"As pessoas têm uma riqueza gigante"

Mentor da marca ‘a gostar dela própria’ é já mais conhecido por "filmar velhinhas" do que por ser filho de Júlio Pereira

17 de janeiro de 2016 às 15:00
Foto: Pedro Catarino
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Autor de ‘O Povo que ainda canta’ (RTP 2), de filmes premiados num interior esquecido, músico, mentor da marca ‘A gostar dela própria’, Tiago Pereira percorre o país a "alfabetizar a memória" e de caminho a fazer amizade com "as velhinhas". Não, não é o Giacometti do século XXI (que realizou fundamentais recolhas da música portuguesa no século XX), por não ter qualquer ambição etnográfica.

 

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O projeto ‘A Música por-tuguesa a gostar dela própria’ faz cinco anos. O que aprendeu neste tempo?

Se tinha como objetivo saber o que era a música portuguesa, hoje eu ainda sei menos do que sabia há cinco anos. Agora aquilo a que [o projeto] se propõe é que as pessoas ganhem autoestima, porque a maior parte das pessoas no interior do país tem a tendência de achar que aquilo que faz não tem importância ou que não serve para nada.

Diz por isso que as pessoas são analfabetas em relação a recolher e a ter memórias e que têm vergonha do sítio onde nasceram.

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Há um preconceito muito grande em relação à música tradicional e ao folclore e isso também veio muito a seguir ao 25 de Abril por todas as histórias do camponês esteta e dos ranchos folclóricos todos vestidos daquela maneira, a dançarem a 200 à hora, numa espécie de ícone fascista. O preconceito ficou, mas agora o que importa é combater o estigma de que as pessoas têm de cantar afinadas e têm de cantar nos palcos, no ‘Ídolos’ ou no ‘Chuva de Estrelas’, e tem de haver luz e têm de estar maquilhadas e que isso é que é cantar e que isso é que é ser artista.

 

E há muitos artistas por aí.

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Aquelas pessoas têm uma riqueza gigante dentro delas. Hoje em dia as pessoas têm Google e qualquer dia ninguém sabe nada de cor, e eu chego a casa de pessoas que têm 85 anos e sabem coisas de cor e essa capacidade vai-se perder. Por isso digo que o meu trabalho é sobre pessoas. Nestes cinco anos as coisas também se expandiram, já temos a dança portuguesa a gostar dela própria, a música ibérica, a comida.

 

E em todas estas novas vertentes o princípio continua a ser o mesmo: de que quem as faz as valorize?

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E que sejam conhecidas… Veja-se o caso da Madeira, onde nos anos oitenta todas as escolas da pré-primária e da primária tiveram acesso a aulas de música tradicional e o que aconteceu é que essas gerações já cresceram a conhecer isso, e como conhecem estimam. Porque não se pode gostar de uma coisa que não se conhece, por isso vai-

-se ter sempre preconceito.

 

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‘A Comida Portuguesa a gostar dela própria’ é o mais recente. Também na gastronomia há este desconhecimento das raízes?

Cada vez vez há mais programas televisivos e a comida está mais na moda, mas as pessoas esquecem-se destas tradições que vinham dos pais e dos avós. E os rituais, aquilo tudo tem um método e uma prática e também está ligado a músicas e danças, ao estar à mesa. Nós gravamos receitas, histórias de produtos, temos um episódio por mês [no YouTube e no Facebook] em que convidamos um chef a remisturar uma receita tradicional que normalmente tem também a ver com ele, com o sítio de onde é, com a mãe, a avó.

 

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‘A gostar dela própria’ já é uma marca?

Acho que é uma forma de estar na vida, uma posição, um cunho pessoal. As pessoas têm muito a mania de dar nome às coisas, nem sempre as coisas têm nome.

 

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O facto de se ter tornado conhecido fez com que o projeto perdesse autenticidade?

Não, o projeto ganhou muito e isso foi muito bom. Espalhou-se que o Tiago Pereira grava velhinhas e as pessoas começaram a mandar e-mails e dar sugestões: a minha avó sabe isto e a minha tia sabe aquilo. Vou a uma matança do porco em Portalegre de uma velhinha que mandou dizer por uma amiga que não queria morrer sem ser gravada pelo Tiago Pereira.

 

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As pessoas também o conquistaram?

Quando se anda no terreno e se percebe a humanidade daquelas pessoas, que sem te conhecerem de lado nenhum te dão as coisas mais profundas delas e cantam para ti... O meu trabalho tem muito a ver com saber estar com as pessoas, porque aquilo é uma troca, não é só chegar lá e dizer "cante para mim", porque se não se sentir confiante e se não gostar de ti não vai cantar, as velhas só fazem o que querem, ninguém convence uma velha a fazer o que não quer. Lidas com as pessoas e com os problemas delas. E às vezes estão maldispostas porque o marido morreu há uma semana, a irmã está muito doente e tu levas com estas coisas todas e tens de saber lidar com isso.

 

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E é um projeto rentável?

Não! Faço 50 mil coisas ao mesmo tempo e é por isso que temos tantos projetos e obviamente que ‘a música portuguesa a gostar dela própria’, para poder manter a liberdade, não tem apoios e tem de sobreviver dos outros projetos, da comida, da dança, da música ibérica. Porque há uma grande diferença: eu em Espanha vou gravar e é o museu etnográfico que paga. Isto em Portugal era quase impossível: era uma espécie de sacrilégio o Tiago Pereira estar a trabalhar porque o Tiago Pereira não é etnógrafo. Os espanhóis estão sempre a dizer que fazem pela beleza, não fazem pela ciência. Em Portugal, nós queremos todos ser pela ciência, não queremos a beleza para nada.

 

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Então a música portuguesa é o parente pobre?

O País começa a acordar para estas coisas e as câmaras apoiam-nos logisticamente.

 

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Então não vai enriquecer por aqui?

Sou rico de experiências, não de dinheiro. Talvez daqui a cinquenta anos as pessoas compreendam o que é que eu andei aqui a fazer.

É filho do Júlio Pereira. Tanto fugiu da música tradicional que acabou agarrado por ela?

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Fugi dela porque ela ocupava a minha vida. Tinha oito anos quando o meu pai lançou o cavaquinho. Estou sempre a gozar que sofri bullying por causa de um instrumento tradicional português. A minha alcunha era ‘cavaquinho’ na escola e as coisas não eram muito agradáveis.

 

E ainda videasta, realizador e  ‘sampladélico’ 

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O mentor da marca ‘A gostar dela própria’ lança amanhã um álbum. Os Sampladélicos são Tiago Pereira e Sílvio Rosado e o trabalho de estreia (pela NOS discos) chama-se ‘Não nos deixeis cair em tradição’. É mais uma das valências de Tiago Pereira, que nasceu em 1972 e estudou na Escola Superior de Teatro e Cinema. É realizador, videasta e autor dos filmes premiados ‘Quem Canta Seus Males Espanta’ (1998), ‘11 Burros Caem no Estômago Vazio’ (2006), ‘Sinfonia Imaterial’ (2011) e ‘Vamos tocar todos juntos para ouvirmos melhor’ (2012). Tem desenvolvido um estilo único a documentar, recolher e misturar imagens em movimento.

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