‘Ciclone’ volta aos golos nos Açores

Pauleta regressou aos relvados para jogar pelo clube da sua terra. Em São Roque, Pedro é um herói discreto e muito estimado

16 de janeiro de 2011 às 00:00
‘Ciclone’ volta aos golos nos Açores Foto: José António Rodrigues
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O Porshe Cayenne rola devagar pelas ruas estreitas de São Roque. O carro faz-se notar, e não é só por ser uma ‘bomba’ de 90 mil euros. É que o condutor faz questão de apitar de cada vez que vê uma cara conhecida. "Ali vai o Rui Nuno, aquele rapaz é um espectáculo, faz toda a gente rir", explica um tal de Pedro Miguel quando acena a um dos seus conterrâneos.

Ao Pedro Miguel acrescentem-se os apelidos Carreiro Resendes, de 37 anos. Mas o mundo do futebol conhece-o pela alcunha que o pai herdou de uma avó: Pauleta. Os Pauletas são dali, de São Roque, freguesia modesta do concelho de Ponta Delgada, na ilha de São Miguel. Pedro fez fama e fortuna em Espanha e França, mas está de volta à sua terra, onde conheceu a namorada que se tornou esposa e mãe de três filhos. Ele é a vedeta que todos viram na televisão a abrir os braços, como se voasse, após cada golo marcado. Mas ali é o Pauleta, o filho do Manuel Pauleta. Um herói, mas um herói local, que todos podem cumprimentar, abraçar, a quem podem pedir autógrafos.

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Pauleta pára o carro no largo onde jogava à bola quando era miúdo, a pouca distância da casa onde cresceu. "Jogávamos aqui com duas pedras a fazer de baliza, quando a bola ia para o mar era uma chatice, acabava-se o jogo". Mais à frente, junto à escola primária onde estudou, os homens parados à porta do café acenam-lhe e um senhor mais velho, de cerrado sotaque açoriano, vem abraçar o ás da bola: "Eu conheço-o desde que ele era deste tamanho", diz, acenando com a mão pelo joelho.

DE REGRESSO A CASA

Terminada a carreira internacional, Pauleta escolheu regressar aos Açores. Mesmo que tenha saudades da vida de Paris, é ali que se sente bem. "Ao princípio custou muito voltar para aqui. Mas o facto de eu viajar todos os meses para fora ajuda, agora já me habituei", explica Pauleta. E é por amor à terra que volta a calçar as chuteiras e a jogar pelo Grupo Desportivo de São Roque, clube que disputa o campeonato da Associação de Futebol de Ponta Delgada.

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Domingo, Campo de Jogos de São Roque. No relvado sintético, o Grupo Desportivo local recebe o Mira-Mar, da vila da Povoação. Os cerca de 300 espectadores que enchem a bancada estão ali para ver Pauleta a vestir a camisola amarela e os calções azuis. "Treinei duas vezes esta semana, mas a idade já pesa, vamos ver se aguento o jogo todo", diz o ponta-de-lança.

À entrada do recinto, para além do habitual bilhete de dois euros, os espectadores podem comprar uma rifa de um euro, para o sorteio da camisola do São Roque com o nome de Pauleta estampado. O clube não paga ordenados e todas as formas de fazer receita são bem-vindas. "O Pauleta foi a nossa contratação mais cara de sempre. Tivemos de pagar mil euros por ser uma transferência internacional. Mas valeu a pena o investimento", conta Raul Vasconcelos, vice-presidente do clube micaelense.

Pauleta sabe que a sua presença traz receitas ao clube e foi por isso que quis inscrever-se no início da época: "O São Roque faz um trabalho espectacular nas escolas de formação, mas depois não havia seniores para os miúdos continuarem a jogar. Este ano decidiu-se criar a equipa sénior e eu ofereci-me para jogar. Ajudo a criar receitas". Jogou em Setembro – marcou dois golos na partida para a Taça dos Açores – e volta a alinhar para o campeonato. O clube anuncia no site que será "a última oportunidade de ver Pauleta a jogar".

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QUEM SABE NÃO ESQUECE

Os adeptos mais novos do Grupo Desportivo de São Roque são os mais entusiasmados. A claque de duas mulheres e seis crianças grita as palavras de ordem: "Mu mu mu, faz a vaca Mimosa, quem se mete com o São Roque fica cor-de-rosa".

No balneário os jogadores formam um círculo abraçados e gritam o nome do clube. A palestra do treinador Emanuel Ferreira é curta: "Que seja um bom jogo para todos. Divirtam-se e aproveitem ao máximo esta oportunidade". Pauleta usa o número 9, que o acompanhou ao longo de toda a carreira. "Ele é uma pessoa muito simples, não tem exigências nenhumas. Com ele está sempre tudo bem", diz a roupeira Fernanda Cabral, responsável pelos equipamentos do clube.

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Momentos antes do apito inicial, o treinador do Mira-Mar disfarça a preocupação e garante que "não vai haver marcação directa ao Pauleta". Puro engano. O central de marcação Ricardo Medeiros não larga o ‘ciclone dos Açores’ do primeiro ao último minuto, mas não consegue evitar as duas cabeçadas certeiras do ponta-de-lança. Os golos, na primeira e na segunda partes, consolidam a vitória dos de São Roque por 3-0.

"Ele é muito diferente dos avançados que costumo apanhar no campeonato. Tem outra mobilidade, é muito difícil pará-lo", confessa o defesa no final do jogo". Já não é o Pauleta veloz de outros tempos, mas a subtileza com que usa os pés e a cabeça distinguem-no. Os adeptos deliciam-se: "Quem sabe não esquece", comenta um dos dirigentes do São Roque junto ao banco de suplentes.

Terminada a partida, Pauleta está visivelmente cansado, mas feliz. "Isto já custa muito, as pernas são curtas", confessa à Domingo. Mas não sabe dizer se este foi mesmo o último jogo. "Tenho uma agenda muito ocupada, não sei quando poderei voltar a jogar. Tenho muitas saudades, mas agora as prioridades são outras. E o pior é alimentar este bichinho do futebol, porque depois é mais difícil largar tudo".

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À ESPERA DE UM OLHEIRO

Os jogadores da equipa sénior do São Roque, quase todos com idades abaixo dos 22 anos, abraçam o capitão. Vêem em Pauleta um exemplo de que o sonho de fazer carreira no futebol não é, afinal, assim tão impossível. Imerson, o guarda-redes de 19 anos nascido em Cabo Verde, trabalha no restaurante McDonald’s de Ponta Delgada, tal como os médios Ariston e Tiago Oliveira. "Quem me dera ter uma carreira como a do Pauleta. Gostava muito de ser profissional de futebol", diz Imerson, a quem os adeptos e treinadores do clube vaticinam um futuro promissor. "Vai ser difícil segurá-lo na próxima época. E o mesmo acontece com o Ariston", confessa o vice-presidente, Raul Vasconcelos.

Gustavo Furtado e Gaiola, os defesas laterais da equipa, também sonham com voos mais altos, e esperam que a presença de Pauleta possa ajudar a dar-lhes visibilidade. "Pode ser que apareça aí algum olheiro que nos queira levar para outro clube", diz Gaiola, que trabalha como ajudante de electricista.

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Vários jovens do São Roque já foram convidados para estágios em clubes do continente, incluindo o Benfica e o FC Porto. O próprio presidente falhou o jogo de Pauleta em São Roque por estar a ver o filho jogar pelo Braga nesse fim-de-semana. Nunca se sabe quando vai nascer o próximo craque, mas Raul Vasconcelos diz que o principal objectivo das escolas de formação vai muito para além do desporto: "O mais importante é tirar os miúdos da rua. Vivemos numa zona pobre e há situações muito complicadas".

CARREIRA FEITA A PULSO

Foi na rua que Pauleta aprendeu a jogar, mas cedo o talento para o futebol se fez notar. "Sempre foi o melhor jogador de todos nós. Jogávamos sempre que saímos da escola e ele destacava-se. E não tinha a mania, nunca teve soberba", conta António Cagarro, colega de escola primária.

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Na altura não havia campo de futebol em São Roque e Pauleta teve de ir jogar para outros lados. Aos 8 anos começou na Comunidade de Jovens de São Pedro e passou pelo União Micaelense, Santa Clara e Operário. Emanuel Ferreira, treinador dos seniores e coordenador do departamento de futebol do São Roque, jogou com Pedro no Operário, de Lagoa. Lembra exibições memoráveis: "Uma vez, já não sei porquê, o treinador resolveu não meter o Pauleta de início. Ao intervalo estávamos a perder por 3-0 e ele entrou para a segunda parte. Marcou seis golos e ganhámos o jogo por 3-6". Mesmo com 37 anos, Emanuel gostava de contar com ele até ao final da época: "Por mim ele jogava sempre. É um exemplo para todos, dentro e fora de campo".

Na juventude, as brilhantes exibições de Pauleta não ajudavam grande coisa à conta bancária. Pauleta jogava ao fim-de--semana, mas trabalhava de segunda à sexta como motorista numa empresa de distribuição de bens alimentares. Jogou na ilha Terceira, no Angrense, onde teve outro emprego. Quando era juvenil no Santa Clara foi treinar durante 15 dias ao Benfica, mas as saudades de casa fizeram-no voltar à ilha. Depois chegou a ser campeão nacional de juniores pelo FC Porto, mas voltou aos Açores quando lhe propuseram ser emprestado a outro clube. Pauleta só se tornou profissional de futebol quando foi para o Estoril, então na segunda divisão nacional.

O resto do percurso é mais conhecido – do Estoril mudou-se para o Salamanca, depois foi campeão de Espanha pelo Deportivo da Corunha, chegou a França para jogar no Bordéus e tornou-se o ídolo do Paris Saint-Germain, onde o açoriano fez história. Com 109 golos, tornou-se o melhor marcador de todos os tempos e foi eleito o melhor jogador de sempre da equipa onde brilhou em tempos o treinador Artur Jorge.

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Com a camisola de Portugal, o avançado destronou o mítico Eusébio da condição de melhor marcador da Selecção. Pauleta nunca jogou na primeira divisão portuguesa. Um facto que lamenta, mas sem mágoas. "Antes de me retirar chegou a falar-se nessa hipótese, mas não foi possível. Só me chateia não ter um clube por quem torcer, dava jeito ter alguém por quem torcer quando vejo os jogos na televisão", diz entre sorrisos.

ESCOLA PARA 170

O jogador voltou a São Miguel disposto a ajudar os que o rodeiam. Criou a Fundação Pauleta, que tem desenvolvido várias acções de apoio social a jovens desfavorecidos, mas o projecto que mais o entusiasma é a escola de futebol com o seu nome.

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"Temos 170 miúdos a jogar futebol em vários escalões. Para eles é a oportunidade de terem uma vida diferente". Pauleta está ainda ligado ao Turismo dos Açores e ao Paris Saint-Germain, clube do qual é embaixador. "É bom estar ocupado, só me cansa tanta viagem de avião".

PAUSA NO FUTEBOL

Pedro não gosta de dizer ‘nunca’, mas põe, para já, de parte a ideia de ser treinador ou director desportivo. "O que me dava prazer era jogar à bola. Agora é tempo de estar com a família e ver os meus filhos crescer. No futuro, logo se vê". Trocar a cosmopolita Paris por São Roque foi uma mudança drástica para todos. "Não digo que foi fácil, porque gostávamos muito de Paris. Mas quisemos voltar à nossa terra. Sempre vim cá nas férias, nunca fui pessoa de ir para o Algarve".

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Casado com Sandra, namorada de juventude, Pauleta é pai de André, de 14 anos, Daniela, 9, e Sara, de 2. André joga nos iniciados do São Roque e o pai não perde um jogo. No último sábado, os de amarelo e azul ganharam por 7-0 e André assinou quatro golos. Não os suficientes para acalmar o pai, que se levantava da cadeira de cada vez que André apanhava a bola no ataque. "Assim não!", "chuta agora", "bem jogado", gritava da bancada. Pauleta não enjeita um futuro desportivo para o filho, mas sempre avisa que "ainda é muito cedo para se perceber se ele vai vingar". Mas é no campo do São Roque que se reencontra com as coisas simples da vida: "O que me dá mais prazer é sentar-me aqui na bancada, a comer uns amendoins e a ver o meu filho a jogar".

OS PAULETAS, TRÊS GERAÇÕES DE PONTAS-DE-LANÇA

"Eu era 100% melhor do que o Pedro. Não tenha dúvidas. Só que no meu tempo não havia oportunidades de sair, como ele teve. Toda a gente diz que eu era o melhor jogador dos Açores". Fala Manuel Resendes, o Pauleta pai do Pauleta e avô do jovem Pauleta, porque nos Açores o apelido popular que se cola a uma família é mais forte do que o que vem escrito no bilhete de identidade.

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Manuel viu a carreira futebolística ser interrompida pelo serviço militar. Quando voltou ainda jogou em clubes como o União Micaelense, mas nunca saiu das ilhas. Tem pena de não ter sido jogador de futebol, mas fica feliz pelo sucesso do filho, por quem tantas vezes se ralou: "Só percebi que ele ia mesmo vingar como futebolista quando foi para o Estoril. Deixou a escola no 8.º ano, tinha medo de que as coisas não corressem bem".

Pedro tem hoje preocupações semelhantes. O filho, André, de 14 anos, começa a destacar-se como ponta-de-lança e a conversa sobre um futuro no futebol é inevitável. "Vamos ver, ele precisa de ganhar poder físico", diz o pai. Tímido, André não gosta muito de entrevistas. Mas mostra-se bem mais atrevido em campo. "Repare como ele corre, como encara a bola. É igualzinho a mim", diz Pedro Pauleta.

NOTAS

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109

Golos marcados pelo PSG nas cinco temporadas em Paris. Ganhou duas Taças de França.

47

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Golos marcados pela Selecção portuguesa, nos 88 jogos em que participou. Bateu os 41 golos de Eusébio.

ARSENAL

Ingleses queriam-no, mas o Bordéus pediu demasiado dinheiro. Pauleta lamenta não ter jogado "num grande da Europa".

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GRANDES

Foi juvenil no Benfica por 15 dias: "Não aguentei as saudades", explica. No FC Porto foi campeão nacional de juniores mas voltou aos Açores.

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