Carqueja, um lugar incrédulo
De homem excentrico, Francisco Leitão passou a serial killer. O medo passou a morar na terra
Em Carqueja há sobressaltos noite e dia. Pelas nove e meia da manhã estaciona à frente do ‘rei dos gnomos' um Toyota Prius de um emigrante no Canadá. Há dez anos que não vinha à terra natal, a meia dúzia de quilómetros desta. Atraído pelas notícias, o idoso, de boné com a bandeira canadiana, queria olhar de perto a casa mais falada no País - morada do serial killer detido pela PJ na madrugada de 20 de Julho.
Este é o início da romaria de mirones, às dezenas ao longo do dia. Junto ao carro, num empedrado que serve de base ao altar do santo padroeiro - S. Lourenço - há duas garrafas de cerveja abandonadas de madrugada. Um grupo de pessoas gritou a sua revolta - "assassino" - para o castelo, tentando atingir Francisco Leitão. "Bêbedos", reclama já pela manhã uma vizinha. "Agora é isto todos os dias".
O calor do Verão ferve. Mas não é só isso que põe em brasa Zé Florêncio. "Toda essa malta [adolescentes] que andasse por aí ao abandono, de fraco nome, ele recebia em casa. Durante o dia dava-lhes de comer e dormir e, à noite, punha-os à caça: malta que deixasse aí um carro ou um tractor e desapareciam com as baterias, o gasóleo; desaparecia tudo" - vai contando, irado, o homem. "Nunca vi o ‘Chico' roubar, mas a malta queixava--se. Tenho a ideia que eu era capaz de ir ao sítio onde ele queima as coisas roubadas - o cobre - e aposto que os corpos estão lá".
O homem de 63 anos pega no carro e enfia-se por uma estrada de areia atrás da sua casa. Pára o carro num descampado onde se vê que já lá se fizeram queimadas. "Este terreno é do pai dele. Aposto que os corpos estão aqui no mato" - insiste. "Falo assim porque já não tenho nada a perder. Tenho um cancro no intestino e os filhos já criados".
Na pacata aldeia ninguém arrisca tamanha coragem. Na vivenda das traseiras do castelo, a vizinha que estende a roupa gaba a amizade de ‘Chico'. "Eu não acredito que tenha sido ele. É um bom rapaz que me ajudou sempre: cheguei a ficar empanada com o carro e ele foi lá várias vezes". E como se chama a senhora? Prefere não dizer. É o que fazem quase todos os vizinhos: por um lado acreditam na inocência dele; por outro, não revelam o nome por temerem represálias. A mulher de 30 anos, com calções elásticos e blusa branca, recorda que ‘Chico' tinha "a mania de organizar karaokes. Eu ouvia-os bem. Até achávamos graça." E ele, que já apareceu no YouTube numa sessão de cantorias, com uma peruca roxa aos caracóis, cantava bem? Ela sorri. Parece que não. "Há mais de um ano que deixou de se ouvir".
Castelo em cima do curral
Carqueja é uma terra dividida por duas freguesias. Até são dois carteiros que entregam o correio: de um lado, aos habitantes da freguesia de Atouguia da Baleia, Peniche; do outro, aos da freguesia de S. Bartolomeu dos Galegos, Lourinhã. É terra pequena, alcatroada entre as casas de 15 famílias e de cinco de emigrantes, a maioria, em França. Moram lá meia dúzia de viúvas, que são o dobro em número dos jovens. Os que lá estão vivem da terra - excepção das duas famílias de militares da GNR. Salvador Ferreira, presidente da Junta de S. Bartolomeu dos Galegos, à qual pertence o ‘rei dos gnomos', diz-se "chocado".
"Excêntrico" desde sempre, Francisco José da Cruz Leitão, 42 anos, coroou-se rei e, inspirado pelo filme ‘Citizen Kane', de Orson Welles (1941), ergueu o seu castelo de ‘Xanadu' em cima do curral que os bisavós tinham. Uma vizinha, Dona Jesus, 78 anos, conta que os pais de ‘Chico' - primos direitos - fizeram naquele espaço um quarto e pouco mais. E lá nasceram e foram criados os filhos: Francisco, José, Luís e Dina.
"Ele era um menino da mamã", recorda o vizinho Zé Florêncio. "A mãe dele era minha prima. E digo-lhe: fazia todas as vontadinhas ao menino".
Francisco estudou no Paço. Todos os dias ia a pé para a escola, a dois quilómetros. Mas já dava que falar. Uma das ex-colegas, só quer que a conheçam por Silva. O que importa é a sua ligação a ‘Chico'. "Estudámos juntos. Ele já era um bocadinho agressivo. A gente voltava para a Carqueja aí pelos carreiros e eu vinha sempre corrida à pedrada" - conta. "O Francisco sempre foi o pior dos irmãos. Acho que os pais nunca lhes deram educação. Não me surpreende o que aconteceu. Sempre pensei que alguma coisa se passava dentro daquela casa".
O castelo, tal como está construído, terá sido obra dos últimos cinco anos . Ninguém sabe quem foram os pedreiros - embora o irmão Luís o tenha ajudado - nem de onde vieram os tijolos. A propriedade está cercada, atrás, por muros altos e junto a um casario contíguo, no meio da vegetação, está esquecido um dildo (brinquedo sexual em forma de pénis) - dá a sensação de ter havido uma ‘festa' de cariz sexual que acabou com carácter de urgência.
Excentricidades da aldeia
‘Manuel, eu não quero estar aqui. Faz-me impressão' - grita uma idosa, à porta de um Renault Clio, enquanto o marido passa os olhos pelo castelo. ‘Os bonecos não te fazem mal' - goza ele.
O jardim tem estatuetas da Branca de Neve e dos sete anões. "É sinistro", ouve-se comentar. Há cogumelos de plástico e três gnomos. Entre outros bonecos. O castelo tem um reboco empedrado, estilo medieval, e termina com ameias - algumas ainda em tijolo. Há câmaras de filmar espalhadas. Até a campainha, em tempos, teve um sistema de mensagens: "se você está a ouvir a minha gravação é porque não estou em casa" - ‘Chico' tem fama de "engenhocas".
Também lhe chamam ‘Chico Avião' porque alterou um carro, um Ford, e dizia que alcançava os 170 km/h em marcha-atrás. Para as câmaras da televisão, o carro não deu mais de 70 à hora.
Há 15 anos a mãe faleceu e foi sepultada em S. Bartolomeu dos Galegos - cemitério apontado por vizinhos como local presumível para ele ter ocultado os corpos das três vítimas: a proliferação de teorias indica o alarme da população. Adiante, após a morte da mãe, o pai, que perdeu uma perna num acidente de tractor, foi viver para Setúbal com outra mulher e terá levado apenas a filha mais nova. Os outros ficaram em Carqueja a trabalhar na sucata da família. No portão da propriedade está a inscrição da empresa Reciclagem Estremadura e um número de telemóvel (desactivado). Os vizinhos dizem que há muito que o negócio não funciona.
Um par de chapadas
Maria da Conceição, sentada na paragem de autocarro com vista para o castelo, recorda um episódio passado com o seu filho, deficiente. "Ele foi a Coimbra à inspecção para a tropa. E, em Leiria, o ‘Chico' roubou-lhe a grade de cervejas que ele tinha comprado para ele e para os amigos. O ‘Chico' só devolveu quando um amigo do meu filho lhe deu uns pares de chapadas".
Francisco Leitão andava sempre rodeado de rapazes e raparigas, dos 16 aos 20 anos, com quem terá feito filmes pornográficos. Diz-se que foi o autor de um vídeo entre um menor e um rapaz de 20 anos, envolvidos sexualmente, que andou a circular na escola de Atouguia da Baleia no ano passado. Lá, todos tinham o vídeo no telemóvel - apesar da comunidade recusar falar disto. Levava-os a passear no seu Audi A4, que é um luxo num meio rural onde só os emigrantes, em Agosto, ostentam riqueza. Pagava jantares aos miúdos em sítios como o Arena Shopping, em Torres Vedras, iam ao cinema e dava-lhes tabaco. Em casa tinha videojogos.
Muitos destes adolescentes são da Bufarda, aldeia a meia dúzia de quilómetros da Carqueja. Aqui vive Luís, irmão de Francisco. Dizem que Luís se envergonha do irmão desde que se assumiu gay há dez anos numa discoteca. Também nesta terra moram os pais da ex-mulher de ‘Chico', com quem o ‘rei Ghob' casou em Agosto de 1991, na igreja de Atouguia da Baleia - ele é religioso, tanto que tem um santuário em casa e idolatra a Nossa Senhora - para se divorciarem após dois meses porque ele a traiu com outro homem.
No Café Central, atrás do balcão, ouve-se: "há 20 anos ele era bem-disposto. Às vezes comentávamos que não batia bem da bola, mas por causa das parvoíces que dizia". Prefere não dar o nome, mas não esquece que "era muito fácil gostar-se dele". Levou, na certa, Rosa, a primeira mulher. Apesar do pai ter tentado evitar o casamento. "Recordo-me dele aqui no café com a filha, a Eva". Francisco viveu depois com Gina, a mãe da bebé, numa relação que começou em 2003 e acabou, pouco depois, com ela traída pelo companheiro. Outra vez com um homem: Ivo Delgado. Gina, entretanto, fugiu com a filha para França, onde estão os pais.
O rapaz de 22 anos, namorado de Tânia Ramos, 27 - desaparecida a 5 de Junho de 2008 - costumava tomar o pequeno-almoço no Café Central . Andava todo farrusco do ferro-velho - dizem.
Até há dois anos, Ivo - desaparecido a 21 de Junho de 2008 - e Francisco faziam juntos compras no Supermercado Rita, em Bufarda. Gastavam uma média de 120 euros por mês em produtos alimentares.
Zé Florêncio sempre acreditou que estas amizades de ‘Chico' com os rapazes eram responsáveis pela onda de assaltos na região. "Mas a especialidade dele é droga", atira. Todos viam que o negócio da sucata estava "parado", que as viagens dele a Espanha - onde dizia ter negócios - nunca revelavam nada concreto. Certo é que Francisco deve mais de um milhão de euros ao Fisco.
Segundo fonte da PJ, as pessoas falam em tráfico de droga e receptação de produtos roubados apenas por o verem com bons carros. No entanto, "não se confirma muito" essa ligação a estupefacientes. O ‘Chico Avião' terá tido um ponto de venda de automóveis em Alto Veríssimo.
À porta de casa estão os pais de um dos adolescentes que era companhia habitual do ‘rei dos gnomos'. Pediram o anonimato. O filho nunca foi ouvido pela PJ e, agora, passa os dias em casa.
"Quando o ‘Chico' foi preso, o meu filho disse-me: ‘acho que eu andava com a companhia errada'" - conta a mãe. "E eu respondi: ‘sempre te disse que andares com um homem de 42 anos era companhia errada'". O pai encolhe os ombros: "eu conheço o ‘Chico' desde pequeno. Nunca imaginei". A mulher interrompe-o e desabafa: "eu nem quero imaginar o que se passava dentro daquela casa". O casal sai de manhã para trabalhar e só regressa ao final do dia. Até lá, o filho sempre teve tempo para ter todo o tipo de companhias.
Dizia alguém na colectividade da Bufarda que um dos miúdos que saía com Francisco Leitão levou uma bofetada do pai, assim que ele soube da amizade. Nunca mais foram vistos juntos.
"ESTE TIPO DE COISAS CRIA-NOS INCERTEZAS" Vitor Rodrigues, 49 anos, psocólogo, psicoterapeuta e autor da 'Teoria Geral da Estupidez Humana'
Os vizinhos dizem crer na inocência de Francisco Leitão, mas quando se lhes pede para se identificarem, recusam por temerem "represálias". Acreditam mesmo nele?
Acho mais provável que prefiram negar o que custa tanto a admitir: que não conseguiram, ou não souberam, ver o que andava por ali, no meio deles. Este tipo de coisas cria-nos incerteza quanto à capacidade de nos autoprotegermos. Por outro lado, podem temer a rede de relações dele...
Sobre as vítimas: todas são pessoas frágeis (a maioria rapazes), com 16 e 17 anos, amigas de um homem de 42, "excêntrico". É possível que tenham iguais interesses?
Reparemos que são poucas pessoas. Os predadores costumam ser bons a seleccionar as vítimas e a atraí-las. Sendo poucos, é mais fácil haver interesses comuns. De qualquer modo, a sexualidade é comum a toda a gente, e a curiosidade também, tal como o fascínio do perigoso e do proibido.
A comunidade está incrédula com a possibilidade de que ele seja um serial killer. Por que é que não se aperceberam de nada?
Ele terá dado indícios de perturbação, perversidade, ética deficitária, mas talvez fosse difícil ver nele um assassino. O perfil nem parece típico de um serial killer - costuma ser mais discreto. O Francisco seria inquietante e as pessoas poderiam preferir andar afastadas, não pensar nele...
HISTÓRIA DE AMORES E CRIMES
As relações amorosas de Francisco Leitão, pelos indícios que o apontam como responsável pela morte de Tânia e de Ivo, e pelos dois relacionamentos falhados com mulheres (Rosa e Gina), eram demasiado atribuladas. Mas tudo indica que seja ele também o responsável pelo desaparecimento, em Março, de Joana, 16 anos, que namorava com Luís, outro miúdo por quem Francisco estaria apaixonado. ‘Chico' terá roubado os bens das vítimas para vender, como os carros de Ivo, e terá usado os telemóveis delas para despistar os seus familiares. Enviava-lhes mensagens - com erros ortográficos - dizendo que estavam no estrangeiro. Depois, mostrava-se amigos desses mesmos familiares.
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