As mulheres que guardam o Palácio
A República comemora este ano 100 anos, mas só praticamente nos últimos dez as mulheres entram na guarda presidencial.
Belém guarda silêncio à porta. Só se ouve um monte de miúdos de escola a ‘zumbir’ à volta das sentinelas. Tiram fotografias. Riem à gargalhada. Inertes à frente das guaritas, Ivone e Andreia são o centro das atenções. Fardadas com dólman (espécie de blazer), calções brancos, camisa e gravata, capacete com penacho, espada em punho – e sem poderem falar. São as regras das Sentinelas de Honras da GNR. Às vezes até lhes apetece dar resposta à provocação. Mas não. Outras vezes, gostariam de agradecer rasgados elogios. Mas também não. Estão ali do nascer ao pôr-do-sol, sem sorrisos.
"Acabo por viver num palácio" – conta a guarda Andreia Alves, 23 anos. Aos 19, queria "liberdade" e despediu-se da família em Fafe. "Decidi ir para a GNR, não por vocação mas pelas limitações de trabalho na minha zona. Há poucas opções, e as que há não são empregos muito estáveis." Os pais, operários têxteis, defenderam que o 12º ano não chegava para a filha. "O meu pai levou-me a falar com amigos da guarda para eu saber como é a profissão." E juntos decidiram o futuro – este, que passa por viver nos alojamentos femininos do Esquadrão Presidencial. "Levanto-me, visto a minha farda e apresento-me ao sargento de dia. Depois faço o meu serviço. Nas horas de descanso, convivo com os meus colegas, vejo televisão, leio uma revista."
"Eu não estava habituada a este meio, a este tipo de ambiente e de serviço. A farda vista de fora é uma coisa mas nós temos que andar sempre com ela vestida. É complicado. Eu nunca tinha usado gravata; blazer sim. Mas gosto de ser feminina." Nem pensar em usar sapatos altos e uma saia, cabelo solto, maquilhagem, um decote. Essa não é a roupa do Palácio. Só a usa quando visita a família, nas folgas, ou num passeio com o namorado. "Já chamamos a atenção por sermos mulheres no meio de homens, não há necessidade de chamar ainda mais." Junto ao espelho do dormitório, Andreia ajeita a gravata.
Quer seja Verão ou Inverno, aquela farda – designada por ‘grande uniforme’ – é sempre a mesma, com a única diferença de que nos dias mais frios pode acrescentar roupa por baixo. "Pior: no Verão passado, senti-me uma vez bastante incomodada pelo calor. Pedi ao agente da PSP [que está também à porta] para chamar o meu sargento, que me trocou por outro camarada. A farda é bastante quente. E as botas de cabedal aquecem os pés de uma maneira horrível." Não é o caso dela, mas às vezes há militares que desmaiam com o calor.
Se Andreia estiver de serviço à porta, nesse dia só faz isso. Cada guarda só lá fica uma hora de cada vez, depois é rendido. São eles que prestam as honras do Palácio. Por esta porta, frente à praça Afonso de Albuquerque, entram as entidades que Cavaco Silva recebe em audiência ou seus convidados – chefes de Estado em visita oficial ou particular, embaixadores. Ou, por exemplo, às quintas-feiras, o primeiro-ministro, José Sócrates. O Presidente da República – que não habita o Palácio – entra por uma porta lateral, na calçada da Ajuda. Andreia nunca falou com nenhuma destas altas individualidades. Nem tão-pouco o fizeram os colegas de posto.
"Muitas vezes passei à porta do Palácio, olhava para os que agora são meus camaradas, e que ali estão, mas nunca me imaginei sequer a fazer aquilo. Passava ali e nunca pensei em parar. Não dava muita importância", confessa Andreia.
Hoje, quando ela não está à porta, faz segurança nos jardins. Do seu posto, vê as pessoas que trabalham nos gabinetes da Presidência. Fica ali sozinha, em silêncio. Nunca viu um estranho.
É raro haver incidentes. "Por vezes há manifestações públicas – umas pacíficas, outras menos – nas imediações do Palácio", conta Diogo Dores, 33 anos, comandante do Esquadrão Presidencial. "Mas incidentes entre muros, é raro. Posso-lhe contar uma situação. Somos vizinhos do Museu Agrícola Tropical, que está aberto ao público. Há uns meses, o museu fechou, e duas senhoras que se esqueceram das horas ficaram lá fechadas. Os nossos militares aperceberam-se de que havia movimentações e, através da vedação, falaram com elas, que estavam muito aflitas. Eu entrei em contacto com o chefe de Segurança da Presidência da República e ele autorizou que as senhoras, devidamente acompanhadas, atravessassem o Palácio para poderem sair para o exterior."
É por isso que os pensamentos de Andreia vagueiam. "Penso em tudo. Penso no dia-a-dia, no que vou fazer amanhã." E pensa no futuro. Quer voltar a estudar. É isso que a move diariamente. "Poderia eventualmente entrar para os quadros da saúde na guarda, se estudar na Escola Superior de Enfermagem."
No mesmo posto de Andreia, mas bem diferente na maneira de pensar, Ivone Nunes, 29 anos, desde a quarta classe que quis ir para a GNR. Era coisa da farda, talvez. E com esse sonho vinha o de viver na cidade, em Lisboa. Seguir o seu percurso é entrar numa estrada sinuosa. Nascida na aldeia de Bravo, e com estudos feitos ali perto, na Sertã, arranjou trabalho como portageira em Leiria. Entrou para a GNR e fez o curso em Portalegre, estagiou no Algarve e depois veio parar a Lisboa. Agora já está de olho na Marinha Grande, onde vive o namorado.
Gosta de ver o frenesim da cidade. E, apesar de ser uma faladora nata, talvez por isso se tenha habituado a ficar em silêncio à porta do Palácio. "Algumas senhoras olham-me muito espantadas, outras ainda me olham uma segunda vez e vêm-me dar os parabéns. Compreendo que ver uma mulher naquele posto faça a diferença. É a mesma coisa que ver uma senhora a conduzir um eléctrico ou um autocarro. Acho muito bonito e ainda bem que as mulheres vão para a frente e têm objectivos na vida. Não são só os homens que fazem determinados serviços, as senhoras também os acompanham."
Carla Leal, 36 anos, foi a primeira mulher a integrar o Esquadrão Presidencial, que existe desde 1999 – mas que só foi criado oficialmente em Março de 2000, segundo o coronel na reserva Bernardo Mendes, especialista na história do Regimento de Cavalaria da GNR. "Era a única mulher. Foi um bocado difícil porque não tinha aposentos, não tinha casa de banho. Eu vestia-me numa casa de banho de homem, tinha dois urinóis e um lavatório. Tinha de trancar a porta. Era difícil, mas tudo mudou quando fizemos obras. Só que ainda durou mais de um ano" – recorda a guarda que faz serviço na secretaria e que também é motorista.
Mas por ser ‘novidade’ na GNR, também a faz recordar momentos divertidos. Depois de fazer o curso em Portalegre, foi para o Peso da Régua. Fazia patrulhamento. Ao princípio, as pessoas de lá ficavam chocadas por verem mulheres fardadas. "Houve uma vez em que eu e uma colega minha estávamos a sair do jipe e, por causa disso, houve um acidente em cadeia."
Na verdade, a guarda Leal, há 14 anos na GNR, já tinha passado pela Força Aérea. "Entrei com 18 aninhos", diz, orgulhosa. Era mecânica de armamento, montava os mísseis ‘maverick’ e ‘sidewinder’ nos aviões A-7 e TA-7. Dentro do quartel, ainda sem carta de condução, já guiava uma motorizada Casal Boss e um jipe UMM. "Sempre quis ser diferente, talvez porque sou a mais nova de três irmãs. Quando eu ia para a rua, fazia estragos."
Carla Leal está sempre sorridente a recordar as suas histórias de Maria-rapaz. Mas esforça-se para que a filha, a Maria Miguel, de 10 anos, a veja principalmente como mulher. "No trabalho sou diferente, não tão feminina. Em casa sou uma senhora, mulher, mãe. Pinto-me, saio, visto fatos clássicos, vestidos, saltos altos. Às vezes gosto de ser vistosa. Mas para aqui venho vestida de ténis, calça de ganga e blusão."
No seu serviço no Palácio, Carla só se cruzou com o anterior Presidente. "O dr. Jorge Sampaio era muito simpático. Às vezes passeava no jardim e encontrávamo-lo. Dizia ‘boa tarde, como está?’ Já o professor Cavaco Silva ainda não o vi no jardim. Na festa de Natal vi-o, mas também não houve aproximação."
Das cinco militares do Esquadrão Presidencial, apenas duas são mães. Carla e a colega da secretaria Fátima Névoa, de 32 anos. Carla conta com a ajuda da mãe que, tal como ela, vive no Barreiro, para tomar conta da filha. O marido é segurança, e ter de fazer turnos complica ainda mais a vida familiar. E daí talvez o receio de voltar a engravidar.
Desde Março de 2006 que Fátima optou por fazer serviço no Palácio de Belém. O filho nasceu e, como o marido também é da GNR, precisava de flexibilidade de horários. A guarda vai todos os dias para casa, em Agualva-Cacém, excepto quando está de serviço 24 horas por dia e tem de dormir no Palácio. Já foi da Polícia do Exército e, por isso, conhece bem os rigores de dormir num dos seis beliches das camaratas. Sempre quis ser militar. Mas também reconhece que poderia ter sido jornalista. Neste momento, Fátima sabe que o seu futuro está em Viseu, onde comprou casa, e para onde já pediu transferência. Qualquer serviço lhe serve, desde que seja na GNR.
O Esquadrão Presidencial integra cerca de 80 militares – entre os quais cinco são mulheres – e pertence à Unidade de Segurança e Honras de Estado, comandada pelo major-general Mourato Caldeira. Todos militares de Cavalaria da GNR.
Os guardas do Palácio são comandados pela tenente Rita Baptista, 25 anos. A única oficial entre as militares no Palácio.
"Lembro-me que estava no 10º ou no 11º e havia professores que olhavam para mim – se calhar pela disciplina que eu tinha do Taekwondo – e me diziam: ‘Ainda vais para a tropa’." – recorda. Ela respondia-lhes com alguma ironia: "Está bem." Certo é que os testes psicotécnicos no 9º ano tinham revelado 99% de tendência para a carreira militar, ou para lidar com animais de grande porte. Rita ainda pensou em dedicar-se ao estudo das baleias. Mas no dia em que chegou da viagem de finalistas do 12º ano meteu-se num autocarro e foi inscrever-se na Academia Militar. Entretanto, concorreu à universidade, a um único curso: Biologia, em Évora. Só que entrou primeiro para a Academia e já nem pensou desistir.
A componente física da vida militar não a arrepia. Rita já tinha um percurso anterior com bastante actividade. "Larguei o ballet pela equitação, aos sete anos, mas mantive a natação, onde já andava desde os quatro. Eram incompatíveis: num tinha de andar com os pés para dentro, noutro tinham de estar para fora. Depois, no 8º ano, surgiu o Taekwondo."
Na vida civil, Rita está noiva. Vai casar-se em Maio. "Estou sempre na brincadeira, sempre a rir, de preferência." Na vida militar é diferente. "Além de ser mulher, sou uma menina. Vêem-me muitas vezes assim. Se eu souber manter a distância – tanto no serviço como fora dele – as coisas correm bem. Temos é de saber ver se agora posso brincar e ser essa rapariga, mesmo no serviço, ou se não, se neste momento eu tenho de ser a tenente Baptista. E não há cá sorrisos, não há cá palmadinhas nas costas."
Apesar de a profissão exigir dela muitas vezes uma postura rígida, leva para casa a preocupação com o cavalo que tem à sua responsabilidade. O mesmo se passa com os militares. "Penso: ‘Será que está a bater chuva na porta de armas? Será que eles levaram as capas para os postos?’ E depois fico à espera que o sargento de dia me diga alguma coisa. ‘Minha tenente, eles estão à chuva.’ ‘Tire os homens – digo-lhe’. Não vale a pena eles estarem a apanhar chuva. Lá fora, que é um posto estático, quando a chuva ali é tocada a vento, entra-lhes mesmo para dentro das guaritas. Quando estou em casa, às vezes pareço mãe deles."
MEMÓRIAS DE 1957 DE UM GUARDA EM BELÉM
Aos 79 anos, o coronel António Pimenta da Gama recorda que em 1957 ser guarda do Palácio de Belém era "duro". Fazia 24 horas de vigilância sempre vestido com o ‘grande uniforme’. Nunca viu Salazar. Pensa ele que talvez o presidente do Conselho de Ministros entrasse pela porta lateral do Palácio.
No entanto, recorda bem o Presidente da República Américo Tomás. "Falei com ele algumas vezes, porque quando havia almoços com altas individualidades, o comandante da guarda era sempre convidado a sentar-se à mesa. Já não me recordo, mas talvez tenhamos trocado impressões sobre caça."
Das mulheres na GNR não se recorda: "Nós, os velhos, temos uma certa dificuldade em vermos a figura do guarda no feminino. Mas temos que ser coerentes: elas fazem o mesmo serviço."
A FARDA DAS SENTINELAS DE HONRAS
Os Sentinelas de Honras da GNR, à porta do Palácio de Belém, vestem o ‘grande uniforme’. Há diferenças entre a farda usada pelos homens e pelas mulheres, principalmente no dólman (uma espécie de blazer). O dos homens não tem gola e, por isso, a camisa deles também não tem gola. O das mulheres é aberto. Os militares têm de usar o ‘grande uniforme’ quer seja Verão ou Inverno. O que se pode tornar desconfortável.
ESPADA DE CAVALARIA
A espada de Cavalaria tem o copo (parte que envolve o punho) fechado.
CRACHÁS
Usam o crachá da sua Unidade e do seu curso, neste caso, de Cavalaria.
DÓLMAN
O dólman feminino é aberto, vê-se a camisa e a gravata, o masculino é fechado.
BANDOLEIRA
Antigamente a bandoleira era usada para guardar as munições.
LUVAS BRANCAS DE CANHÃO
Próprias de Cavalaria. Denominadas de canhão por taparem o antebraço.
CALÇÃO BRANCO
É apenas usado em honras a chefes de Estado. De resto, o calção é azul.
BOTAS DE CAVALARIA
Botas de cano alto com esporas, típicas dos militares de Cavalaria.
CAPACETE DE REPRESENTAÇÃO COM PENACHO
O penacho é apenas usado no capacete dos militares de Cavalaria.
CAMISA
Cor azul-claro. Só a feminina tem gola. A masculina está tapada pelo dólman.
GRAVATA COM MOLA
Gravata azul-escuro, usando uma mola com o símbolo desta Unidade da GNR.
AGULHETAS
Cordões que pendem desde os platinos metálicos e prendem no dólman.
BAINHA DA ESPADA
Feita em material cromado e em tudo semelhante à de Infantaria.
CINTURÃO BRANCO
Feito de cabedal, é branco e tem à frente o brasão da GNR.
NOTAS
ELAS
São apenas cinco mulheres entre os 84 militares que integram o Esquadrão Presidencial em Belém.
1911
Desde 1911 que o Palácio de Belém se tornou residência oficial do Presidente e a GNR faz a sua guarda.
CHEFIA
O capitão Diogo Dores, 33 anos, comanda o Esquadrão Presidencial em Belém desde Janeiro de 2009.
84
O Esquadrão integra dois oficiais, sargentos da guarda, cabos da guarda e guardas.
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