CARLA BRUNI ABRE A BOCA
Da sofisticação das ‘passerelles’ e do brilho das sessões fotográficas passou para um disco em que manda a simplicidade. Surpresa: é a campeã de vendas em França.
Quando abriu a boca para o primeiro choro de recém-nascida, a 23 de Dezembro de 1968, Carla Bruni Tedeschi, nativa de Turim, não sabia certamente que seria a herdeira de uma mui rentável fábrica de pneus. Uma ironia para quem ganhou a vida precisamente por causa da ausência de “pneus”, a juntar aos olhos azuis, cabelo castanho, 1,75 de altura e uma elegância que fez escola no mundo da moda. Nos desfiles dos maiores criadores ou em campanhas ainda hoje recordadas pela sensualidade da modelo – Guess?, Escada Couture, L’Oréal, Givenchy, Christian Dior, MaxMara, Morgan, até da Suzuki, entre muitas outras –, nunca precisou de falar. Agora, cinco anos depois de uma retirada prematura, é com a voz que se revela. Tornou-se cantora e seduziu, ao mesmo tempo, a crítica especializada e o grande público.
Em França, o seu disco, “Quelqu’un M’a Dit” (edição Naive), foi lançado a 5 de Novem-bro de 2002. Atravessou semanas inteiras no primeiro lugar de vendas – incluindo o momento da febre de consumo natalício – e, ainda hoje, marca presença no 'top five'. No total, há muito ultrapassou as 300 mil cópias vendidas, estando em fase de preparação uma digressão por “salas íntimas” (palavras da própria) e tendo arrancado a planificação para um segundo álbum, desta vez, em inglês.
Os lucros alcançados ainda estarão longe de igualar os rendimentos obtidos pelos desfiles e pelas poses, sendo insignificantes as suas passagens pelo cinema, num trio de filmes menores. No ano em que se “reformou”, 1998, Bruni foi referida pela “Business Age” como uma das vinte manequins mais bem pagas da temporada, calculando-se que tenha arrecadado cerca de sete milhões e meio de dólares. Mas tudo isso parece agora inscrever-se num passado que, segundo parte da sua família tradicional, “desperdiçou” os anos de internato num colégio suíço e a levou a desistir de um curso superior de Artes e Arquitectura.
Agora, é a música que conta. E, para quem levou anos a conviver e a divulgar a sofisticação, a ruptura começa logo nas fotografias da capa do disco: um elegante preto-e-branco mostra Carla de “jeans”, “T-shirt” e sem qualquer espécie de maquilhagem.
Os vários “ases” são mesmo as canções – e nove das doze são integralmente escritas pela própria, cantadas com uma voz rouca e meiga, secundada por uma instrumentação suave e que evita as distracções do que é essencial, as melodias e os poemas. Tudo graças à contenção do veterano Louis Bertignac, “velha raposa” da música francesa, que mantém tudo (guitarras, cordas, piano) ao nível do estritamente essencial.
Além disso, não pode dizer-se que a mocinha não saiba como conquistar as atenções: cita Brassens, Ferré, Brel e Leonard Cohen como os seus “paroliers” de referência, mostra-se quase ruborescida quando comparam este seu começo aos primeiros anos de carreira de Françoise Hardy e Barbara. E não hesita, sequer, em ir ao baú de recordações buscar uma canção de Serge Gainsbourg, o rebelde que, “post mortem”, se tornou definitivamente em objecto de culto. De resto, é por esta via que promete continuar: afinal, em modelo que está a ganhar, não se deve mexer. A verdade verdadinha é que o disco se revela sublime, contra-corrente, com canções que acabamos por acompanhar “par coeur”. Serve, também, como um belo exemplo – não, não é artista que está em causa, aqui – de como é possível pôr termo a uma carreira no auge e começar outra, radicalmente diferente, de uma forma sensível e inteligente. Talvez Deus não tenha sido justo a distribuir os talentos. Mas, no caso de Carla Bruni, julgo que não haverá ninguém a querer recorrer ao “livro de reclamações” do Divino. Já agora: porque será que não há em Portugal quem edite, importe ou contrabandeie “Quelqu’un M’a Dit”?
Amigas públicas, conhecem-se-lhe as “top models” Karen Mulder e Helena Christensen. Mas parte da vida de Carla Bruni foi passada no ingrato papel “da outra”. Ou seja, nos seus mediáticos namoros, nunca parece ter sido um problema o facto de o homem estar “ocupado”. Depois do actor Vincent Perez, vieram Mick Jagger (e a primeira separação do Stone de Jerry Hall), Donald Trump (e foi o adeus deste a Marla Maples) e Eric Clapton (bye bye, Sheryl Crow). Hoje, solteira, divide a sua “penthouse” em Paris ou o palacete de Saint-Tropez com Mitzy e Betty. Duas gatas, para que conste.
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