Cheira a Verão com vento de crise
Há mais turistas no Algarve mas gastam menos dinheiro. O Sul continua a ser o destino de férias mas com contenção.
Agosto. Para milhares de portugueses (e não só), a palavra liga-se a duas outras: férias e Algarve. A tradição cumpre-se sempre. E também neste 2011, ano de crise. Fazem-se ‘apertos'. Não se come em restaurantes. Aluga-se casa por menos dias. Mas para muitos, o Sul de Portugal continua mesmo a ser o destino. Para todos os estratos sociais. Para todas as idades.
Paulo Gomes, 43 anos, professor, e Isabel Alves, 40, médica dentista, são irmãos. O grupo é grande. Entre pais, respectivos marido e mulher, e filhos. Paulo tem um. Isabel dois. Estão numa casa de família, na zona de Portimão, o que torna as férias mais baratas. Mesmo assim, há atenção nas despesas.
"Somos muito cuidadosos, sobretudo na alimentação, não vamos comer tantas vezes fora", explica Isabel. "Costumamos trazer o lanche de casa e tentamos controlar as crianças com os pedidos de gelados e bolas-de-berlim", acrescenta, no areal da praia do Alvor.
A alimentação é mesmo onde os turistas portugueses no Algarve parecem procurar a poupança. Os restaurantes deixam de fazer parte dos programas regulares. Os extras são geridos com cuidado. E se, à noite, o café podia ser seguido de uma cerveja, um uísque ou um refrigerante, agora, muitas vezes, o café foi substituído por apenas um passeio.
Desde crianças que Carlos, 43 anos, e Susana Magalhães, 41, ambos do Porto, passam férias no Algarve. Ele tornou-se engenheiro agrícola. Ela é professora universitária. Casaram-se e tiveram dois filhos. O Carlos, como o pai, de 12, e o Francisco, de 10. Este ano, voltaram a cumprir a tradição. Mas com ‘cortes'.
"Costumamos ter um orçamento de 4500 euros", explica o pai Carlos, no areal do Ancão, entre a Quinta do Lago e Vale do Lobo, em Loulé. "Este ano sofreu um corte de mais ou menos 20%", concretiza. No caso dos Magalhães, a ‘talhada' mais expressiva foi nos dias de férias, que passaram de 15 para 12.
MAIS GENTE, MENOS LUCRO
"As taxas de ocupação estão melhores do que no ano passado, mas o volume de negócios baixou", resume Elidérico Viegas, presidente da Associação de Hotéis e Empreendimentos Turísticos do Algarve (AHETA). "As pessoas ficam menos dias, gastam menos dinheiro e, além disso, os hotéis baixaram os preços ou oferecem uma série de extras para atrair turistas", diz, numa rápida análise ao Verão 2011. E, ainda na caracterização do Agosto algarvio deste ano, Elidérico Viegas apresenta mais reflexos da crise em Portugal: "Em comparação com 2010, estamos melhor, mas porque aumentaram os turistas estrangeiros, em particular ingleses e espanhóis, porque os portugueses diminuíram."
A subida nas taxas de ocupação, de qualquer forma, é um bom sinal. Apesar de 2010 ter sido o pior dos últimos 15 anos nesta matéria. De acordo com os números do Instituto Nacional de Estatística, divulgados esta semana, desde o início de 2011 até ao final de Junho, o Algarve teve mais 500 mil dormidas em relação ao mesmo período do ano passado. Uma subida de 10,5% para um total de 5,6 milhões de dormidas. E o Verão, apesar de ainda não ter números oficiais, tem confirmado esta tendência positiva.
E, refira-se, estes dados não contabilizam as ‘dormidas ilegais', em casas que se arrendam mas que não estão registadas para tal. Há 100 mil camas declaradamente para turismo na região, mas também há 145 mil casas (750 mil camas) de segunda habitação. Uma grande parte destas serve para arrendar, acreditam as autoridades.
Feitas as contas, esta realidade sempre existiu e, no balanço, a ocupação está a aumentar. Além da redução nos preços, o presidente da AHETA justifica a subida com a instabilidade no Norte de África "e também na Grécia". Reconhece, contudo, que com uma abordagem diferente, o cenário podia até ser muito mais positivo. "O turista tradicional, que adquiria um pacote de viagem, com tudo - avião, hotel e refeições -, está a desaparecer", diz. "Agora, com a internet, as pessoas tratam de tudo por elas, temos de apostar na promoção junto desse mercado", aponta.
DIFERENÇA OU TRADIÇÃO
Numa visão menos global mas igualmente com o objectivo de cativar mais clientes, Luís Pereira, proprietário do Migalhas, em Monte Gordo, apostou na diferença. Com a crise a ameaçar deixar-lhe as cadeiras do restaurante vazias, optou por servir as pessoas de outra forma e criou um ‘take away'.
Assim, chegada a hora do almoço, a fila começa a crescer com veraneantes, na sua maioria portugueses e espanhóis. Como em outros anos. Mas ‘não há bela sem senão', reconhece: "O movimento continua igual, mas o dinheiro na caixa é menos." Reflexo dos necessários cortes, "as pessoas procuram produtos mais baratos, como o frango ou a sardinha", revela Luís Pereira. E mesmo "um frango, por 9,50 €, dá para três pessoas". Vinhos e digestivos, quase não os serve.
Já no Gigi, sobre a praia da Quinta do Lago, uma das zonas mais exclusivas do Algarve, Bernardo Reino não se queixa da crise. Só do calendário. "Dantes, tínhamos Verão de Junho a Setembro, agora vem tudo entre 20 de Julho e 15 de Agosto", descreve. No entanto, nesse curto período garante compensar a "ligeira descida" que notou nos "meses franja". Para o segredo do sucesso, fala na qualidade do principal prato da casa, o peixe, e também na tradição. "Tenho clientes que já cá vêm há três gerações", confidencia. Assim como admite que 90% daqueles que pagam 30 a 40 euros por uma refeição no Gigi "são estrangeiros".
TODAS AS HORAS SÃO BOAS
Não muito longe da Quinta do Lago, na (apesar de tudo) um bom bocado menos exclusivista Vilamoura, jovens, na sua maioria portugueses, começam a juntar-se à volta do No Solo Água, no areal da praia da Falésia. São 17h00 e o Sol ainda vai alto. Os jovens estão com calções e fatos-de-banho. Mas há algo diferente. O No Solo Água está na praia. É um bar. Mas definitivamente não é um ‘bar de praia', no conceito tradicional do termo. E os jovens, de calções e fatos-de-banho, também não estão ali para mergulhos. Pelo menos no mar.
O fenómeno surgiu há três ou quatro anos, consoante a quem se pergunta. Chamam-lhes ‘sunset parties'. Ou, no menos pretensioso português, ‘festas ao pôr-do-sol'. E oferecem tudo aquilo que uma habitual discoteca oferece. Só que ao fim da tarde. Numa qualquer praia. Sim, porque o fenómeno se generalizou. Tornou-se ‘moda'. Eles passam com chapéus, óculos escuros, flores aos pescoço. Elas com paréos, lenços e bugigangas. Nas mãos, garrafas de água, claro, como em qualquer discoteca, e também cervejas, caipirinhas, caipiroscas, morangoscas e outras bebidas com vodka acabadas em ‘osca'.
A música soa alta. De dança. Com direito a DJ. Para dar ‘cor' ao ambiente. Quando a festa atinge o auge, não há espaço para mexer um braço. Só mesmo para falar, ao ouvido, com quem estiver ao lado. E ainda havia quem se risse dos Gato Fedorento quando estes fizeram um sketch em que diziam querer apostar no horário do lusco-fusco...
Mais tradicionais são os clubes de praia, como o Meo Spot Summer (antigo Sasha), na Praia da Rocha, ou o Manta Beach, na Manta Rota. Abrem às horas ‘normais' para uma discoteca, e aqui não há clientes em bermudas e havaianas. As roupas são descontraídas, mas com um ‘toque de noite'. Não se vêem t-shirts de andar por casa ou camisas por passar. Os famosos, a cumprir uma ‘presença' paga ou em genuína diversão, circulam pelas ‘zonas VIP'.
A estas, juntam-se casas, como o Faces, em Vilamoura, o Duna Beach, em Lagos, ou o Sétima Onda, em Albufeira. Discotecas mais ‘clássicas', com pista de dança, luzes às cores e ninguém em tronco nu - à excepção de uma ou outra ocasional bailarina. Mais ‘clássicas' mas não o suficiente, no entender da Associação de Discotecas do Sul e Algarve, que, anualmente, apresenta providências cautelares contra estes espaços, que apenas abrem no Verão. Ao contrário de casas como o T Club, na Quinta do Lago, a Kadoc, em Vilamoura, ou o Capítulo V, em Albufeira. A acusação é de ‘concorrência desleal', pois não têm de suportar o estabelecimento no ano inteiro, não têm as mesmas despesas.
Noutro ‘campeonato', estão os ‘bares de Albufeira'. E com destaque para a avenida Sá Carneiro, na Oura. Notícias de assaltos à parte, a diversão aqui mistura nacionalidades, estratos sociais e sexos. Tudo numa alegre ‘movida' à portuguesa, com inspiração anglo-saxónica (os ingleses estão em maioria), muito regada e ainda mais prolongada. Depois dos bares, há as discotecas, como a ‘eterna' Kiss ou o Wild & Co. E a noite só acaba mesmo quando o Sol nasce.
DESEMPREGO A BAIXAR
No resto do ano, o Algarve ocupa o topo entre os distritos do País com maior taxa de desemprego. Em Agosto, mesmo que continuem a fazer parte dessa negra estatística - pois uma inscrição no Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP) não se anula só por um mês -, muitos encontram um trabalho temporário. Seja num bar ou numa discoteca, a servir bebidas e a levantar copos, numa esplanada a tocar músicas para os turistas, num restaurante a exercitar o inglês técnico da restauração com os clientes ou simplesmente numa praia a vender bolas-de-berlim e fios feitos à mão. Tudo serve para amealhar algum dinheiro para os meses de frio e de poucos turistas.
"Temos de aproveitar nesta altura, as pessoas vêm de férias e estão mais disponíveis para gastar algum dinheiro extra. No resto do ano, muitas vezes, não há emprego", confirma um vendedor de bolas-de-berlim na praia de Santa Eulália, em Albufeira, que não revela o nome porque, como muitos outros, não tem licença para andar a palmilhar a praia com ‘bolinhas' para venda.
Para combater este fenómeno de emprego precário - como a venda sem licença, completamente ilegal -, Polícia Marítima, GNR e ASAE dividem-se em operações de controlo dos vendedores nos areais e fiscalização de estabelecimentos de restauração. Só que a necessidade aguça a audácia. "Mesmo que me apanhem, no dia seguinte volto à praia", garante o citado vendedor. Dá por finda a conversa e sai, areia fora, a gritar "bolinha, bolinha", com sotaque brasileiro. Custam, cada uma, 1,20 euros.
No campo oposto, há os profissionais da hotelaria e turismo. Fizeram formação na área ou simplesmente têm tantos anos de profissão que são verdadeiros catedráticos na matéria. De acordo com a tabela do Gabinete de Estudos e Avaliação do IEFP, um profissional do ‘alojamento e restauração' ganha, em média, 658,2 euros. "Um valor muito mais baixo na maioria dos sectores de actividade económica", reconhece o estudo a que a Domingo teve acesso. É referente ao ano de 2008, mas não terá havido grandes alterações desde essa data.
A vantagem em relação aos ‘outros' são as gorjetas. Que variam na ‘quantidade e qualidade' consoante o estabelecimento, mas ajudam sempre a compor o ordenado. Em muitos casos, são até bem superiores àquilo que o patrão paga no final do mês. O problema é que, chegando Setembro, deixa de ser possível ‘esperar pelo fim do mês'.
"Os contratos para a vida acabaram", sentencia Elidérico Viegas. "A maioria das unidades, no Verão, recorre a contratos de um, dois ou três meses ou, então, a empresas de trabalho temporário", clarifica, referindo-se às unidades hoteleiras. "Há um núcleo duro de funcionários que fazem parte dos quadros, para o ano inteiro, o resto é só mesmo para os meses da época alta", diz ainda o presidente da AHETA.
FÉRIAS DE QUALIDADE
João Guerra, 41 anos, engenheiro, e a mulher, Sara, 33 anos, advogada, brincam na areia com os dois filhos, Salvador, quatro anos, e Francisco, de três [família da foto de capa]. Fazem um castelo com a areia da praia do Ancão. Há cinco anos que o casal, a viver em Lisboa, passa férias no Algarve, na zona da Quinta do Lago. O habitual orçamento para três semanas era de cinco mil euros. Neste 2011 de contenção, "não vai ultrapassar os quatro mil", dizem.
"Geralmente jantávamos, os adultos, quase todos os dias em restaurantes, este ano vamos cortar um bocado". Também para controlar as despesas, João e Sara Guerra prescindiram do toldo na praia. "É mais uma ajuda para baixar o orçamento, optámos pelo guarda-sol", refere João. "Ainda não sentimos tanto a crise como muitos portugueses, mas numa altura destas não convém ter muitos luxos", reconhece Sara.
Na praia de Alvor, em Portimão, Carla Batista, 38 anos, professora, e José Batista, 46 anos, encarregado de exploração pecuária, também brincam com o filho, Eduardo, seis anos. Vieram do Montijo para uma semana de férias. Contam gastar cerca de 1300 euros, "mais ou menos o mesmo do que no ano passado", adiantam. Estão num hotel, que ofereceu, com a estadia, o pequeno-almoço e o jantar, "o que é vantajoso". Ao almoço, na praia, levam sandes e sumos feitos em casa.
Apesar da contenção, o objectivo do casal é "fazer férias com alguma qualidade". E isso passa por "fazer praia com o filho" e, frisam, "sem esquecer a alimentação saudável".
A SUL NADA DE NOVO
O dia chega ao fim. Os Batistas, os Guerras, os Magalhães e os irmãos Paulo e Isabel já deixaram a praia, rumo a casa. Provavelmente é lá que vão jantar. E, depois, à noite, darão um passeio, a pé. E, se o orçamento ainda o permitir, compram um gelado para o filho, bebem um digestivo com o café e, nos últimos dias de férias, talvez ‘arrisquem' desembolsar alguns euros para adquirirem uma qualquer recordação deste Agosto de 2011, no Algarve, além das fotografias guardadas no telemóvel.
O vendedor ilegal de bolas-de-berlim também já se foi embora. Para a pequena casa que divide com a família no ano inteiro. Agora, com o que consegue ganhar com os turistas, a vida está "um bocadinho menos difícil", admitiu, quando falou com a Domingo sobre as ‘vantagens' do Verão para quem está desempregado no Algarve.
No No Solo Água, em Vilamoura, e em tantas outras ‘sunset parties', os jovens, de todas as nacionalidades, dançam e bebem ‘oscas'. Trocam olhares. Trocam palavras. Trocam números de telemóvel. Para combinar para depois. Para depois do lusco-fusco. Depois do banho e do jantar. Já com a roupa com o ‘toque de noite' que se prolongará até ao nascer do Sol.
A ocupação turística está a subir. Há novos mercados, na imensa internet, à espera da aposta dos operadores nacionais. E também há a crise e a necessidade de contenção. E as famílias decididas a gastar menos.
O Sol põe-se, para os lados de Sagres. E o Algarve está cheio. O cheiro é quente, a Verão, embalado pelo vento da crise.
FESTAS APENAS NO MÊS DE ENCHENTE
Se o Algarve era há uns anos destino de férias entre Julho e Setembro, actualmente a grande fatia dos turistas concentra-se entre 15 de Julho e 15 de Agosto. Conscientes disso, a maior parte dos espaços nocturnos que abrem no Algarve apenas para o Verão limita a actividade a esse período.
O normal é abrirem portas no último ou penúltimo fim-de-semana de Julho e, depois, manterem-se a funcionar até ao segundo ou terceiro fim-de-semana de Agosto. É nessas três ou quatro semanas que a maioria das festas, com a presença de ‘famosos', acontece no Algarve.
Da mesma forma, é nessa altura que a região tem maior número de pessoas a passarem férias.
PRAIAS COM ROCHA OU COM FUNDO DE AREIA
As praias são a grande atracção do Algarve. O motivo pelo qual tantas pessoas rumam ao Sul no Verão. Os areais dividem-se em dois grandes grupos: os que têm fundo de areia, entre Vila Real de Santo António e Albufeira (o Sotavento). E as praias com rochas, de Albufeira até Sagres (o Barlavento) e, depois, pela costa Oeste, até Odeceixe (Costa Vicentina).
É nestas praias, rochosas, que existe o perigo de derrocadas, como a que aconteceu na praia Maria Luísa, há dois anos, causando cinco morte. Para evitar nova tragédia, foi colocada sinalização a avisar para o perigo e, no Inverno, foram feitas derrocadas controladas.
Por estarem mais perto do Mediterrâneo, as praias do Sotavento têm uma temperatura da água mais alta. Enquanto no Barlavento e, ainda mais, na Costa Vicentina, as correntes oceânicas baixam a temperatura e tornam o mar ‘mais batido'. É por isso que grande parte dos amantes de surf escolhe a zona de Sagres como destino.
Há ainda as ilhas-barreira, na Ria Formosa, em frente a Tavira, Faro e Olhão. Apenas acessíveis por barco - a ilha de Faro é acessível por ponte mas, na verdade, é um istmo, com ligação a terra na zona do Ancão - as ilhas-barreira servem, como o próprio nome indica, de barreira para o mar. Separam a terra firme do oceano Atlântico, formando a Ria Formosa. Mas, resultado do constante ‘batimento' das correntes, as areias movimentam-se e todos os anos há alterações na morfologia do solo.
BARCOS NA MARINA SÃO CADA VEZ MAIORES
Este ano, a Marina de Vilamoura, a mais emblemática do Algarve, apresentou um projecto para criar 68 novos postos de amarragem - ainda à espera de aprovação. Todos para embarcações de 20 a 40 metros. "Cada vez mais, é essa a procura que temos", diz Isolete Martins, responsável pela marina.
As embarcações mais pequenas estão a ser substituídas pelas de grande porte. Um fenómeno que também levou à redução dos postos de amarragem de 1000 para 825, mas mais amplos. Um barco de 20 metros, na estação alta, paga 81,70 €/ dia, 537,20 €/semana ou 2239 €/mês.
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