As zeladoras do cemitério

São duas irmãs, de 14 e 20 anos, que se dedicam a aparelhar campas. E gostam de o fazer

10 de fevereiro de 2013 às 15:00
As zeladoras do cemitério Foto: Nuno Fernandes Veiga
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Este cemitério é um jardim", diz Tiffany Fernandes, com o orgulho e satisfação de ser uma das pessoas que diariamente contribui para o arranjo e para a beleza do cemitério paroquial de Troviscoso, em Monção.

Tiffany, de 20 anos, e a irmã, Celine, de apenas 14, são as principais zeladoras deste cemitério e de diversas campas noutros cemitérios do concelho e até em municípios vizinhos.

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Filhas de um agente funerário e de uma florista, encaram esta atividade com a maior naturalidade do mundo.

"Não há nada mais gratificante do que a enorme satisfação que as pessoas deixam transparecer ao verem as campas dos seus familiares bem arranjadas e limpas", diz Tiffany, que optou por trocar a profissão de técnica de turismo ambiental e rural pela de agente funerária.

"Eu sei que não é vulgar ver-se uma mulher, ainda por cima jovem, dedicada a este trabalho, mas eu gosto do que faço", afirma Tiffany, assegurando que a sua vida será feita da estreita ligação com as coisas da morte. "A morte faz parte da vida e toca a todos. Não existe nada mais democrático", acrescenta.

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DA SUÍÇA ATÉ MONÇÃO

Agostinho Lourenço, pai das meninas, era um mecânico de automóveis bem sucedido na Suíça. Até que, em 1998, lhe morreu o sogro, e a sua vida deu uma volta completa.

"Viemos ao funeral e o meu pai não gostou de muitos aspetos do serviço. Convencido de que era capaz de fazer muito melhor, regressou definitivamente à terra e criou uma agência funerária", revela Tiffany.

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Ela tinha seis anos e, por isso, contactou desde muito cedo com esta realidade: a mãe a fazer palmas e coroas e o pai a realizar funerais. Já a irmã, Celine, tinha poucos meses quando os funerais passaram a fazer parte do quotidiano da família.

"Eu não tenho tanta apetência para isto como a minha irmã, mas gosto de ajudar a aparelhar as campas e de fazer arranjos florais", diz Celine, estudante na Escola Secundária de Monção.

CLIENTES SÃO EMIGRANTES

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A esmagadora maioria das pessoas que pede às "meninas de Troviscoso" para aparelharem as campas dos familiares são emigrantes em países como a França ou a Suíça.

"Alguns têm contrato connosco para a limpeza semanal, outros pedem-nos que coloquemos arranjos ou velas nas datas mais importantes, como o Natal, a Páscoa, os Santos ou os aniversários de nascimento e falecimento", explica Tiffany.

As duas irmãs têm a seu cargo o arranjo semanal de cerca de trinta campas, só no cemitério de Troviscoso. Mas cuidam de outras em freguesias vizinhas, como Bela ou Longos Vales.

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O arranjo semanal custa, em média, 50 euros por mês, mas se implicar a colocação de flores, o preço aumenta substancialmente. "É que há arranjos a custar 120 euros e são as flores que, de facto, tornam caro os arranjos das campas", diz Tiffany.

Embora Celine e Tiffany sejam pagas pelo trabalho que fazem, o presidente da Junta de Freguesia de Troviscoso considera que elas prestam "um relevante serviço público à comunidade".

"O cemitério é, objetivamente, o monumento mais visitado da freguesia e o facto de ele se encontrar sempre limpo e bem arranjado deve-se à Junta, aos familiares de quem lá está sepultado, mas também a estas duas raparigas que zelam por isto com grande dedicação", afirma Daniel Baptista, o presidente da Junta.

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A atividade exige grande disponibilidade e dedicação. Em algumas alturas do ano, como nos Santos, por exemplo, as duas irmãs chegam a passar 24 horas seguidas no cemitério.

Mas as pessoas reconhecem o trabalho e agradecem-lhes das mais diversas maneiras.

"Pagam-nos o serviço e até nos dão prendas. Às vezes oferecem-nos champanhe e até já nos deram um carneiro", conta Tiffany.

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