Camões na ponta da língua

Lilian partiu há quatro anos da Moldávia para Portugal sem saber uma única palavra de português. Hoje, é o melhor aluno da turma.

01 de maio de 2005 às 00:00
Camões na ponta da língua Foto: Sérgio Lemos
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Na sala 13 da Escola EB.2.3. Ferreira de Castro, em Mem Martins, a professora Guiomar Palmeiro prepara o exame final de Português. Na aula de hoje, a turma do 9º F revê alguns cantos d’Os Lusíadas. “Quem é que quer ler?”, pergunta a páginas tantas. Entre os braços que rapidamente rumam ao céu, e se misturam com as estrelas, planetas e cometas que decoram as paredes, avista-se o de uma figura esguia. Responde pelo nome de Lilian, tem 15 anos e é moldavo.

Lilian Sandu prontifica-se a ler duas estrofes do Plano da História de Portugal. Sentado junto a uma das janelas, o aluno declama-as como um verdadeiro poeta. Parece que devora as palavras, sem nunca tropeçar nas vogais muito menos nas consoantes. A sua pronúncia é perfeita. Mas não é só a forma como recita o diálogo de Vasco da Gama com o Rei de Meireles que chama a atenção. O jovem destaca-se pela participação activa que demonstra ao longo da hora e meia de aula. Ora responde às questões colocadas pela professora, ora esclarece as dúvidas que traz de casa devidamente anotadas no caderno escolar. Não admira que esteja entre os melhores alunos da escola. Admira sim o facto de Lilian ser o melhor aluno a português quando é o único que não tem sangue lusitano.

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ALUNO DE EXCEPÇÃO

Guiomar Palmeiro é professora há dezassete anos. Já lhe passaram muitos alunos pelas mãos mas nunca tinha visto um fenómeno assim. Curiosamente ficou a par da fama do Lilian ainda antes de leccionar a sua turma. Foi durante as conversas de corredor que os outros professores a alertaram para o bom desempenho “daquele aluno moldavo”. Mesmo assim preferiu ver para crer, e hoje não tem dúvidas: “De facto ele é mesmo bom”, sentencia.

Mas o que é que uma professora “muito exigente” entende por bom aluno? A resposta não se faz esperar:“É dotado de uma memória extraordinária, extremamente empenhado e cuja curiosidade conduz à constante aquisição de conhecimentos”, é assim que começa a desenrolar o novelo. Depois acrescenta. “ É muito participativo e as dúvidas que coloca vão muito além da matéria convencionalmente leccionada. Expressa-se correctamente, tanto oralmente como na escrita. Praticamente não faz erros ortográficos.”, adianta. Mas a professora coloca dois senãos. O primeiro é a nível da acentuação - “que na língua portuguesa é muito difícil e onde até nós portugueses nos confundimos”. O outro calcanhar de Aquiles do aluno moldavo situa-se no uso de determinantes. Mas os reparos ficam-se por aqui. “Ele é nesta escola um aluno de excepção, como julgo que seria em qualquer outra.” Palavra de professora.

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Guiomar Palmeiro faz ainda questão de viajar ao passado para contar um episódio antigo. “Os alunos desta turma, são simpáticos e afáveis, mas não são de maneira nenhuma exemplares na disciplina de Português. Razão pela qual o Lilian aparece ainda com mais destaque”. As notas falam por si. “ No primeiro período, em 27 alunos houve 21 negativas. Fiquei chocada e extremamente aborrecida. Aproveitei uma reunião de professores para fazer precisamente esta comparação: se o Lilian consegue chegar a este patamar sem que esta seja a sua língua mãe os outros alunos também têm de conseguir.”

Os outros alunos melhoraram mas Lilian continua imparável.“Isso é uma hipérbole, não é stôra!?, “As estrofes 119 e 120 são mais pormenorizadas”, são alguns dos palavrões que o estudante moldavo atira aula adentro e que deixam a própria professora boquiaberta. “Se eu deixar, mais de metade da aula é para as intervenções do Lilian.”.

A MOLDÁVIA POR PORTUGAL

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É num modesto T1 em Mem Martins que Lilian vive com os pais, Lilian Sandu, 35 anos, e Luminita Sandu, 36 anos, a irmã, Felícia Sandu, 9 anos, e um atrevido gato persa laranja, de nome Nutsu. Na ausência de uma sala de estar, a família costuma reunir-se no quarto de Lilian – Felícia dorme no quarto com os pais. A assoalhada resume-se a uma cama, uma televisão, um guarda-roupa, prateleiras com livros e bonecada, um portátil e um sofá. É um quarto típico de adolescente, não fosse o ‘Código Da Vinci’ de Dan Brown – versão portuguesa – a destoar na mesinha de cabeceira. “Nunca gostei muito de ler, mas de há uns tempos para cá tenho-me obrigado a fazê-lo de maneira a melhorar o meu vocabulário, para me exprimir melhor.” E já lhe está a tomar o gosto. A seguir ao ‘best-seller’ mundial do escritor norte-americano, vai debruçar-se no realismo do português Eça de Queiroz. “A professora emprestou-me. Estou curioso para conhecer a sua obra.”

A família Sandu trocou a Moldávia por Portugal há cerca de quatro anos à procura de melhores condições de vida. Para isso, Luminita, professora de primeiro ciclo, sujeita-se a trabalhar como empregada doméstica. Pior está Lilian, licenciado em Gestão, actualmente desempregado. Para atravessar este momento crítico, o casal agarra-se com unhas e dentes aos filhos que até agora só lhes têm dado motivos para sorrir. “Sentimos muito orgulho neles. Principalmente no Lilian por estar a passar aquela fase em que os miúdos têm tendência a meter-se em coisas que não devem. É um rapaz que não nos dá problemas alguns nesse sentido.”, afirma sem no entanto conseguir disfarçar a ponta de orgulho.

TUDO BONS ALUNOS

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Mas se profissionalmente as coisas não correm pelo melhor, a outros níveis, regra geral, a adaptação em Portugal desta família moldava tem sido positiva. “Gostamos muito de estar cá. Já fizemos alguns amigos e tudo.” E a língua portuguesa nunca foi um obstáculo. “Eu já falo bem, a minha mulher nem tanto. Para a Felícia inicialmente foi complicado, mas agora ninguém a cala. Quanto ao Lilian acho que nunca teve grandes problemas”, diz sorrindo, sendo imediatamente acompanhado de uma gargalhada geral.

“Não acho o português uma língua difícil. No primeiro ano foi mais complicado porque não sabia nada. Entendia-me com os professores e com os colegas em inglês. Mas ao fim de quatro meses, lia, escrevia e falava em português. Inicialmente tive que estudar muito, mas depois habituei-me ao ritmo”, confidencia o jovem moldavo. O pai aproveita a onda de boa disposição para meio a sério, meio a brincar, puxar pelos seus genes. “É claro que também era bom aluno, se não tivesse sido, o Lilian também não seria”. A gargalhada repete-se e inunda o quarto de uma alegria contagiante.

ESTUDANTE DE MÉRITO

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Pouco depois de aterrar em Portugal Lilian entrou no sexto ano para a Escola B. 1. Rainha D. Leonor de Lencastre, em São Marcos, Sintra. Não perdeu tempo com o ensino especial e começou logo ali a dar nas vistas. “A única coisa chata foi que apanhei logo uma altura de testes. Mas a directora de turma viu a minha situação e não contou com o primeiro período. No segundo, fiz os testes e obtive notas finais como todos os outros alunos.” Já na pauta de avaliação que remonta a esse ano saltam à vista os quatros e os cincos.

No ano seguinte, Lilian era transferido para a Escola EB.2,3. Ferreira de Castro. Volta a dar nas vistas - ao fim de um ano já constava do quadro de mérito da escola. Este é um quadro que é feito anualmente pelos professores e cujos critérios de escolha têm em conta as notas, o comportamento, o desempenho dos alunos em geral. No final do ano, normalmente no Dia da Escola, os estudantes seleccionados recebem um diploma e o nome deles é inscrito na lista de mérito. Este ano, o nome de Lilian vai integrar o quadro pelo terceiro ano consecutivo. A situação não aquece nem arrefece o jovem adolescente. “Não sinto nada de especial. Acho que toda a gente, se quisesse, podia ser tão bom ou melhor do que eu. Muitas vezes as pessoas não querem é aplicar-se”, diz humildemente. O segredo do seu sucesso é simples: “fazer os trabalhos de casa”. Justifica: “É a única maneira de podermos chegar a determinada dúvida e podermos esclarecê-la na aula”. Negativas jamais fizeram parte do seu vocabulário. Contudo recusa o título de marrão. “Acho que se pode fazer um bocadinho de tudo e mesmo assim ser bom. Desde que queiramos tudo é possível.”

Muitas vezes Lilian é abordado pelos colegas que o procuram para pedir ajuda com determinadas matérias. Mas enquanto uns aproveitam as explicações para melhorar os resultados, outros não tiram qualquer proveito disso. De acordo com Lilian, isso acontece apenas e só porque “eles não se esforçam nada”. E acrescenta: “Os meus colegas ficaram foi todos entusiasmados com esta ideia da entrevista, mais até do que eu.”. E não é para menos. Esta já não é a primeira vez que o jovem é a estrela da companhia. Quem o diz, são os pais babados que não deixam passar a oportunidade sem dar conta de todos os seus dotes. “Ele já deu uma entrevista por causa de umas pinturas que fazia e ganhou um prémio”, diz a mãe. “Costumava fazer umas pinturas a óleo lá na Moldávia. Mas agora já me deixei disso, não tenho muito tempo. Uma vez participei num concurso regional onde tínhamos que retratar a toxicodependência e consegui o primeiro lugar”, desenvolve Lilian, que hoje não se mostra nada arrependido de ter deixado para trás um futuro promissor como pintor. “Abdiquei disso mas aprendi uma língua nova e muitas outras coisas. Não fico assim tão triste”, desdramatiza.

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O FUTURO NA INFORMÁTICA

Nos tempos livres, o jovem aproveita para jogar futebol com os amigos. “São poucos, mas bons”, esclarece. Dedica também algum tempo a navegar no computador, uma paixão que o acompanha desde muito novo. Tanto é que Lilian traça nos seus horizontes uma possível carreira como engenheiro informático. “Ou isso ou medicina. Gosto muito de ciências, mas também gosto muito de tudo o que tenha a ver com computadores.” Outro dos seus prazeres é precisamente aprender línguas novas - fala romeno, russo, inglês, português. Não contente com este invejável currículo já está a iniciar-se no francês. Curiosamente, na escola não são essas as suas disciplinas de eleição. “Prefiro matemática, físico-química. Ciências!”.

Num futuro mais próximo existe a possibilidade de Lilian ingressar na escola Carlucci American International School de Lisboa. Isto se conseguir uma bolsa de Estudo de Mérito que vai ser atribuída a alguns alunos do concelho de Sintra. “Candidatei-me incentivado pela minha stôra de inglês. Gostava de entrar. Era muito bom.”

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Será muito provavelmente mais uma batalha na sua ainda curta história de vida.Uma batalha que espera vencer. Com quinze anos já reúne uma mão cheia de êxitos para contar aos netinhos. A professora de português, Guiomar Palmeiro não tem dúvidas que Lilian não se ficará por aqui e que ainda vai dar que falar “Este miúdo vai fazer um brilharete”.

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