Como se aumenta a auto-estima

O aumento do peito começa a montante do procedimento médico, em laboratórios assépticos onde os moldes são virados do avesso, sovados, para testar a resistência. Um negócio muito lucrativo que move milhões no mundo.

26 de julho de 2009 às 00:00
Como se aumenta a auto-estima Foto: d.r.
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O material de que se enche a auto-estima feminina produz-se numa linha de montagem com tecnologia avançada na área metropolitana de Paris e é distribuído para o Mundo depois de habilitado a prosseguir viagem. Produz-se em vários outros locais do Planeta, noutras linhas de montagem, segurado por mãos que vestem as mesmas batas brancas ou azuis.

É totalmente controlado pelas mãos do Homem, embora conte com a ajuda de complexos engenhos que fariam corar muitas outras indústrias. Todos os implantes mamários que diariamente saem da francesa Eurosilicone, a terceira marca no ranking mundial do segmento, presente numa centena de países, têm um lote e um número de série tatuados a laser que permitem controlar o percurso dos implantes na sua vida lá fora. A ideia não é, de todo, perceber se preferem a praia ou a piscina depois de encontrarem um corpo que os hospede ou o soutien que recolhe preferências. Este ‘bilhete de identidade’ do implante de silicone serve apenas como uma segurança para a paciente que o coloca: 'Em qualquer parte do Mundo se sabe de onde vêm, quem os colocou e em que data.' Mas isso faz parte do final da viagem das próteses, quase um baile de finalistas lá do sítio, onde só chegam à meta aquelas que até então provaram ser merecedoras do estatuto.

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'Em cada 100 próteses que fazemos, 40 são desperdiçadas, fazemos uma alta selecção do produto.' Já se viu que nada é deixado ao acaso na indústria da estética que nasceu há quarenta anos num berço dos anos sessenta. Quanto à Eurosilicone, trabalha há vinte 'em constante pesquisa e desenvolvimento', sempre de olho na perfeição dos implantes e na melhoria da sua performance antes e depois de migrarem para o corpo humano. À primeira vista, a fábrica onde se tecem estes delicados modelos pode parecer um edifício industrial de toques vanguardistas mas a grande surpresa, para quem não se move nestas lides, fica mesmo reservada para o interior do espaço onde 150 operadores especializados trabalham a matéria-prima e a transformam numa prótese à prova de qualquer teste – alguns exames são tão puxados que levariam aos nervos qualquer peça de automóvel em época de provas. É num ‘clean room’, assim chamado em alusão à limpeza e desinfecção extrema do espaço, onde desfilam as batas brancas esterilizadas, que todo o processo acontece. São seis as grandes fases necessárias até o implante sair graciosamente das mãos dos funcionários para o corpo das mulheres e homens, dependendo do tipo de prótese e do local a que se destina. Há os faciais, os do corpo – mama, glúteos, gémeos e testículos –, os expansores mamários (para reconstrução pós-mastectomia) e os personalizáveis. No caso dos implantes mamários, líderes na preferência dos portugueses – e que nos últimos meses têm mesmo conseguido superar a lipoaspiração –, existem duas texturas: a lisa e a texturizada, sendo que em Portugal apenas se comercializa esta última, 'por ter menos complicações'. E complicações é coisa que não convém. Tanto o é que um funcionário, para estar qualificado a mergulhar as próteses, ou seja, a ser mergulhador, tem de ter um ano de formação na matéria para não meter (literalmente) água. Quanto aos volumes, o lote é extenso e apto para vestir os mais variados gostos e necessidades: na Eurosilicone o tamanho 'varia entre os 100 mililitros e os 2000'. Dimensões superiores só mesmo através de uma encomenda, que, ao contrário das que se acumulam nos CTT, não virá num envelope com franquia paga. Os mililitros em causa exigem todo o cuidado no transporte. Recorde-se os mais esquecidos das idas lições de escola que o mililitro é uma unidade de volume equivalente a um milésimo de litro e a um centímetro cúbico. Por cá, a tendência aritmética tem vindo sempre a somar, como revela o cirurgião plástico Ângelo Rebelo. 'Há modas do tipo de peito escolhido em relação ao tamanho da mama. Se há uns anos 200, 220 mililitros, era o tamanho mais escolhido, a média hoje em dia situa--se nos 280 mililitros', o que equivale 'mais ou menos' a um 36B. A correspondência ao número de soutien é que já não é tão milimétrica quanto a quantidade que enche as próteses.

'O mais correcto é medir em volume, porque o número de soutien é mais subjectivo: tenho clientes que vêm com uma ideia bem definida de que querem um 36, por exemplo, ou um 38, e muitas vezes acabam por não escolher a ideia que traziam mas aquele que identificaram como seu durante as provas dos moldes'. Só não se pense que a cirurgia estética é capaz de alterar a forma da mama que as mulheres têm de base. Milagres não se praticam nos consultórios nem nas marquesas de hospital. 'Nem a forma, nem o posicionamento; se as pessoas têm a mama muito afastada, ela vai continuar afastada, embora se note menos por causa do aumento', continua o cirurgião, que actualmente usa única e exclusivamente o gel coesivo de silicone. 'É vitalício e seguro, não é impeditivo de engravidar ou de dar de mamar.' Quanto às formas, há-as redondas e em forma de pêra, mas Ângelo Rebelo só trabalha com as primeiras. 'São as que dão um ar mais natural à mama.' Dentro da categoria encaixam quatro perfis principais: muito alto, alto, médio e baixo. O alto, 'apropriado para uma mama que precisa de enchimento e tem muita pele', é o mais utilizado para os soutiens lusos.

576 MODELOS NUM LABORATÓRIO

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Em Dieburg, na Alemanha, o maior volume produzido, dos 576 tipos de implantes que nascem no laboratório, tem uma base de 16,1 x 18,6 centímetros e 940 mililitros. A empresa de onde saem as próteses mamárias, a Polytech Health & Aesthetics, começou por ser um distribuidor de implantes produzidos nos EUA mas a partir de 1992 começou a ter produção própria, de implantes texturizados e de implantes de micropoliuretano. A firma, com actividade em 50 países, controla actualmente todo o processo, 'que engloba na totalidade cerca de 30 fases, maioritariamente executadas manualmente e que demoram entre 8 a 14 dias'. A pressa é inimiga da perfeição dos implantes, por isso o cuidado é a alma do negócio no sector. Nas duas salas limpas das instalações do 'complexo equipado com tecnologia state-of-the-art' (tecnologia de ponta) empenham-se dois terços dos 100 funcionários que a empresa emprega e que tratam o silicone por tu. A cadeia de procedimentos é tão extensa que faz fila para entrar. 'A produção começa com a criação da membrana externa, composta por várias camadas de elastómero de silicone. Cada camada tem de secar antes de a próxima ser aplicada. No final, esta membrana é vulcanizada ou entrecruzada a cerca de 150º C e posteriormente medida e sujeita a um controlo de qualidade antes de ser inscrito o lote.'

Depois de fechada a membrana, é feito o enchimento com gel de silicone e, quando concluído, o 'implante é novamente vulcanizado, para que o gel adquira estabilidade'. Os passos não terminam aqui e segue-se novo controlo de qualidade através de testes à elasticidade e a esterilização por calor, sendo depois embalados esterilmente em embalagem dupla de plástico rígido. Ao fim deste longo caminho está-lhe finalmente reservado o merecido descanso, gozado durante os sete dias de quarentena obrigatória – 'até a esterilidade ser comprovada por um instituto médico independente'. Não há sol que sempre dure e as próteses regressam ao trabalho na Polytech Health & Aesthetic e aos testes finais antes de seguirem para as caixas de cartão em que são comercializadas. Quando prontas, é difícil imaginar como tudo começou, com a matéria-prima a chegar virgem às fábricas, à espera de mãos que a trabalhem. As que enchem os implantes produzidos pela francesa Eurosilicone fazem uma viagem longa – a matéria é importada de Santa Barbara, nos EUA. E que matéria-prima é esta que enche alguns soutiens? É a mesma com que se trabalha em áreas tão distantes da cirurgia como a electrónica e a aeronáutica – o silicone é utilizado em mais de 5000 produtos, o que lhe confere uma elevada responsabilidade.

Obtém-se a partir do cristal de rocha de quartzo, um produto inorgânico, inodoro, insípido, incolor e inerte, altamente resistente a temperaturas extremas, aos ultra- violeta, água ou agentes oxidantes. Os polímeros de silicone são formados por um núcleo de silício e oxigénio, podendo ser sintetizados numa grande variedade de propriedades, composições e consistências – pode ser líquido, gel, plástico ou borracha. Apesar do nome difícil, o silício é o segundo elemento mais abundante no planeta Terra, aquele que aparece na argila, no feldspato, no granito, no quartzo e na areia. O produto existirá desde que o Mundo é Mundo mas a evolução da área tem sido constante. 'As próteses que eram utilizadas ao início eram fracas, rompiam com facilidade e o silicone era líquido, por isso tinha tendência a perder volume ao fim de uns anos.' Volume não tem perdido esta indústria, nem mesmo em tempo de crise, ainda que a rondar os 5000 e os 7500 euros. E não, o preço não varia com o tamanho. A auto-estima é que, se calhar, sim.

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MAFALDA TEIXEIRA E A PROPORÇÃO

'Era uma vontade antiga. Não foi difícil escolher o tamanho porque queria o mais proporcional possível', diz a actriz Mafalda Teixeira, acrescentando não se recordar do volume então escolhido. Sobre a sensação pós-cirurgia, conta: 'É tudo uma questão de hábito, principalmente quando queremos muito.'

JOANA ALVARENGA E O NATURAL

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'Escolhi o implante de 190 ml em conjunto com o cirurgião e só mesmo no dia da operação optámos pelo ideal; estávamos indecisos entre os 190 e os 220', recorda a actriz Joana Alvarenga, que desde a operação se sente 'mais bonita e mais confiante, sobretudo para andar de biquíni e de lingerie'.

SARA KOSTOV E O CONSELHO

'Não foi difícil decidir-me a fazer a cirurgia', começa por contar Sara Kostov. 'Primeiro estranha-se e depois entranha-se.' 'Quanto a escolher o tamanho, entreguei-me nas mãos do meu médico e ele ajudou-me. Subi um tamanho, acho que coloquei à volta de 200 ml. Valeu a pena, senti-me mais confiante.'

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"ÀS VEZES QUEREM PÔR O TAMANHO DA AMIGA QUE JÁ FEZ": Entrevista a Ângelo Rebelo tem 56 anos e é cirurgião plástico

A moda dos implantes não somente continua como tem aumentado. Como explica?

Antes víamos que nas passerelles as manequins não tinham peito nenhum e agora vê-se algumas com o peito bastante razoável. Tem a ver também com o tipo de vestuário que se vai fazendo. E porque, apesar de tudo, a mama é sempre a mama, faz parte dos caracteres femininos e todas as mulheres gostam de ter mama. E antes as pessoas não estavam muito bem informadas. As mulheres trabalham imenso e não podem ficar oito ou 15 dias sem trabalhar, que era o que acontecia quando havia pós- -operatórios horríveis e limitativos depois da cirurgia de implante.

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Agora podem ir trabalhar no dia seguinte.

Sim, a única profissão em que não se pode é a de stripper, porque têm de se expor fisicamente. Mas já tive pacientes que vão trabalhar e maquilham os adesivos para disfarçar. Mas não há dores e o pós-operatório é muito bem tolerado.

As pessoas pedem para imitar o peito de alguma figura pública?

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É raro mas já tem acontecido. E isso é uma coisa que não é possível, se não era como a ovelhinha Dolly; não vamos pôr as maminhas iguais a toda a gente, cada pessoa tem as suas características pessoais. Às vezes as pacientes querem pôr o tamanho da amiga que já fez – mas o resultado é diferente de pessoa para pessoa.

O LADO DE DENTRO E O DE FORA

"Externamente, a constituição de um implante passa por três camadas com diferentes propriedades físicas. Cada tipo tem vários banhos, de forma a conseguir-se a espessura apropriada do elastómero. Para finalizar, cada implante tem ainda uma última camada, que será a que é submetida a texturização, para ficar mais rugosa", explica a Eurosilicone, empresa francesa com distribuidor em Portugal. A nível interno, outros procedimentos se passam: "O envelope é preenchido de gel de silicone altamente coesivo que, caso a prótese rebente, não se espalha pelo corpo." Todos os procedimentos exigem tecnologia avançada de execução.

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PASSO 1: PREPARAÇÃO RIGOROSA

Numa primeira fase é feita uma preparação rigorosa dos moldes metálicos, o formato e o volume dos implantes. Esta fase é muito importante e determina o sucesso de todas as operações que se vão seguir até chegar ao modelo final.

PASSO 2 - SUMERSÃO DO MOLDE

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Na segunda fase, a submersão do molde metálico. É necessário repetir este processo para produzir as três camadas de silicone que constituem o revestimento de elastómero do implante – cada camada corresponde a um tipo de silicone.

PASSO 3: TEXTURIZAÇÃO DA CAMADA

Na terceira fase deste processo, é indispensável proceder-se à texturização da última camada de elastómero do envelope do implante – de modo a que esta fique rugosa.

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PASSO 4: PREENCHER O ENVELOPE

Chega a altura do preenchimento do envelope com o gel coesivo de silicone – caso haja uma ruptura de prótese, o gel não migra pelo corpo porque não está líquido. Há várias consistências: suave, natural e forte.

PASSO 5: INDETIFICAÇÃO DA PRÓTESE

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Quando chega a fase da identificação da prótese é sinal de que o processo está quase concluído. Todos têm um lote e um número de série tatuado a laser, para um futuro controlo total.

PASSO 6: ESTERILIZAÇÃO FINAL

A esterilização e o empacotamento da prótese, antes de ser distribuída pelo Mundo, são os últimos procedimentos a ter em conta no processo de produção dos implantes.

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A GRANDE PROVA DOS 9

Durante todo o processo de fabrico não faltam os mais variados testes para comprovar a resistência dos implantes de silicone e a coesividade do seu gel. Só saem da fábrica aqueles que garantam a máxima segurança aos cirurgiões e às pacientes. Todos os processos são controlados por sistemas em conformidade com as directivas da Comissão Europeia.

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