mesmo estacionamento de Pierre e Madalena.
O banco de trás está apinhado de adolescentes suados depois do treino da bola, de calções e t-shirt verdes que há-de ir deixando pelo caminho até casa. "O facto de eu poder conduzir facilitou muito a vida aos meus pais, deixaram de me transportar e passei a trazer também a minha irmã, de 15 anos, para a escola." Tiago Santos, de 16, também não teve de esmiuçar argumentos para conseguir um, porque a ideia partiu dos pais para facilitar a logística doméstica em Massamá.
"Como ele e a irmã praticam desporto e os treinos acabam tarde era difícil a organização. Como os transportes públicos depois das 20h00 também não nos pareciam ser a opção correcta para que se deslocassem sozinhos, optámos por esta solução", explica a mãe, Maria do Céu, funcionária de um banco, para quem a opção mota "estava fora de questão".
O microcarro custou 11 mil euros. Tiago, por seu lado, sente-se com "mais liberdade" e é vê-lo a descobrir caminhos alternativos à auto-estrada (onde os microcarros não circulam) para chegar ao Cacém, onde joga futebol, ou aos jogos de basquetebol que arbitra. Até porque os pais optaram por "não colocar regras rígidas" à utilização. "O Tiago tem sido sempre responsável e o facto de ter apenas dois lugares também limita eventuais situações de risco com terceiros."
AULAS DE MOTA
O capacete debaixo do braço e o telemóvel cor-de-rosa que envia SMS sucessivos compõem o figurino de Carlota Januário, de 14 anos, uma entre vários adolescentes que estão a tirar a licença especial para motas (até 50 cc) da Prevenção Rodoviária Portuguesa. O curso custa 375 euros.
Carlota tem ainda jeitos de menina, mas aguenta-se em cima da mota como gente grande. O mais difícil foi convencer a mãe – "estava cheia de medo porque a estrada é perigosa" –, mas conseguiu. "É chato andar de transportes ou estar dependente dos pais. Agora vou poder ir à escola, a casa dos amigos e ao centro comercial sem ter de esperar por ninguém."
Carolina Bicho tem a mesma idade e veio com a mãe à aula. "Para o ano, quando for para o 10º, vai para uma escola mais longe de casa e ia ter de apanhar transportes. Assim fica mais independente e até pode ir buscar o irmão."
Maria do Mar, de 15 anos, também foi incentivada. "Os meus pais têm uma profissão que tem horários muito irregulares e tenho de andar sempre a pedir boleia aos avós e aos amigos para ir de casa, na Parede, para o Liceu de São João, no Estoril, onde estudo. Assim vai ser melhor." A vespa novinha em folha já está na garagem à espera que termine as aulas com sucesso. As mais básicas custam, novas, a partir de 1700 euros.
Bernardo Dias, de 14 anos, demorou "bué tempo" a juntar dinheiro para comprar uma: "Tudo o que os meus avós e tios me davam era com esse objectivo", conta o adolescente, para quem o mais difícil foi convencer a mãe. Sara Amorim tanto insistiu que conseguiu, no Natal do 15º aniversário. "Pedi tanto que já não me podiam ouvir. Só tenho pena de que não dê para levar na minha mota a prancha de surf, isso é que era radical."
"QUEREM SER AUTÓNOMOS E ANDAR NA LEI"
"Já pedimos aos pais para esperarem seis meses porque os miúdos não conseguiam gerir a ansiedade de ter mota e podia ser prejudicial", explica Paulo Fonseca, instrutor da licença para jovens de 14 e 15 anos, formação de 17 horas da Prevenção Rodoviária Portuguesa (PRP). "Só aceitamos miúdos que estejam, pelo menos, no 7.º ano e que não tenham reprovado no ano anterior." Por outro lado, "damos esta formação desde 2009 e tive conhecimento de dois casos em que o juiz aplicou a cassação de carta a quem tem o poder paternal. Legalmente é uma possibilidade os pais poderem ficar sem carta por causa deles".
Por seu turno, a psicóloga da PRP Vera Martins realça as diferenças entre os miúdos do litoral e do interior. Estes últimos "sentem-se mais presos e a mota é para ser meio de transporte. Os da cidade estão é, muitas vezes, e pelo contrário, cansados de tanto andar de transportes públicos. Mas para todos significa autonomia e poder andar na lei".
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