Ceuta: uma crise com nomes, rostos e dramas
A invasão migratória do enclave espanhol em Marrocos agudizou a tensão entre Madrid e Rabat e revelou histórias de quem procura o sonho europeu.
O sonho europeu para muitos dos migrantes que cruzaram a fronteira de Marrocos para Ceuta, enclave de Espanha no norte de África, dificilmente será realizado. A invasão em massa da cidade autónoma espanhola trouxe milhares de migrantes de várias latitudes e outros tantos sonhos. O mesmo que, há anos, trouxe Modibo Touré de uma aldeia pobre do Mali até La Línea de la Concepción, no lado do sonho do estreito de Gibraltar.
A travessia do Mediterrâneo feita por Modibo é uma espécie de metáfora da maioria que se aventurou ao mar para chegar a Ceuta. Ao contrário dos que ainda estão na indefinição no enclave espanhol no norte de África, Modibo Touré é um homem feliz. Dez anos após a travessia do estreito de Gibraltar numa ‘patera’, vive em La Línea com a mulher e dois filhos, longe da pobreza do Mali. Nem todas as histórias têm o final feliz da de Modibo Touré.
Mohamed Macalou, Abdelali Aouladkasse ou Ebrima Konateh ainda estão em Ceuta depois de terem embarcado na corrida trágica em busca da quimera do Norte, onde terão morrido perto de 140 pessoas nos dois lados da fronteira. Ceuta confirma cerca de 80 mortos, Marrocos ergue um muro de silêncio, como se não tivesse nenhuma responsabilidade nesta fuga desenfreada do seu caos económico à qual se juntaram, igualmente, milhares de subsaarianos numa dramática debandada da pobreza, das oligarquias e de guerras que se eternizam.
MODIBO TOURÉ
Mali
Os migrantes que esperam em Ceuta pelo sonho europeu estão onde Modibo Touré já esteve. Só que o sonho deste homem determinado, agora com 28 anos, tornou-se realidade. Na longa caminhada dos migrantes, nem todos os finais são felizes como o de Modibo que o suplemento ‘Domingo’ entrevistou na marginal de La Línea de la Concepción, com Gibraltar como fundo. O agora imigrante legalizado do Mali socorre-se de um chavão para resumir a sua história: “Tudo é possível, menos a morte.”
A vida de Modibo roçou várias vezes o falecimento desde que partiu de Kayes, região do Mali perto da fronteira com o Senegal, quando era um menino de 17 anos. “Como havia muitos ‘jihadistas’, apanhei um autocarro no Mali e fui para o Burquina Faso”, de forma a evitar, conta, o Senegal. Resume a longa viagem e conta: “Do Burquina fui para o Níger e para a Argélia. Depois, fui para Marrocos.” São poucas palavras para tanto sofrimento que quer matar com um sorriso e olhos arregalados de satisfação. A descrição da jornada é impressionante, mesmo quando Modibo não perde o sorriso: “Hoje dormíamos aqui, amanhã acordávamos ali, depois íamos para a cidade. Amanhã voltávamos a acordar e íamos para outro sítio.” A errância não é solitária. Os migrantes sonham em grupo, sofrem em conjunto e miram juntos a Europa dos desejos.
Tudo é possível, menos a morte.
Modibo Touré
Mali
“Quando já não tiveres dinheiro, podes parar ali para procurar algum trabalho. Se te derem 20 euros, isso pode render-te bastante para comprares um pão duro, seco, para não ficares sem comida. Então, assim vamos caminhando aos poucos, aos poucos, aos poucos...” De Djibasso, já no Burquina, a mais de mil quilómetros de Kayes, Modibo fez um caminho até ao Níger. Enfrentou perto de mil quilómetros de deserto. Daí para a Argélia, o pior estava para vir.
“Entrar na Argélia é uma merda. Se te apanham, matam-te. Temos de nos esconder permanentemente e, depois, enquanto os militares dormem de noite, nós temos de acordar. Tentamos passar um de cada vez”, conta. Do grupo de 16 que acompanhou Modibo Touré, metade ficou pelo caminho. Tentou entrar em Melilla três vezes e falhou. Viajou para Tânger onde pagou a uma rede ilegal a passagem num frágil bote de borracha até Tarifa.
Longe da família, muda-se para La Línea de la Concepción e consegue emprego num bar. Confessa que “chorava todos os dias”, mas não esperava solidariedade tão grande dos espanhóis. “Fui muito ajudado pelo Eugénio e pelo David, os dois donos do bar onde trabalhei”, revela Modibo. Foram os patrões que ajudaram no processo de legalização que chegou após quatro anos. E foram eles que emprestaram o dinheiro que Modibo não tinha para trazer para Espanha a mulher e os dois filhos.
Hoje, confessa-se um homem feliz. E o brilho nos olhos de Modibo não esconde a felicidade: “Temos comida no frigorífico, não falta o que comer na mesa, nem o que calçar e os meus filhos estão no colégio. Foi para isso que lutei. E se amanhã eles quiserem ir para França ou para outro lugar, só peço que não me esqueçam. Porque eu vou ficar aqui, onde sou feliz.”
MOHAMED MACALOU
Senegal
A boa sorte de não saber nadar impediu Mohamed Macalou, 25 anos, de embarcar na multidão de migrantes que invadiu Ceuta por mar. Por isso, o ‘skater’ senegalês esperou que a fronteira terrestre cedesse e só então correu até à ponte pedonal de Tarajal. Agora, espera como tantos outros que lhe seja dado um destino que pode bem ser o regresso ao sul de Dacar onde vivia com a família. “Na situação em que me encontro agora, rezo para que o povo senegalês e todas as pessoas que aqui estão consigam ficar na cidade e, depois disso, sigam para Espanha para construir um futuro melhor para si próprios e para as futuras gerações”, disse ao suplemento ‘Domingo’. A Península Ibérica, porém, não é o objetivo de Mohamed: “Depois de Espanha, quero ir para Chicago, arranjar um novo emprego, comprar uma casa nova - a casa dos meus sonhos, se Deus quiser - e encontrar a minha alma gémea.” Talvez sejam objetivos ambiciosos para quem pode ser repatriado para o Senegal, por dificilmente reunir os parâmetros exigidos para a atribuição de asilo na Europa.
"Quero ir para Chicago, arranjar um novo emprego, comprar uma casa nova - a casa dos meus sonhos."
Mohamed Macalou
ABDELALI AOULADKASSE
Marrocos
Abdelali Aouladkasse, 29 anos, estudava em Marrocos e trabalhava em “todo o tipo de emprego” quando decidiu mergulhar no Mediterrâneo e aventurar-se até Ceuta. Se é certo, diz o povo, que a esperança será das últimas coisas a morrer, a de Abdelali está meio moribunda. Permanece naquela cidade espanhola no norte de África à espera de um asilo impossível. “O governo de Marrocos quer que voltemos, somos todos marroquinos, mas nós não queremos voltar para Marrocos.” A pedir um asilo que Espanha não dará, Abdelali Aouladkasse explica o risco da travessia a nado e de um regresso talvez ainda mais perigoso. “A vida em África é incrível, faz-nos sofrer muito. Não há trabalho, não há dinheiro, não há muitas coisas”, lamenta.
Se não arriscar chegar à Península numa qualquer embarcação precária, Abdelali voltará à vida difícil em Marrocos onde viverá um sonho europeu adiado. “Eu sei que Espanha mudou a vida de muitos jovens marroquinos e de muitos outros estrangeiros bons que vieram até aqui e é por isso que há tantos a querer vir até cá”, explica de forma, talvez, demasiado ingénua.
"A vida em África é incrível, faz-nos sofrer muito.Não há trabalho, não há dinheiro, não há muitas coisas."
Abdelali Aouladkasse
EBRIMA KONATEH
Gâmbia
Diz que é o único migrante oriundo da Gâmbia na multidão que durante 20 dias permaneceu na praia do Trampolín. Sem lugar digno para dormir ou para a higiene, é o futuro inverno que mais preocupa Ebrima Konateh, 27 anos. “Neste momento, não sabemos de nada. Se nos aceitam, se não”, diz enquanto espera sentado junto à barraca que ergueu na praia. O trajeto até nenhures, conta, não foi simples: “Sacrifiquei muitas coisas para vir para cá. Fui ao Mali, à Argélia e até aqui. Isto representa muita luta e muita dor” para quem só quis fugir da pobreza. “Na Gâmbia não tenho emprego porque temos muitos jovens por lá. Talvez 70% a 80% da população jovem não arranje trabalho”, pelo que rumar a norte até chegar à Europa é uma obsessão com riscos elevados e que nada tem garantido.
"Sacrifiquei muitas coisas para vir para cá."
Ebrima Konateh
Juan José Hernández
UM ESPANHOL COM VISTA PARA A CRISE E CRÍTICAS PARA O GOVERNO
Do terraço da vivenda, onde a água da piscina desmontável permanece parada e o grelhador de churrasco apagado, Juan José Hernández observa a praia do Trampolín, em Ceuta. A outrora zona tranquila viu crescer, neste agosto, um bairro de lata onde milhares de migrantes foram acantonados, sem condições de higiene, sem casas de banho, nem uma refeição por dia. A sobrevivência de uns retirou a liberdade a outros, queixam-se os moradores.
Como é que foi acordar e ver, de um dia para o outro, que a praia junto a sua casa se tinha transformado num bairro de barracas onde os migrantes sobrevivem?
Eu tinha uma vista e uma vida muito tranquilas, com a praia a 50 metros de casa. Desfrutávamos de uma praia muito familiar. E, de um dia para o outro, ficámos sem nada, tiraram-nos o que há de mais importante para qualquer pessoa: a liberdade. Tiraram-nos a liberdade e estamos um pouco deprimidos, cansados e zangados. Uma sensação muito estranha, nunca a tinha sentido. Ninguém tem o direito de me privar da liberdade. É que a nossa Constituição diz isso muito claramente. A liberdade é fundamental; é um direito fundamental que nós, espanhóis, temos.
Como avalia a atuação do Governo espanhol nesta crise humanitária?
A atuação do Governo foi patética, muito lamentável. O Governo espanhol deixou-nos claramente na mão. Sim, é verdade que estamos neste território no continente africano, mas nunca fizemos parte de Marrocos. Nunca! Há cinco séculos que pertencemos a Espanha, somos espanhóis... Se alguém pudesse reivindicar Ceuta, seria Portugal...
A atuação do governo espanhol foi patética.
Juan José Hernández
Marrocos é responsável por esta situação?
Isso está bem claro para todos os habitantes de Ceuta e para todo o Governo. Isto aconteceu porque Marrocos quis que acontecesse. Marrocos, quando quiser, impede a entrada de migrantes ou permite a sua passagem para cá. É assim que Marrocos funciona; é um país ditatorial, é um Estado onde não existem direitos fundamentais e onde as pessoas são utilizadas como se fossem balas. Estas pessoas são as balas de Marrocos. Isto é uma guerra híbrida onde não se estão a usar munições, estão a usar-se pessoas. São seres humanos e eu compreendo que venham à procura de um futuro e tentem melhorar a sua vida. Mas não se pode invadir um país só para tentar melhorar a vida, porque há as pessoas que vivem aqui.
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