De Lisboa à América foi parar a 'Casablanca'
Madeleine Lebeau fugiu dos nazis com ajuda de Aristides de Sousa Mendes. Era a última sobrevivente do clássico de 1942.
Vários atores e atrizes emocionaram-se ao rodar a cena de ‘Casablanca’ em que uma canção alemã, entoada por oficiais nazis, é afogada por ‘La Marseillese’, tocada pela orquestra e cantada por clientes e funcionários do Rick’s Cafe Americain onde Humphrey Bogart não queria ouvir ‘As Time Goes By’. Mas para a história do cinema ficaram os olhos marejados de lágrimas de Yvonne (Madeleine Lebeau), a quem o realizador Michael Curtiz concedeu dois grandes planos e o grito ‘Vive la France! Vive la democracie! [Viva a França! Viva a democracia!]’ no final do hino francês.
As lágrimas de Madeleine Lebeau, acabada de fazer 19 anos, deviam-se ao facto de sentir a cena como poucos daqueles que estiveram nesse dia num estúdio da Warner Brothers. Antes de chegar a Hollywood, a derradeira sobrevivente do elenco de ‘Casablanca’ – cuja morte, aos 92 anos, ocorreu a 1 de maio, mas só foi anunciada no domingo passado – vivera momentos de desespero antes e depois de se refugiar em Portugal, quando os exércitos nazis derrotaram a França.
Fugir foi a única opção para quem adquirira o apelido Blauschild ao casar, aos 16 anos, com Marcel Dalio, ator dos filmes ‘A Grande Ilusão’ e ‘A Regra do Jogo’, realizados por Jean Renoir. Quase 23 anos mais velho do que a adolescente loura e alta, o filho de judeus romenos era na documentação Israel Moshe Blauschild. Sem vontade de descobrir se o pior cenário se confirmaria com a chegada dos invasores, entrou com a mulher num automóvel Delahaye e só parou perto de Espanha.
VISTO DE ARISTIDES
Terá sido em Bayonne que Marcel Dalio e Madeleine Lebeau tiveram o encontro que foi o primeiro passo da longa estrada até Hollywood. Desobedecendo a ordens diretas de Salazar, o cônsul de Portugal em Bordéus, Aristides de Sousa Mendes, emitiu vistos para muitos milhares de refugiados que fugiam da morte. Entre eles, como foi revelado em ‘Um Homem Bom’, biografia do cônsul escrita por Rui Afonso, estiveram o senhor e senhora Blauschild.
Chegados de comboio a um dos escassos países europeus sem ruído de bombas, Madeleine Lebeau e Marcel Dalio não ficaram na capital, rumando à Figueira da Foz, uma das estâncias balneares que então acolheram muitos estrangeiros. Além do dinheiro que o casal conseguira trazer de França, onde ficou o luxuoso Delahaye, ‘presente’ para um funcionário zeloso olhar noutra direção, valeram-se das joias que o ator oferecera à mulher nos primeiros meses do casamento.
O argumentista e realizador Carlos Saboga, que estreou no ano passado ‘A Uma Hora Incerta’, filme em que dois franceses são escondidos por um agente da polícia política, só soube mais tarde que Dalio rumou à sua terra natal ao saber que a Figueira da Foz tinha um casino – por ironia do destino, o fanático de jogos de azar viria a interpretar o ‘croupier’ Emil de ‘Casablanca’ – onde passava o tempo antes de encontrar forma de chegar à América. "Uma das recordações da minha infância foi a chegada dos refugiados. Eram os primeiros estrangeiros que via em grande quantidade. E como vivia na Figueira da Foz, que era uma estância balnear, chegavam em grande número", recordou à ‘Domingo’ o cineasta português, de 79 anos.
Foi em Lisboa que o casal de atores encontrou o que parecia a solução para todos os seus problemas, obtendo vistos de entrada no Chile das mãos de um funcionário que não era especialmente eficaz no ofício da falsificação de documentos. Já nessa altura tinham descoberto, em conversa com o jornalista Pierre Lazareff, futuro fundador do jornal ‘France Soir’ e da revista feminina ‘Elle’, que os invasores alemães tinham aproveitado imagens de um dos filmes de Marcel Dalio para fazerem cartazes em que explicavam aos franceses como era o "judeu típico".
ODISSEIA DO 'QUANZA'
A 8 de agosto de 1940, Madeleine e o marido estavam entre os 317 passageiros que embarcaram no ‘Quanza’, navio da Companhia Nacional de Navegação que costumava ligar Lisboa a Angola e Moçambique, fretado de propósito para a sua primeira viagem à América do Norte. Tão incerta era a odisseia, apesar de a bandeira e os nomes de Portugal e Lisboa visíveis no casco devessem afastar os submarinos alemães, que em muitos casos foi exigido o pagamento do bilhete de volta à Europa.
Onze dias a comer "sardinhas, sardinhas e sardinhas" e a esconder objetos de valor onde quer que fosse possível bastaram para chegar a Nova Iorque, mas não para que todos pisassem terra firme. Só 196 passageiros foram autorizados a entrar nos EUA, ao contrário da quase totalidade dos judeus. Para os atores franceses restou seguir para Veracruz, no México, onde os vistos chilenos talvez merecessem melhor atenção.
No navio, por entre o desespero de quem temia voltar ao outro lado do Atlântico, sobressaía Madeleine. A beleza da jovem, notoriamente mais nova do que o marido, animava os passageiros. Um deles, Irving Redel, que tinha então 17 anos, contou muitos anos mais tarde as memórias à filha, Victoria Redel, que se baseou no relato para escrever o romance ‘The Border of Truth’ (‘A Fronteira da Verdade’), que ainda não teve edição portuguesa.
Contactada pela ‘Domingo’, Victoria Redel, cujo pai fez 93 anos na semana passada, admitiu que a atriz nunca soube que foi transformada em personagem, e ainda menos que lhe foi atribuído "uma espécie de passado alternativo". "Sei que chamou a atenção do meu pai e dos seus amigos. É natural que rapazes daquela idade, presos no navio, a seguissem pelo convés", realça a escritora nova-iorquina.
Os avós e o pai de Redel, que se recorda de Lisboa como "uma cidade maravilhosa, vibrante e cheia de gente", puderam ficar no México, tal como Lebeau e Dalio, que receberam documentos canadianos. Aos restantes valeu a batalha jurídica travada logo que o navio português chegou, a 11 de setembro de 1940, ao porto de Norfolk, na Virgínia, para recolher o carvão necessário para a travessia do Atlântico. O ‘Quanza’ foi retido o tempo suficiente para que a primeira-dama Eleanor Roosevelt convencesse o presidente dos EUA a iniciar uma investigação que culminou com a concessão do estatuto de refugiados aos passageiros que o desejassem. Seriam dos últimos a entrar dessa forma nos EUA, neutrais até ao fim do ano seguinte, após o ataque japonês a Pearl Harbor.
SALÁRIO DE 100 DÓLARES
Por essa altura já o casal de atores tinha chegado a Hollywood, sem dinheiro nos bolsos, mas com a ajuda de compatriotas. Instalaram-se na casa ao lado de Humphrey Bogart – endereço em que a atriz Sharon Tate seria assassinada em 1969 – e começaram a fazer filmes. Para Madeleine Lebeau, que só tivera uma pequena participação num filme em França, o futuro parecia mais promissor, embora ganhasse menos. Em 1942, quando foram escolhidos para um filme da Warner acerca de um americano cínico dono de um bar em Casablanca, levavam para casa 600 dólares por semana como atores sob contrato do estúdio, mas 500 eram para Dalio e 100 para Madeleine.
Certo é que Jack Warner deu por mal empregue o dinheiro pago a Dalio, e as cenas do ‘croupier’ Emil foram despachadas, enquanto à jovem coube Yvonne, a amante desprezada pelo Rick interpretado por Humphrey Bogart. E o estatuto de segunda mulher do elenco, embora a presença de Ingrid "Teremos sempre Paris" Bergman a tenha convertido em primeira das últimas. Muito mais tarde, já casada com o último marido, o argumentista italiano Tullio Pinelli, Lebeau desabafou com Charlotte Chandler, biógrafa da atriz sueca: "Não é que me tenham apagado, mas de cada vez que mexiam no guião eu tinha menos papel. Nada pessoal, mas fiquei desapontada."
Antes do final da rodagem de ‘Casablanca’ também terminara o casamento. Madeleine e Marcel assinaram o divórcio em 1943, e se ele não voltou a casar, a atriz fê-lo duas vezes, após ter regressado a França, onde tinha uma cláusula nos contratos que a dispensava de promover filmes na Alemanha. Entre outros, entrou no ‘Napoleão’, de Sacha Guitry, no ‘8 1/2’, de Federico Fellini, e até no western spaghetti ‘Duelo no Rio Bravo’, até abandonar a representação, em 1970, mas foi a ‘Casablanca’ que ficou associada para sempre.
A força das cenas que lhe restaram, e o estatuto de última sobrevivente do elenco do filme de 1942, levaram a que fosse recordada por cinéfilos de todo o Mundo embora a sua morte só tenha sido noticiada duas semanas após o óbito, em Estepona, cidade do Sul de Espanha onde vivia num sótão com vista para o mar. "A fama, os flashes e maquilhagem ficavam na rua e nos estúdios", justificou a sua filha, Maria Duhour Gil, numa declaração aos amigos, através das redes sociais, 15 dias após a mãe sucumbir a complicações decorrentes de uma fratura da anca.
HOMENS DA SUA VIDA LIGADOS AO CINEMA
Marcel Dalio
O primeiro marido era quase 23 anos mais velho e um ator francês conceituado. Divorciaram-se em 1943, logo após ‘Casablanca’.
Clément Duhour
O ator e realizador, ex-atleta olímpico francês, foi o pai da sua filha, Maria Duhour Gil. Entraram juntos em dois filmes.
Tullio Pinelli
Guionista de ‘8 1/2’, filme de Federico Fellini com Lebeau, foi o seu último marido, de 1988 até morrer, em 2009, já com 100 anos.
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