Até gosto do stress de Lisboa
Alentejo não tem sombra, senão a que vem do céu... são os versos que vêm à lembrança quando se chega ao monte de Gonçalo da Câmara Pereira, perto de Arronches, para lá de Monforte.
Plantada na planície por entre os sobreiros, a casa foi adaptada de antigas dependências agrícolas e construída segundo a traça local: um piso apenas, sobre o comprido. Só um pormenor a distingue do tradicional monte alentejano: as janelas, maiores que o habitual.
Mas nem sempre foi assim. Até há duas gerações atrás toda a região estava nas mãos da família. Os bisavós eram marqueses de Alegrete e Terrena. Mais tarde, foi preciso partilhar a imensa propriedade por cerca de 30 primos.
A casa principal ficou para a irmã e o fadista iniciou as obras na parte que lhe ficou destinada. Devido à sua experiência como engenheiro agrícola, é Gonçalo que toma conta das suas vinhas e das dos irmãos e do gado. “Antigamente, isto dava de comer a muita gente”, recorda. Seguiu-se a progressiva desertificação e hoje, é impossível manter as herdades em pleno funcionamento. Até os cavalos, que faziam as delícias do fadista tiveram de ser vendidos: “Não podia tê-los aqui uma semana inteira sem ninguém que lhes dê de comer e que os leve para os campos”, explica.
Longe vão os tempos em que a Herdade da Torre alimentava toda a região. As vacas limousine e as ovelhas pastavam na planície e as searas forneciam cereal com fartura para o pão nosso de cada dia. Azeite “era pouquito”, mas era também ali feito. Hoje, queixa-se,“ está tudo nas mãos dos espanhóis. Os portugueses não têm dinheiro e vendem as herdades”. Todos se foram e até onde a vista alcança não se vê vivalma. O próprio Gonçalo da Câmara Pereira admite que “ao fim de três dias” está, também ele, deserto. Para se ir embora. “Isto é um sufoco”, desabafa. E confessa: “Gosto do stress de Lisboa. Até das buzinas dos carros”.
Juntamente com a mulher, Maria do Carmo, arranja-se sempre um tempinho para ir passar o fim-de-semana ao monte. Já as filhas, é difícil apanhá-las ali. A companhia do casal Câmara Pereira acabam por ser os netos.
O interior da habitação prima pela simplicidade. É preciso que se compreenda a opção de não ter ali objectos de valor: a casa está vazia toda a semana. Não há qualquer vizinho por perto e os assaltos são frequentes. “Para que é que eu vou ter aqui os melhores móveis, quadros ou aparelhagens de alta-fidelidade?!”
Nos fins-de-semana passados a dois, ou com as crianças, os dias são longos. O fadista é madrugador. “Hoje às 7 da manhã já ando a lavrar a vinha com o meu tractorzito”, relata, apontando orgulhoso para a sua mais recente aquisição. As uvas destinam-se à nova aventura agrícola: uma produção própria que, espera, irá render à família lá para o final do próximo ano cerca de 20 mil litros de bom “tintol alentejano”.
Para além do trabalho na terra, cujo gosto lhe está na massa do sangue, o fadista gosta de se entreter a reparar motas velhas, daí que há pouco tempo tenha comprado umas quantas – um hangar cheio delas – por atacado num ferro-velho. Estão ali, várias dezenas, por trás da casa principal da Herdade da Torre, a algumas centenas de metros do local onde construiu o seu refúgio. É ali também que estão os cachorros filhos de uma cadela açoreana que uma das suas filhas recolheu.
Quando o calor aperta, a família desce até à barragem próxima para um banho de frescura. Sempre devagar, bem ao ritmo alentejano.
“AQUI É REINO DE PORTUGAL"
Por alturas de 25 de Abril de 1974, a casa principal, antiga casa de pastores, foi ocupada. Foi-lhe dado o nome de Unidade Colectiva de Produção Companheiro Vasco. Depois, passou a Companhia Trabalho e Progresso. Quando a casa voltou aos Câmara Pereira, estes não se atrapalharam, adaptaram as iniciais. Como a herdade era “da Torre”, CTP transformou-se em CPT: Câmara Pereira Torre. O assunto ficou resolvido. Não esquecendo a sua faceta monárquica, o fadista e seus familiares não se esqueceram de assinalar as suas origens hasteando a marca heráldica das duas casas de onde provém o seu nome: Câmara de Lobos (a da Madeira, cujo descobridor, Gonçalo Zarco ficou “da Câmara”, por ter desembarcado precisamente na Câmara de Lobos) e Pereira, descendentes de Nuno Álvares Pereira. Ao lado da ‘bandeira’ ficou também pintado o “aviso aos espanhóis” que “invadiram” a região: “Aqui é Reino de Portugal”.
O FUTURO PASSA PELO VINHO
Gonçalo da Câmara Pereira planeia lançar-se na aventura vinícola e produzir duas marcas de vinho: uma mais corrente, chamada Terra dos Porcos, e a outra de matriz sofisticada, a Castelo de Barbacena, cujo nome vai beber à propriedade do seu irmão Mico. Metade da produção será comercializada, a restante ficará na família.
NOME: Gonçalo da Câmara Pereira
PROFISSÃO: Fadista
IDADE: 55 anos
LOCAL: Arredores de Arronches
COMPANHEIROS DE REFÚGIO: Mulher e netos
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