"As pessoas têm uma riqueza gigante"
Mentor da marca ‘a gostar dela própria’ é já mais conhecido por "filmar velhinhas" do que por ser filho de Júlio Pereira
Autor de ‘O Povo que ainda canta’ (RTP 2), de filmes premiados num interior esquecido, músico, mentor da marca ‘A gostar dela própria’, Tiago Pereira percorre o país a "alfabetizar a memória" e de caminho a fazer amizade com "as velhinhas". Não, não é o Giacometti do século XXI (que realizou fundamentais recolhas da música portuguesa no século XX), por não ter qualquer ambição etnográfica.
O projeto ‘A Música por-tuguesa a gostar dela própria’ faz cinco anos. O que aprendeu neste tempo?
Se tinha como objetivo saber o que era a música portuguesa, hoje eu ainda sei menos do que sabia há cinco anos. Agora aquilo a que [o projeto] se propõe é que as pessoas ganhem autoestima, porque a maior parte das pessoas no interior do país tem a tendência de achar que aquilo que faz não tem importância ou que não serve para nada.
Diz por isso que as pessoas são analfabetas em relação a recolher e a ter memórias e que têm vergonha do sítio onde nasceram.
Há um preconceito muito grande em relação à música tradicional e ao folclore e isso também veio muito a seguir ao 25 de Abril por todas as histórias do camponês esteta e dos ranchos folclóricos todos vestidos daquela maneira, a dançarem a 200 à hora, numa espécie de ícone fascista. O preconceito ficou, mas agora o que importa é combater o estigma de que as pessoas têm de cantar afinadas e têm de cantar nos palcos, no ‘Ídolos’ ou no ‘Chuva de Estrelas’, e tem de haver luz e têm de estar maquilhadas e que isso é que é cantar e que isso é que é ser artista.
E há muitos artistas por aí.
Aquelas pessoas têm uma riqueza gigante dentro delas. Hoje em dia as pessoas têm Google e qualquer dia ninguém sabe nada de cor, e eu chego a casa de pessoas que têm 85 anos e sabem coisas de cor e essa capacidade vai-se perder. Por isso digo que o meu trabalho é sobre pessoas. Nestes cinco anos as coisas também se expandiram, já temos a dança portuguesa a gostar dela própria, a música ibérica, a comida.
E em todas estas novas vertentes o princípio continua a ser o mesmo: de que quem as faz as valorize?
E que sejam conhecidas… Veja-se o caso da Madeira, onde nos anos oitenta todas as escolas da pré-primária e da primária tiveram acesso a aulas de música tradicional e o que aconteceu é que essas gerações já cresceram a conhecer isso, e como conhecem estimam. Porque não se pode gostar de uma coisa que não se conhece, por isso vai-
-se ter sempre preconceito.
‘A Comida Portuguesa a gostar dela própria’ é o mais recente. Também na gastronomia há este desconhecimento das raízes?
Cada vez vez há mais programas televisivos e a comida está mais na moda, mas as pessoas esquecem-se destas tradições que vinham dos pais e dos avós. E os rituais, aquilo tudo tem um método e uma prática e também está ligado a músicas e danças, ao estar à mesa. Nós gravamos receitas, histórias de produtos, temos um episódio por mês [no YouTube e no Facebook] em que convidamos um chef a remisturar uma receita tradicional que normalmente tem também a ver com ele, com o sítio de onde é, com a mãe, a avó.
‘A gostar dela própria’ já é uma marca?
Acho que é uma forma de estar na vida, uma posição, um cunho pessoal. As pessoas têm muito a mania de dar nome às coisas, nem sempre as coisas têm nome.
O facto de se ter tornado conhecido fez com que o projeto perdesse autenticidade?
Não, o projeto ganhou muito e isso foi muito bom. Espalhou-se que o Tiago Pereira grava velhinhas e as pessoas começaram a mandar e-mails e dar sugestões: a minha avó sabe isto e a minha tia sabe aquilo. Vou a uma matança do porco em Portalegre de uma velhinha que mandou dizer por uma amiga que não queria morrer sem ser gravada pelo Tiago Pereira.
As pessoas também o conquistaram?
Quando se anda no terreno e se percebe a humanidade daquelas pessoas, que sem te conhecerem de lado nenhum te dão as coisas mais profundas delas e cantam para ti... O meu trabalho tem muito a ver com saber estar com as pessoas, porque aquilo é uma troca, não é só chegar lá e dizer "cante para mim", porque se não se sentir confiante e se não gostar de ti não vai cantar, as velhas só fazem o que querem, ninguém convence uma velha a fazer o que não quer. Lidas com as pessoas e com os problemas delas. E às vezes estão maldispostas porque o marido morreu há uma semana, a irmã está muito doente e tu levas com estas coisas todas e tens de saber lidar com isso.
E é um projeto rentável?
Não! Faço 50 mil coisas ao mesmo tempo e é por isso que temos tantos projetos e obviamente que ‘a música portuguesa a gostar dela própria’, para poder manter a liberdade, não tem apoios e tem de sobreviver dos outros projetos, da comida, da dança, da música ibérica. Porque há uma grande diferença: eu em Espanha vou gravar e é o museu etnográfico que paga. Isto em Portugal era quase impossível: era uma espécie de sacrilégio o Tiago Pereira estar a trabalhar porque o Tiago Pereira não é etnógrafo. Os espanhóis estão sempre a dizer que fazem pela beleza, não fazem pela ciência. Em Portugal, nós queremos todos ser pela ciência, não queremos a beleza para nada.
Então a música portuguesa é o parente pobre?
O País começa a acordar para estas coisas e as câmaras apoiam-nos logisticamente.
Então não vai enriquecer por aqui?
Sou rico de experiências, não de dinheiro. Talvez daqui a cinquenta anos as pessoas compreendam o que é que eu andei aqui a fazer.
É filho do Júlio Pereira. Tanto fugiu da música tradicional que acabou agarrado por ela?
Fugi dela porque ela ocupava a minha vida. Tinha oito anos quando o meu pai lançou o cavaquinho. Estou sempre a gozar que sofri bullying por causa de um instrumento tradicional português. A minha alcunha era ‘cavaquinho’ na escola e as coisas não eram muito agradáveis.
E ainda videasta, realizador e ‘sampladélico’
O mentor da marca ‘A gostar dela própria’ lança amanhã um álbum. Os Sampladélicos são Tiago Pereira e Sílvio Rosado e o trabalho de estreia (pela NOS discos) chama-se ‘Não nos deixeis cair em tradição’. É mais uma das valências de Tiago Pereira, que nasceu em 1972 e estudou na Escola Superior de Teatro e Cinema. É realizador, videasta e autor dos filmes premiados ‘Quem Canta Seus Males Espanta’ (1998), ‘11 Burros Caem no Estômago Vazio’ (2006), ‘Sinfonia Imaterial’ (2011) e ‘Vamos tocar todos juntos para ouvirmos melhor’ (2012). Tem desenvolvido um estilo único a documentar, recolher e misturar imagens em movimento.
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