Crise do República

O Partido Comunista tomou de assalto o jornal, próximo do PS - e calou-o para sempre.

15 de maio de 2005 às 00:00
Crise do República Foto: d.r.
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O conflito já se adivinhava desde 2 de Maio de 1975 com a eleição da Comissão Coordenadora dos Trabalhadores (CCT). Foi ao rubro em 19 de Maio, quando a CCT ocupou as instalações do jornal com o argumento de que o jornal estava ao serviço do Partido Socialista e contra a revolução. Aqui fica o relato, passo a passo, da crise que abalou o ‘República’ e levou à queda do IV Governo Provisório.

19 DE MAIO

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11h30 - A CCT anuncia em comunicado que suspende a administração, a direcção e a chefia de redacção do jornal. Nomeia Álvaro Belo Marques, até aí funcionário dos serviços administrativos, director-interino. Jornalistas e demais trabalhadores do ‘República’ mantêm-se nas instalações do jornal - e estão divididos: de um lado, a larga maioria da redacção, que se bate pela legítima direcção do jornal; do outro, os gráficos e os administrativos, que apoiam sem hesitações a Comissão coordenadora, afecta ao Partido Comunista.

18h00 - Manifestantes do Partido Socialista, que se reclamam da ‘Comissão de Leitores do República’, concentram-se frente à sede do jornal, no Largo da Misericórdia, em Lisboa.

19h30 - Forças do COPCON, uma estrutura militar comandada por Otelo Saraiva de Carvalho, contêm a manifestação e ocupam o jornal.

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20h00 - O jornalista Álvaro Guerra surge à varanda do gabinete do director do jornal, Raul Rego, e fala aos manifestantes: “Qualquer que seja a solução para este caso, ela terá de ser aprovada por vocês todos, os leitores do ‘República’”.

20h30 - Mário Soares, Sottomayor Cardia e Manuel Alegre juntam-se à manifestação. Mário Soares, accionista do jornal, pretende entrar na redacção, mas os militares barram-lhe a passagem.

21h00 - Chegam reforços militares ao largo da Misericórdia. Os manifestantes não desmobilizam e cantam o Hino Nacional.

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21h30 - Mário Soares fala aos manifestantes: “Este jornal é uma voz independente que terá de continuar como sempre foi. Estamos aqui a defender a liberdade de expressão, pois não toleramos que uma minoria cale aquela que é das poucas vozes livres em Portugal”. Soares tenta de novo entrar no jornal. Em vão. Militares e piquetes da Comissão Coordenadora dos Trabalhadores não o deixam entrar. O líder do PS tenta demovê-los: “Vocês estão a fazer o jogo da reacção”. Os manifestantes apluadem - e gritam palavras de ordem: “Socialismo, sim! Ditadura, não!”.

23h15 - Militares disparam tiros de G-3 para o ar.

23h30 - O comandante da força militar local, major Lobato Faria, surge numa das janelas doe difício. Quer falar aos manifestantes – que o vaiam ruidosamente. O oficial retira-se.

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00h00 - Todos os trabalhadores do ‘República’, apesar de divididos, permanecem nas instalações do jornal.

20 DE MAIO

01h00 - O major Lobato Faria tenta arbitrar uma tentativa de diálogo entre as duas partes em conflito: de um lado, representantes da Comissão Coordenadora dos Trabalhadores; do outro, Gustavo Soromeho (em representação da administração do jornal) e João Gomes, chefe de redacção. O encontro dura escassos minutos. Não há a mais pequena possibilidade de acordo.

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01h30 - Vítor Direito, subchefe de redacção do ‘República’, vem a uma janela e informa os manifestantes que o ministro da Comunicação Social, Correia Jesuíno, abandonara a Assembleia do MFA, e estava a caminho do jornal. O anúncio de Vítor de Direito é acolhido com mais palavras de ordem: “O República é do povo, não é de Moscovo!”.

02h00 - Mário Soares e outros dirigentes do PS comem pregos na cervejaria Trindade, ali a dois passos. Chegam às instalações do jornal o ministro da Comunicação Social, Correia Jesuíno, e o director-geral da Informação, Rui Montez.

02h30 - Correia Jesuíno e Rui Montez reúnem-se com as duas partes em conflito. O encontro terminou pelas cinco da manhã, sem acordo.

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05h00 - Os manifestantes recebem com desagrado a notícia que a tropa irá permanecer no jornal até que o Ministério do Trabalho proceda à selagem das instalações – e gritam: “Fechar o jornal é fazer o jogo de Cunhal!”.

10h00 - O Ministério da Comunicação divulga um extenso comunicado sobre o caso ‘República’. As passagens fundamentais: “(...) O jornal veio a ser publicado [em 19 de Maio] sob a direcção interina de Álavaro Belo Marques, o que não foi reconhecido legítimo nem legal pela administração. Solicitada a intervenção do Ministério da Comunicação Social pelo director do ‘República’, dr. Raul Rego, e verificando-se um agravamento da situação pelo facto de numeroso grupo ameaçar a invasão das instalações daquele periódico e perturbando a ordem pública, foi solicitado ao COPCON que interviesse por forma a evitar confrontos (...) Aguarda-se que o problema seja oficialmente apresentado a fim, tal se verique delito, de serem apuradas responsabilidades e julgado o processo em tribunal (...).

No dia seguinte, 21 de Maio, Mário Soares cancelou a viagem a Paris e convocou, para 22, uma manifestação no Rossio, em Lisboa. O Conselho da Revolução reúne-se de manhã. Em comunicado, divulgado à hora do almoço, condena mais o PS do que o PCP. “Não se pode deixar de estranhar a atitude assumida pelas forças partidárias, convocando manifestações de protesto e de desagrado quando o problema se acha em curso de solução legal.”

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O ‘república’ morreu para sempre. A partir daqui, a lura entre PS e PCP subiu de tom: os três ministros abandonaram funções e o Governo caiu.

PARTIDO COMUNISTA REAGE

O PCP apenas reagiu ao encerramento do jornal ‘República em 22 de maio. Fê-lo atravês de um comunicado, que se reproduz em parte:

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“(...) O PCP foi surpreendido pela decisão dos dirigentes do PS de deixarem de participar no Conselho de Ministros enquanto não forem aceites determinadas condições. Esta decisão aparece inserida numa vasta e histérica acção do PS contra a política e as medidas progressistas do Conselho da Revolução e do Governo provisório, contra o processo democrático, contra as forças revolucionárias, contra o MFA (...) O PS toma como pretexto o conflito dos trabalhadores com a direcção do ‘República’ (...) O PS põe assim em causa o sistema de poder existente (...) A campanha do PS está fomentando no estrangeiro a campanha caluniosa contra a jovem democracia portuguiesa e alimentando a reacção internacional e os círculos mais agressivos do imperialismo (...) O PCP apela para a unidade da classe operária, das massas populares para o reforço da aliança do movimento popular com o MFA na defesa da liberdade e da revolução portuguesa.”

Esteve para seguir a carreira eclesiástica. Formou-se em Teologia no Seminário do espírito santo e ainda recebeu ordens menores, mas acabou por se tornar jornalista: primeiro, no ‘Jornal do Comércio’; depois no ‘República’, como redactor e director.

Republicano até à medula e Grão-Mestre da Maçonaria, após a ocupação do jornal, Raul Rego passou a assumir-se mais como político, sempre no PS, ao lado de Mário Soares. Foi eleito deputado à Assembleia da República em várias legislaturas. Faleceu em 2001.

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