'AS MAMINHAS ERAM MINHAS'
Esta semana viajámos até à 5.ª Avenida, em Nova Iorque. Missão: entrevistar Clara Pinto Correia, despedida da ‘Visão’ por plágio. Foi um êxito
É verdade que plagiou a ‘New Yorker’?
Foi tudo um mal-entendido. Eu só li o artigo uma vez. O problema é que, como tenho boa memorização, a coisa ficou-me. Devo ter escrito sem me aperceber...
Doutora: aquilo estava ‘tim-tim’ por ‘tim-tim’...
É disso que estou a falar... É que, sem querer, fixo tudo, até as vírgulas. Depois vou escrever e saem-me coisas incríveis. Ainda no outro dia, quando dei por mim, tinha escrito o “Guerra e Paz”. É bizarro.
É bizarro, sim. É mesmo muito bizarro que uma mulher tão inteligente e criativa não tenha conseguido arranjar uma desculpa melhor...
Ai... Oh meu Deus! Acabei de cegar! Estou a ver tudo a negro... Socorro!
Essa da cegueira também não pega. O Woody Allen fez a mesma coisa no ‘Hollywood Ending’?
Ah, pronto. Desculpem. É que eu já não vou ao cinema desde que escrevi um argumento sobre um magnata da comunicação social que, antes de morrer, sussurrava a palavra ‘Rosebud’... Fiquei chateada com a indústria do cinema, porque me recusaram o guião...
Se calhar porque o Orson Welles já o tinha escrito... O ‘Citizen Kane’.
Citizen Quê!
Kane.
Não, estou a dizer que se chamava ‘Citizen Quê’! Era esse o nome do meu filme. Já vi que esse tal de Orson me plagiou...
Ó doutora...
Claro, neste País de medíocres andam tudo a plagiar... Não há ideias próprias...
Doutora...
Onde é que vamos parar? Já os alunos, nas escolas, andam sempre no copianço. E, agora, esse tal de Orson...
Doutora! O Orson Welles morreu há anos. E era americano. E já tinha escrito o ‘Citizen Kane’ ainda a senhora andava de...
Pronto, pronto. OK! EU CONFESSO! PLAGIEI! AGORA, NÃO VOU MATAR-ME...
Não, doutora...
LAMENTO! Pronto.
Mas é que, agora, ficamos sem saber no que acreditar. Por exemplo, naquelas fotos em que pousou nua para o Expresso, ficamos sem saber se aqueles seios firmes eram mesmo seus ou se eram corta-e-cola da Salma Hayek...
Era o que faltava! Aquelas maminhas eram minhas. E eram lindas, não eram?
Uma verdadeira obra de engenharia...
Os pés é que não eram bem os meus...
Como assim?
Eu estava cheia de calos e pusemos lá uns pés da Jennifer Lopez. Mas a Jennifer não se ia chatear por isso...
... até porque ninguém a vai avisar. O problema, neste caso da ‘New Yorker’, foi alguém ter posto a boca no trombone...
Ah, mas eu sei quem foi...
Quem?
Um aluno meu, ressabiado comigo.
O tal que a doutora acusou de andar a copiar trabalhos da Internet?
Esse. O Carlos. Na altura dei-lhe umas reguadas e ele agora vingou-se...
Reguadas?! Ele fez algo assim tão grave?
Não é que o sacana copiou um artigo inteiro da ‘Foreign Affairs’?...
Aprendeu com a professora.
Aprendeu com a professora, não. Tirou-me mas foi a ideia para um artigo que eu ia escrever naquela semana!
Mas, então, sempre é uma plagiadora...
Qual nada! Vivemos numa aldeia global...
Vivemos mas é numa aldeia da roupa branca, é o que é...
No outro dia, estava eu a falar com o Dick...
Tracy?
Não, Dick, o meu marido...
O seu marido chama-se Dick?
Sim, porquê?
Chama-se mesmo Dick?!
Sim! Mas porquê?!
Então desculpe isto tudo. Não devíamos tê-la aborrecido... Uma mulher que tem um marido chamado Dick deve ter mais no que pensar...
Então ainda bem que se vão embora. Estava aqui a escrever um poemazinho...
Como se chama?
Ainda não tem nome. Só tenho os dois primeiros versos. Decassílabos.
Decassílabos?! Hum... Leia lá os versos...
“As armas e os barões assinalados/Que da ocidental praia lusitana...” O que acham?
Mas isso é d’Os Lusíadas!
Do quê?
D’Os Lusíadas, de Luiz Vaz de Camões!
Então, mas eu ainda nem sequer acabei de escrever o poema e esse tal de Camões já mo plagiou?
ESTA ENTREVISTA FOI INVENTADA. NÃO A COPIÁMOS DE NINGUÉM...
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