COMO ABOTOAR UM BOTÃO

Hélder, Teresa e Henrique viram os seus sonhos de juventude desfeitos por trágicos acidentes de viação. Depois deram a cara pela mais inquietante campanha de prevenção rodoviária de que há memória em Portugal.

17 de novembro de 2002 às 19:16
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Numa noite de Agosto, um carro serpenteia numa estrada estreita, mal iluminada e coberta por caruma de pinheiros, próxima de Abrantes. No interior vão quatro amigos. O condutor não consegue controlar o veículo numa curva mais apertada e sai do asfalto. O carro bate nos pinheiros e capota por um enorme desfiladeiro que termina nas águas frias do rio Zêzere. Fica completamente destruído. Hélder Mestre parte o pescoço. Ia no banco de trás. Tinha 19 anos e era atleta de meio-fundo no Benfica.

“Os portugueses são maus condutores. São malucos! Estúpidos, bacocos. E o mau estado das estradas não pode servir de desculpa para o elevado número de acidentes”, diz hoje. Apesar das palavras amargas, Hélder, que aparenta um ar mais novo do que os 35 anos que tem, fala pausadamente e com um sorriso nos lábios. Ele foi a primeira pessoa a dar a cara pela campanha-choque de prevenção rodoviária da PRP e da DGV, emitida ao longo do último ano. Quem se esquece dos intermináveis dois minutos que leva a abotoar a sua camisa, no anúncio que começou a ir para o ar no último Natal?

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“Se eu quisesse assassinar um indivíduo, não iria comprar uma arma. O ideal seria atropelá-lo fora da passadeira. Assim não seria punido pelos tribunais”, ironiza Hélder. O infor- mático não esconde que andar de cadeira de rodas lhe desagrada. “Mas não vivo triste com a situação”, afirma sem dramatismos lamechas.

Hoje, trabalha na Câmara Municipal de Lisboa, onde se sente “perfeitamente realizado”. Paralelamen-te, voltou a participar em competições desportivas. “Num ‘meeting’ em Sevilha fiz os mínimos olímpicos na maratona, mas estranhamente não me convidaram para estes Jogos Paralímpicos.”

A vida de Hélder, no entanto, continua a correr a 100 km/h, apesar das vicissitudes. “Vejo por aí tanta pessoa sedentária, que passa o dia sentada numa cadeira. Ah! Se fosse eu…”, suspira.

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A CURVA DE TERESA

Chove intensamente na noite de Santo António. Um carro desce com alguma velocidade a Marginal de Cascais. Ao fazer a apertada e malfadada “curva do Mónaco”, próxima de Caxias, o condutor mete o pé ao travão e as rodas bloqueiam. O veículo perde a direcção, passa para a outra faixa de rodagem e acaba por ir parar às águas do Tejo.

Dez anos passados, Teresa Sousa, 33 anos, recorda essa noite que mudou o resto da sua vida com um brilho nos olhos: “Foi um acidente estúpido como qualquer outro. Ninguém teve a culpa”. Ela ia no banco do “pendura”. E, apesar de viver no mesmo concelho que Hélder, apenas tem uma coisa em comum com ele: a paralisia.

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Muita coisa mudou desde então. Alguns dos seus sonhos foram adiados, outros postos completamente de parte. Mesmo assim, não teria agido de maneira diferente se soubesse que aos 23 anos ficaria para sempre sentada numa cadeira de rodas, sem poder mexer as mãos. “Fiz tudo o que queira. Não me arrependo de nada”, garante.

É com esta filosofia que encara cada dia que desponta. Teresa vai todos os dias trabalhar para uma firma de contabilidade e gestão em Miraflores. “O mercado de emprego está fechado a deficientes físicos. Existe o preconceito de que ‘se é deficiente não faz nada’. Mas as pessoas esquecem-se de que a componente mental está activa a cem por cento”, sublinha. Para ela, “seria um tormento” estar fechada em casa sem nada para fazer, como acontece com muitos outros tetraplégicos.

Há um ano, Teresa foi igualmente convidada para participar na campanha de prevenção rodoviária. “Fui apanhada de surpresa”, conta. Hoje, não tem dúvidas de que a projecção mediática foi bastante forte, sensibilizando muita gente. “O problema é que, quando os portugueses entram nos seus carros, transformam-se e acabam por esquecer-se de que, quanto mais depressa, mais devagar”. As estatísticas não mentem. “Durante o período em que a campanha esteve no ar, aumentaram as mortes nas estradas”, lembra Teresa. E a culpa é de quem? “As estradas principais são cada vez melhores e os carros mais seguros. Por isso, acho que são os portugueses que conduzem mal”, explica. Além disso, Teresa considera os portugueses demasiado comodistas. “Preferem viajar confortavelmente no seu carro, a ouvir música, em vez de irem num comboio cheio de gente.”

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A TRAVAGEM DE HENRIQUE

Um veículo segue por uma estrada secundária do Bombarral. Ao avistar outro carro a sair de uma garagem, o condutor assusta-se e trava bruscamente. Resultado: perde o controlo do veículo e despista-se. “Foi uma estupidez minha”, recorda Henrique Figueiras, passados 14 anos.

“Percebi que algo de grave me acontecera quando deixei de sentir as pernas”, recorda. O programador informático, de 34 anos, critica hoje a intervenção do 112 após o acidente. “As pessoas deveriam ser assistidas com mais cuidado. Se tivesse ido deitado numa maca apropriada, não diria que hoje estivesse a andar, mas acredito que estaria em melhor situação física.” No hospital, começou logo a reavaliar a sua vida. Na altura, trabalhava em contabilidade, mas descobriu que a informática poderia ser uma boa solução. “Acabei por não ficar muito triste com a mudança de profissão”, explica.

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Actualmente, viaja todos os fins-de-semana ao volante do seu carro até à terra natal, o Bombarral, onde “o cheiro da uva anda no ar”. “Continuo a conduzir. Mas vejo cada coisa na estrada…”, diz.

Para ele é muito triste constatar que o anúncio da PRP não surtiu qualquer efeito, uma vez que os acidentes rodoviários não diminuíram. “Pelo contrário, parecem ter aumentado”, lamenta. A campanha, essa, parece ter morrido à nascença. “Como é costume neste País, o dinheiro falta para estas coisas. Vem aí o Natal e não há nada no ar. É triste.” Aos condutores portugueses, Henrique deixa uma mensagem irónica: “Passem pelo Centro de Reabilitação de Alcoitão, onde eu estive durante cinco meses.” Lá poderão ver um espectáculo de “pernas, joelhos, braços, costelas e bacias partidas”. Π

Campanha inquietante

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Diogo Anahory, criativo da BBDO Portugal (empresa de publicidade), e José Carlos Bomtempo, director de arte, foram dois dos cérebros da campanha de prevenção rodoviária promovida pela Direcção-Geral de Viação (DGV) e Prevenção Rodoviária Portuguesa (PRP), que teve início em Dezembro de 2001. Durante um ano, chocaram o País com imagens de paralíticos tentando, com enormes dificuldades, abotoar um botão ou abrir uma carta.

“Pela primeira vez recorreu-se em Portugal a vítimas reais de acidentes”, afirmam os jovens criativos, que foram buscar inspiração aos anúncios ingleses. “Não vale a pena estarmos com falinhas mansas, porque as pessoas estão-se a ‘marimbar’ para o assunto. Elas pensam que os acidentes são algo que apenas acontece aos outros. Ao mostrar estes casos reais, estamos a fazer com que a pessoa que está a ver o anúncio pense: ‘Este tipo que está sentado na cadeira de rodas poderia ser eu’.”

Os publicitários recorreram a uma produtora, que contactou pessoas do Centro de Reabilitação de Alcoitão. Assim surgiram as histórias de Hélder, Teresa, Henrique, Salvador e Rosa, as vítimas de acidentes que, ao som de Aimée Mann (autora da banda sonora do filme ‘Magnólia’), executavam com extraordinária dificuldade as tarefas mais banais do dia-a-dia.

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Mas, apesar de comoventes e crus, Anahory e Bomtempo não consideram os anúncios chocantes. “É, antes, um anúncio de sensibilização. Para ser um anúncio-choque teríamos filmado o resultado de um acidente de viação real.”. Como acontece na Grã-Bretanha, aliás, onde “há uma brigada de repórteres que, em acordo com a Polícia e os bombeiros, são alertados de cada vez que há um grande acidente e filmam-nos. Mostram a hora a que ele se deu, onde e quem esteve envolvido, etc. A frase final é: ‘Veja se não é o próximo’.”

Em Portugal, um dia será também possível fazerem-se anúncios desses? “Sim. A publicidade deve usar todos os meios possíveis para contribuir para a diminuição dos acidentes. Nós somos uma peça importante no puzzle”.

A dupla só tem pena de que, apesar do “feedback” da campanha, continuem a existir tantos acidentes. “As pessoas podem ficar a pensar naquilo durante meia-hora, mas depois entram no carro e ficam alteradas.” Por outro lado, consideram que a campanha poderia ter ido mais longe: “A DGV poderia ter apostado mais nela.”

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995

É o número de vítimas mortais em acidentes de viação apenas entre o período de Janeiro e Agosto deste ano (538 são condutores, 217 passageiros e 192 peões)

4

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É o número de pessoas que, em média, morrem por dia nas estradas portuguesas (13 ficam gravemente feridas e 160 têm de receber cuidados hospitalares)

250

É o número de homens que morrem em acidentes rodoviários por cada mulher

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condutora falecida

157

É o número de mortos registados apenas no mês de Julho, o que até

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agora faz deste mês o mais dramático do ano

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