COMO O SILVEIRA SE TORNOU EMPRESÁRIO DO CAFÉ

Manuel Silveira herdou do pai, contrabandista, a paixão pelo café. Por isso, criou uma torrefacção em Campo Maior – ao lado do primo, o dono da Delta

07 de março de 2004 às 00:00
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Campo Maior tem uma face menos conhecida do que a da Festa do Povo, celebrada com flores de papel. É a do crescimento sustentado pela torrefacção do café. O seu contrabando para Espanha terminou pouco antes do 25 de Abril mas forjou a história do sucesso de uma família, hoje muito alargada, cujos nomes dos herdeiros - Silveira e Nabeiro - se confundem com os das marcas Delta, Silveira e Camelo.

Manuel Nabeiro Silveira, fundador da Silveira Cafés, tinha catorze anos quando percebeu como é que as pessoas viviam em Campo Maior, terra da raia, Badajoz à vista. “Era uma vila que vivia à base da agricultura, que era uma coisa precária. Trabalhava-se muito e ganhava-se pouco. Os mais ambiciosos metiam-se no contrabando do café cru, que levavam para Espanha. De lá traziam produtos como a bombazina. Isso apesar de correrem o risco de serem surpreendidos pelos carabineiros.”

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A vida a monte António Vitorino Silveira, o pai de Manuel, também trabalhava no campo antes de se “meter no contrabando” com o cunhado, Joaquim dos Santos Nabeiro.

Foi o tempo em que “o meu pai e o meu tio levavam o café às costas para Espanha”. Quinze anos depois já tinham cinco ou seis assalariados que, à noite, cruzavam a fronteira - a política e a do medo - guardada pelos carabineiros com ordens para disparar.

Arriscava-se a vida para contrabandear o café cru que vinha das então colónias portuguesas e que depois os espanhóis torravam à sua maneira. Silveira conta que foi o tio, “que tinha tanto de louco como de imaginativo”, quem descobriu uma maneira de torrefazer o café à espanhola. Substituiu o acúçar, que na altura era racionado, por rebuçados de alfarroba e foi assim que a Camelo começou a vender para Espanha o café já transformado.

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A guerra civil espanhola potenciou o contrabando de produtos alimentares. Embora o comércio feito na raia por portugueses fosse uma fonte de receitas relevante, o Estado Novo teve de divulgar, em Novembro de 1936, um aviso às autoridades fronteiriças que os espanhóis iam 'endurecer' a vigilância. A notícia chegara por via do cônsul português em Badajoz pois, em edital no jornal 'Hoy', o poder militar nacionalista regulador da vida na cidade alertava todos que cometessem actos ilegais de contrabando, fraude e exportação de capitais e que fossem vistos a passar a fronteira que “seriam alvejados sem qualquer tipo de contemplação”.

As referências em documentos oficiais portugueses a feridos por carabineiros são numerosas. De tal modo que o governo de Salazar, a 5 de Agosto de 1937, solicitou ao cônsul que fizesse sentir o desagrado pela forma de tratamento, rigorosa e violenta, aos suspeitos de contrabando. Tal não obstou, porém, segundo o testemunho de Manuel Silveira, que a Guarda Fiscal portuguesa apertasse a vigilância. “Os contrabandistas também eram presos em Portugal. E o café era apreendido. A Guarda Fiscal proibia os portugueses de levar o café para Espanha para obrigar os homens a trabalhar na agricultura onde os ordenados eram de miséria. O meu pai, antes de tornar-se contrabandista, ganhava quatro ou cinco escudos por dia”.

Futebol e café Filho de contrabandista, Manuel Silveira recorreu a este ‘engenho’ para criar a torrefacção homónima. Depois do ensino primário ainda foi aprendiz de carpinteiro e trabalhou na torrefacção Camelo, fundada pelo pai e pelos tios Joaquim e Manuel Nabeiro, o pai de Rui Nabeiro, o qual posteriormente criou a Delta. De Reguengos de Monsaraz a Barrancos era ele quem, numa carrinha Ford, fazia a distribuição do café no Alentejo. “Nessa altura além do contrabando, a Camelo vendia ao comércio que por sua vez vendia ao contrabandista.”

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Entretanto o jeito com a bola levou-o até à Luz, onde, de 1953 a 1956, foi contemporâneo de José Águas e de Coluna no Benfica. “Quando tinha 18 anos fui treinar com o Sporting mas o meu pai não me deixou ficar em Lisboa. Vim para Elvas, para a tropa, durante dois anos mas quando acabou o campeonato militar fui jogar para o Benfica.” Jogava à defesa mas diz que nunca foi grande jogador. Os encarnados tinham outro brilho então, treinados por Valledeviezo e o Otto Glória mas, quando uma infecção muscular grave pôs um ponto final no sonho de chegar a titular da equipa principal, regressou a Campo Maior. Casado há um ano tinha de ganhar a vida e, apesar da Camelo já ter então uma grande dimensão, quis lançar o seu próprio negócio.

“A coisa saiu-me bem. Comecei com um homem, o Artur Terroa. O meu pai comprou-me um torrador pequenino, de 15 kg, manual, e deu-me seis sacos de café e uns sacos de chicória e cevada. Aos poucos fomos crescendo.”

Um crescimento assente no mercado espanhol e no contrabando está bem de ver.

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Uma das três filhas do empresário, Manuela Silveira, lembra: “Quando era gaiata, se o telefone não tocava à noite, lembro-me de ouvir o meu pai dizer: “Já está tudo estragado”. Ele tinha homens a quem levava os sacos de café junto à ribeira. Eles, às tantas da manhã, passavam a ribeira e iam para Espanha. Quando chegavam, se a carga tivesse sido entregue, telefonavam a avisar. Se não telefonavam é porque tinham sido apanhados.”

Manuel Silveira surpreende-se hoje a recordar, divertido, desfechos burlescos de momentos de aflição antiga. “Trabalhei muitas vezes para os espanhóis. Levávamos as cargas de café até à fronteira. Daí eles apanhavam as cargas enquanto nós ficávamos nos carros. Uma noite, às duas ou três da manhã, começou a chover torrencialmente. Fiquei com o carro atascado e tive de tirá-lo com a ajuda das sacas de juta. Só quando me montei no carro e comecei a conduzir é que percebi que tinha lá deixado os sapatos.”

União familiar faz a força Em 1988, a Silveira Cafés tinha sete funcionários. Agora tem 42, entre os quais se contam alguns filhos e genros de Manuel Silveira. Do período do contrabando ficaram os clientes na Extremadura espanhola, o mercado mais importante da Silveira Cafés. A expansão no mercado francês, suíço, luxemburguês e inglês está em marcha, através do investimento em agentes locais. Quanto ao mercado nacional “o que mais nos interessa - assume António João, o primogénito -, estamos a crescer devagar”.

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Este crescimento traduziu-se na compra directa do café aos produtores - em vez de o fazerem à Delta ou à Camelo, como outrora - e na construção de uma fábrica nova em 1995. O logótipo da empresa - uma camponesa alentejana montada a cavalo - foi redesenhado nessa altura. Veio substituir outro, inspirado num calendário com uma amazona venezuelana, que era de um colega de Silveira dos tempos do futebol. “De tanto ser reproduzido o desenho do cavalo já parecia o de um burro!”

Começa também a sublinhar-se a demarcação da Delta, com quem foram confundidos muitos anos, dado o parentesco entre os respectivos fundadores e a origem da Camelo.

A família é, porém, um elemento chave no êxito dos Silveira. António João afirma: “Fazemos a cultura familiar da empresa. Somos sócios fundadores da Associação das Empresas Familiares. Ás vezes andamos às turras. Mas unimo-nos para trabalhar mais senão vamos todos ao fundo”.

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Com 71 anos, Manuel Silveira, não quer ouvir falar em deixar de trabalhar. A fábrica é ele quem a abre, diariamente, às sete da manhã. Os fins-de-semana passa-

-os a pescar ou na caça, quando é tempo de pombos e tordos. “A vida para mim tem sido boa. Vivo satisfeito com o que tenho.”

NA RAIA DA LIBERDADE

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Presos, perto de Madrid, com uma carga pequena de café cru, António Vitorino Silveira e Joaquim dos Santos Nabeiro estavam na Carcel Model, quando estalou a guerra civil espanhola. Cumpridos sete meses da pena de dois anos, as tropas do governo, minoritárias, abriram-lhes as portas. Nas memórias de António Silveira consta: “Como muitas prisões eram destruídas ou foram incendiadas deram-

-nos a escolher. Ou lutávamos por eles ou morríamos. Então nós, para não morrermos como ratos ali na cela, optámos por combater.”

A capital permaneceu republicana e nove dias após a libertação os contrabandistas embarcaram, em Alicante, no navio de guerra 'Mouzinho da Silveira'. Quando chegaram a Lisboa foram detidos pela PVDE. De fato novo, Joaquim Nabeiro foi libertado quando explicou porque estivera preso, mas Silveira que não tinha outra roupa senão a farda das milícias republicanas, aguentou alguns dias de detenção. Negou ter combatido ao lado dos republicanos e voltou para Campo Maior avisado que lá encontraria “um indivíduo bom” à sua espera. Tratava-se do famoso Seixas que o advertiu: “Você deve ter passado por muito e se não quer sofrer mais é ter cuidado com a língua.”

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Em Outubro de 1936, abriu a inscrição de cidadãos na Legião Portuguesa, recém-

-criada para combater o anarquismo e o comunismo. “Fomo-nos apercebendo que tinham formado um cordão aqui na fronteira. O meu cunhado meteu-se na Legião (Portuguesa) para obter um passaporte e assim poder passar a fronteira mais facilmente.”

Quando uma denúncia pôs Joaquim Nabeiro na prisão, em Badajoz, o companheiro de aventuras fez-se ao caminho, a visitá-lo. De regresso foi surpreendido pelos carabineiros e reconhecido como um dos prisioneiros de Madrid. Não acreditaram que estivesse em Portugal desde há dois meses e o comandante anunciou-lhe que, de acordo com as ordens superiores, seria fuzilado. Foi a piedade dos carabineiros que, desta vez, o resgatou da morte certa e conduziu à liberdade pela porta traseira da prisão, por onde dois soldados o fizeram escapar.

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