"As irmãs Jardim iam visitar-nos"
Cheguei à cidade da Beira a 25 Agosto de 1972, como cabo especialista de abastecimento. Tive muita sorte. Só disparei uma vez um tiro e foi para o ar. Nunca senti um ambiente de guerra.
Felizmente, tive a sorte de nunca passar pela experiência traumática da guerra. Fui incorporado no Depósito de Material da Força Aérea (DMFA3) na cidade da Beira, perto da grande estação ferroviária, do mar e das grandes belezas naturais da cidade. Quem foi colocado aqui ou em Lourenço Marques era privilegiado, porque viveu sempre um clima de paz, excepto em algumas situações pontuais na região do Tete ou junto à fronteira com o rio Rovuma, de onde periodicamente nos surgiam notícias de alguns ataques.
Na minha zona nunca houve tiros. Na verdade, disparei apenas um tiro, e foi para o ar, numa situação em que havia um indivíduo suspeito a rondar o quartel e eu quis assustá-lo e afastá-lo do perímetro. Nunca senti um clima de guerra. Nem à noite, quando regressava à base, que se situava junto ao aeroporto, a 10 quilómetros do centro da cidade, onde eu trabalhava. Ia no ‘machimbombo’ pela zona mais rural, um autocarro que transportava militares, negros e mestiços, mas todos conviviam saudavelmente.
A situação em Moçambique era completamente diferente da que se vivia na Metrópole. Quando chegávamos, tínhamos a sensação de estar a entrar num outro mundo, mais moderno, desenvolvido e com maior evolução tecnológica. Por exemplo, os carros japoneses apareciam primeiro em Moçambique e só passado algum tempo é que eram lançados em Portugal. Fiquei surpreendido com a formação, a educação e com a mentalidade mais desenvolvida e desinibida dos jovens moçambicanos. Em Portugal, as raparigas quase que escondiam a cara quando olhávamos para elas. Eram tímidas, ao contrário das moçambicanas, que nos provocavam com o olhar. Já naquela altura, usavam minissaias e apenas um lenço à volta do peito, o que era algo impensável em Portugal. Ou seja, notava-se uma enorme diferença civilizacional.
A unidade onde trabalhei, a DMFA3, era comandada pelo major Sousa, e no depósito trabalhavam militares e civis, em ambiente de excelente cooperação e amizade. Tínhamos visitas de gente importante e muito bem colocada, nomeadamente as filhas do dr. Jorge Jardim, um homem que fez muito por Moçambique, apesar de até não ser muito bem visto em Lisboa. A Cinha Jardim, hoje a mais conhecida, não ia muito ao depósito, mas lembro-me perfeitamente de duas irmãs mais velhas, que eram presença regular e conhecidas de todo o pessoal. Já na época tinham uma personalidade extraordinária, muito aberta e desinibida, mas eram muito educadas. Acho mesmo que ambas tinham o brevete de pilotagem e que saltavam de pára-quedas, isto numa altura em que as mulheres em Portugal nem sequer de bicicleta podiam andar. Nós gozávamos de liberdade absoluta e até andávamos muitas vezes desfardados, mas tínhamos instruções para manter uma postura de respeito e de entreajuda com a população local, tentando dar sempre uma imagem positiva dos militares portugueses e de Portugal.
Até a comida era melhor. Nos muitos cafés da cidade, pedíamos uma caneca de cerveja LM (Lourenço Marques), que vinha acompanhada de um pires de camarões enormes e umas moelas muito bem temperadas, ou rissóis como nunca mais encontrei. Havia belas paisagens, belas praias e animação constante, sobretudo ao fim-de-semana, em que estava sempre bastante ocupado. Havia cinemas, espectáculos, danças africanas e até futebol de salão, um desporto muito popular na altura. Gostava muito da equipa feminina do ‘Textáfrica’, que tinha excelentes jogadoras e um equipamento que imitava as pintas dos leopardos. A 16 de Junho de 1974, cinco dias antes de partir, tive a oportunidade de assistir ao jogo de futebol entre o Ferroviário da Beira e o Sport Lisboa e Benfica, partida relacionada com a transferência do grande jogador Shéu Han para o Benfica, clube a que ainda hoje está ligado.
A noite também era muito movimentada na Beira; existiam muitas boîtes, bares e uma grande agitação nocturna, como no Primavera ou no Moulin Rouge, uma réplica do cabaré que existe em Paris, com a imagem do moinho e tudo. Todas as semanas falava para Portugal por telefone, para a família e para a namorada. E à borla, porque tinha um ‘conhecimento’. Todas as semanas mandava prendas para cá através dos Transportes Aéreos Militares (TAM); podíamos mandar até 25 quilos de artesanato em pau-preto e chocolates sul-africanos, da marca Cadburry, produtos de luxo naquele tempo.
Curiosamente, a minha situação mais dramática no Ultramar está relacionada com uma doença. Em 1973, apanhei malária cerebral, e logo na sua componente mais grave. Quando me apareceram os primeiros sintomas de uma possível doença, fui visto por um médico da BA10 que me receitou uns comprimidos LM (Laboratório Militar) e me deixou em observação durante 24 horas na enfermaria. Como estava bem informado sobre doenças tropicais, desconfiei logo que tinha malária cerebral, ao contrário da opinião do médico, que pensava que era cólera, a maior epidemia da época e que tem sintomas bastante parecidos.
Foi então que desobedeci. Chamei um motorista e dei-lhe instruções para me levar ao hospital central, onde fui muito bem recebido pelas freiras que lá prestavam assistência. Fui teimoso, finquei o pé e exigi ser tratado para a malária cerebral, exigindo resoquina ou propoquin, e algo para os espasmos no estômago. De seguida, tive 17 horas a dormir e quando acordei nem me dei conta que tinha passado tanto tempo. Apesar do susto, recuperei rapidamente e fiquei completamente curado, mas sei que um colega meu, que teve esta doença na mesma semana, foi evacuado de avião para Lourenço Marques e acabou por falecer. Mas, enfim, adorei Moçambique e o povo moçambicano. Eram pessoas desprendidas, felizes com uma ‘jinga’, um rádio e a bebida. Adoravam entornar litros de cerveja e aguardente, a que chamavam 'água de Lisboa'. Mas ao mesmo tempo, mostravam ser gente de grande educação e de respeito por nós, tal como nós lhes devolvíamos esse respeito. Tenho excelentes recordações de Moçambique e estou orgulhoso de ter podido, sem derramamento de sangue, contribuir para a unificação das duas culturas e da língua portuguesa entre países irmãos, e de ter feito amizades com a comunidade moçambicana.
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