Comprar a morte
A crise já chegou à mais velha profissão do mundo. Para sobreviver na selva da concorrência as prostitutas correm cada vez mais riscos. Retratos de gente que caminha pelo corredor da humilhação.
É meia-noite. Marlene olha pela janela que se debruça sobre a cidade de Leiria. Os seus olhos, escuros, colidem com a cor do mar que deixou do outro lado do Atlântico. “Sabes, és o primeiro homem que entra e sai deste quarto sem pagar!”, desabafa a páginas tantas. Marlene deixou o Brasil há quatro anos, para se entregar ao negócio da prostituição em Portugal. Sabia ao que vinha, mas mesmo assim foi surpreendida pela realidade. “Há muitas meninas e poucos homens. Há dois ou três anos cheguei a fazer 30 homens e a ganhar 1200 euros por dia. Agora, faço uns cinco”, lamenta. Pois é, a crise também chegou à prostituição.
A história de Marlene, 30 anos, solteira, é tirada a papel químico da maioria das mulheres que se dedicam à prostituição em apartamentos. São as chamadas ‘meninas dos convívios’. A culpa pela má fase que atravessam, dizem em coro, é da crise. É que as leis do mercado são implacáveis – com a queda da procura a oferta cresceu a um ritmo alucinante. Resultado: os preços baixaram em flecha. Mas o pior de tudo nem os clientes, nem mesmo as próprias meninas, parecem querer ver. Ou seja, que os riscos também vêem atrelados à concorrência.
As prostitutas são o elo mais fraco deste negócio que envolve a mais velha profissão do mundo. Estão, por isso, mais vulneráveis a propostas indecentes. E perigosas. Na primeira linha está o sexo desprotegido, propício à disseminação de Doenças Sexualmente Transmissíveis (DST), como é a sida. “Há meninas que baixam muito os preços só para poderem ter clientes. E quanto mais baixos forem os preços, piores são os homens que têm de atender. São mais porcos, brutos e só pensam em sexo sem camisinha”, generaliza Catarina, uma outra brasileira, instalada em Viseu.
Longe vão os tempos em que Catarina sonhou ser actriz. Como Caterine Deneuve, a diva francesa. O destino trocou-lhe as voltas e viu-se obrigada a abandonar a sua terra natal e os dois filhos ainda pequenos que deixou entregues à irmã. E deixou também a promessa de um dia voltar, pagar as dívidas, montar um pequeno negócio e passar uma esponja sobre o passado.
BRASILEIRAS EM PESO
Catarina é uma das 21 prostitutas/os com quem a Magazine Domingo falou no último mês. Apesar de dizerem que preferem jogar pelo seguro, a verdade é que todas cometem um erro de palmatória. Um erro que pode ser fatal: “Só faço sexo oral e masturbação sem preservativo. Em seis anos, nunca aceitei fazer outra coisa sem camisinha”, diz a brasileira, ao mesmo tempo que aponta para uma caixa sobre a mesa-de-cabeceira. O quarto é frio. O cheiro característico - uma mistura de desinfectantes hospitalares com perfumes de loja dos 300.
Catarina tem 35 anos, é divorciada, e jura que quer voltar ao Brasil e ter uma vida normal. Como ela, cerca de um terço das mulheres entrevistadas para esta reportagem afirmaram praticar sexo oral e masturbação sem preservativo. Mais: segundo elas, 15% dos homens têm relações sexuais de todos os tipos com colegas sem estarem protegidos. Os dados não são científicos, mas coincidem, nas tendências, com os estudos feitos nos últimos anos nesta área por associações, universidades e estudiosos.
O universo de pessoas contactadas pela Magazine Domingo pratica a prostituição na região Centro. Mas já desenvolveram a actividade em todo o País e até no estrangeiro, como em Espanha, França e Itália. A maioria são brasileiras. Não é de estranhar: Há um ano, o Alto Comissariado para a Imigração e Minorias Étnicas da ONU confirmava que Portugal é um dos principais destinos (o 5.º) das rotas de tráfico de prostituição de crianças, adolescentes e mulheres com origem no Brasil.
Muitos dos conflitos entre as prostitutas e clientes resultam, precisamente, do facto de eles não quererem usar preservativo e mesmo de os tentarem retirar durante as relações sexuais. Algumas das mulheres aceitam praticar sexo desprotegido por apenas mais 15 euros. Um preço demasiado baixo. Um contrato a prazo com a morte.
E se no sexo anal e vaginal a resistência das prostitutas à não utilização de preservativo é muito significativa, o mesmo não acontece no sexo oral. Porquê? Pensa-se que este não é um veículo de transmissão da sida. Nada mais errado. Um estudo da Universidade do Texas, revelado em Dezembro de 2004, prova que a transmissão do vírus pode acontecer.
A Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, num estudo sobre a prostituição “abrigada” (em vivendas ou apartamentos), parcialmente divulgado em finais do ano passado, conclui que os clientes manifestam uma “clara predisposição” para os comportamentos sexuais de risco e muitos solicitam a não utilização de preservativo. E, pese embora 90% das mulheres tenha afirmado que, em regra, faz sexo protegido e recusa o contrário mesmo a troco de mais dinheiro, a verdade é que fica de fora um perigoso universo de 10% das prostitutas.
NÚMEROS ASSASSINOS
Mais alarmantes são os dados recolhidos pela Fundação Bom Sucesso e revelados há um ano. Mostram que 40% dos homens recorre com regularidade a sexo pago e, destes, 60% confessaram que não tinham usado preservativo na última vez que recorreram à prostituição. Neste caso, incluem-se as “meninas de rua”, mais dependentes e vulneráveis, que arriscam muito na prática de sexo inseguro.
A frieza dos números, mesmo diferentes consoante os estudos e o universo analisado, mostra claramente os comportamentos de risco relativamente às DST no mundo das “meninas dos convívios”.
Números assassinos também cimentados nos depoimentos das mulheres que aceitaram falar à Magazine Domingo.”Já houve um que me quis dar o dobro ou triplo para fazer sexo sem preservativo, mas não aceitei”, conta a brasileira Marília. “Os homens querem é mulheres que cobrem barato e façam todas as suas vontades. A maioria quer fazer sexo sem camisa e como a oferta é muita, as meninas arriscam”, acrescenta esta paulista divorciada de 45 anos. Em Portugal, o número de casos de sida notificados é de 20 mil, mas estima-se que a realidade duplique aquele número.
O problema, queixam-se, é mesmo a concorrência desleal. “Elas próprias baixam os preços, tentando fazer mais clientes e fazem com que eles exijam mais, como sexo ao natural, e paguem menos. Como há muitas mulheres, os homens abusam mais delas. Não têm amor à vida, pois informação há muita. É só ver os jornais e a televisão”, afiança Marlene, agora de olhos postos no relógio que habitualmente contabiliza a meia hora de duração de cada serviço.
No seu quarto suburbano, frio, envolto num cheiro de difícil descrição, Marlene, contraditória, volta a desligar uma chamada no telemóvel. “Sabe, isto não é uma vida fácil. Hoje fiz cinco homens e não quero mais. Uma mulher, mesmo prostituta, não aguenta muito tempo tanta humilhação”, conclui com a angústia estampada nos olhos.
O QUE PROCURAM OS HOMENS
A insatisfação sexual é a razão que leva a maioria dos homens a procurar prostitutas. “Vêm atrás de novidades, mulheres jovens, sexo diferente, porque a relação em casa não anda bem”, explica Marília, uma brasileira de 31 anos.
Na verdade, a rotina do casamento, o conservadorismo das esposas quanto a ‘novas’ práticas sexuais e o comodismo tendem a arrefecer as relações no seio dos casais. Além disso, uma boa parte das mulheres continua a entender que há actos que só as prostitutas podem e sabem fazer, que julgam ser entendidos como uma vergonha aos olhos da sociedade.
Estatisticamente, os dados recolhidos pela Magazine Domingo permitem concluir que 65% dos homens que recorrem ao sexo pago são casados, um terço (35%) são clientes habituais das “meninas dos convívios”, frequentam as suas casas mais de uma vez por mês, e têm os 45 anos como idade média.
Estes clientes podem pagar de 25 a 300 euros por uma experiência sexual, preferindo 45% a prática de sexo anal com mulheres e 10% com acessórios.
Na generalidade, a tendência é para que sejam das classes média e alta, mas o seu universo é transversal a todas as profissões e origens sociais, como explicaram algumas das prostitutas. E mesmo as explicações para o recurso à prostituição são as mais diversas, sendo que Paula, de 28 anos, natural de Leiria, encontra uma das explicações mais simplistas: “Porque são homens. Um dia, um amigo disse-me que leu que a única diferença entre o sexo pago e outro é que o primeiro sai mais barato”.
PROSTITUIÇÃO NO MASCULINO
Os problemas das mulheres e dos homens que se dedicam à prostituição são muito semelhantes. Os objectivos e razões da escolha desta actividade também. Paulo, 23 anos, veio do Brasil “pelo dinheiro”, para “ajudar a família a conseguir um apartamento”. É solteiro, travesti masculino, e quer deixar a actividade que já exerceu em Lisboa, Porto e Espanha, quando conseguir pagar uma casa para si e outra para a sua mãe. Paulo ganha de 2 a 3 mil euros por mês e gosta do que faz.
Mário, de 28 anos, divorciado, tem um filho de 11 anos e escolheu a prostituição pelo “dinheiro fácil”. Natural de Leiria, trabalha há oito anos e critica os “muitos que fazem sexo sem preservativo, levando por uma relação completa 20 ou 30 euros”. Outro português, Rui, de 19 anos, nascido no Porto, tem uma experiência semelhante à de Mário, mas salienta o facto de os homens procurarem cada vez mais “anal e sem preservativo”, gerando o sexo desprotegido grandes conflitos com os clientes.
Aos 19 anos, Nádia é um transexual feminino, solteiro, que já trabalhou em algumas das principais cidades europeias e chega a facturar 4 mil euros por mês. Começou “por falta de dinheiro”, pela mão de uma amiga, porque a família o “colocou fora de casa”, e quer regressar ao Brasil “quando tiver o dinheiro suficiente para não precisar de trabalhar mais”.
A maioria das prostitutas que aceitaram partilhar a sua experiência de vida à Magazine Domingo explica a entrada na “mais velha profissão do mundo” com necessidades económicas para concretizar objectivos comuns: comprar casa ou carro, pagar os estudos dos filhos, montar um pequeno negócio ou ter uma vida desafogada no futuro. Mas Amanda, natural de Cruzeiro do Sul, 26 anos, solteira, tem uma explicação desconcertante: “Ao ver que já não podia estudar e que cada vez que conhecia alguém, essa pessoa me levava para a cama e logo desaparecia, resolvi cobrar por isso”.
Amanda é prostituta há oito anos e está agora instalada em Viseu. Mesmo com o decréscimo da procura e aumento da oferta, confessa que “faz de 120 a 150 homens por mês”. Ou seja, ganha 4500 euros, cobrando 20 euros por cada relação oral ou vaginal e 50 por sexo anal.
É aqui que está a explicação para o aumento exponencial da prostituição em Portugal, mais de cem por cento nos últimos cinco anos. Em média – segundo o inquérito da Magazine Domingo – cada prostituta tem 110 relações sexuais por mês e ganha 2300 euros, dinheiro livre de impostos difícil de conseguir na generalidade das profissões e muito menos no Brasil.
É também por isso que Bia, 40 anos, divorciada, a trabalhar em Leiria, nunca esquece os seus objectivos: “Não saí do Brasil para lavar o chão a português nenhum. Preciso de dinheiro e a prostituição é um meio fácil e rápido”.
Em Portugal estima-se que existam 30 mil prostitutas – tantas como em Madrid –, um terço das quais a trabalhar em casas particulares, e que o negócio renda anualmente 2,5 mil milhões de euros, que se traduziriam em 684 mil milhões de euros de impostos e 37 milhões de euros de contribuições anuais para a Segurança Social, se fosse legalizado. Seria uma mina de ouro para os desfalcados cofres do Estado.
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