Campeões em Chelsea

Os portugueses a viver em Chelsea, o bairro mais chique de Londres, são o espelho de José Mourinho: jovens, ambiciosos, bem sucedidos e ganham milhares de libras. Retrato de um outro Portugal.

15 de maio de 2005 às 00:00
Campeões em Chelsea Foto: Frederic Aranda
Partilhar

No meio das bancadas vestidas de azul do Stamford Bridge, Mafalda Trabuco agita ao vento uma bandeira de Portugal. As batidas do coração estão tão acertadas como as dos 42 mil adeptos do Chelsea. O jogo contra o Charlton é a feijões, a equipa de Mourinho já reina na Liga inglesa, mas todos querem ver um golo dos seus ídolos.

Tal como num filme de suspense, só no último minuto é que respiram de alívio. Makelele, de penálti, faz-lhes a vontade. Mafalda exulta para os céus, cantando “We are the Champions!”, numa desafinada versão da canção dos Queen. No final, quando José Mourinho ergue a taça, triunfante, a portuguesa sorri, embevecida. De alguma maneira, aquele troféu reluzente também era seu: “Ele é o nosso embaixador”, diz com indisfarçável orgulho nacionalista. “E uma lenda em Inglaterra.”

Pub

Os ‘blues’ já eram o seu clube do coração antes da chegada de Mourinho. Há dez anos, quando aterrou em Heathrow, com o intuito de estudar dança e teatro, ela veio morar com mais três amigas para Sloane Square, uma das mais chiques ruas de Chelsea. A renda era exorbitante, mas valia a pena pagar as libras esterlinas só para poder tropeçar todos os dias em estrelas como Mick Jagger ou Emma Button (ex-Spice Girl).

Aos 21 anos, depois de terminar dois cursos na Universidade de Londres, enviou um currículo para a CNN Internacional. Um tiro no escuro que se revelou certeiro. “Tinham aberto um novo canal na Europa. E precisavam de alguém que falasse espanhol para coordenar com o escritório de Madrid”, recorda a directora comercial para o Sul da Europa do canal de Ted Turner. Há seis anos era estagiária. “Tenho tido muita sorte. Não me posso queixar.”

O segredo do sucesso pode resumir-se a duas palavras: disponibilidade total. “Não é fácil adaptarmo-nos a Londres. Não há sol nem mar. Quando estamos mais em baixo isso não ajuda nada.” Ela resistiu às intempéries, ao contrário das amigas, que regressaram a Lisboa e muitas já se casaram. Mafalda continua solteira. E feliz. “Os portugueses vão chegando e indo. É pena, mas estou habituada.”

Pub

Nos jantares que organiza em casa, embora se oiça cada vez menos a língua de Camões, o bacalhau continua a ser o prato mais cozinhado: “Quando tenho mais saudades vou ao Café Lisboa comer um pastel de nata, beber uma bica ou comprar pastilhas ‘Gorila’”. No último Verão, arrastou os amigos estrangeiros até Portobello Road, onde vive a tradicional comunidade portuguesa, para ver os jogos do Euro’2004 na Casa do Sporting, apesar dela ser benfiquista. “Por cinco libras, tivemos direito a febras, sardinhadas, cerveja Sagres e Sucol e vimos os jogos ao ar livre. Uma pechincha.” Eles ficaram viciados e voltaram.

SANDUÍCHES, BATIDOS E NOITADAS

Ao contrário de Mafalda, Lourenço Vasconcelos e Sá, 28 anos, não foi ver o seu Chelsea em Stamford Bridge, no sábado. O ritmo de trabalho na JP Morgan, um banco de investimentos norte-americano, tem sido infernal. “Tive de trabalhar este fim-de-semana”, confessa. “Mas vi bastantes jogos esta época, apesar de não ser sócio. A vitória mais saborosa? “Contra o FC Porto para a Liga dos Campeões.” Vestindo um fato de fino corte, que condiz com a pose confiante e a voz colocada, Lourenço é a imagem do ‘self made man’ da ‘city’ londrina. Mas não aprecia o rótulo: “Todo o meu sucesso se deve a uma óptima educação. Deram-me asas e aprendi a voar.” Há poucos anos vivia com os pais em Lisboa, mas no final do curso de Economia da Universidade Católica resolveu aventurar-se até Paris, Singapura e assentar em Londres.

Pub

E nem foi preciso seguir o método agressivo de José Mourinho para Lourenço singrar no competitivo mercado inglês: “Na alta finança, ninguém quer saber se és português, espanhol ou inglês. Tens é de apresentar resultados. Fazer o trabalho melhor e mais rápido.” Num dia normal, entra às oito da manhã pelas portas automáticas do edifício espelhado e só sai às dez da noite. O almoço é tomado à pressa na secretária. “Hoje vou comer uma sanduíche e um batido”, revela. “Já nem sei o que são almoços de uma hora e meia.”

Da tão apregoada xenofobia inglesa, nem sinais à vista: “Eles gostam do nosso país”, garante Lourenço, que vive em South Kensington, a dez minutos de Stamford Bridge. Pelo apartamento na zona nobre paga entre mil a duas mil libras (entre 1200 e 2200 euros). “É muito caro. Mesmo para os padrões locais. É tipicamente o bairro onde vivem muitos dos que trabalham na banca.” Embora resida sozinho, porque diz não ter tempo para uma relação séria, não se sente abandonado na cidade. “A vida em Londres é um grande rodopio. Estou sempre a conhecer tanta gente, durante o tempo todo.”

Aos fins-de-semana, não pára um segundo. À noite, é sempre até às tantas. Os clubes nocturnos preferidos são o Sketch ou o Aura, na zona boémia de Mayfair, que frequenta com amigos oriundos de todas as partes do globo. “Todo o tempo é pouco para me divertir.” No dia em que sentir necessidade de assentar, regressará a Portugal: “Isto é demasiado agitado para viver com mulher e filhos.” Por enquanto, o cosmopolitismo de Londres assenta como uma luva nas suas ambições: “O mercado é mais competitivo mas há mais possibilidades de vingar.”

Pub

SER ‘TUGA’ É ‘COOL’

Eles são quatro ‘betinhos’ do Porto, entre os 28 e 30 anos, e resolveram abrir um sofisticado restaurante de cozinha portuguesa na movimentada King’s Road, rua onde passeiam adeptos de cachecol azul e há bandeiras do Chelsea penduradas, janela sim, janela não.

O ‘Tugga’, é uma espécie de Portugal ‘mix’, onde não há espaço para copos de três nem bitoques de ovo a cavalo. A inauguração, a 29 de Abril, foi um ‘happening’ local. No evento compareceram 400 pessoas, entre elas os craques do Chelsea Ricardo Carvalho e Tiago e o piloto de Fórmula1 Tiago Monteiro. “Reparámos que em Londres não havia nada de português ‘chic’”, revela Pedro Ramos, 30 anos, um dos sócios. “Só as Casas do Benfica e do Sporting…”, ironiza.

Pub

Recorrendo à gíria futebolística, o outro sócio, Tiago Ribeiro e Silva, afirma uma vontade férrea de jogarem na I Divisão da restauração: “Apostamos num segmento alto e médio-alto. Na Kings Road não poderia ser de outra maneira.” Para quem tem pouca experiência no ramo, não terão colocado a fasquia demasiado alta? “Também diziam isso de Mourinho e ele foi campeão de Inglaterra”.

Falsas modéstias não são mesmo com eles: “O povo português tem de se descomplexar, deixar de se sentir inferior e perder o medo de tomar riscos.” Nenhum deles esconde a ambição de poder mudar a imagem de marca do País a curto prazo.

As paredes do restaurante estão pintadas em cores garridas, num estilo declaradamente retro. A cozinha é comandada pelo ‘chef’ Miguel Castro e Silva, que também veio do Porto para deixar os ingleses de barriga cheia. “As especialidades da casa são pratos tradicionais, como os pezinhos de coentrada e o bacalhau com grão, mas apresentados com um ‘look’ contemporâneo”, informa Luís Monção. Na gar- rafeira só há vinhos ‘made in’ Portugal e até a cerveja é Sagres ou Super Bock, as preferidas de muitos ingleses que foram ao Euro’2004.

Pub

Nesta tarde cinzenta de chuva miudinha, os jovens empresários estão bastante atarefados a receber fornecedores. Tentam não descurar nenhum pormenor, porque deverão receber em breve a visita dos tão temidos críticos gastronómicos ingleses. “Eles têm o poder de levar uma casa aos píncaros ou destruí-la com apenas uma coluna de jornal.” Enquanto isso não acontece, têm esperança de servir o ídolo do momento na Grã--Bretanha e arredores: “Convidámos José Mourinho para a inauguração, mas não apareceu. Talvez um dia, quando as coisas estiverem mais calmas, venha cá jantar com a mulher”, suspiram.

A MODA DO FUTEBOL

Umas ruas abaixo, numa esplanada próxima do mercado de antiguidades de Portobello Road, Rafaela Feio pede um copo de vinho branco na esplanada do Electric, uma ‘brasserie’ frequentada pela ‘beautifull people’ londrina. Liz Hurley, Kate Moss ou Kylie Minogue são clientes habituais. Mas hoje, nenhuma das beldades se encontra nas imediações. “Quando cheguei a Londres, há três anos, não conhecia ninguém, nem tinha contactos profissionais. Mas a adaptação foi fácil porque estava deslumbrada com a cidade”, recorda a portuguesa de 28 anos. O primeiro emprego, como assessora de imprensa da estilista punk, Vivianne Westwood, deixou-a a pairar acima do smog londrino. “Foi o máximo. O marido dela, muito mais novo, ia para o atelier vestindo um kilt mínimo (saia escocesa), sem nada por baixo”, lembra com entusiasmo.

Pub

A trabalhar na área da moda, Rafaela respirava o mesmo ar das ‘top models’. “Uma noite, numa discoteca, Naomi Campbell dançava ao meu lado. Fiquei tão excitada que fui para a casa de banho enviar SMS para as minhas amigas.” Depois de passar pela redacção da revista ‘Wallpaper’, foi parar ao ICEP com a missão de promover a indústria de calçado e a moda portuguesa no Reino Unido. “Aí fraquejei. Mesmo com as viagens frequentes para o Porto e Lisboa, fiquei com mais saudades da terra.”

O coração palpitou, mas preferiu ficar em Londres. Razão oficial: em Portugal não teria as mesmas oportunidades de fazer carreira nem auferia salários acima dos 2500 euros. “Londres tem uma poderosa indústria de moda que está uns anos à frente de Lisboa.” Razão não oficial: perdeu-se de amores por um rapaz da República Dominicana, que conheceu na Grã-Bretanha. “Só estou a duas horas de avião de casa. E as viagens estão mais baratas do que nunca. Quando me dá a nostalgia, aí vou eu…”.

Hoje, Rafaela trabalha como relações públicas de uma marca de roupa inglesa que está a modernizar a sua imagem, a Daks. E não tem problemas em apelidar-se como portuguesa de sucesso: “Ainda ambiciono trabalhar para a Louis Vuitton”. Embora perceba pouco das andanças do futebol, Rafaela defende que a vinda de José Mourinho fez mais para alterar a imagem dos portugueses em Londres do que milhares de campanhas do ICEP: “A táctica de arrogância é a mais correcta. Porque os ingleses são demasiado competitivos e pouco camaradas no local de trabalho. É cada um por si. Nota-se isso à hora de almoço, em que cada um vai almoçar sozinho.”

Pub

CIDADÃ DO MUNDO

“Não reparem na desarrumação”, declara Ana Ramos, 31 anos, enquanto sobe pelo elevador até ao 2.º andar do seu apartamento, num dos mais luxuosos bairros de Londres. Nos últimos dias, o espaçoso T1 foi invadido por amigos do Porto, que vieram de propósito à inauguração do restaurante/lounge ‘Tugga’. “Dormiram em sacos-cama, espalhados pela casa.” A porta abre-se e nem sinais da temida anarquia. Só uns pratos fora do sítio, nada mais. A sala está decorada com quadros de pintores de renome e tem uma vista privilegiada para uma rua coberta de árvores, que não deixam adivinhar o volume do trânsito na estrada.

Dos jovens portugueses de sucesso a viver nas redondezas de Stamford Bridge, ela é uma das que mais voltas deu ao globo. O seu passaporte já tem o carimbo de destinos como Tóquio, Nova Iorque e Londres. “O Porto era um horizonte muito limitado para as minhas ambições”, comenta esta gestora de risco de derivados de crédito de uma multinacional bancária. “Mas estar onze anos longe da família é duro. Quando me despeço deles, nas férias, há sempre muitas lágrimas.”

Pub

Em Londres, não convive com a típica comunidade de emigrantes. “Há um fosso entre as duas gerações. As pessoas que fazem o trabalho braçal, e vivem em Stockwell ou Portobello, sentem-se mais cómodas entre os outros portugueses. Os jovens de profissões liberais como eu, residentes em Chelsea e Notting Hill, preferem conhecer pessoas de outras nacionalidades.”

Ana confessa-se uma cidadã do mundo, expressão gentilmente roubada ao filósofo Sócrates, e apesar das distâncias nunca deixou de estar atenta à realidade portuguesa: “Sei que não é bonito para quem está no estrangeiro vir criticar o País, mas os portugueses continuam mais preocupados em ter um emprego em vez de uma carreira. E esperam que as coisas caiam do céu.”

Há um ano e dois meses na capital inglesa, Ana Ramos gere uma equipa de quinze pessoas. Um trabalho stressante, que lhe tira algumas horas de sono, mas onde nunca sentiu agruras por ser portuguesa. “Pelo meu sotaque até pensam que sou americana”, ironiza. “Ter família? Isso é complicado. Para já, não dá para conciliar carreira, marido e filhos.” Um dia destes, irá regressar ao Porto para junto dos pais. Com as libras amealhadas nos últimos anos, tem planos para abrir um pequeno negócio. “Nada relacionado com a área financeira. Será uma coisa muito familiar.” Daqui a pouco vai dormir, porque amanhã a luta continua. E ela não pode baixar os braços. Londres continua a seus pés.

Pub

Tem sugestões ou notícias para partilhar com o CM?

Envie para geral@cmjornal.pt

Partilhar